{"id":42326,"date":"2009-12-09T10:50:13","date_gmt":"2009-12-09T10:50:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/09\/natal-entre-residuos\/"},"modified":"2009-12-09T10:50:13","modified_gmt":"2009-12-09T10:50:13","slug":"natal-entre-residuos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/natal-entre-residuos\/","title":{"rendered":"Natal entre res\u00edduos"},"content":{"rendered":"<p>Como &eacute; sabido, a celebra&ccedil;&atilde;o do Natal, precisamente na data que lhe conhecemos, resulta da cristianiza&ccedil;&atilde;o de uma festa pag&atilde;, o dia do nascimento do sol ou do solst&iacute;cio de Inverno. O significado dessa cristianiza&ccedil;&atilde;o est&aacute; ligado, entre outros aspectos, ao facto de que o cristianismo implica, em geral, a supera&ccedil;&atilde;o do paganismo, mesmo que possa manter muitos dos seus h&aacute;bitos exteriores e rituais. E essa supera&ccedil;&atilde;o significa a supera&ccedil;&atilde;o da diviniza&ccedil;&atilde;o de realidades imanentes ao nosso mundo, sejam elas realidades naturais e c&oacute;smicas (como era o caso do sol), sejam realidades humanas ou produtos dos humanos.<\/p>\n<p>Ora, por mais estranho que pare&ccedil;a, a nossa &eacute;poca estar&aacute; a inverter o processo: da despaganiza&ccedil;&atilde;o do natal, pela sua cristianiza&ccedil;&atilde;o, assiste-se agora a uma esp&eacute;cie de repaganiza&ccedil;&atilde;o, pela sua descristianiza&ccedil;&atilde;o. De facto, as for&ccedil;as divinizadas em torno do natal j&aacute; pouco t&ecirc;m a ver com o Deus de Jesus Cristo, o Verbo feito carne, sendo essencialmente for&ccedil;as ligadas ao sistema de consumo.<\/p>\n<p>Mas, assim como a cristianiza&ccedil;&atilde;o do rito pag&atilde;o manteve certas pr&aacute;ticas, dando-lhes significado crist&atilde;o, tamb&eacute;m agora a repaganiza&ccedil;&atilde;o mant&eacute;m vest&iacute;gios do cristianismo, embora nem sempre mantenha a sua dimens&atilde;o explicitamente crist&atilde;. Vivemos, portanto, um Natal entre res&iacute;duos &ndash; res&iacute;duos de cristianismo, que nem sempre se encontram facilmente; res&iacute;duos de paganismo que, estando encobertos, s&atilde;o cada vez mais fortes; e res&iacute;duos do pr&oacute;prio consumo, pois esse &eacute; o modo do seu funcionamento: a produ&ccedil;&atilde;o permanente de res&iacute;duos&#8230;<\/p>\n<p>Os vest&iacute;gios de cristianismo no Natal actual encontram-se, de modo expl&iacute;cito, ainda em algumas das suas manifesta&ccedil;&otilde;es: missas de Natal para quem nunca vai &agrave; missa ao longo do ano; can&ccedil;&otilde;es de Natal, com textos ainda crist&atilde;os; pres&eacute;pios com a fam&iacute;lia de Nazar&eacute;, etc. Mas, temos que admiti-lo, muitas dessas manifesta&ccedil;&otilde;es exteriores est&atilde;o j&aacute; tomadas pelo sistema consumista, que predomina. Assim, consomem-se as missas, as can&ccedil;&otilde;es (que s&atilde;o m&uacute;sica de fundo nas actuais catedrais do consumo), as ornamenta&ccedil;&otilde;es, etc. Torna-se dif&iacute;cil, em muitos casos, verificar se essas ac&ccedil;&otilde;es natal&iacute;cias s&atilde;o ainda crist&atilde;s ou j&aacute; verdadeiramente pag&atilde;s &ndash; embora com forma aparentemente crist&atilde;.<\/p>\n<p>Pessoalmente, parece-me que os res&iacute;duos do cristianismo poder&atilde;o encontrar-se em manifesta&ccedil;&otilde;es natal&iacute;cias menos explicitamente crist&atilde;s: o sentimento de solidariedade universal, que nos torna irm&atilde;os numa mesma humanidade &ndash; fraternidade de cuja origem claramente crist&atilde; j&aacute; nos esquecemos, por vezes; sentido da gratuidade das nossas rela&ccedil;&otilde;es, representado nos presentes an&oacute;nimos &ndash; dados pelo Pai Natal ou pelo Menino Jesus, dizemos n&oacute;s; concentra&ccedil;&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o familiar, como res&iacute;duo de uma marca do cristianismo na cultura europeia, que parece ir desaparecendo dos nossos horizontes sociais e mesmo pol&iacute;ticos, etc. Desse modo impl&iacute;cito e nessas experi&ecirc;ncias humanas, o Natal &eacute; ainda crist&atilde;o, pois s&oacute; no contexto da no&ccedil;&atilde;o crist&atilde; de amor universal (ainda que s&oacute; implicitamente) &eacute; que esses sentimentos s&atilde;o compreens&iacute;veis e mesmo poss&iacute;veis. A disponibilidade gratuita para os outros, num ambiente marcado pela rentabilidade pura e dura, n&atilde;o deixa de ser um dos maiores &laquo;res&iacute;duos&raquo; do Natal crist&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; claro que todas essas campanhas natal&iacute;cias, incluindo a permuta an&oacute;nima dos presentes &ndash; que originariamente seriam sempre dom gratuito &ndash; s&atilde;o cada vez mais absorvidas por uma &laquo;divindade&raquo; superior, a divindade do consumo. E quando todas essas experi&ecirc;ncias de fraternidade se transformam em h&aacute;bitos de moda, em solidariedade medi&aacute;tica, manipulados para maior rendimento econ&oacute;mico, ent&atilde;o j&aacute; se afirmam no horizonte deuses pag&atilde;os, que eliminam a verdadeira humanidade dos humanos, escravizando-os &agrave;s suas exig&ecirc;ncias &ndash; todos, compradores e vendedores.<\/p>\n<p>E o deus pag&atilde;o do consumo &eacute;, por defini&ccedil;&atilde;o, um deus produtor de res&iacute;duos &ndash; restos dos produtos consumidos, como destro&ccedil;os de uma festa sem conte&uacute;do e sem futuro; restos dos pr&oacute;prios consumidores, que s&atilde;o triturados numa roda que j&aacute; n&atilde;o conseguem parar. Que sobra dos humanos, fi&eacute;is desse deus implac&aacute;vel? Sobra o lixo, como s&iacute;mbolo de um destino sem salva&ccedil;&atilde;o; sobra o lixo humano, como restos de quem &eacute; exclu&iacute;do dessa festa deslumbrante e alienante; sobra o lixo humano, como resto de quem nunca encontrar&aacute; sentido fora de um verdadeiro Natal.<\/p>\n<p>Encontrar o verdadeiro Natal, por entre res&iacute;duos de todos os estilos, &eacute;, actualmente, o grande desafio lan&ccedil;ado aos nossos contempor&acirc;neos: aos crist&atilde;os e aos n&atilde;o-crist&atilde;os. Porque o verdadeiro Natal, o de Jesus Cristo, &eacute; o Natal de uma nova humanidade, a humanidade dos humanos libertos de todos os deuses que, em permanente escraviza&ccedil;&atilde;o, apenas deixam para tr&aacute;s res&iacute;duos mortais. &Eacute; por isso que, s&eacute;culos volvidos, continuamos a ter absoluta necessidade do Natal, como sempre.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jo&atilde;o Duque, Faculdade de Teologia UCP-Braga<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como &eacute; sabido, a celebra&ccedil;&atilde;o do Natal, precisamente na data que lhe conhecemos, resulta da cristianiza&ccedil;&atilde;o de uma festa pag&atilde;, o dia do nascimento do sol ou do solst&iacute;cio de Inverno. O significado dessa cristianiza&ccedil;&atilde;o est&aacute; ligado, entre outros aspectos, ao facto de que o cristianismo implica, em geral, a supera&ccedil;&atilde;o do paganismo, mesmo que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[172,267,314,321],"class_list":["post-42326","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-braga","tag-natal","tag-solidariedade","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42326"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42326\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}