{"id":422557,"date":"2026-04-26T09:31:54","date_gmt":"2026-04-26T08:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=422557"},"modified":"2026-04-26T10:01:51","modified_gmt":"2026-04-26T09:01:51","slug":"entrevista-igreja-caminha-rapidamente-para-ser-uma-igreja-mais-africana-andre-azevedo-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-igreja-caminha-rapidamente-para-ser-uma-igreja-mais-africana-andre-azevedo-alves\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abIgreja caminha rapidamente para ser uma Igreja mais africana\u00bb &#8211; Andr\u00e9 Azevedo Alves"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Diretor Centro de Investiga\u00e7\u00e3o do Instituto de Estudos Pol\u00edticos da UCP analisa o alcance da viagem de Le\u00e3o XIV, a den\u00fancia \u00abconsistente e transversal\u00bb da guerra, da explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e dos migrantes, e as consequ\u00eancia no \u00abvoto cat\u00f3lico\u00bb das refer\u00eancias de Trump ao Papa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-422532 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Le\u00e3o XIV concluiu um p\u00e9riplo de 11 dias por quatro pa\u00edses africanos, Arg\u00e9lia, Camar\u00f5es, Angola e Guin\u00e9 Equatorial, com um forte tom de den\u00fancia contra a l\u00f3gica extrativista e uma cadeia de interesses que reduz a vida \u00e0 mercadoria. Como \u00e9 que avalia o peso destas palavras num continente historicamente fustigado pela explora\u00e7\u00e3o, pela explora\u00e7\u00e3o dos seus recursos, por pot\u00eancias estrangeiras e tamb\u00e9m por elites sociais?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acho que h\u00e1, de facto, essas duas dimens\u00f5es. H\u00e1 uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o e de um conjunto de quest\u00f5es associadas ao per\u00edodo colonial e depois h\u00e1 uma segunda dimens\u00e3o que pod\u00edamos designar de explora\u00e7\u00e3o por parte de elites internas, muitas vezes corruptas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ali\u00e1s, um problema que foi muitas vezes central no discurso do Papa Francisco, e creio que o Papa Le\u00e3o procurou agora alertar simultaneamente para essas duas dimens\u00f5es. Alertando para a responsabilidade dos pa\u00edses ocidentais, com base nesse legado hist\u00f3rico, mas simultaneamente n\u00e3o desresponsabilizando, nomeadamente as elites locais, que como sabemos, infelizmente em muitos casos prolongaram e em alguns casos at\u00e9 agravaram esse legado de explora\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E durante esta viagem assistimos tamb\u00e9m a uma pol\u00e9mica internacional bem evidente, com o Presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Donald Trump, a atacar as declara\u00e7\u00f5es de Le\u00e3o XIV a favor do multilateralismo. Surpreendeu este choque direto?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que em rela\u00e7\u00e3o ao presidente Trump j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil ter surpresa quanto ao teor e at\u00e9 mais ao tom das declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como \u00e9 habitual, o Papa n\u00e3o reagiu diretamente \u00e0s declara\u00e7\u00f5es e procurou sempre evitar entrar em di\u00e1logo direto, ali\u00e1s procurou depois at\u00e9 alguns dias mais tarde encerrar de alguma forma o assunto, dizendo que n\u00e3o tinha qualquer interesse em debater com o Presidente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E acha que conseguiu?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acho que conseguiu marcar a sua posi\u00e7\u00e3o. Acho que ningu\u00e9m consegue direcionar o discurso do presidente Trump, mas acho que conseguiu deixar clara a sua posi\u00e7\u00e3o e demarcar-se daquilo que tamb\u00e9m n\u00e3o seria, a meu ver, desej\u00e1vel, que seria entrar numa esp\u00e9cie de ping-pong com um chefe de Estado, por muito poderoso que ele seja, e neste caso at\u00e9 com a particularidade de serem ambos cidad\u00e3os dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, acho que aqui o ponto de facto que me parece que foi mais marcante nas declara\u00e7\u00f5es de Trump e que de alguma forma o Papa achou que tinha mesmo que dar um sinal, foi quando num post nas redes sociais, o presidente Trump referiu a tal amea\u00e7a de aniquilar toda uma civiliza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Eu creio que a\u00ed o Papa Le\u00e3o, e bem, sentiu que deveria ir um pouco al\u00e9m do pelo geral \u00e0 paz, que \u00e9 importante e que \u00e9 caracter\u00edstico do discurso n\u00e3o s\u00f3 deste Papa, mas de Papas anteriores. Mas era importante deixar marcado de alguma forma que esse tipo de discurso, ainda mais por parte de algu\u00e9m que \u00e9 o l\u00edder da principal pot\u00eancia mundial e de uma na\u00e7\u00e3o que \u00e9 maioritariamente crist\u00e3, que era um discurso que n\u00e3o era de todo aceit\u00e1vel. Creio que ter\u00e1 sido essa declara\u00e7\u00e3o em espec\u00edfico mais do que a avalia\u00e7\u00e3o, que sabemos que \u00e9 sempre complexa e nesse tipo de avalia\u00e7\u00e3o, como \u00e9 \u00f3bvio, nenhum Papa est\u00e1 investido de infalibilidade na avalia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas que essa declara\u00e7\u00e3o em concreto era de tal forma grave que justificava uma tomada deposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica no sentido de que esse tipo de discurso e esse tipo de amea\u00e7a n\u00e3o era de todo admiss\u00edvel. Depois Donald Trump reagiu, como \u00e9 seu h\u00e1bito, pois n\u00e3o gosta de ser contrariado, e reagiu&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E a rea\u00e7\u00e3o de Trump \u00e9 mais contundente ainda pelo facto de serem ambos americanos? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que esse \u00e9 um fator, acho que pode ter sido um fator. E acho que Donald Trump se sente pressionado para as elei\u00e7\u00f5es intercalares que vai haver nos Estados Unidos em novembro, e onde tudo aponta &#8211; ainda que as coisas na pol\u00edtica mudem rapidamente &#8211; que poder\u00e1 haver uma penaliza\u00e7\u00e3o do Partido Republicano, em que n\u00e3o sendo elei\u00e7\u00f5es presidenciais ter\u00e3o implica\u00e7\u00f5es caso haja uma derrota pesada do Partido Republicano, nos \u00faltimos dois anos de mandato de Trump. Se tiver uma perda significativa poder\u00e1 ficar com uma margem de manobra pol\u00edtica muito mais reduzida na segunda metade do mandato do que tem na primeira metade do mandato com maiorias republicanas em ambas as c\u00e2maras. Portanto, h\u00e1 tamb\u00e9m aqui um sentimento de Trump, de que as coisas n\u00e3o lhe est\u00e3o a correr particularmente bem no Ir\u00e3o. Nestas declara\u00e7\u00f5es do Papa admito que Trump, no seu mundo mental, as tenha sentido at\u00e9 como uma esp\u00e9cie de dupla trai\u00e7\u00e3o. Na mente de Trump, um Papa americano n\u00e3o poderia ter aquele discurso. Acresce aqui um facto tamb\u00e9m importante: esta segunda elei\u00e7\u00e3o de Trump, depois da presid\u00eancia de Biden, \u00e9 uma elei\u00e7\u00e3o em que um dos principais fatores sociol\u00f3gicos que contribuiu para essa elei\u00e7\u00e3o foi o avan\u00e7o principalmente no voto cat\u00f3lico. Ou seja, Trump conseguiu, creio que muito por rejei\u00e7\u00e3o, neste caso da candidata democrata de Kamala Harris e da agenda percecionada como extremamente progressista dos democratas, Trump, com todas as suas limita\u00e7\u00f5es e inconsist\u00eancias, conseguiu personificar algu\u00e9m que &#8211; nomeadamente no voto cat\u00f3lico mais conservador, mesmo em voto cat\u00f3lico hisp\u00e2nico &#8211; conseguiu agregar mais do que outros candidatos republicanos anteriores. E, portanto, creio que aqui Trump tamb\u00e9m estar\u00e1 a percecionar que obviamente ter um Papa, e ainda por cima um Papa norte-americano, a ter esse tipo de declara\u00e7\u00f5es \u00e9 algo que refor\u00e7a essa tend\u00eancia negativa, ainda que, como \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9 objeto nem inten\u00e7\u00e3o do Papa Le\u00e3o estar a intervir diretamente em nenhum ato eleitoral, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro local.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E poder\u00e1 estar em causa essa perman\u00eancia de voto cat\u00f3lico em Trump? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s sabemos que, do ponto de vista do voto, as mudan\u00e7as s\u00e3o habitualmente lentas, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 nenhum fator que nos leve a esperar que haja uma transfer\u00eancia maci\u00e7a de voto na sequ\u00eancia de umas declara\u00e7\u00f5es, ou mesmo de algo como a guerra do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, sabemos que na margem h\u00e1 transfer\u00eancias. Basta que haja uma parte significativa desse voto cat\u00f3lico que se sinta menos mobilizado a ir votar, para que isso se repercuta em futuras elei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 preciso haver transfer\u00eancia de voto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E at\u00e9 pode ser natural que uma parte do eleitorado conservador &#8211; por via dessa intera\u00e7\u00e3o com o Papa &#8211; se sinta menos motivada a votar num presidente que se refere desta forma ao Papa. E sublinho, o eleitorado cat\u00f3lico conservador tender\u00e1 a ser ainda mais suscet\u00edvel \u00e0 forma como o Papa \u00e9 tratado, independentemente da posi\u00e7\u00e3o que possa ter no conflito do Ir\u00e3o. Eu acho que \u00e9 importante distinguir estes dois aspetos: a posi\u00e7\u00e3o que se pode ter sobre o conflito, e \u00e9 uma mat\u00e9ria complexa, \u00e9 uma mat\u00e9ria em que naturalmente o Papa, como em todos os conflitos, tem uma posi\u00e7\u00e3o a favor da paz, mas a an\u00e1lise de cada caso concreto \u00e9 complexa e daquilo que \u00e9 a pr\u00f3pria teoria da guerra justa estabelece que cabe aos governantes leg\u00edtimos avaliar com a seriedade e a gravidade necess\u00e1ria as condi\u00e7\u00f5es em cada momento; outra coisa \u00e9 a forma como Trump comunica, a forma como se referiu \u00e0 tal quest\u00e3o da aniquila\u00e7\u00e3o de toda uma civiliza\u00e7\u00e3o, e depois a forma como, basicamente, acho que n\u00e3o h\u00e1 outra forma de o descrever, insultou o Papa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esses aspetos, mesmo para quem, e haver\u00e1 muitos cat\u00f3licos nos Estados Unidos que apoiam o presidente Trump, nomeadamente na quest\u00e3o do Ir\u00e3o, mas que ainda assim, creio que dificilmente se poder\u00e3o reconhecer na forma como Trump interagiu. A\u00ed acho que Trump acabou por prestar um mau servi\u00e7o a si pr\u00f3prio e prestar, acima de tudo, um mau servi\u00e7o ao Partido Republicano, que de facto poder\u00e1, na margem, perder votos que depois podem ser importantes nas elei\u00e7\u00f5es intercalares. E a confirmar-se esse mau resultado do Partido Republicano em novembro, provavelmente uma parte desse mau resultado poder\u00e1 ser explicada, n\u00e3o pela interven\u00e7\u00e3o do Papa, mas pela forma como Trump comunicou e atacou, a meu ver, de uma forma inaceit\u00e1vel, o Papa Le\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Se n\u00f3s quisermos olhar esta troca de ideias entre o Papa Le\u00e3o XIV e o presidente Trump atrav\u00e9s dos m\u00e9dias, do ponto de vista estritamente filos\u00f3fico e pol\u00edtico, estaremos perante um choque profundo de matrizes ideol\u00f3gicas? Ou seja, o confronto entre o primado do indiv\u00edduo isolado e autossuficiente, muito presente numa certa vis\u00e3o pol\u00edtica norte-americana, e o conceito de pessoa em comunidade ao servi\u00e7o do bem comum, que \u00e9 a base da Doutrina Social da Igreja. \u00c9 isto que est\u00e1 em causa? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma leitura poss\u00edvel, mas parece-me que, neste caso, h\u00e1 talvez mais at\u00e9 um choque de personalidades. Acima de tudo, Donald Trump lida muito mal com qualquer tipo de contradi\u00e7\u00e3o. O vice-presidente J.D. Vance teve tamb\u00e9m declara\u00e7\u00f5es bastante infelizes, mas n\u00e3o chegou a insultar o Papa. Se Trump tivesse ficado, apesar de tudo, nesse registo, acho que o epis\u00f3dio teria tido contortos menos s\u00e9rios do que apesar de tudo teve. Ou, por exemplo, Marco Rubio, que tem sido at\u00e9 mais cauteloso. Rubio \u00e9 tamb\u00e9m cat\u00f3lico, como Vance, ainda que Vance seja uma convers\u00e3o bastante mais recente. Eu acho que h\u00e1 aqui fundamentalmente um choque de personalidades, at\u00e9 porque me parece, francamente, do ponto de vista doutrin\u00e1rio ou ideol\u00f3gico, eu tenho bastante dificuldade em identificar em Donald Trump uma linha consistente que n\u00e3o seja&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Um certo egocentrismo&#8230;.<br \/>\n<\/em>Um certo, para ser gentil, egocentrismo. Recordo, por exemplo, que Donald Trump, h\u00e1 n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, antes de ele pr\u00f3prio decidir enveredar pela carreira pol\u00edtica, por exemplo, era um generoso doador do Partido Democrata, foi algu\u00e9m que foi muito pr\u00f3ximo da fam\u00edlia Clinton, foi algu\u00e9m que j\u00e1 teve posi\u00e7\u00f5es bastante mais progressistas num conjunto de mat\u00e9rias sociais. Do ponto de vista ideol\u00f3gico ou doutrin\u00e1rio tenho alguma dificuldade em, agora, perante este conflito, dizer h\u00e1 aqui duas vis\u00f5es opostas. Vejo mais que h\u00e1 aqui duas personalidades opostas e, em particular, uma personalidade que \u00e9 Donald Trump, que tem muita dificuldade em lidar com a cr\u00edtica e com posi\u00e7\u00f5es divergentes com preju\u00edzo para os Estados Unidos, para o Partido Republicano e, de alguma forma, para o pr\u00f3prio mundo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Nos seus discursos, sobretudo na Guin\u00e9 Equatorial e nos Camar\u00f5es, o Papa alertou para os d\u00e9spotas e tiranos que subjugam o poder e tornam as popula\u00e7\u00f5es passivas e d\u00f3ceis \u00e0 in\u00e9rcia. Olhando para a realidade das pol\u00edticas p\u00fablicas e da governa\u00e7\u00e3o nestas regi\u00f5es, considera que a voz da Igreja Cat\u00f3lica pode mobilizar a sociedade civil contra o autoritarismo de regimes que se perpetuam no poder? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Considero que sim, ainda que essa postura deva ser muito cautelosa. H\u00e1 aqui uma tens\u00e3o permanente e que \u00e9 dif\u00edcil de resolver entre as autoridades que est\u00e3o efetivamente no poder e com as quais \u00e9 necessariamente preciso lidar num conjunto de \u00e1reas. Na governa\u00e7\u00e3o, na pr\u00f3pria presta\u00e7\u00e3o de ajuda \u00e0s comunidades, na pr\u00f3pria esfera da liberdade religiosa, que sabemos que em alguns contextos, e nomeadamente em alguns contextos africanos, est\u00e1 francamente amea\u00e7ada. E por outro lado, a desejabilidade de manter um discurso e de manter uma pr\u00e1tica que de facto denuncia o autoritarismo, denuncia a corrup\u00e7\u00e3o, denuncia a explora\u00e7\u00e3o, mas que deve evitar tomar partido em cada contexto pol\u00edtico concreto, por exemplo, por um partido, por uma fa\u00e7\u00e3o. Por exemplo estou a pensar, at\u00e9 em pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa, em contextos de elei\u00e7\u00f5es recentes, em que temos v\u00e1rios sinais que foram fraudulentas, a posi\u00e7\u00e3o delicada e cautelosa que as autoridades da Igreja tomam, porque simultaneamente, perante contextos pol\u00edticos incertos n\u00e3o querem fechar completamente portas de di\u00e1logo e de intera\u00e7\u00e3o com os poderes estabelecidos, ainda que muitas vezes, como sabemos esses poderes estabelecidos sejam ileg\u00edtimos,\u00a0 e muitas vezes pior ainda do que ileg\u00edtimos sejam poderes, como dizia tamb\u00e9m o Papa, que exploram e que oprimem. \u00c9 que apesar de tudo podemos ter poderes n\u00e3o democr\u00e1ticos, mas que n\u00e3o sejam t\u00e3o opressivos, como infelizmente em muitos casos s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que a Igreja \u00e9 importante ter essa voz, mas essa voz ao mesmo tempo deve evitar cair num ativismo de fa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes eu percebo que para os pr\u00f3prios atores locais e para os observadores externos pode ser inc\u00f3modo, ou seja, pode parecer que se est\u00e1 a fazer pouco. Porque \u00e9 que n\u00e3o se vai mais longe, porque \u00e9 que n\u00e3o se denuncia mais, porque \u00e9 que n\u00e3o se toma partido? Mas eu acho que este ju\u00edzo, que \u00e9 um ju\u00edzo prudencial, \u00e9 um ju\u00edzo sobre o qual em termos de pensamento cat\u00f3lico n\u00e3o podemos estabelecer uma f\u00f3rmula para cada caso, uma f\u00f3rmula universal que se v\u00e1 aplicar a cada caso. Vai sempre depender de um ju\u00edzo prudencial, at\u00e9 onde se deve ir em cada caso, mas \u00e9 um ju\u00edzo prudencial que a meu ver tem que ponderar aqui bens diferentes. Essa necessidade de estar claramente do lado da liberdade contra a opress\u00e3o dos direitos da pessoa tem que ser ponderada com a necessidade que infelizmente existe nas condi\u00e7\u00f5es concretas e interagir com as autoridades pol\u00edticas que est\u00e3o no poder. E, portanto, eu creio que \u00e9 uma tens\u00e3o que nunca ser\u00e1 resol\u00favel. \u00c9 desej\u00e1vel que a Igreja saiba claramente de que lado est\u00e1, mas simultaneamente que n\u00e3o caia na tal posi\u00e7\u00e3o de ser mais uma posi\u00e7\u00e3o de fa\u00e7\u00e3o, mais um ativista, que eu creio que a prazo acabaria por desvalorizar e menorizar o papel da autoridade da pr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na regi\u00e3o angl\u00f3fona dos Camar\u00f5es, Le\u00e3o XIV enfrentou os senhores da guerra e denunciou que se gastam milhares de milh\u00f5es em armas, mas faltam recursos para cuidar, para curar, para educar, para reerguer. Que capacidade ter\u00e1 este alerta de ecoar e de pressionar as institui\u00e7\u00f5es internacionais e os decisores pol\u00edticos a mudarem de rumo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acho que \u00e9 um alerta muito importante e mais uma vez aqui a quest\u00e3o da consist\u00eancia, ou seja, \u00e9 muito importante &#8211; e acho que o Papa Le\u00e3o est\u00e1 a fazer isso muito bem &#8211; a perce\u00e7\u00e3o de que nomeadamente a den\u00fancia da guerra \u00e9 uma den\u00fancia que \u00e9 feita de forma consistente e transversal, ou seja, h\u00e1 aqui uma responsabiliza\u00e7\u00e3o comum a todos n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 um discurso que se dirija s\u00f3 \u00e0 R\u00fassia, s\u00f3 aos Estados Unidos, s\u00f3 \u00e0 \u00c1frica, s\u00f3 \u00e0 \u00c1sia, ou seja, \u00e9 um discurso a todas as circunst\u00e2ncias em que, como o Papa referiu, h\u00e1 um conjunto enorme de recursos que s\u00e3o utilizados e desperdi\u00e7ados, e utilizados no fundo n\u00e3o para o bem comum, mas para o contr\u00e1rio, para a destrui\u00e7\u00e3o, para a opress\u00e3o, para causar sofrimento, e salientar, e no contexto africano acho que isto \u00e9 particularmente importante, porque estamos perante pa\u00edses, em que a generalidade da popula\u00e7\u00e3o passa por situa\u00e7\u00f5es de car\u00eancia muito significativas e que de alguma forma \u00e9 ainda mais chocante que quem tem poder opte por aplicar recursos na guerra. Parece-me que \u00e9 um discurso importante, e aqui com esta nota de consist\u00eancia e de unidade, ou seja, n\u00e3o \u00e9 um discurso que seja dirigido nem s\u00f3 aos crist\u00e3os, nem s\u00f3 aos n\u00e3o crist\u00e3os, nem s\u00f3 aos crentes ou aos n\u00e3o crentes, h\u00e1 aqui uma responsabilidade humana e pessoal que \u00e9 universal, e que o Papa se tem, a meu ver bem, procurado salientar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na Arg\u00e9lia, perante o corpo diplom\u00e1tico, o Papa referiu-se ao Mediterr\u00e2neo e ao Saara exigindo o combate a quem lucra com a desgra\u00e7a alheia e a prote\u00e7\u00e3o das rotas migrat\u00f3rias. Este apelo de Le\u00e3o XIV \u00e9 tamb\u00e9m, de alguma forma, ou de forma indireta, um recado \u00e0s pol\u00edticas migrat\u00f3rias europeias, e \u00e0 forma como o Ocidente tem gerido esta crise humanit\u00e1ria? \u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mais uma vez, eu acho que aqui o discurso do Papa \u00e9 consistente, e n\u00e3o \u00e9 um discurso dirigido nem s\u00f3 ao Ocidente, nem s\u00f3 aos pa\u00edses de origem destes fluxos migrat\u00f3rios, mas \u00e9 um discurso geral.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu aqui permitia-me citar o Papa, e enfim, tomei nota, at\u00e9 porque a quest\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel. O Papa referiu que um Estado tem o direito de estabelecer regras para as suas fronteiras, nem todos devem entrar de qualquer maneira, sem ordem, e criando por vezes situa\u00e7\u00f5es mais injustas do que aquelas de onde partiram.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ou seja, \u00e9 preciso regularizar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter fluxos migrat\u00f3rios sem controle.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas acrescentou, e volto a citar, o que fazemos tamb\u00e9m nos pa\u00edses mais ricos para mudar a situa\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses mais pobres, salientando depois tamb\u00e9m, como referiu, a gravidade da quest\u00e3o do tr\u00e1fico humano, e propondo que temos de procurar refletir sobre como, volto a citar, procurar ajuda estatal ou tamb\u00e9m investimentos de grandes empresas multinacionais para mudar as situa\u00e7\u00f5es em pa\u00edses como aqueles que se visitaram nesta viagem. Portanto, h\u00e1 aqui v\u00e1rios aspetos neste discurso que me parecem consistentes e todos eles importantes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_422531\" aria-describedby=\"caption-attachment-422531\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-422531 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Andre-Azevedo-Alves-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-422531\" class=\"wp-caption-text\">Foto<br \/>Eduardo Soares da Silva\/Renascen\u00e7a<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por um lado, o alerta e o reconhecimento, e isso acho que \u00e9 muito importante at\u00e9 do ponto de vista de procurar travar o crescimento de movimentos populistas mais radicais no Ocidente, um reconhecimento de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter fronteiras abertas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que os fluxos migrat\u00f3rios n\u00e3o tenham regula\u00e7\u00e3o, e, portanto, os Estados t\u00eam direito a regular as suas fronteiras, e que essa \u00e9 uma quest\u00e3o real que deve ser enfrentada. Simultaneamente, reconhecer as causas dos fluxos migrat\u00f3rios. Ou seja, perceber que \u00e9 preciso atuar sobre as condi\u00e7\u00f5es de origem, sobre as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento econ\u00f3mico. N\u00e3o cabe \u00e0 Igreja, ainda que caiba aos cat\u00f3licos, refletir sobre isso da melhor forma e desejavelmente orientados pelos valores do bem comum, mas n\u00e3o cabe \u00e0 Igreja propor solu\u00e7\u00f5es concretas de pol\u00edticas p\u00fablicas, mas da\u00ed o Papa ter alertado, seja pela ajuda estatal, seja pelo investimento externo, mas mudar as condi\u00e7\u00f5es de origem e depois obviamente para as pessoas &#8211;\u00a0 e cada pessoa \u00e9 uma pessoa com a sua dignidade &#8211; para as pessoas que independentemente da forma como chegaram, est\u00e3o afetadas por essas circunst\u00e2ncias, que devem ser sempre tratadas de forma humana, sem preju\u00edzo de as migra\u00e7\u00f5es terem de ser reguladas. Acho que s\u00e3o estas as tr\u00eas dimens\u00f5es do discurso, e as tr\u00eas importantes e as tr\u00eas dirigidas n\u00e3o apenas ao Ocidente, n\u00e3o apenas aos pa\u00edses de origem dos fluxos migrat\u00f3rios, mas a todos. E acho que a \u00fanica forma de lidarmos seriamente e de forma robusta com o problema migrat\u00f3rio \u00e9 n\u00e3o nos focarmos s\u00f3 numa dimens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>No primeiro ano de pontificado o Le\u00e3o XIV esteve essencialmente no Vaticano, a cumprir um calend\u00e1rio muito preenchido do Jubileu, que personalidade se revelou nesta viagem ao continente africano, que lideran\u00e7a cat\u00f3lica se revelou? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Parece-me que \u00e9 uma lideran\u00e7a cat\u00f3lica deste Papa muito marcado pela procura da unidade. Por exemplo as declara\u00e7\u00f5es sobre a moral sexual foram tamb\u00e9m muito nesse sentido, reafirmar a posi\u00e7\u00e3o da Igreja, mas simultaneamente chamando a aten\u00e7\u00e3o, para que essas quest\u00f5es n\u00e3o devem ser quest\u00f5es em que discord\u00e2ncias que na perspetiva do Papa n\u00e3o s\u00e3o discord\u00e2ncias fundamentais, se tornem quase cism\u00e1ticas, que levem a que haja aqui clivagens muito significativas. Isso \u00e9 vis\u00edvel tamb\u00e9m do ponto de vista da quest\u00e3o da guerra, at\u00e9 do ponto de vista da quest\u00e3o da liturgia. Parece-me que o Papa Le\u00e3o est\u00e1 consciente, e se calhar eu at\u00e9 especularia sobre o Conclave, para dizer que eventualmente a escolha do perfil do Papa Le\u00e3o tenha tamb\u00e9m a ver com essa consci\u00eancia da necessidade de refor\u00e7ar a unidade da Igreja e a perce\u00e7\u00e3o de que neste momento hist\u00f3rico isso seria particularmente importante. E parece-me que as v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es do Papa, da\u00ed tamb\u00e9m a sua preocupa\u00e7\u00e3o com a consist\u00eancia, que eu pelo menos identifico no tratamento das v\u00e1rias mat\u00e9rias, v\u00e3o muito neste sentido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ele procura fazer pontes entre v\u00e1rios setores e sensibilidades da Igreja, e sabemos que a Igreja tem v\u00e1rias sensibilidades, a sua pr\u00f3pria escala torna imposs\u00edvel que fosse de outra forma, isso \u00e9 de alguma forma desej\u00e1vel, e \u00e9 at\u00e9 um sinal da universalidade da Igreja albergar sensibilidades t\u00e3o diferentes, ao contr\u00e1rio do que muitas vezes acontece, por exemplo, no contexto protestante, em que uma cis\u00e3o gera uma nova fa\u00e7\u00e3o, uma nova Igreja. E ao mesmo tempo procurar s\u00f3 em situa\u00e7\u00f5es limite, voltando ao que fal\u00e1mos h\u00e1 pouco, as tais declara\u00e7\u00f5es de Trump sobre aniquilar uma civiliza\u00e7\u00e3o, foi uma exce\u00e7\u00e3o que o Papa entendeu que a\u00ed tinha mesmo que tomar uma posi\u00e7\u00e3o mais assertiva e mais concreta, mas s\u00f3 em posi\u00e7\u00f5es limite, estar a ir al\u00e9m desta procura da unidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E acho que esta visita \u00e0 \u00c1frica tamb\u00e9m foi muito neste contexto. Importa recordar, ou importa salientar, que a \u00c1frica \u00e9 o continente onde h\u00e1 um maior crescimento por parte da Igreja. O Papa Francisco tamb\u00e9m referiu isso v\u00e1rias vezes. N\u00f3s no Ocidente todos estamos muito moldados pela realidade que est\u00e1 mais perto de n\u00f3s, e a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da Igreja \u00e9 uma hist\u00f3ria em que o Ocidente e o M\u00e9dio Oriente t\u00eam um peso maior, mas a Igreja \u00e9 uma Igreja que caminha rapidamente para ser uma Igreja mais africana, e isso tem um conjunto de desafios em v\u00e1rias mat\u00e9rias, e portanto creio que aqui a visita, tamb\u00e9m a esse n\u00edvel, \u00e9 uma visita de procura de unidade e de refor\u00e7o desta universalidade que \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 Igreja, mas que tem que ser cultivada. Eu creio que o Papa Le\u00e3o est\u00e1 muito consciente desta necessidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>N\u00f3s vivemos tempos de extrema polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 escala global, dominados pelo grito e pela l\u00f3gica do quem n\u00e3o est\u00e1 comigo est\u00e1 contra mim. O Papa Le\u00e3o XIV, tal como o Francisco, tem exercido um forte soft power assente na escuta, na diplomacia e tamb\u00e9m no acolhimento do contradit\u00f3rio. Considera que este m\u00e9todo do Vaticano pode servir de li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e at\u00e9 de ant\u00eddoto para a atual disfuncionalidade e crispa\u00e7\u00e3o das nossas democracias? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma excelente pergunta. Eu acho que a medida em que pode servir de li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica depender\u00e1 da abertura de cora\u00e7\u00e3o de cada um dos l\u00edderes pol\u00edticos, e, portanto, diria claramente que o contexto n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel a um discurso menos polarizado. O que temos visto \u00e0 direita e \u00e0 esquerda \u00e9 que s\u00e3o precisamente os discursos e as posturas mais polarizadas que mais rendem eleitoralmente, e os pol\u00edticos tamb\u00e9m respondem a esse contexto. Agora acho que acima de tudo o Papa est\u00e1 a dar um exemplo e um testemunho, como eu dizia, com essa consist\u00eancia, com essa procura da unidade, at\u00e9 com uma certa, no modo, uma certa afabilidade. Este Papa, mesmo na forma como interage, e h\u00e1 coisas importantes &#8211; as palavras que usa, o tom de voz que utiliza &#8211; que h\u00e1 aqui uma procura de estabelecer sempre pontes com o outro e de n\u00e3o radicalizar, ou seja, em vez de escalar o discurso, que \u00e9 algo muito comum. Ou seja, se encontro algu\u00e9m no outro que discorda e imediatamente vejo como \u00e9 que eu o posso insultar, como \u00e9 que eu o posso menorizar, como \u00e9 que eu o posso agredir, n\u00e3o necessariamente fisicamente, infelizmente em alguns casos limite tamb\u00e9m, mas pelo menos verbalmente, como \u00e9 que eu o posso diminuir. E o Papa Le\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, procura n\u00e3o escalar, procura estabelecer pontes, procura encontrar, mesmo dentro da pr\u00f3pria Igreja, volto \u00e0s quest\u00f5es que foram discutidas e que ele foi falando tamb\u00e9m, algumas delas que s\u00e3o clivagens importantes no interior da pr\u00f3pria Igreja, procurar encontrar pontos de contato, procurar chamar a aten\u00e7\u00e3o, por vezes, sem negar as diferen\u00e7as, mas dizer h\u00e1 coisas mais importantes que nos devem unir. Ou seja, podemos estar em desacordo sobre este aspeto, mas devemos acima de tudo reconhecer que sobre aspetos mais importantes estamos de acordo, e, portanto, procurar trabalhar no sentido desses aspetos, sem ignorar as diferen\u00e7as, sem deixar de falar abertamente sobre as diferen\u00e7as, mas procurando impedir, entrar no tal clima generalizado de polariza\u00e7\u00e3o, que infelizmente se tornou dominante, e n\u00e3o s\u00f3 no Ocidente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 que ponto vai funcionar como li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, n\u00e3o sei. O que sei \u00e9 que funciona claramente como exemplo e como testemunho, e obviamente um exemplo e testemunho com o peso de ser uma figura com o peso e autoridade do Papa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Tamb\u00e9m no que diz respeito a Portugal, e neste contexto at\u00e9 do 25 de Abril que celebramos?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m no que diz respeito a Portugal. Alguma da discuss\u00e3o que temos tido em torno do 25 de Abril e do 25 de novembro t\u00eam tamb\u00e9m esse problema, ainda que, enfim, importa salvaguardar, repito, n\u00e3o h\u00e1 que anular as diferen\u00e7as, \u00e9 importante analisar, reavaliar a hist\u00f3ria, isso faz parte at\u00e9 da boa pr\u00e1tica hist\u00f3rica, cient\u00edfica, n\u00e3o h\u00e1 que ter medo das discuss\u00f5es fundamentadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, \u00e9 importante que essa discuss\u00e3o seja feita na perspetiva de uma melhor compreens\u00e3o e de objetivos desejavelmente comuns e n\u00e3o numa perspetiva de cada um,\u00a0 como eu referia, procurar diminuir ou insultar o outro. E eu diria que h\u00e1 algumas, n\u00e3o todas, mas h\u00e1 alguma da discuss\u00e3o que temos tido tamb\u00e9m no contexto portugu\u00eas, infelizmente, tamb\u00e9m sofre deste problema, ou seja, uma procura quase de instrumentaliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria num sentido ou noutro para marcar pontos no curto prazo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E nessa perspetiva \u00e9 de prever um acentuar da crispa\u00e7\u00e3o, sobretudo por for\u00e7a de ideias mais populistas e extremistas no nosso pa\u00eds? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei se um acentuar, porque n\u00f3s, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, se calhar primeiro mais \u00e0 esquerda, agora mais recente mais \u00e0 direita, temos tido um acentuar dessa postura mais populista.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Ser\u00e1 de manter, ent\u00e3o, portanto? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o vejo no horizonte ou a curto prazo sinais de que as coisas possam inverter a esse respeito, porque tamb\u00e9m, como dizia, em larga medida os pol\u00edticos respondem a incentivos. E aqui tamb\u00e9m \u00e9 importante n\u00e3o atirar a culpa toda para os pol\u00edticos, ou seja, perceber que se h\u00e1 um determinado tipo de discurso&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>A culpa tamb\u00e9m \u00e9 de quem os elege? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A culpa \u00e9 nossa tamb\u00e9m, ou seja, se h\u00e1 um determinado tipo de discurso, seja \u00e0 esquerda, seja \u00e0 direita, mais populista, mais radical, mais agressivo, que funciona, depois todos tamb\u00e9m n\u00e3o podemos coletivamente queixar-nos dos atores pol\u00edticos que seguem esses incentivos e que, de um fundo, respondem a essa procura eleitoral. E portanto, h\u00e1 aqui um trabalho tamb\u00e9m de reflex\u00e3o coletiva, n\u00e3o s\u00f3 da classe pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m por parte de todos n\u00f3s, enquanto eleitores, enquanto cidad\u00e3os, sobre, de facto, o que \u00e9 que nos motiva a agir civicamente, o que \u00e9 que nos motiva a votar, quais os atores pol\u00edticos que julgamos mais cred\u00edveis que outros, porque em \u00faltima inst\u00e2ncia, especialmente em contexto democr\u00e1tico, e felizmente temos uma democracia consolidada, isso n\u00e3o \u00e9 colocado em causa, temos elei\u00e7\u00f5es livres, que \u00e9 mais do que muitos pa\u00edses podem dizer, e \u00e9 um aspeto importante a preservar a seriedade e credibilidade do nosso sistema eleitoral, que felizmente foi uma das grandes conquistas, em particular p\u00f3s 1976, e celebramos tamb\u00e9m agora esses 50 anos da Constitui\u00e7\u00e3o. E, portanto, essa conquista, essa conquista transversal, \u00e9 um aspeto de uma conquista importante para o bem comum e que n\u00e3o \u00e9 de esquerda nem de direita, ou seja, \u00e9 passarmos a ter elei\u00e7\u00f5es livres, que s\u00e3o genericamente reconhecidas como justas, mas esse trajeto passa tamb\u00e9m por uma responsabiliza\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s, enquanto eleitores, enquanto cidad\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretor Centro de Investiga\u00e7\u00e3o do Instituto de Estudos Pol\u00edticos da UCP analisa o alcance da viagem de Le\u00e3o XIV, a den\u00fancia \u00abconsistente e transversal\u00bb da guerra, da explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e dos migrantes, e as consequ\u00eancia no \u00abvoto cat\u00f3lico\u00bb das refer\u00eancias de Trump ao Papa<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":422532,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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