{"id":42170,"date":"2009-11-30T10:53:46","date_gmt":"2009-11-30T10:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/30\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-no-i-domingo-do-advento-ordenacoes-de-diaconos\/"},"modified":"2009-11-30T10:53:46","modified_gmt":"2009-11-30T10:53:46","slug":"homilia-do-patriarca-de-lisboa-no-i-domingo-do-advento-ordenacoes-de-diaconos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-no-i-domingo-do-advento-ordenacoes-de-diaconos\/","title":{"rendered":"Homilia do Patriarca de Lisboa no I Domingo do Advento. Ordena\u00e7\u00f5es de Di\u00e1conos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>&ldquo;&Eacute; preciso purificar a esperan&ccedil;a&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">1. O Advento &eacute;, espiritual e culturalmente, tempo de esperan&ccedil;a, de an&uacute;ncio da esperan&ccedil;a. Mais uma vez a Igreja, atrav&eacute;s da Liturgia e da Palavra de Deus que ilumina toda a realidade humana, vai anunciar a esperan&ccedil;a. E a nossa sociedade bem precisa desse an&uacute;ncio, para reencontrar o sentido da vida e da sua identidade cultural. A crise econ&oacute;mica e as dificuldades reais, por vezes dram&aacute;ticas, sentidas hoje por muitos portugueses, desloca facilmente os objectivos da esperan&ccedil;a; a sensa&ccedil;&atilde;o, veiculada pela comunica&ccedil;&atilde;o social, da corrup&ccedil;&atilde;o generalizada, mina a confian&ccedil;a na sociedade e faz brotar um clamor profundo pela justi&ccedil;a; a discuss&atilde;o p&uacute;blica, agora em curso, sobre poss&iacute;veis decis&otilde;es que ferem a dignidade da fam&iacute;lia, na sua base antropol&oacute;gica e na sua solidez institucional leva a substituir as posi&ccedil;&otilde;es solidamente assentes em valores perenes de ordem espiritual e moral, pelo calor apaixonado da discuss&atilde;o. Tudo isto leva a interrogar-nos sobre o modo de anunciar a esperan&ccedil;a aos portugueses, perceber o que esperam, ou seja, quais s&atilde;o os conte&uacute;dos da esperan&ccedil;a. Segundo a Palavra de Deus, a natureza profunda da esperan&ccedil;a &eacute; esperar por algu&eacute;m, que promova a justi&ccedil;a, nos sirva com generosidade, seja o obreiro de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Em termos b&iacute;blicos, leva-nos a esperar um Salvador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A palavra Advento significa chegada, vinda pr&oacute;xima. A esperan&ccedil;a &eacute; o desejo dessa chegada, o anseio por um encontro. Para o Povo de Israel esse desejado, que restabelecer&aacute; a justi&ccedil;a, &eacute; o Messias. Todos os profetas s&atilde;o un&acirc;nimes no seu an&uacute;ncio: Ele est&aacute; pr&oacute;ximo. Ele estabelecer&aacute; a justi&ccedil;a, realizando o ideal de Israel como Povo. &ldquo;Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justi&ccedil;a que exercer&aacute; o direito e a justi&ccedil;a em Israel&rdquo; (Is. 33,14-16).<\/p>\n<p>Os crist&atilde;os identificaram em Jesus de Nazar&eacute; esse Messias esperado. Acreditar em Jesus gera a alegria mobilizadora de um encontro esperado. Nele sente-se a certeza consoladora de que Deus n&atilde;o abandonou o seu Povo, que vem ao seu encontro para o salvar. Pela sua Palavra; porque venceu a morte na ressurrei&ccedil;&atilde;o, cujo dinamismo come&ccedil;ou no dom generoso da sua vida, por amor; na comunica&ccedil;&atilde;o do seu Esp&iacute;rito, for&ccedil;a recriadora, Jesus tornou realidade presente a salva&ccedil;&atilde;o, iniciou um homem novo e uma nova cria&ccedil;&atilde;o. Mas &eacute; t&atilde;o lenta esta transforma&ccedil;&atilde;o qualitativa da realidade humana. Haver&aacute; um dia por&eacute;m em que a gl&oacute;ria do Messias, pr&iacute;ncipe da paz e da justi&ccedil;a, ser&aacute; clara e definitiva: &ldquo;Ent&atilde;o h&atilde;o-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e gl&oacute;ria&rdquo; (Lc. 21,27).<\/p>\n<p>Parece que os crist&atilde;os da primeira gera&ccedil;&atilde;o desejaram ardentemente esta vinda definitiva, a manifesta&ccedil;&atilde;o da gl&oacute;ria do Messias, que seria a inaugura&ccedil;&atilde;o da sociedade definitivamente perfeita, talvez na impaci&ecirc;ncia de restaurar para sempre a justi&ccedil;a, e com a dificuldade de aceitar que esta nova ordem &eacute; lenta, tem o ritmo de uma semente lan&ccedil;ada &agrave; terra, a germinar teimosamente no meio dos espinhos da hist&oacute;ria. A Igreja percebeu, no seu longo caminhar, que essa ordem nova se vai construindo desde j&aacute;, umas vezes de forma vis&iacute;vel, outras menos, reconhecida e aplaudida em certos momentos, negada e combatida noutros; a Igreja percebeu e acreditou que era poss&iacute;vel realizar esse encontro com Cristo no realismo do presente hist&oacute;rico. Quem n&atilde;o deseja encontr&aacute;-l&rsquo;O j&aacute;, acaba por n&atilde;o ser capaz de desejar esse encontro definitivo na manifesta&ccedil;&atilde;o da gl&oacute;ria do Filho do Homem.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso purificar a esperan&ccedil;a. E a interroga&ccedil;&atilde;o que nos lan&ccedil;a este tempo lit&uacute;rgico dirige-se particularmente aos crist&atilde;os: desejamos verdadeiramente esse encontro com Cristo? Estamos conscientes de que esse encontro &eacute; poss&iacute;vel j&aacute;, na riqueza sacramental da Igreja, no realismo da caridade e da comunh&atilde;o fraterna? Se n&atilde;o desejarmos esse encontro j&aacute;, dificilmente desejaremos com verdade a sua &uacute;ltima manifesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Os crist&atilde;os que desejam e procuram esse encontro tornam-se art&iacute;fices da constru&ccedil;&atilde;o de um mundo novo. Se n&atilde;o formos capazes de transpor para o nosso viver em sociedade esta novidade crist&atilde;, n&atilde;o percebemos a densidade da esperan&ccedil;a. Era j&aacute; essa a prega&ccedil;&atilde;o do Ap&oacute;stolo Paulo: &ldquo;O Senhor confirme os vossos cora&ccedil;&otilde;es numa santidade irrepreens&iacute;vel&rdquo;; &ldquo;deveis progredir sempre mais&rdquo;, nesta novidade da vida crist&atilde; (cf. 1Tess. 3,12-4,2).<\/p>\n<p>Este crescimento na sociedade dos homens, deste reino de justi&ccedil;a, inaugurado na P&aacute;scoa de Jesus, acontece com a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito Santo, mas exprime-se nos actores da transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade. Os crist&atilde;os devem agir e reagir com a luz e a for&ccedil;a do encontro com Cristo, quer no mist&eacute;rio da sua Pessoa, quer na pessoa dos nossos irm&atilde;os, com quem Ele se quis identificar. Se vivermos com o Senhor, desse encontro brota uma luz que aponta o caminho da verdade e da justi&ccedil;a e uma for&ccedil;a que nos far&aacute; lutar por uma sociedade mais justa e mais fraterna. Uma manifesta&ccedil;&atilde;o da infidelidade dos crist&atilde;os, talvez a mais grave, &eacute; eles estarem no mundo e n&atilde;o exprimirem na sua ac&ccedil;&atilde;o e reac&ccedil;&atilde;o, a luz e a for&ccedil;a desse encontro. S&atilde;o crist&atilde;os, mas est&atilde;o no concreto da vida com os crit&eacute;rios culturais profanos: na cultura ambiente, na circunst&acirc;ncia pol&iacute;tica ou ideol&oacute;gica, nos triunfos e revezes da economia. N&atilde;o se lhes pode aplicar a frase de Jesus: &ldquo;V&oacute;s sois a luz do mundo&rdquo;.<\/p>\n<p>O desafio do Advento &eacute; o de sermos capazes de reduzir tudo o que esperamos e desejamos, ao encontro com quem esperamos e desejamos. Encontremo-l&rsquo;O, encontremo-nos mais profundamente uns aos outros, e estaremos a purificar a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Queridos Ordinandos! Estais aqui porque o Senhor veio ao vosso encontro, chamando-vos, e v&oacute;s aceitastes o desafio desse encontro, dizendo sim ao chamamento. Esse desejo de encontro convosco &eacute;, da parte do Senhor, v&aacute;lido para a eternidade. Esse &eacute; o verdadeiro fundamento da nossa esperan&ccedil;a de encontrarmos o Senhor, na certeza de que Ele vem continuamente ao nosso encontro e o deseja ardentemente. A nossa fidelidade consiste em querermos tamb&eacute;m responder a essa vontade de Deus, em Jesus Cristo.<\/p>\n<p>O minist&eacute;rio a que sois chamados ser&aacute; a mais concreta e objectiva resposta da vossa fidelidade. Hoje, sois consagrados para o minist&eacute;rio dos di&aacute;conos, em que o an&uacute;ncio sincero da Palavra de Deus e a pr&aacute;tica da caridade se revelam como propostas cont&iacute;nuas do encontro de Deus com o Seu Povo, mostrando-nos que no amor fraterno se encontra o pr&oacute;prio Senhor. Mas recebeis o minist&eacute;rio diaconal na perspectiva de, a curto prazo, serdes ordenados sacerdotes. Ent&atilde;o, como sacramentos de Cristo, estareis no &acirc;mago do grande e mais radical encontro de Cristo com o Seu Povo e com cada crente, a Eucaristia. Ela &eacute; o lugar certo desse encontro com garantias de eternidade e, por isso, a exig&ecirc;ncia cont&iacute;nua da purifica&ccedil;&atilde;o da esperan&ccedil;a. &Eacute; a&iacute; que tornamos poss&iacute;vel viver a nossa vida obedecendo &agrave; Palavra de Jesus que hoje escut&aacute;mos no Evangelho: &ldquo;Vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a for&ccedil;a que vos livra de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presen&ccedil;a do Filho do Homem&rdquo; (Lc. 21,36).<\/p>\n<p><em>Mosteiro dos Jer&oacute;nimos, 29 de Novembro de 2009 <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;&Eacute; preciso purificar a esperan&ccedil;a&rdquo; 1. O Advento &eacute;, espiritual e culturalmente, tempo de esperan&ccedil;a, de an&uacute;ncio da esperan&ccedil;a. 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