{"id":421487,"date":"2026-04-20T09:12:34","date_gmt":"2026-04-20T08:12:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=421487"},"modified":"2026-04-21T11:53:35","modified_gmt":"2026-04-21T10:53:35","slug":"o-contributo-catolico-para-o-25-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-contributo-catolico-para-o-25-de-abril\/","title":{"rendered":"O contributo cat\u00f3lico para o 25 de Abril"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aproxima-se mais uma celebra\u00e7\u00e3o do 25 de abril, e dou gra\u00e7as a Deus por ser um filho do novo tempo que a revolu\u00e7\u00e3o originou. N\u00e3o me vejo a viver de outra forma que n\u00e3o seja em liberdade. Liberdade com dignidade, com regras, com compromisso e com responsabilidade, com direitos e com deveres. Merecem um grande respeito e a justa homenagem todos aqueles que lutaram por t\u00e3o grande conquista para a sociedade portuguesa. Nos \u00faltimos anos, notamos que a celebra\u00e7\u00e3o do 25 de abril desune mais do que une e continua a ser um dia para troca de recados e de galhardetes entre for\u00e7as pol\u00edticas ou fa\u00e7\u00f5es da sociedade, manifestando que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 consensual e que h\u00e1 muitas maneiras de contar e ler a hist\u00f3ria. A este prop\u00f3sito, recordo um bom professor de hist\u00f3ria, que tive no secund\u00e1rio, que afirmava que ainda est\u00e1 muito por contar sobre o 25 de Abril. Ent\u00e3o militar, na sua opini\u00e3o, foi o mal-estar no interior das for\u00e7as armadas que provocou a revolu\u00e7\u00e3o, porque existiam graves injusti\u00e7as e desequil\u00edbrios dentro das for\u00e7as militares, no campo das regalias, do percurso das carreiras e dos privil\u00e9gios, injusti\u00e7as a que o poder institu\u00eddo n\u00e3o estava a dar a devida resposta e aten\u00e7\u00e3o, despoletando, assim, a rea\u00e7\u00e3o dos militares com a revolu\u00e7\u00e3o. A narrativa da liberdade foi uma forma romanceada de se esconder as verdadeiras raz\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o de Abril, nas palavras do professor. Verdade ou mentira? N\u00e3o sei. O que sabemos \u00e9 que, de facto, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 consensual e tem muitas leituras. Nem todo o historiador separa bem a verdade do que quer que seja verdade e h\u00e1 muito historiador que escreve com preconceitos, inquinando, assim, a sua reda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A hist\u00f3ria \u00e9, muitas vezes, feita de \u201chist\u00f3rias\u201d.<\/p>\n<p>Seja como for, e querelas hist\u00f3ricas \u00e0 parte, \u00e9 inquestion\u00e1vel o valor e o significado da revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril. Operou uma mudan\u00e7a necess\u00e1ria e premente e institui no pa\u00eds um conjunto de valores democr\u00e1ticos, que h\u00e1 muito fervilhavam na consci\u00eancia da maioria da popula\u00e7\u00e3o portuguesa. O regime estabelecido em Portugal era retr\u00f3grado, estava caqu\u00e9tico e desatualizado. Persistia-se numa guerra do ultramar que era um matadouro da juventude portuguesa, causadora de sofrimento imorredoiro e indescrit\u00edvel em tantas fam\u00edlias portuguesas. Nenhum regime ou poder pol\u00edtico tem direito a legitimar uma ditadura sobre um povo, porque a finalidade da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 construir o bem comum desse povo, numa atmosfera de liberdade e de respeito por esse povo, em todas as suas dimens\u00f5es. O poder pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 dono e senhor do povo, mas \u00e9 seu servo, mandatado pelo pr\u00f3prio povo, para organizar e construir o conjunto de condi\u00e7\u00f5es para que cada cidad\u00e3o contribua para o bem comum e procure o seu bem individual. Se \u00e9 certo que o regime de Salazar, nos seus alvores, contribuiu para a consolida\u00e7\u00e3o da paz e da estabilidade social, num pa\u00eds que ainda vivia em febre republicana, com o tempo estendeu abusivamente e ilegitimamente os seus tent\u00e1culos inquisit\u00f3rios e totalit\u00e1rios a todos os campos da sociedade portuguesa e da vida privada das pessoas, promovendo o medo, a persegui\u00e7\u00e3o, a tortura, o amorda\u00e7amento, a submiss\u00e3o for\u00e7ada, a den\u00fancia, o policiamento doentio sobre ideias, valores e a\u00e7\u00f5es, algo que jamais um povo deve aceitar da conduta do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Houve algum vento cat\u00f3lico que tenha inspirado a revolu\u00e7\u00e3o? Houve. E foi decisivo. Eu sei que a a\u00e7\u00e3o e o procedimento da Igreja Cat\u00f3lica durante o Estado Novo n\u00e3o \u00e9 consensual. H\u00e1 quem acuse a Igreja de colagem e colaboracionismo com o velho regime e de falta de coragem e de aud\u00e1cia para denunciar os seus abusos e de enfrentar, com inspira\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, os seus atropelos, apontar, com firmeza, caminhos mais consent\u00e2neos com o respeito pelo povo e pela dignidade humana. Ficou a perce\u00e7\u00e3o de que a Igreja era uma amiga \u00edntima do velho regime. Talvez a Igreja tenha passado ao lado do pobre ca\u00eddo na berma da estrada, falhou por grave omiss\u00e3o, mas tamb\u00e9m h\u00e1 exemplos de enfrentamento ao velho regime, como \u00e9 o caso do bispo do Porto, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, entre outros. Dou aqui o exemplo de D. Ant\u00f3nio, mas antes dele j\u00e1 muitos cat\u00f3licos vinham a fazer caminho, e \u00e9 bom lembrar isso. Sobretudo desde 1958, muitos setores cat\u00f3licos come\u00e7aram a lutar e a exigir alguma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social. Dizer-se que a Igreja Cat\u00f3lica era, sem mais nem menos, como j\u00e1 ouvi, aliada da ditadura, n\u00e3o \u00e9 correto. Uma boa parte da Igreja pediu mudan\u00e7as e caminhos novos, reclamou a liberdade e o pluralismo.<\/p>\n<p>Se a boca se cala, o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o se cala, e acreditamos que o Esp\u00edrito Santo conduz a Igreja. No dia 11 de abril de 1963, o \u00abPapa da Bondade\u00bb, Jo\u00e3o XXIII, publicava e oferecia \u00e0 Igreja a carta enc\u00edclica Pacem in Terris (Paz na terra), com o subt\u00edtulo \u00abA paz de todos os povos na base da verdade, justi\u00e7a, caridade e liberdade\u00bb. Foi e \u00e9 um documento marcante da Igreja Cat\u00f3lica, que apontou novos caminhos e impulsionou mudan\u00e7as no mundo, nomeadamente na Europa, ainda a debater-se com o aguilh\u00e3o dos regimes opressores e totalit\u00e1rios. A enc\u00edclica do Papa Jo\u00e3o XXIII foi uma nova aragem que veio sobressaltar consci\u00eancias e mentalidades. Apontou a necessidade de uma nova constru\u00e7\u00e3o social e um conjunto de valores e princ\u00edpios, que as ditaduras europeias n\u00e3o estavam a respeitar, como a falta de liberdade, liberdade de pensamento, liberdade de express\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica, falta de liberdade para as associa\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es, liberdade para associa\u00e7\u00e3o, o direito dos trabalhadores a terem uma vida digna, uma vida com condi\u00e7\u00f5es, uma vida de liberdade. Este documento da Igreja cat\u00f3lica despertou e uniu, sobretudo, os jovens daquele tempo e gera\u00e7\u00f5es seguintes, na busca de um novo rumo para as sociedades europeias, despertou para a urg\u00eancia de uma mudan\u00e7a profunda nas sociedades, em que se devia \u00abolhar o homem como pessoa, com direito a ter uma vida digna, a ter direito ao trabalho, a ter direito \u00e0 liberdade\u00bb.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica n\u00e3o teve o intuito de provocar revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais. Os seus horizontes est\u00e3o para al\u00e9m disso. Mas inspirou-as. A seu modo, foi a base para a revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril. Em 1974 saiu a Carta Pastoral sobre o Contributo dos Crist\u00e3os para a Vida Social e Pol\u00edtica, convocando os crist\u00e3os para os novos desafios. Membros do movimento Graal percorreram o pa\u00eds, em 1974, a divulgar valores da \u00abRevolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u00bb. O \u2018Graal\u2019 \u00e9 um movimento internacional de mulheres crist\u00e3s. Diz Isabel Allegro de Magalh\u00e3es: \u201cLogo a seguir ao 25 de Abril estivemos nas chamadas equipas m\u00f3veis, que iam de terra em terra, \u00e0s pequenas aldeias, \u00e0s sedes de concelho, falar com as popula\u00e7\u00f5es para explicar e mostrar que era crist\u00e3o escolher uma coisa que desse mais justi\u00e7a e igualdade ao pa\u00eds\u201d. Em 1973 (Carta Pastoral) e 1974, v\u00e1rios bispos publicaram documentos onde pediam mais pluralismo nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Celebremos, por isso, a liberdade e a democracia.<\/p>\n<p><em>Padre V\u00edtor Pereira<br \/>\nDiocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-421487","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421487","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=421487"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421487\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=421487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=421487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=421487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}