{"id":420897,"date":"2026-04-16T11:15:51","date_gmt":"2026-04-16T10:15:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=420897"},"modified":"2026-04-16T11:15:51","modified_gmt":"2026-04-16T10:15:51","slug":"ciberhumanitas-o-tempo-gerado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ciberhumanitas-o-tempo-gerado\/","title":{"rendered":"CIBERHUMANITAS &#8211; O Tempo-Gerado"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da refei\u00e7\u00e3o de Jesus em Bet\u00e2nia, visitando L\u00e1zaro e suas irm\u00e3s, parece ser uma chamada de aten\u00e7\u00e3o do contraste entre ac\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, mas na opini\u00e3o do jesu\u00edta James Martin SJ, em \u201cVem para fora!\u201d, \u00e9 que a resposta de Jesus ao coment\u00e1rio de Marta tem mais a ver com o tempo certo, o Kairos, que chamo de tempo-gerado. Que rela\u00e7\u00e3o existe entre o tempo-gerado (Kairos) e a dualidade ac\u00e7\u00e3o-contempla\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Como em Eclesiastes cap\u00edtulo 3 (1-8) que vale a pena reler na \u00edntegra e meditar:<\/p>\n<blockquote><p>Para tudo h\u00e1 um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do c\u00e9u:<br \/>\ntempo para nascer e tempo para morrer,<br \/>\ntempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,<br \/>\ntempo para matar e tempo para curar,<br \/>\ntempo para destruir e tempo para edificar,<br \/>\ntempo para chorar e tempo para rir,<br \/>\ntempo para se lamentar e tempo para dan\u00e7ar,<br \/>\ntempo para atirar pedras e tempo para as juntar,<br \/>\ntempo para abra\u00e7ar e tempo para evitar o abra\u00e7o,<br \/>\ntempo para procurar e tempo para perder,<br \/>\ntempo para guardar e tempo para atirar fora,<br \/>\ntempo para rasgar e tempo para coser,<br \/>\ntempo para calar e tempo para falar,<br \/>\ntempo para amar e tempo para odiar,<br \/>\ntempo para guerra e tempo para paz.<\/p><\/blockquote>\n<p>A isto poderia acrescentar: tempo para fazer, tempo para escutar.<\/p>\n<p>O tempo certo de cada coisa \u00e9 diferente do tempo sequencial (Cronos) de cada evento.<\/p>\n<p>No Kairos s\u00e3o os eventos que nos mudam.<br \/>\nNo Cronos s\u00e3o as mudan\u00e7as que nos fazem conscientes dos eventos.<br \/>\nNo Kairos deixamos que o tempo passe por n\u00f3s.<br \/>\nNo Cronos somos n\u00f3s que corremos atr\u00e1s do tempo.<br \/>\nO Kairos \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as interiores suscitadas pela contempla\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Cronos \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as exteriores que podem ser fruto da nossa ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio da ac\u00e7\u00e3o. \u00c9 aquilo que impede a ac\u00e7\u00e3o de se tornar mera agita\u00e7\u00e3o. E a ac\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio da contempla\u00e7\u00e3o. \u00c9 aquilo que impede a contempla\u00e7\u00e3o de se fechar sobre si mesma como uma intimidade est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Marta e Maria, por isso, talvez n\u00e3o representem dois estilos de vida incompat\u00edveis. Representam antes duas dimens\u00f5es de uma \u00fanica experi\u00eancia do tempo. H\u00e1 um tempo em que amar pede m\u00e3os ocupadas. E h\u00e1 um tempo em que amar pede presen\u00e7a inteira. O problema n\u00e3o est\u00e1 em agir ou contemplar, mas em n\u00e3o reconhecer qual das duas facetas da experi\u00eancia do tempo pede de n\u00f3s um algo-mais.<\/p>\n<p>Chamo tempo-gerado ao tempo que n\u00e3o se mede primeiro pelo rel\u00f3gio, mas pela transforma\u00e7\u00e3o que o encontro produz em n\u00f3s. H\u00e1 momentos que duram minutos e permanecem anos dentro de n\u00f3s. E h\u00e1 horas inteiras que passam sem deixar rasto. O Kairos n\u00e3o nega o Cronos. Mas revela que nem toda a experi\u00eancia do tempo pesa da mesma maneira na nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando Jesus responde a Marta, talvez n\u00e3o esteja a desvalorizar o servi\u00e7o. Seria estranho que o fizesse. O que parece acontecer \u00e9 mais exigente: Jesus revela que nem toda a urg\u00eancia coincide com o essencial. H\u00e1 tarefas necess\u00e1rias que, num certo momento, podem tornar-se ru\u00eddo se nos impedem de acolher aquilo que s\u00f3 naquele instante pode ser recebido. Maria n\u00e3o escolhe a passividade. Escolhe a unicidade do momento.<\/p>\n<p>H\u00e1 um tempo para responder a emails e um tempo para escutar uma pessoa at\u00e9 ao fim. H\u00e1 um tempo para organizar, planear, produzir e resolver. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 um tempo em que insistir em fazer, impede-nos de receber. Quem vive apenas para o Cronos, mede o dia pelo n\u00famero de coisas conclu\u00eddas. Quem aprende a viver tamb\u00e9m em Kairos, come\u00e7a a medir o dia pela verdade com que esteve presente.<\/p>\n<p>Muitas vezes julgamos estar a agir bem s\u00f3 porque estamos ocupados. Mas a ocupa\u00e7\u00e3o pode ser uma fuga subtil \u00e0quilo que a contempla\u00e7\u00e3o nos mostraria. Fazer muito pode evitar sentir. Resolver tudo pode impedir escutar o que em n\u00f3s precisa de ser curado. Nesse sentido, a contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o suspende a vida, mas devolve-lhe profundidade.<\/p>\n<p>Por outro lado, uma contempla\u00e7\u00e3o que nunca se converte em gesto, cuidado, servi\u00e7o ou decis\u00e3o, tamb\u00e9m se desfigura. Torna-se uma espiritualidade sem carne. O tempo-gerado n\u00e3o nos afasta do mundo. Ensina-nos antes a regressar a ele com um centro mais unificado. A contempla\u00e7\u00e3o torna a ac\u00e7\u00e3o mais limpa e a ac\u00e7\u00e3o torna a contempla\u00e7\u00e3o mais verdadeira.<\/p>\n<p>Talvez seja isso que tantas vezes nos falta: n\u00e3o mais tempo, mas outra rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia do tempo. N\u00e3o tanto acumular minutos, mas reconhecer momentos. N\u00e3o tanto controlar o dia, mas discernir o apelo escondido em cada encontro, em cada interrup\u00e7\u00e3o, em cada presen\u00e7a. Porque h\u00e1 instantes em que parar \u00e9 a forma mais alta de agir.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> neste <a href=\"https:\/\/bit.ly\/4qUOt51\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">LINK<\/a>; &#8211; &#8220;<a href=\"https:\/\/cordeldeprata.pt\/produto\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tempo 3.0 &#8211; Uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria da experi\u00eancia mais transformativa do mundo<\/a>&#8221; (<a href=\"https:\/\/www.bertrand.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bertrand<\/a>;, <a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wook<\/a>;, <a href=\"https:\/\/www.fnac.pt\/Tempo-3-0-Uma-Visao-Revolucionaria-da-Experiencia-Mais-Transformativa-do-Mundo-Miguel-Panao\/a11534362\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FNAC<\/a>; )<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-420897","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=420897"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420897\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=420897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=420897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=420897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}