{"id":42078,"date":"2009-11-24T15:12:02","date_gmt":"2009-11-24T15:12:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/24\/intervencao-de-d-joao-lavrador-no-36o-encontro-nacional-da-pastoral-dos-ciganos\/"},"modified":"2009-11-24T15:12:02","modified_gmt":"2009-11-24T15:12:02","slug":"intervencao-de-d-joao-lavrador-no-36o-encontro-nacional-da-pastoral-dos-ciganos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-de-d-joao-lavrador-no-36o-encontro-nacional-da-pastoral-dos-ciganos\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de D. Jo\u00e3o Lavrador no 36\u00ba Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos"},"content":{"rendered":"<p>Sa&uacute;do, em nome do Senhor Dom Manuel Bispo do Porto, que por impossibilidade de estar presente me pede que o represente, e no meu pr&oacute;prio, o Director Nacional, o Rev.mo Pe. Ant&oacute;nio Jes&uacute;s Heredia Cort&eacute;s, Director da Pastoral dos Ciganos em Espanha, os Directores Diocesanos dos Secretariados ou das Obras da Pastoral dos Ciganos, os intervenientes na orienta&ccedil;&atilde;o destes trabalhos e todos os participantes deste 36&ordm; Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos.<\/p>\n<p>J&aacute; que nos dais a honra de realizardes este Encontro na Casa de S. Paulo, na Diocese do Porto, gostaria de exprimir a minha mais profunda alegria por este acontecimento e formular votos de que seja uma oportunidade de reflex&atilde;o e de empenhamento no dom&iacute;nio da pastoral destes nossos irm&atilde;os que fazem parte desta fam&iacute;lia os ciganos.<\/p>\n<p>Este encontro insere-se num longo caminho que a Igreja em Portugal tem vindo a percorrer nesta &aacute;rea da pastoral dedicada ao povo cigano. O primeiro documento eclesial que se refere a eles &eacute; uma bula do papa Sixto V que identificava os ciganos como peregrinos em caminho para Santiago de Compostela, gra&ccedil;as &agrave; qual puderam aceder &agrave; maioria dos pa&iacute;ses europeus. Ao longo dos s&eacute;culos, S&atilde;o Felipe N&eacute;ri ou os beatos Pedro Poveda e Manuel Gonz&aacute;lez ocuparam-se especificamente deles. Em 1958, o papa Pio XII, ao criar a Obra Assistencial e Moral do N&oacute;mada, deu-lhes um lugar espec&iacute;fico na C&uacute;ria Vaticana. O Conc&iacute;lio Vaticano II cita-os especificamente no decreto &laquo;Christus Dominus&raquo;. A partir de 1970, atrav&eacute;s da Obra de Apostolado dos N&oacute;madas, tamb&eacute;m denominada Obra de Promo&ccedil;&atilde;o dos Ciganos, a Igreja procurou desenvolver um conjunto de ac&ccedil;&otilde;es e de estabelecer um conjunto de contactos de modo a proporcionar o desenvolvimento, o acolhimento e a evangeliza&ccedil;&atilde;o do mundo concreto em que vivem os diversos grupos de ciganos. Ao longo deste tempo, a par com uma sensa&ccedil;&atilde;o de deserto pastoral e de nos encontramos num campo muito dif&iacute;cil de evangelizar, devemos reconhecer que muito foi j&aacute; alcan&ccedil;ado. A cria&ccedil;&atilde;o, em 1981 do Programa de Promo&ccedil;&atilde;o Social dos Ciganos que pretendia dar-lhes a iniciativa de modo que, sem destru&iacute;rem os seus tra&ccedil;os culturais, tivessem um papel activo na sociedade, at&eacute; ao projecto &laquo;Ponte sem margens&raquo;, de 1999, sedeado em Coimbra, que se propunha o desenvolvimento social da comunidade cigana, respeitando as suas riquezas culturais; passando pela chamada &laquo;Saga Cigana&raquo; e, em 1982, a Associa&ccedil;&atilde;o &laquo;Ouga B&eacute;nea&raquo; (Vamos Vender) que pretendia valorizar o trabalho tradicional da fam&iacute;lia cigana, promovendo um trabalho simultaneamente com pais e filhos, os pais s&atilde;o apoiados na venda e os filhos em actividades escolares e em ATL, e os pais s&atilde;o, ainda, sensibilizados para a educa&ccedil;&atilde;o escolar dos seus filhos; em 1997 surge a Associa&ccedil;&atilde;o das Oficinas Romani que consiste num projecto de forma&ccedil;&atilde;o profissional para a etnia cigana.<\/p>\n<p>Mas sobretudo &eacute; de real&ccedil;ar a realiza&ccedil;&atilde;o dos Congressos Mundiais de Ciganos. O primeiro teve lugar em Londres em 1971, contando com a participa&ccedil;&atilde;o de 14 pa&iacute;ses, o 2&ordm; realizou-se em Genebra, em 1978, e contou com a participa&ccedil;&atilde;o de 26 pa&iacute;ses, e o 3&ordm; em Gottinen, em 1981, e contou com 3000 delegados de 22 pa&iacute;ses e outros se sucederam, o &uacute;ltimo dos quais, teve lugar na Alemanha, em Setembro de 2008, e versava sobre a evangeliza&ccedil;&atilde;o e a promo&ccedil;&atilde;o humana dos jovens ciganos tendo-os como protagonistas. &Egrave; significativa para a pastoral o envolvimento dos ciganos, neste caso jovens, na promo&ccedil;&atilde;o e na evangeliza&ccedil;&atilde;o das suas fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>Importa tamb&eacute;m referir qu&atilde;o importantes se manifestaram para a pastoral da Igreja no dom&iacute;nio da evangeliza&ccedil;&atilde;o do povo cigano as &laquo;Orienta&ccedil;&otilde;es para uma Pastoral dos Ciganos&raquo; que o Conselho Pontif&iacute;cio para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes publicou no ano 2006.<\/p>\n<p>Acresce, ainda, os Encontros Nacionais de Pastoral dos Ciganos que, praticamente, todos os anos se foram realizando at&eacute; ao presente.<\/p>\n<p>Ao trazer estes dados ao presente, n&atilde;o quero sen&atilde;o reconhecer que, no meio de um sector pastoral bastante &aacute;rido, h&aacute; j&aacute; um conjunto de ac&ccedil;&otilde;es, acontecimentos e organiza&ccedil;&otilde;es que foram dando corpo &agrave; ac&ccedil;&atilde;o de muitos homens e mulheres, grupos de crist&atilde;os e da pr&oacute;pria Igreja em prol da evangeliza&ccedil;&atilde;o dos nossos irm&atilde;os ciganos.<\/p>\n<p>A realidade do povo cigano tem vindo a mudar dentro do contexto em que vivemos. H&aacute; mudan&ccedil;as significativas no dom&iacute;nio laboral, no regime habitacional, na frequ&ecirc;ncia escolar, na sua rela&ccedil;&atilde;o com a Igreja, entre outros. Mas continua a ser povo cigano, com as suas marcas de cultura pr&oacute;pria, com as suas tradi&ccedil;&otilde;es e valores que teimam em preservar e, sobretudo, com a vontade de uma vida melhor.<\/p>\n<p>Todos estamos conscientes da sua religiosidade. A par com a manifesta&ccedil;&atilde;o de um determinado grupo, a denominada Igreja de Filad&eacute;lfia, muito liderada por membros da etnia cigana, muitos mant&ecirc;m uma simpatia por alguns actos religiosos presentes na Igreja Cat&oacute;lica, nomeadamente o Baptismo e o culto dos mortos.<\/p>\n<p>S&atilde;o grandes os desafios que s&atilde;o lan&ccedil;ados &agrave; Igreja na evangeliza&ccedil;&atilde;o destes nossos irm&atilde;os pelos quais tamb&eacute;m Jesus Cristo se entregou na Cruz e aos quais quer manifestar as maravilhas da sua Ressurrei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Permitam-me que acrescente algumas reflex&otilde;es a partir do que diz Sergio Rodr&iacute;guez na sua obra &laquo;Notas sobre a pastoral cigana&raquo;. Diz ele: &laquo;&Eacute; imprescind&iacute;vel entender a f&eacute; e a cultura se queremos trabalhar com as fam&iacute;lias ciganas. &Eacute; preciso valorizar a cultura cigana como lugar de evangeliza&ccedil;&atilde;o, sabendo fazer uma leitura do Evangelho desde suas pautas culturais e favorecendo uma s&iacute;ntese entre f&eacute; e cultura cigana&raquo;. E, num outro passo, sublinha: &laquo;Ao mesmo tempo, &eacute; preciso favorecer que os ciganos passem de ser objectos a sujeitos de evangeliza&ccedil;&atilde;o, permitindo que sejam eles quem tenham o protagonismo na evangeliza&ccedil;&atilde;o de seu povo&raquo;. E, continua, afirmando que, &laquo;para isso, &eacute; fundamental desvelar neles op&ccedil;&otilde;es de compromisso crist&atilde;o, melhorar sua forma&ccedil;&atilde;o crist&atilde; e construir comunidades que permitam processos de crescimento espiritual, individual e colectivo. &Eacute; necess&aacute;rio converter em realidade aquela frase que Paulo VI pronunciou em 1964, em Pomezia: &lsquo;Voc&ecirc;s, ciganos, est&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o da Igreja&rsquo;.&raquo; E, termina com a seguinte advert&ecirc;ncia: &laquo;A incid&ecirc;ncia do pentecostalismo entre os ciganos, muito significativa nos &uacute;ltimos vinte anos, come&ccedil;ou a fazer com que muitas dioceses substitu&iacute;ssem a pastoral cigana na pr&oacute;pria agenda, criando estruturas espec&iacute;ficas e optando por esta metodologia inculturada&raquo;.<\/p>\n<p>Mas, &eacute; for&ccedil;oso recordar como ac&ccedil;&atilde;o da bondade de Deus atrav&eacute;s do nosso esfor&ccedil;o o facto de hoje em dia serem 60 os ciganos que optaram pelo sacerd&oacute;cio, o diaconato ou a vida consagrada em todo o mundo.<\/p>\n<p>Gostaria de deixar a todos v&oacute;s, que sois voz da Igreja para a evangeliza&ccedil;&atilde;o dos ciganos, uma palavra de alento e de &acirc;nimo. Se h&aacute; na evangeliza&ccedil;&atilde;o a prefer&ecirc;ncia pelos mais pobres e marginalizados, v&oacute;s estais a trabalhar com eles; um convite ao profundo enraizamento na f&eacute;, porque se toda a evangeliza&ccedil;&atilde;o &eacute; colocar-se na pedagogia do Mist&eacute;rio Pascal, onde o despojamento total d&aacute; lugar &agrave; iniciativa divina de uma Vida Nova, v&oacute;s estais a tocar este mesmo mist&eacute;rio; um alerta para a miss&atilde;o que se faz em comunh&atilde;o eclesial e a partir da experi&ecirc;ncia de comunidade eucar&iacute;stica e mission&aacute;ria. Neste sentido, compete-vos n&atilde;o s&oacute; encontrar os dinamismos pastorais adequados para uma verdadeira evangeliza&ccedil;&atilde;o do cigano na totalidade do seu ser, mas de despertar em cada comunidade crist&atilde; que tem no seu territ&oacute;rio fam&iacute;lias ciganas a sentirem a responsabilidade da integra&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, atrav&eacute;s do acolhimento, da presen&ccedil;a, do empenhamento em caminhar com elas, proporcionando uma verdadeira experi&ecirc;ncia evang&eacute;lica.<\/p>\n<p>Termino com as palavras que Jo&atilde;o Paulo II dirigiu aos participantes num encontro para a pastoral entre os Ciganos, a 8 de Junho de 1995, &laquo;&eacute; necess&aacute;ria uma nova evangeliza&ccedil;&atilde;o orientada para cada um dos seus membros, como para uma querida por&ccedil;&atilde;o peregrinante do Povo de Deus; este empreendimento ajudar-vos-&aacute; a superar as tenta&ccedil;&otilde;es que hoje s&atilde;o fortes: fechar-se em si mesmo, procurar ref&uacute;gio nas seitas ou ainda dilapidar o seu patrim&oacute;nio religioso a fim de se voltar para um materialismo que impede reconhecer a presen&ccedil;a divina&raquo;.<\/p>\n<p>Que Nossa Senhora, Peregrina com Jesus, acompanhe e aben&ccedil;oe os trabalhos deste vosso Encontro.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+ Jo&atilde;o Lavrador, Bispo auxiliar do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa&uacute;do, em nome do Senhor Dom Manuel Bispo do Porto, que por impossibilidade de estar presente me pede que o represente, e no meu pr&oacute;prio, o Director Nacional, o Rev.mo Pe. 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