{"id":420349,"date":"2026-04-14T09:35:31","date_gmt":"2026-04-14T08:35:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=420349"},"modified":"2026-04-13T12:39:07","modified_gmt":"2026-04-13T11:39:07","slug":"quando-pensavamos-que-estavamos-livres-do-absurdo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quando-pensavamos-que-estavamos-livres-do-absurdo\/","title":{"rendered":"Quando pens\u00e1vamos que est\u00e1vamos livres do absurdo"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Padre Ricardo Figueiredo, Patriarcado de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_397532\" aria-describedby=\"caption-attachment-397532\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-397532\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-397532\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>No final do m\u00eas de mar\u00e7o, foi apresentado, no Conselho Superior de Seguran\u00e7a Interna, o Relat\u00f3rio Anual de Seguran\u00e7a Interna (RASI) de 2025. Trata-se de um documento relevante, n\u00e3o apenas para especialistas, mas para todos os cidad\u00e3os atentos \u00e0 salvaguarda de um dos bens mais preciosos da vida em sociedade: a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios dados e an\u00e1lises, h\u00e1 um elemento que sobressai \u2014 e que merece particular aten\u00e7\u00e3o \u2014 pela diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao relat\u00f3rio do ano anterior. L\u00ea-se na p\u00e1gina 31 do RASI 2025: \u00abVerificou-se um aumento da presen\u00e7a de utilizadores portugueses, sobretudo menores e jovens adultos, em grupos <em>online<\/em> de matriz aceleracionista e neonazi [\u2026], bem como em grupos sat\u00e2nicos, <em>incel<\/em> e niilistas ou p\u00f3s-ideol\u00f3gicos, que glorificam a viol\u00eancia\u00bb. Mais adiante, o mesmo documento acrescenta: \u00abImporta sublinhar que alguns utilizadores portugueses destes canais de propaganda j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o meros consumidores, mas tamb\u00e9m disseminadores de conte\u00fados violentos [\u2026] podendo mesmo contribuir para o recrutamento e o planeamento de novos atentados terroristas\u00bb.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio, no seu conjunto, exigiria uma an\u00e1lise alargada. Mas h\u00e1 um ponto que n\u00e3o pode ser ignorado: a refer\u00eancia expl\u00edcita ao crescimento de grupos sat\u00e2nicos. N\u00e3o se trata de um detalhe marginal. Trata-se de um sinal. E os sinais, quando s\u00e3o claros, exigem leitura.<\/p>\n<p>Para os crentes, a interpela\u00e7\u00e3o \u00e9 imediata. A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca tratou a realidade do mal como met\u00e1fora inofensiva. Como recordava o Papa Francisco: \u00abO nosso caminho para a santidade \u00e9 tamb\u00e9m uma luta constante\u00bb (<em>Gaudete et Exsultate<\/em>, 162). A linguagem pode soar estranha a ouvidos contempor\u00e2neos, mas o conte\u00fado permanece atual: h\u00e1 uma dimens\u00e3o real de combate espiritual, uma resist\u00eancia concreta ao mal, que n\u00e3o pode ser dilu\u00edda em categorias meramente psicol\u00f3gicas ou simb\u00f3licas. A f\u00e9 crist\u00e3 afirma, com sobriedade, a exist\u00eancia de uma oposi\u00e7\u00e3o real a Deus e ao bem, que atravessa a hist\u00f3ria e toca o cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m para os n\u00e3o crentes este fen\u00f3meno levanta quest\u00f5es incontorn\u00e1veis. Mesmo deixando de lado qualquer considera\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, importa perguntar: que significa o surgimento e crescimento de grupos que se identificam explicitamente com a exalta\u00e7\u00e3o do mal, da viol\u00eancia e da destrui\u00e7\u00e3o? Que vazio cultural, \u00e9tico ou existencial permite que tais propostas encontrem eco, sobretudo entre jovens?<\/p>\n<p>A intui\u00e7\u00e3o de C. S. Lewis permanece surpreendentemente atual. Em 1942, escrevia: \u00abH\u00e1 dois erros, iguais e opostos, em que a nossa ra\u00e7a pode incorrer quando de dem\u00f3nios se trata. Um \u00e9 descrer da sua exist\u00eancia. O outro \u00e9 crer neles e sentir por eles um interesse excessivo e doentio. A eles, ambos os erros lhes s\u00e3o agrad\u00e1veis\u00bb (<em>Vorazmente Teu<\/em>, Grifo, 1995, p. 11). Entre a nega\u00e7\u00e3o ing\u00e9nua e a obsess\u00e3o acr\u00edtica, abre-se um espa\u00e7o onde o mal pode agir com maior efic\u00e1cia: quando deixa de ser pensado, mas continua a ser vivido.<\/p>\n<p>Talvez seja isso que estamos a assistir. Durante d\u00e9cadas, considerou-se que a linguagem sobre o mal pessoal, sobre o dem\u00f3nio, pertencia a uma fase pr\u00e9-cr\u00edtica da humanidade. Procurou-se releg\u00e1-la para o passado, como res\u00edduo de uma vis\u00e3o do mundo ultrapassada. Contudo, a realidade tem uma forma persistente de regressar \u2013 n\u00e3o tanto sob a forma de afirma\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, mas atrav\u00e9s dos seus efeitos concretos. E quando esses efeitos chegam ao ponto de merecer refer\u00eancia num relat\u00f3rio nacional de seguran\u00e7a interna, deixam de poder ser ignorados.<\/p>\n<p>Este facto deveria, pelo menos, suscitar uma interroga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria sobre o tipo de sociedade que estamos a construir. A exclus\u00e3o sistem\u00e1tica de Deus do espa\u00e7o p\u00fablico, a redu\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o \u00e0 esfera estritamente privada, foram muitas vezes apresentadas como garantias de neutralidade e progresso. Mas a experi\u00eancia mostra que o vazio n\u00e3o permanece vazio por muito tempo.<\/p>\n<p>Quando o sobrenatural \u00e9 afastado, n\u00e3o ficamos simplesmente com o natural. Frequentemente, abre-se espa\u00e7o ao antinatural \u2013 a formas de pensamento e de vida que rompem com a dignidade da pessoa humana e com os fundamentos mais b\u00e1sicos da conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Sem alarmismos f\u00e1ceis, mas tamb\u00e9m sem ingenuidades, a refer\u00eancia a grupos sat\u00e2nicos no RASI deve ser lida como um sinal de alerta. N\u00e3o apenas sobre quest\u00f5es de seguran\u00e7a, mas sobre uma crise mais profunda: a crise do sentido, do bem e da verdade.<\/p>\n<p>Perante isto, a quest\u00e3o decisiva permanece: que sociedade queremos construir? Uma sociedade onde o mal se banaliza e se organiza, ou uma sociedade onde h\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o clara, firme e consequente pelo bem \u2013 pela dignidade de cada pessoa, pelo respeito m\u00fatuo, pela constru\u00e7\u00e3o paciente de uma verdadeira civiliza\u00e7\u00e3o do amor?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o pode ser adiada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Pe. Ricardo Figueiredo<\/em><br \/>\n<em>Diretor | Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o do Patriarcado de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Ricardo Figueiredo, Patriarcado de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":397532,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-420349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=420349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/420349\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/397532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=420349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=420349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=420349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}