{"id":420233,"date":"2026-04-12T09:00:36","date_gmt":"2026-04-12T08:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=420233"},"modified":"2026-04-12T17:04:04","modified_gmt":"2026-04-12T16:04:04","slug":"entrevista-dois-mandatos-na-presidencia-da-conferencia-episcopal-portuguesa-de-d-jose-ornelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-dois-mandatos-na-presidencia-da-conferencia-episcopal-portuguesa-de-d-jose-ornelas\/","title":{"rendered":"Entrevista: Dois mandatos na presid\u00eancia da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa de D. Jos\u00e9 Ornelas"},"content":{"rendered":"<p><em>D. Jos\u00e9 Ornelas est\u00e1 a terminar o segundo mandato como Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP). Foi eleito na pandemia e, nos seis anos que se seguiram, viu a reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Portugal alterar-se profundamente. <\/em><em>Celebrou os 50 anos do 25 de Abril, acolheu o Papa Francisco, viveu a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e, sobretudo, o processo sinodal que a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a viver. Tudo tendo sempre presente o tema dos abusos sexuais nos ambientes da Igreja Cat\u00f3lica.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><!--more--><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_58898\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wXpaprJ75Rc?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) &#8211; Terminou o primeiro mandato com a apresenta\u00e7\u00e3o do estudo da Comiss\u00e3o Independente; est\u00e1 a terminar este segundo, com a defini\u00e7\u00e3o das compensa\u00e7\u00f5es \u00e0s v\u00edtimas que o solicitaram. Tudo isto foi um programa destes dois mandatos da presid\u00eancia da CEP, ou imp\u00f4s-se pela sociedade e por determina\u00e7\u00e3o do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>D. Jos\u00e9 Ornelas (JO) &#8211; \u00c9 um conjunto de tudo isso e significa tamb\u00e9m o viver em Igreja e o procurar responder \u00e0s vicissitudes que se vivem. Dizer que isto foi provocado pela press\u00e3o social ou medi\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 correto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas imaginou, quando iniciou a presid\u00eancia da CEP, que isto teria de ser o grande trabalho que teria pela frente? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o considero que seja o grande trabalho: o grande trabalho \u00e9 o trabalho em Igreja que n\u00f3s fazemos. Mas este, realmente, era um tema que era necess\u00e1rio tratar-se em Igreja. Essa prem\u00eancia era sentida pelos bispos, era sentida tamb\u00e9m pelo momento que se vivia tamb\u00e9m j\u00e1 pela Europa fora e alguns ainda tinham em mente que n\u00f3s \u00e9ramos uma exce\u00e7\u00e3o a tudo isto, que isto n\u00e3o existia por aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O D. Jos\u00e9 estava convencido que n\u00e3o era assim? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o, at\u00e9 porque pela experi\u00eancia internacional que tinha tido \u00e0 frente de uma congrega\u00e7\u00e3o (religiosa) onde estes temas, e a sua forma\u00e7\u00e3o, era um tema presente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, estando em Roma, uma pessoa n\u00e3o se pode abstrair dos discursos que a este n\u00edvel foram fazendo os sucessivos Papas. Sobretudo a partir do Papa Bento XVI e depois do Papa Francisco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Que levou \u00e0 pr\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Que levou \u00e0 pr\u00e1tica os princ\u00edpios. Recordo bem, a indigna\u00e7\u00e3o do Papa Bento XVI e a sua clara posi\u00e7\u00e3o sobre este tema. Claro que depois, da\u00ed at\u00e9 se chegar a tomar tudo isto em m\u00e3os e dizer que era preciso fazer algo diferente e depois de terem come\u00e7ado com as comiss\u00f5es diocesanas, que receberam muito poucas den\u00fancias, cheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o, que &#8211; foi evidente para todos os bispos &#8211; por aqui n\u00e3o cheg\u00e1vamos l\u00e1, que era preciso criar algo diferente. E o querer chegar a uma comiss\u00e3o dessas que estudasse primeiro o contexto, acho que foi uma situa\u00e7\u00e3o acertada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; A cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Independente (CI), em novembro de 2021, na Assembleia Plen\u00e1ria, e mesmo depois no Grupo Vita tamb\u00e9m, foram definidas metodologias de trabalho, ou foi acontecendo uma \u201cnavega\u00e7\u00e3o \u00e0 vista\u201d, mediante aquilo que ia acontecendo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o. Os objetivos eram claros e, ali\u00e1s, fez-se tamb\u00e9m, tanto num caso como no outro, uma esp\u00e9cie de guia, de mapa de procedimentos e de objetivos. Quando se foi para a segunda, [a cria\u00e7\u00e3o do Grupo Vita], j\u00e1 t\u00ednhamos uma experi\u00eancia que levou a uma regulamenta\u00e7\u00e3o melhor. Os problemas que foram acontecendo, referem-se ao facto de ser um problema novo, tamb\u00e9m a n\u00edvel nacional &#8211; um estudo assim, como n\u00f3s fizemos, n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420088\" aria-describedby=\"caption-attachment-420088\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420088 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-12.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420088\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Este limitou-se aos ambientes da Igreja Cat\u00f3lica? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Sobre a Igreja Cat\u00f3lica, mas mesmo em estudos de \u00e2mbito nacional, e com o significado que a Igreja Cat\u00f3lica tem na sociedade portuguesa, n\u00e3o era uma coisa assim t\u00e3o simples.<br \/>\nO querer faz\u00ea-lo, e faz\u00ea-lo com uma comiss\u00e3o independente, multidisciplinar, e que tivesse capacidade tamb\u00e9m de independ\u00eancia &#8211; e ali\u00e1s isso foi muito privado, porque era uma comiss\u00e3o de estudo, e talvez a\u00ed muitos dos mal-entendidos que se criaram t\u00eam a ver tamb\u00e9m com os meios de comunica\u00e7\u00e3o, e em geral, o p\u00fablico n\u00e3o ter percebido que era uma comiss\u00e3o de estudo, n\u00e3o era uma comiss\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas isso retira realismo aos n\u00fameros que apresentaram? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o retira, isso era necess\u00e1rio. Sobretudo a publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da comiss\u00e3o foi um murro no est\u00f4mago. Para quem estava na primeira linha e com responsabilidade na Igreja, ouvir aquelas descri\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foi nada simp\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas era essencial para uma mudan\u00e7a de paradigma na forma de abordar o problema? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 N\u00e3o foi simp\u00e1tico, n\u00e3o por causa da comiss\u00e3o, mas pelos assuntos que a comiss\u00e3o trouxe. E se isto \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil para n\u00f3s de ouvir, quem o sofreu, muito mais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E era necess\u00e1rio que a Igreja e a sociedade pusessem, de facto, o dedo na ferida, para sentir com empatia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Era a forma de terminar com a cultura do encobrimento? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o s\u00f3 do encobrimento, mas do desconhecimento. De pensar que se pode resolver as coisas simplesmente deslocando pessoas, por exemplo. N\u00e3o pode ser assim. O que apareceu foi importante para o resto que se seguiu. A fase seguinte j\u00e1 era uma fase de interven\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo direto com as pessoas &#8211; a primeira era de forma an\u00f3nima, e da\u00ed tamb\u00e9m as confus\u00f5es sobre a quest\u00e3o do anonimato, quem eram estas pessoas que se tinham manifestado \u00e0 CI, e toda a consequ\u00eancia medi\u00e1tica que se gerou a esse respeito. A metodologia que servia para a CI n\u00e3o servia para as etapas seguintes: para a CI era fundamental o anonimato para que as pessoas pudessem falar livremente; na comiss\u00e3o seguinte trata-se de lidar diretamente com as pessoas, e ent\u00e3o a metodologia era escutar mesmo as pessoas, conhecer os problemas e dar pistas que pudessem servir para mitigar e ultrapassar a situa\u00e7\u00e3o que este drama tinha causado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por isso mesmo, agora era sobretudo uma quest\u00e3o de formar profissionais de sa\u00fade mental, psicol\u00f3gica, psiqui\u00e1trica, para ir ao encontro destas pessoas, facultar-lhes profissionais que tinham tido uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para este tipo de dramas &#8211; concretamente psic\u00f3logos e psiquiatras. E este foi um dos primeiros trabalhos, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, do Grupo Vita.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esta \u00e9 uma metodologia nova, para que se pudesse ter, com autonomia pr\u00f3pria, mas em liga\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria com a CEP e os Institutos de Vida Consagrada, para dar perspetivas e ajudar as pessoas a caminhar, n\u00e3o ignorando o passado, mas para se chegar a isto que temos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; E uma das formas de repara\u00e7\u00e3o foi a defini\u00e7\u00e3o de compensa\u00e7\u00f5es financeiras. O jornal Expresso, na \u00faltima ter\u00e7a-feira, informava que a Assembleia Plen\u00e1ria da CEP cortou nas indica\u00e7\u00f5es das compensa\u00e7\u00f5es que foi dada pela Comiss\u00e3o de Fixa\u00e7\u00e3o das Compensa\u00e7\u00f5es. Que crit\u00e9rios presidiriam a esta redefini\u00e7\u00e3o dos valores? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Importa, primeiro, perceber todo o processo. O entendimento da CEP e dos Institutos de Vida Consagrada \u00e9 que este n\u00e3o era um processo feito numa linha de indemniza\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, como acontece quando os valores s\u00e3o impostos por um tribunal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Em causa est\u00e3o acontecimentos que j\u00e1 prescreveram&#8230; <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; J\u00e1 estavam prescritos &#8211; a maior parte dos abusadores j\u00e1 tinha falecido. A prescri\u00e7\u00e3o era a regra. H\u00e1 alguns casos em que os abusadores est\u00e3o vivos, e tem o seu tratamento pr\u00f3prio descrito no Regulamento. Foi necess\u00e1rio pensar isso tudo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ter em conta tamb\u00e9m que, sendo assim, esta iniciativa n\u00e3o decorre simplesmente de uma apresenta\u00e7\u00e3o em tribunal, mas \u00e9 um ato livre e aut\u00f3nomo da CEP para ir ao encontro destas pessoas, entendendo que, para al\u00e9m das consultas e do tratamento que se pode oferecer, que esta no\u00e7\u00e3o de reparar era muito importante.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Reparar, antes de mais, significa reconhecer: reconhecer o mal que estas pessoas sofreram e a injusti\u00e7a que isso significou; reconhecer que \u00e9 penoso tamb\u00e9m para n\u00f3s que se tenha passado dentro da Igreja. Se houve responsabilidade aqui, ali, tinha de se ver caso a caso, mas a responsabilidade \u00e9 antes de mais daqueles que abusaram, e que, na sua maioria, j\u00e1 morreram, ou n\u00e3o t\u00eam a possibilidade de serem eles a realizar essa repara\u00e7\u00e3o, que testemunhe tamb\u00e9m a pena por aquilo que fizeram. Da parte da Igreja, isto \u00e9 algo importante.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O objetivo de tudo isto \u00e9 mostrar \u00e0s pessoas, n\u00e3o o pagar \u2013 porque estas coisas n\u00e3o se pagam \u2013 mas reconhecer o mal que foi feito e ajudar a super\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Houve uma comiss\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o que avaliou.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Houve primeiro uma apresenta\u00e7\u00e3o e um estudo em contato direto, que foi feito pela comiss\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o do processo, que foi feito sempre por algu\u00e9m do Grupo Vita, e uma pessoa ou das comiss\u00f5es, ou da diocese, ou, sendo o caso, do instituto religioso, com o objetivo de dar o contexto e ajudar a encontrar os melhores caminhos em ordem a descrever e perceber a conex\u00e3o com os valores que depois foram estabelecidos pela segunda comiss\u00e3o, a comiss\u00e3o de atribui\u00e7\u00e3o das compensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isto significa, portanto, que esta comiss\u00e3o, que n\u00e3o contata diretamente [com as v\u00edtimas], mas contata com o relat\u00f3rio da comiss\u00e3o anterior, \u00e9 uma comiss\u00e3o a quem n\u00e3o se estabeleceu um limite de valores, mas deu-se orienta\u00e7\u00f5es. Uma orienta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica referia-se ao contexto do pa\u00eds, dentro da jurisprud\u00eancia dos tribunais portugueses, e do que \u00e9 habitual nestas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essas compensa\u00e7\u00f5es, ou nesse caso, indemniza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o impostas pelos tribunais, podem ser baixas, e portanto n\u00e3o me custa que sejam elevadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Um outro crit\u00e9rio que se apontou era que, dentro do contexto das Igrejas na Europa, que isso fosse tamb\u00e9m um dado a ter em conta, e tendo em conta tamb\u00e9m as diferen\u00e7as de n\u00edvel de vida. E foi nesse contexto que n\u00f3s fizemos uma an\u00e1lise, e foi um trabalho muito bem feito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 O trabalho da Comiss\u00e3o de Compensa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Das compensa\u00e7\u00f5es. Porque n\u00f3s n\u00e3o toc\u00e1mos no racional, na an\u00e1lise feita caso a caso. Os pr\u00f3prios membros da comiss\u00e3o disseram, em todos os pareceres para cada uma das v\u00edtimas, que o valor n\u00e3o era nem definitivo, nem o estabelecimento da repara\u00e7\u00e3o, mas era da compet\u00eancia da CEP e dos superiores dos Institutos de Vida Consagrada, que tinham de decidir o valor. Foi o que cada um fez.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s julg\u00e1mos tamb\u00e9m que, nesse contexto, para ter em conta aquilo que se passava na Igreja em Portugal, na jurisprud\u00eancia portuguesa, e a resposta das Igrejas na Europa, que dev\u00edamos baixar. Foi uma redu\u00e7\u00e3o significativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Dentro do valor que a comiss\u00e3o apresentou?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Dentro do valor que apresentou a comiss\u00e3o. A decis\u00e3o publicada nos comunicados foi da CEP e dos representantes da Vida Consagrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 O valor das compensa\u00e7\u00f5es, que acaba por vir a p\u00fablico, como todo o processo, teria sido mais pedag\u00f3gico por parte da CEP ter sido transparente em todos os passos do processo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Transparente n\u00f3s fomos sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420089\" aria-describedby=\"caption-attachment-420089\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-420089 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-13.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420089\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; N\u00e3o informaram que houve esta diminui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o inform\u00e1mos porque o que se tinha acordado \u00e9 que os dados referentes ao trabalho de cada comiss\u00e3o, ficava dentro dela. \u00c9 sigiloso por respeito para com as pr\u00f3prias pessoas. As orienta\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos, que foram dadas pelo regulamento e que fomos observando, eram claras. Talvez n\u00e3o tenha sido clara, a formula\u00e7\u00e3o que indicava que cada comiss\u00e3o tinha sido ouvida, e que com base nisso, a CEP fixou os montantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Estava dito, \u00e0 partida, que a \u00faltima palavra era da Assembleia Plen\u00e1ria da CEP.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 E foi isso que foi feito, segundo os regulamentos. Se perguntam se foram os mesmos [valores] \u2013 eu n\u00e3o tenho problema, disse sempre, isso vai-se saber \u2013 n\u00f3s reduzimos, isso foi falado e explicado aos membros da comiss\u00e3o, individualmente, por mim pr\u00f3prio, e explicado as raz\u00f5es pelas quais se fez a redu\u00e7\u00e3o. Eles aceitaram que era nosso dever, uns concordaram mais ou menos, isso \u00e9 claro, como em todos os processos, mas fomos muito claros sobre isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Um aspeto, vindo a p\u00fablico, questiona se algu\u00e9m de uma congrega\u00e7\u00e3o religiosa que queira manter a fixa\u00e7\u00e3o que foi definida pela comiss\u00e3o, ela vai mant\u00ea-la? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Em \u00faltima an\u00e1lise, tamb\u00e9m cada bispo tem a mesma possibilidade para fazer isso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Combin\u00e1mos na CEP que eu assinaria todos os processos, n\u00e3o os referentes aos Institutos de Vida Consagrada, mas os outros, e eu assinei todos, depois de os bispos terem sido consultados. Cada bispo teve acesso aos casos referentes \u00e0 sua diocese, e s\u00f3 aos seus casos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O mesmo tamb\u00e9m para os institutos religiosos? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Cada instituto religioso recebeu os casos que lhe diziam respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas o fundo para as compensa\u00e7\u00f5es \u00e9 um fundo comum? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Metade deste fundo de compensa\u00e7\u00f5es foi suportado pelos fundos pr\u00f3prios da CEP. A outra parcela de 50% ser\u00e1 suportada em cerca de 70% das dioceses e 30% dos Institutos de Vida Consagrada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando \u00e9 necess\u00e1rio fazer alguma coisa em comum entre dioceses, temos uma tabela que aplicamos e tem em considera\u00e7\u00e3o a dimens\u00e3o e as capacidades de cada diocese; isso foi transformado em percentagens e aplica-se, independentemente de quantos casos t\u00eam. H\u00e1 dioceses que n\u00e3o t\u00eam casos, mas que colaboram tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Por isso \u00e9 um fundo solid\u00e1rio? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; \u00c9 um fundo solid\u00e1rio, precisamente por isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Os pagamentos s\u00e3o feitos a partir da CEP?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Os que dizem respeito \u00e0s dioceses s\u00e3o feitos a partir da CEP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Os restantes, a partir da Confer\u00eancia dos Institutos Religiosos de Portugal ou das congrega\u00e7\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Sim. \u00c9 importante ter em conta, no tal redimensionamento dos montantes, a realidade do pa\u00eds onde vivemos e da Igreja que somos. Portanto, quem est\u00e1 a suportar isto, n\u00e3o s\u00f3 o bolso dos bispos, e portanto n\u00f3s administramos com toda a dignidade e com empatia sobre aquilo que isto significa, tamb\u00e9m de esfor\u00e7o da Igreja para com estas pessoas que sofreram o que sofreram injustamente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas tamb\u00e9m temos de ter em conta a Igreja que est\u00e1 a suportar e julgamos que estes montantes, que s\u00e3o superiores \u00e0queles que se praticam na generalidade dos tribunais portugueses, s\u00e3o aquilo tamb\u00e9m que \u00e9 poss\u00edvel dizer \u00e0 Igreja que estamos a pagar algo de valioso para o mal que foi feito. E queremos significar com isso que damos um grande valor a esse sofrimento. E \u00e9 por isso que queremos colaborar, \u00e9 por isso que tem de ser algo de consistente, mas n\u00e3o pode ser um valor que v\u00e1 para al\u00e9m daquilo que \u00e9 poss\u00edvel dentro da nossa Igreja.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, tendo em conta que noutros pa\u00edses, como a Alemanha, que apresenta valores entre cinco e 50 mil euros, e a Fran\u00e7a com cinco e 60 mil euros, os valores que apresentamos entre nove e 45 mil euros, m\u00ednimo e m\u00e1ximo, n\u00e3o est\u00e3o fora (dos valores comparativos). Estamos a dar mais do que eles est\u00e3o a dar, e tendo em conta a diferen\u00e7a de n\u00edvel de vida, n\u00e3o estamos nada desajustados disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Tendo sido um tema que percorreu os mandatos da presid\u00eancia da CEP, qual foi a maior dificuldade que se sentiu ao liderar todo este processo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Dificuldades temos sempre. Primeiro em coordenar expetativas com a realidade dos factos. Os bispos n\u00e3o pensam todos do mesmo modo, acho que isso \u00e9 uma vantagem, porque significa que vamos examinar e escrutinar as coisas de diferentes pontos de vista, mas acab\u00e1mos por chegar ao fim e conseguir p\u00f4r-nos de acordo para encontrar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O processo sinodal ajudou-nos: somos diferentes, temos perspetivas diferentes, temos dioceses tamb\u00e9m onde os crist\u00e3os pensam de forma diferente, e estamos a responder a uma Igreja que, neste processo todo, reagiu com diferentes manifesta\u00e7\u00f5es: recebemos manifesta\u00e7\u00f5es de concord\u00e2ncia, de apoio de muita, muita, muita gente, mas tamb\u00e9m recebemos muitos protestos &#8211; a dizer por que \u00e9 que se meteram nisto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quem tem de tomar decis\u00f5es tem de tom\u00e1-las diante de Deus mas tamb\u00e9m diante do momento que a Igreja est\u00e1 a viver, e achamos que, tamb\u00e9m no pa\u00eds, \u00e9 um processo fundamental (a ser feito) e n\u00e3o seja s\u00f3 a Igreja faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ali\u00e1s, pessoas da CI dizem que era importante (que o que a Igreja est\u00e1 a fazer, outros fizessem). Podem concordar ou n\u00e3o, pode ter aspetos a concordar mais ou menos, mas que \u00e9 preciso fazer este trabalho na sociedade portuguesa, no mundo e na Igreja no seu conjunto, isso n\u00e3o tenho d\u00favidas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aquilo que me deu tamb\u00e9m \u00e2nimo foi na CEP, conseguimos sempre tomar, n\u00e3o digo sempre por unanimidade &#8211; n\u00e3o me preocupa isso &#8211; mas com consist\u00eancia de todos colaborarem na decis\u00e3o tomada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Segundo, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os bispos. Eu tenho de agradecer tanto \u00e0 CI, como ao Grupo Vita, como \u00e0s comiss\u00f5es diocesanas &#8211; de que pouco se fala &#8211; e \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o nacional destas comiss\u00f5es, o grande trabalho que se fez.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isto s\u00e3o passos em Igreja onde se aprendeu sobre deixar mais espa\u00e7o para os leigos competentes nesta mat\u00e9ria, que n\u00f3s acompanh\u00e1mos e aos quais damos confian\u00e7a e suporte, mas \u00e9 muito importante que a Igreja trabalhe com todas as val\u00eancias, as possibilidades e tanta generosidade que estas pessoas tiveram. A todos, destas comiss\u00f5es agora tamb\u00e9m para as compensa\u00e7\u00f5es, tenho uma grande gratid\u00e3o que vou conservar para a vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 dias telefonou-me algu\u00e9m do grupo que foi examinar os arquivos diocesanos, porque foi um ponto muito sens\u00edvel e muito discutido, e eles fizeram um trabalho profissional de uma limpidez e de muita import\u00e2ncia &#8211; tamb\u00e9m assumiram que partiram para este trabalho com muito medo, mas nunca encontraram \u2018quem \u00e9 o bicho que nos vai abrir os arquivos?\u2019. Isto para mim foi, como membro da Igreja, uma grande alegria ouvir e n\u00e3o encontr\u00e1vamos atropelos pelo caminho, bem pelo contr\u00e1rio, tivemos a colabora\u00e7\u00e3o das dioceses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420082\" aria-describedby=\"caption-attachment-420082\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-420082 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-6.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420082\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O Grupo Vita est\u00e1 a terminar o seu mandato. O que \u00e9 que se vai seguir, quando o pr\u00f3prio Grupo Vita j\u00e1 afirmou a necessidade de uma continuidade no trabalho de forma aut\u00f3noma?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o compete a mim dizer. Na pr\u00f3xima semana teremos um outro presidente e outro Conselho [Permanente] da CEP, mas isso \u00e9 um processo normal. Foi bom ter-se conclu\u00eddo este processo aqui, embora depois as sequelas da sua concretiza\u00e7\u00e3o v\u00e3o demorar, tendo em conta as comunica\u00e7\u00f5es das compensa\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas j\u00e1 temos uma estrutura mais consolidada a n\u00edvel das comiss\u00f5es diocesanas e da sua coordena\u00e7\u00e3o. Esse certamente vai ser um ponto importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Poder\u00e1 caber \u00e0s comiss\u00f5es diocesanas e \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o nacional um papel mais relevante nesse processo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Sim, certamente, at\u00e9 porque h\u00e1 um grande papel de forma\u00e7\u00e3o, de preven\u00e7\u00e3o, de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o p\u00fablica e de uma mentalidade e cultura nova neste campo e [as pessoas das comiss\u00f5es] s\u00e3o sobretudo essas pessoas que est\u00e3o no terreno.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para apoio \u00e0s v\u00edtimas que eventualmente possam aparecer no futuro, penso que \u00e9 bom ter algu\u00e9m com capacidade &#8211; e n\u00e3o digo que seja como o Vita, que entra numa nova etapa, cuja miss\u00e3o temos de decidir, e ser\u00e1 a nova dire\u00e7\u00e3o da CEP, com os bispos, mas tamb\u00e9m com as pr\u00f3prias comiss\u00f5es e dioceses, que v\u00e3o entender qual \u00e9 a melhor forma de organizar, porque o trabalho n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esta quest\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o de menores tem de ser um ponto fundamental e assim deve ser em todas as sociedades, em todas as organiza\u00e7\u00f5es, ter instrumentos v\u00e1lidos para o fazer. O caso que se passou com a Igreja pode deixar alguma sugest\u00e3o v\u00e1lida para esse caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas para promover esta escuta de casos de abuso, ser\u00e1 sempre mais aconselh\u00e1vel, pessoas com alguma autonomia a dist\u00e2ncia da pr\u00f3pria Igreja cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Pode ser, mas depende. Depois deste processo, houve algumas pessoas se dirigiram a bispos, \u00e0s comiss\u00f5es diocesanas e \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o. Entramos numa nova etapa. \u00c9 preciso ver quem s\u00e3o, e organizar os elementos para trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Depois da pandemia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Vamos fazer um percurso sobre alguns momentos destes \u00faltimos seis anos, nos dois mandatos como presidente da CEP, que come\u00e7ou com o tempo de pandemia em que foi necess\u00e1rio reconfigurar at\u00e9 mesmo o culto, com um per\u00edodo em que esteve fechado. O Papa Francisco reafirmou v\u00e1rias vezes que de uma crise como a pandemia n\u00e3o se sai igual, sai-se diferente. Como \u00e9 que se saiu dessa crise, na sua opini\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Com algumas coisas positivas e outras que ainda n\u00e3o recuper\u00e1mos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por exemplo, duas perspetivas: eu estava na diocese Set\u00fabal, e tinha-se sempre contatos, at\u00e9 muito significativos com as comunidades. T\u00ednhamos o grupo s\u00f3cio-caritativo, a confer\u00eancia vicentina, ou a C\u00e1ritas paroquial, mas eram sobretudo pessoas j\u00e1 reformadas que faziam esse trabalho de acolhimento das pessoas de quem era preciso ir ao encontro. Agora, era mais do que nunca necess\u00e1rio atend\u00ea-las, mas as pessoas diziam que os mais velhos, sendo os mais expostos aos perigos, n\u00e3o o deviam fazer. E muitos jovens participaram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; E ficaram? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; E ficaram. Lembram-me, por exemplo, de um grupo de escuteiros que se organizou para, de vez em quando, ir levar sandes aos profissionais de sa\u00fade que ficavam nos hospitais e que n\u00e3o iam a casa. Foram per\u00edodos tamb\u00e9m de grande generosidade e solidariedade e viu-se muitos jovens a entrarem nisso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi um per\u00edodo em que se pensou uma evangeliza\u00e7\u00e3o diferente: as celebra\u00e7\u00f5es online. T\u00ednhamos saudades de voltar, claro, e quando volt\u00e1mos, foi feito muita parcim\u00f3nia, mas ficou o acolhimento \u00e0s pessoas. Quando se entra na igreja simplesmente sem freios, como se vai a um supermercado e vem-se embora, que agora encontra-se as m\u00e1quinas autom\u00e1ticas para fazer as contas e acabou-se.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Criou-se uma rotina, e \u00e9 pena que na maior parte das comunidades se tenha deixado pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De dificuldades que n\u00e3o cur\u00e1mos, muitas pessoas acharam que agora tinham a missa diretamente em casa, com a vantagem que at\u00e9 podiam andar para tr\u00e1s e para a frente e fazer \u2018zapping\u2019 quando n\u00e3o interessava nos tempos mortos da liturgia e perdeu-se de facto em muitas pessoas, em muitas fam\u00edlias, o contato com a comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Houve uma diminui\u00e7\u00e3o na frequ\u00eancia da Eucaristia? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Isso depende muito tamb\u00e9m das din\u00e2micas de cada par\u00f3quia. Por exemplo, o p\u00f3s-pandemia j\u00e1 o vivi na diocese de Leiria \u2013 F\u00e1tima onde o ambiente \u00e9 bastante diferente de Set\u00fabal. Mas diz-se que a frequ\u00eancia diminuiu e que muita gente n\u00e3o retomou o caminho habitual. Isto vem mostrar a necessidade de ver, com a pandemia, o tipo de f\u00e9 que as pessoas t\u00eam, a consolida\u00e7\u00e3o e a liga\u00e7\u00e3o com uma comunidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_420087\" aria-describedby=\"caption-attachment-420087\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420087 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-11.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420087\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Parlamento<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 O per\u00edodo da pandemia coincidiu com o in\u00edcio de uma reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Portugal, com mudan\u00e7a de extremos. Que consequ\u00eancias tem para a democracia em Portugal essa altera\u00e7\u00e3o, mesmo a altera\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o parlamentar? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 \u00c9 um fruto do nosso tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Uma resigna\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Para mim, fruto de uma desilus\u00e3o com o \u2018status quo\u2019 que n\u00e3o resolve os problemas. Uma desilus\u00e3o com a afirma\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que se esquecem de estar no meio das pessoas, com um centralismo que tantas vezes \u00e9 feito com um desapre\u00e7o pelo trabalho que se pede \u00e0s autarquias mais pr\u00f3ximas da popula\u00e7\u00e3o, mas a quem n\u00e3o se d\u00e1 os meios para isso. Naturalmente alguns casos de corrup\u00e7\u00e3o que acontecem constantemente, mas tudo isso em concomit\u00e2ncia tamb\u00e9m com uma vaga mundial de uma forma de governo que n\u00f3s pens\u00e1vamos ter rejeitado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A\u00ed come\u00e7a um populismo irracional perante as dificuldades e a dece\u00e7\u00e3o diante dos poderes p\u00fablicos. Isso tem como consequ\u00eancia o que temos hoje: seja extremismo de direita, seja de esquerda -se \u00e9 que ainda valem estes conceitos de direita ou de esquerda, porque no fundo \u00e9 um apropriar-se de coisas e uma manipula\u00e7\u00e3o da realidade para servir-se para uma conquista de poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Se olharmos a hist\u00f3ria das movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em Portugal, concorda que assistimos primeiro a um aproximar do centro-esquerda \u00e0 extrema-esquerda e agora do centro-direita \u00e0 extrema-direita? Estamos nesse movimento pendular? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Estamos sempre, isso ali\u00e1s \u00e9 uma constante tamb\u00e9m na hist\u00f3ria. Nota um cansa\u00e7o dos nossos jovens que n\u00e3o se querem comprometer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Acha que \u00e9 um voto de protesto? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; \u00c9 muito um voto de protesto, mas \u00e9 um voto tamb\u00e9m associado a um auto-centrismo, eu e o meu mundo, um mundo que se pode plasmar segundo a minha configura\u00e7\u00e3o nas redes sociais &#8211; n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que isto surge nesta altura e n\u00f3s temos de encontrar um pa\u00eds humano que n\u00e3o se desumanize deste modo, com l\u00edderes e com tecnologias que hoje multiplicam por milh\u00f5es e milh\u00f5es o poder granjeador dessas conflu\u00eancias pol\u00edticas &#8211; mas tamb\u00e9m as rea\u00e7\u00f5es &#8211; j\u00e1 se come\u00e7am a ver, mesmo na juventude &#8211; de um regresso, uma sede de espiritualidade, de novos caminhos para voltar a uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que \u00e9 preciso caracterizar, mas h\u00e1 coisas que est\u00e3o a mudar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ali\u00e1s, o resultado de todo esse tipo de movimentos sociais est\u00e1 a ver agora com estas pol\u00edticas mundiais que t\u00eam levado a conflitos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esse populismo e extremos v\u00e3o levar a uma conflitualidade cada vez maior, que est\u00e1 a acontecer a n\u00edvel de todo o planeta e os fen\u00f3menos das guerras que neste momento est\u00e3o a p\u00f4r em cheque a exist\u00eancia de grandes blocos e de regi\u00f5es inteiras como o M\u00e9dio Oriente, como a Ucr\u00e2nia, como a \u00c1frica &#8211; Mo\u00e7ambique e tantos outros lugares &#8211; por aqui n\u00e3o vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Por altura dos 50 anos do 25 de Abril, denunciou a manipula\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel que gera o descontentamento, o protesto e o aproveitamento, por parte de algumas for\u00e7as pol\u00edticas. Seria uma ocasi\u00e3o para celebrar a maturidade democr\u00e1tica e foi, pelo contr\u00e1rio, uma ocasi\u00e3o em que se fragilizou mais essa democracia? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Eu n\u00e3o sei se fragilizou, mas mostrou os problemas que n\u00f3s temos de facto e que n\u00e3o foram solucionados. A quest\u00e3o \u00e9 ver como \u00e9 que n\u00f3s, do ponto de vista pol\u00edtico, do ponto de vista econ\u00f3mico, do ponto de vista cultural, estamos de facto a lidar com estes problemas que s\u00e3o muito s\u00e9rios e de fazer com que as pessoas sejam capazes de encarar, com o esp\u00edrito cr\u00edtico quem nos governa, a nossa pol\u00edtica, a nossa economia, mas tamb\u00e9m de dar fundamento a essa cr\u00edtica e a esse estudo, de tal maneira que possamos encontrar solu\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o simplesmente um voto de protesto, de onde n\u00e3o saiam ideias que nos tirem desta crise. \u00c9 uma sementeira de divis\u00e3o, de \u00f3dio, de falta de fundamento da an\u00e1lise pol\u00edtica, social e econ\u00f3mica que se faz e o resultado, n\u00e3o pode ser sen\u00e3o desastroso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; As elei\u00e7\u00f5es presidenciais e o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais \u00faltimas mostraram de alguma forma um ajustar nesse perfil do voto dos eleitores? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Sim, mas tamb\u00e9m mostrou que esse extremismo \u00e9 recuper\u00e1vel, se houver, de facto, uma pol\u00edtica e um modo de estar na pol\u00edtica e de estar na vida social com credibilidade e com solidariedade. De facto os problemas que a gente tem para resolver na sociedade n\u00e3o s\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420081\" aria-describedby=\"caption-attachment-420081\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420081 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-5.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420081\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Lei da Nacionalidade \u201cn\u00e3o \u00e9 racional\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Perguntava-lhe sobre esta lei da nacionalidade que foi aprovada no Parlamento. Concorda com esta nova lei da nacionalidade, sobretudo com essa possibilidade de perda da nacionalidade por quem pratica crimes com penas iguais ou superas de cinco anos? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Preocupa-me se nos deixamos contaminar pelo populismo que apresenta um rem\u00e9dio que n\u00e3o tem a ver com a doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 \u00c9 o que est\u00e1 em causa com esta lei?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 A lei ir\u00e1 aos \u00f3rg\u00e3os de soberania e de controlo, neste caso ao Tribunal Constitucional, e espero que isso seja bem visto. O que \u00e9 normal\u00edssimo \u00e9 que se se declara como cidad\u00e3o que chegou de outras latitudes e de outras culturas, que ele aceite, antes de mais, o nosso sistema pol\u00edtico e inserir-se nele, mas tamb\u00e9m tem de ser tratado com equidade. N\u00e3o h\u00e1 cidad\u00e3os a meio &#8211; a nossa Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o prev\u00ea cidad\u00e3os com metade dos direitos e outros que os perdem. Se algu\u00e9m falha, naquilo que \u00e9 pr\u00f3prio de um cidad\u00e3o, deve sofrer, como qualquer outro cidad\u00e3o &#8211; se tem penas para assumir, deve assumi-las, mas n\u00e3o perde a nacionalidade por isso, caso contr\u00e1rio, todos aqueles que v\u00e3o para as cadeias a n\u00edvel nacional tamb\u00e9m t\u00ednhamos de os mandar embora. N\u00e3o \u00e9 racional.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O problema do populismo \u00e9 que n\u00e3o procura uma solu\u00e7\u00e3o justa; procura uma solu\u00e7\u00e3o que d\u00ea votos, adaptada a solucionar uma realidade, mas n\u00e3o com o objetivo de encontrar uma justi\u00e7a para todos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que eu vi tamb\u00e9m na lei de imigrantes, que era necess\u00e1ria para regular a imigra\u00e7\u00e3o, sobretudo para proteger os pr\u00f3prios imigrantes que chegam, para que n\u00e3o sejam v\u00edtimas de m\u00e1fias que sabemos que existem e que se aproveitam deles.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Estado deve assegurar que os imigrantes n\u00e3o entrem em m\u00e1fias internas que exploram o seu trabalho e n\u00e3o lhes d\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de vida decentes. Mas h\u00e1 muitos empres\u00e1rios e h\u00e1 muitas institui\u00e7\u00f5es onde vivem esses imigrantes, onde s\u00e3o bem tratados e apreciados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nestes dias, onde est\u00e3o por resolver os problemas causados pela tempestade Kristin, no fim de janeiro, em que \u00e9 preciso limpar as florestas caso contr\u00e1rio \u00e9 um barril de p\u00f3lvora para o ver\u00e3o que se aproxima, n\u00e3o temos pessoas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Estado tem de disciplinar a pol\u00edtica de abrir, mas tem tamb\u00e9m de incentivar um correto acolhimento a estes imigrantes e que esse processo aconte\u00e7a num tempo aceit\u00e1vel. \u00c9 claro que tivemos a transforma\u00e7\u00e3o dos organismos que controlam tudo isto, que levam o seu tempo, e alguma melhoria existe, mas h\u00e1 muito caminho a fazer para dar possibilidade a quem \u00e9 acolhido, sentir-se um cidad\u00e3o de pleno direito e n\u00e3o a meio termo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 H\u00e1 inconstitucionalidade a verificar ainda? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Isso vai ser o Tribunal da Constitucionalidade (a dizer). Para al\u00e9m da constitucionalidade, acho que h\u00e1 uma racionalidade e um humanismo sem o qual, qualquer sociedade perde a sua raz\u00e3o &#8211; se n\u00e3o tiver valores verdadeiramente a defender e se n\u00e3o tiver justi\u00e7a a assegurar para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; 50 anos depois do 25 de abril, Portugal perdeu essa matriz de ajuda, at\u00e9 pela via pol\u00edtica, aos mais fr\u00e1geis? Os imigrantes s\u00e3o considerados, sobretudo, como m\u00e3o-de-obra, n\u00e3o como pessoas que procuram novas paragens para a sua dignidade de vida? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; N\u00e3o sei. Vejo a realidade em Leiria \u2013 F\u00e1tima: sei que h\u00e1 pessoas que sentem inc\u00f3modo a viver com outros, mas \u00e9 sempre uma realidade que exige um esfor\u00e7o de parte a parte &#8211; primeiro estranha-se e depois entranha-se.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na S\u00e9, esta P\u00e1scoa, batizei 18 catec\u00famenos, a maior parte s\u00e3o jovens e jovens imigrantes, alguns s\u00e3o estudantes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A nossa comunidade, concretamente na S\u00e9, em Leiria, coloriu-se com outras culturas, e isto para mim \u00e9 um motivo de grande alegria. E digo, daquelas portas para dentro n\u00e3o h\u00e1 cidad\u00e3os e estrangeiros. Daquelas portas para dentro, n\u00f3s somos irm\u00e3os e irm\u00e3s, filhos de Deus. Eu estou convencido que a Igreja tem um papel muito importante nesta integra\u00e7\u00e3o, porque quando eu me sento num banco, ao lado de algu\u00e9m que veio de longe, desapareceram as diferen\u00e7as. A\u00ed temos um programa comum, um abra\u00e7o comum de pensar, e aceitamos tamb\u00e9m as diferen\u00e7as, n\u00e3o como uma dificuldade mas percebendo que \u00e9 bom termos gente v\u00e1lida em diversos lugares, e a construir a Igreja na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Evangelho e discursos populistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 S\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es que estamos a ouvir do Sr. D. Jos\u00e9 Ornelas, mas vemos tamb\u00e9m, muitas vezes, \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o pelo discurso pol\u00edtico de valores do Evangelho, de valores crist\u00e3os, para ao mesmo tempo reafirmar discursos xen\u00f3fobos e discursos at\u00e9 racistas. H\u00e1 aqui uma contradi\u00e7\u00e3o clara? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o acredito nesse Evangelho. Leiam o Evangelho, leiam e entendam-no como instrumento de an\u00e1lise da realidade, do relacionamento fraterno e dos valores que defendemos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando uma pessoa l\u00ea o Evangelho para excluir, para (alimentar) um discurso de \u00f3dio, para um discurso de irris\u00e3o e achincalhamento de quem quer que seja, venha de onde venha, esteja onde estiver, isso n\u00e3o \u00e9 Evangelho, n\u00e3o \u00e9 um discurso de concilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pode ser. N\u00e3o significa perguntar a Deus o que \u00e9 que ele pensa, mas querer ensinar a Deus, p\u00f4r-nos n\u00f3s em lugar de Deus para julgar e discriminar os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Essa \u00e9 uma den\u00fancia que a pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica deve fazer?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Tem de fazer. Com essas pessoas tenho toda a compreens\u00e3o, mas tamb\u00e9m toda a clareza. Porque n\u00f3s j\u00e1 tivemos isso tudo. Lembro-me quando era pequeno, quando est\u00e1vamos em \u00c1frica, de pensar que est\u00e1vamos a defender a f\u00e9 e o imp\u00e9rio, e \u00e9 f\u00e1cil de entrar nessa l\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As grandes ditaduras foram constru\u00eddas assim. O que me preocupa \u00e9 como \u00e9 que um pa\u00eds que se diz formado e com valores escolhe alguns l\u00edderes que tem \u2013 e esse poderia ser o nosso contexto &#8211; escolhe os l\u00edderes e pelos quais se rege, e se dizem crist\u00e3os. N\u00e3o aguento essa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, temos de entender tamb\u00e9m que o descontentamento das pessoas pode levar a uma inflex\u00e3o da racionalidade da f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420083\" aria-describedby=\"caption-attachment-420083\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420083 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-7.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420083\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>JMJ de todos, todos, todos<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Vejamos agora dois assuntos que dizem diretamente respeito \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja cat\u00f3lica em Portugal e no mundo, nomeadamente a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, o acolhimento do Papa Francisco entre um milh\u00e3o e meio de jovens. O que \u00e9 que se inaugurou com esse slogan \u00abtodos, todos, todos\u00bb? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Isso foi em F\u00e1tima, quando o Papa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; E tamb\u00e9m no Parque Eduardo VII, que ele falou da Igreja de portas abertas.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; A Igreja de portas abertas, sempre foi um discurso. Mas o \u2018todos, todos, todos\u2019, que era a casa de todos, era a casa da m\u00e3e. O Papa olhando para a capelinha disse, \u2018isto \u00e9 para mim a imagem da Igreja, tem colunas e um teto para acolher, para abrigar, mas n\u00e3o tem portas para que se possa entrar e tamb\u00e9m se possa sair, para partir em dire\u00e7\u00e3o ao mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso era a ideia da Igreja. E ent\u00e3o a\u00ed \u00e9 que saiu o \u2018todos, todos, todos\u2019. E que depois repetiu em Lisboa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E eu acho que isso \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o importante da Igreja. N\u00e3o se trata de dizer que na Igreja vale tudo, mas valem todos, todos valem. Porque s\u00e3o filhos e filhas e Maria, imagem da Igreja, \u00e9 aquela que acolhe, como m\u00e3e. Isto \u00e9 a primeira coisa. O ser Igreja \u00e9 isto, nascido a partir do Pentecostes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Depois \u00e9 preciso n\u00e3o simplesmente trazer os outros para aprenderem a minha l\u00edngua. Isso \u00e9 importante, porque eles v\u00e3o viver aqui t\u00eam de aprender a minha l\u00edngua. Mas \u00e9 importante para a Igreja &#8211; que n\u00e3o tem uma l\u00edngua s\u00f3, que tem muitas &#8211; que a Igreja fale todas as l\u00ednguas do mundo. Isto pode ser uma babel &#8211; onde se confundiram as l\u00ednguas, estavam juntos, falavam todas a mesma l\u00edngua, mas n\u00e3o se entendiam &#8211; ou ent\u00e3o, cada um ouve na sua l\u00edngua, na sua cultura e escuta o Evangelho a partir da\u00ed. Essa \u00e9 a Igreja que eu entendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 A JMJ Lisboa 2023 foi um momento hist\u00f3rico para Portugal, para a Igreja cat\u00f3lica em Portugal. Que mudan\u00e7as aconteceram com esse grande encontro de jovens? Que novos paradigmas ficaram depois na pastoral juvenil, nessa rela\u00e7\u00e3o da Igreja com os jovens? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 H\u00e1 sinais, antes de mais no colocar a Igreja perante o pa\u00eds de um modo diferente. A Igreja Cat\u00f3lica, e sobretudo deste mundo de jovens que parece que n\u00e3o existem, mas afinal s\u00e3o muitos, tamb\u00e9m os jovens portugueses &#8211; s\u00f3 os dezenas de milhares que estiveram como volunt\u00e1rios &#8211; e n\u00e3o foi simplesmente em Lisboa, porque a semana anterior, passada nas dioceses, foi um mar de gente multiplicado pelo pa\u00eds inteiro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ainda hoje se percebe que muitas pessoas reviveram a pr\u00f3pria f\u00e9 e o compromisso comunit\u00e1rio a partir da\u00ed. H\u00e1 um antes e um depois. A imagem que a Igreja em Portugal deu, tamb\u00e9m contribui para isso &#8211; gra\u00e7as \u00e0queles que a organizaram, foi uma organiza\u00e7\u00e3o bem pensada e que deu resultados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Entre os jovens, e parece-me a partir da minha diocese, algumas coisas melhoraram: a coordena\u00e7\u00e3o nacional, a Funda\u00e7\u00e3o continua com projetos, \u00e9 um caminho. Estas coisas n\u00e3o se medem simplesmente por n\u00fameros, medem-se por um esp\u00edrito que est\u00e1 a fazer o seu caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Sinodalidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O s\u00ednodo que o Papa Francisco convocou, sobre a sinodalidade, tamb\u00e9m acompanhou os dois mandatos como presidente da CEP. Em que fase estamos agora? E recordo o segundo encontro promovido pela CEP, em F\u00e1tima, em janeiro o \u00faltimo, onde o prop\u00f3sito era esse &#8211; da escuta \u00e0 miss\u00e3o, e o pr\u00f3prio D. Virg\u00edlio Antunes (vice-presidente da CEP) na altura dirigiu-se aos presidentes e disse, \u2018agora est\u00e1 nas vossas m\u00e3os\u2019. Volt\u00e1mos ao terreno agora para que essa proposta de caminho em conjunto seja de facto efetivo? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Isso muda de lugar para lugar, mesmo dentro das dioceses. Em Leiria \u2013 F\u00e1tima temos feito caminho, mas de modo geral penso que em todas as dioceses. Penso que todos estamos comprometidos, sonhamos com uma Igreja sinodal, o modo para chegar l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de encontrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Mas estamos \u00e0 procura do modo ou j\u00e1 estamos numa fase de concretiza\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; H\u00e1 um caminho que se nota, e olhamos esses encontros em F\u00e1tima, o primeiro e o segundo, e vejo relatos das pessoas a partir das suas Igrejas locais, das suas dioceses, \u00e9 positivo e h\u00e1 processos que est\u00e3o em curso. O Papa sempre disse que isto n\u00e3o se resumia simplesmente ao s\u00ednodo, que se abriu e fechou, e publicou um documento. Isto tem de entrar na vida da Igreja e, portanto, \u00e9 isso que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na minha diocese, por exemplo, est\u00e1 em curso uma grande transforma\u00e7\u00e3o a n\u00edvel estrutural, mas sobretudo na consci\u00eancia de p\u00f4r toda a gente a somar mais do que um. Por exemplo, pondo-se os padres a trabalhar juntos em unidades pastorais. Dentro dessas unidades pastorais, que compreendem quatro ou seis par\u00f3quias, j\u00e1 n\u00e3o sou eu e a minha par\u00f3quia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Passado um ano, regressei para ver em que ponto estamos e h\u00e1 v\u00e1rios graus de ades\u00e3o, onde os padres est\u00e3o verdadeiramente convencidos &#8211; e \u00e9 a grande maioria &#8211; e j\u00e1 se v\u00ea um discurso totalmente diferente. O importante n\u00e3o \u00e9 simplesmente que os padres combinem as coisas numa quest\u00e3o clerical, mas os padres trabalharem, com a mesma metodologia, junto com os leigos, e os leigos trabalharam tamb\u00e9m entre si.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Temos menos padres, mas n\u00e3o \u00e9 essa a raz\u00e3o: a raz\u00e3o \u00e9 fazer Igreja de outra (maneira) e estamos a aprender.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Criar as unidades pastorais e o mapa da sua organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o in\u00edcio: \u00e9 como preparar o terreno onde se vai fazer festa, \u00e9 limpar um terreno para plantar. Estamos nesta fase e isso vai levar gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 para mudar o sistema que n\u00f3s temos de \u2018O senhor padre \u00e9 que sabe\u2019. Os clericalistas tanto podem ser os membros do clero como os membros do povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Essa limpeza \u00e9 essencialmente um clericalismo que pode reinar ainda? E o machismo tamb\u00e9m?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Sim, sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Que papel podem ter tamb\u00e9m as Confer\u00eancias Episcopais para mitigar esse centralismo a partir de Roma? Eu digo papel das Confer\u00eancias Episcopais, ou Assembleias continentais. H\u00e1 um modo de pensar mais local que est\u00e1 em curso? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Aquilo que o S\u00ednodo iniciou foi s\u00f3 o in\u00edcio. Ou isto tem uma continuidade, para converter o cora\u00e7\u00e3o, converter as rela\u00e7\u00f5es \u2013 o S\u00ednodo diz que fundamentalmente a quest\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 uma quest\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es. Que rela\u00e7\u00e3o existe entre o padre e a sua comunidade? Que rela\u00e7\u00e3o existe entre os catequistas e o seu grupo de catequese? E dentro da fam\u00edlia, como s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre o marido e a mulher? Em termos de conce\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia? E a mesma coisa, depois a n\u00edvel dos pa\u00edses vizinhos?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um caminho enorme a fazer para que possamos de facto forjar caminhos novos tamb\u00e9m para a nossa Igreja, a n\u00edvel dos conferenciais episcopais e a n\u00edvel regional, da Igreja no seu conjunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Isso aconteceu na visita Ad Limina, dos bispos de Portugal a Roma, em maio de 2024? Sinalizou uma mudan\u00e7a de paradigma, uma mudan\u00e7a de relacionamento com o governo central da Igreja? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Isso era vis\u00edvel. Eu, na visita anterior, estava a fazer o curso de forma\u00e7\u00e3o de novos bispos e n\u00e3o participei em tudo. Agora, os que participaram, e eu participei a tempo inteiro (em 2024), notou-se outro esp\u00edrito. Isso foi bom, \u00e9 bom para a Igreja, porque tamb\u00e9m de cima se v\u00ea o resultado. Mas h\u00e1 um caminho ainda muito grande a percorrer nesse sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420080\" aria-describedby=\"caption-attachment-420080\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420080 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-4.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420080\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Diaconado feminino<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Um dos caminhos apontado \u00e9, por exemplo, o papel das mulheres na Igreja. Na sua opini\u00e3o, este grupo de estudo do S\u00ednodo, que deixou algumas propostas, acha que fez um compasso de espera, nomeadamente no tema do diaconado feminino? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Espero que o tema n\u00e3o seja esvaziado nem considerado j\u00e1 resolvido e decidido simplesmente porque n\u00e3o se tratou. Porque, na realidade, n\u00e3o se chegou a tratar dele no S\u00ednodo e de uma verdadeira ausculta\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O documento diz que h\u00e1 muito a fazer, nomeadamente neste tema.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Espero bem que sim. Este era um s\u00ednodo sobre sinodalidade, tinha o objetivo de criar o tal espa\u00e7o onde vai acontecer a dan\u00e7a, onde vai acontecer a reorganiza\u00e7\u00e3o, onde vai acontecer a tal convers\u00e3o de processos, de locais, de lugares, onde \u00e9 que se vai jogar. E isso era importante que acontecesse.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, estes temas t\u00eam de ser realmente debatidos. Tendo em conta a diversidade tamb\u00e9m da Igreja. Eu posso aceitar que se diga \u2018aqui, no nosso contexto, esse problema n\u00e3o se p\u00f5e, neste momento\u2019. A Igreja precisa de viver com as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Outra quest\u00e3o parecida com essa: o celibato dos padres. A Igreja grego-cat\u00f3lica tem padres casados. E os colegas no S\u00ednodo dos Bispos diziam: \u2018n\u00e3o percebo porqu\u00ea voc\u00eas fazem problemas por terem padres casados. N\u00f3s temos e estamos contentes\u2019.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, n\u00e3o v\u00e3o \u00e9 pensar que isto que vai resolver os problemas de voca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 por ai. A Igreja greco-cat\u00f3lica tem problemas hoje de filhos de um padre. Ter uma fam\u00edlia nem sempre \u00e9 mais f\u00e1cil do que ter um padre celibat\u00e1rio. Mas isso s\u00e3o quest\u00f5es pr\u00e1ticas. O que temos de perceber \u00e9 a mudan\u00e7a de mentalidade, perceber que pode ser diferente &#8211; porque dentro da Igreja temos diferen\u00e7as em coisas que n\u00e3o s\u00e3o essenciais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Coloca nesse dossier o diaconado feminino, a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, a ordena\u00e7\u00e3o de padres, o casamento de padres.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Cada tema desses n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 fechado, na sua opini\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>JO &#8211; N\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o dogm\u00e1tica, porque, a meu ver, n\u00e3o o \u00e9. O celibato, o diaconado s\u00e3o quest\u00f5es disciplinares e \u00e9 preciso chegar a uma orienta\u00e7\u00e3o que, por exemplo, em determinados contextos pode n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o melhor. Mas em outros, pode afigurar-se como uma grande mais-valia. Portanto, n\u00e3o \u00e9 a instrumentaliza\u00e7\u00e3o simples de coisas. Temos de determinar o que \u00e9 o essencial da f\u00e9, o que \u00e9 o essencial da Igreja e fazer isso verdadeiramente, para que depois tamb\u00e9m se possam encontrar solu\u00e7\u00f5es adaptadas em cada lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Novo pontificado<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; D. Jos\u00e9, recorde a mudan\u00e7a de pontificado e quando viu que ia ser Papa o cardeal Robert Prevost. Rapidamente recordou momentos em que eram os dois superiores-gerais das suas congrega\u00e7\u00f5es? O conhecimento vem desses anos em Roma como superiores-gerais?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 E muito gratos mas ele agora tem outro mundo de rela\u00e7\u00f5es. J\u00e1 o encontrei duas vezes e \u00e9 sempre com muito gosto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sobre o nome escolhido, Le\u00e3o XIV, depois de Le\u00e3o XIII, eu como dehoniano sinto uma proximidade maior porque o Papa Le\u00e3o XIII \u00e9 o Papa que inicia as cartas da doutrina social da Igreja, de uma justi\u00e7a social, tamb\u00e9m fundador da congrega\u00e7\u00e3o &#8211; esteve muito presente e que ainda hoje continua a falar-nos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m o seu apelo \u00e0 paz, o seu apelo \u00e0 justi\u00e7a entre os homens e aos valores que devem reger a constru\u00e7\u00e3o da paz, isso penso ser um caminho que abre horizontes. Talvez tenha uma forma menos espont\u00e2nea de falar \u2013 n\u00e3o \u00e9 menos aberto de mentalidade &#8211; mas da abertura de falar, do discurso aberto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Comparativamente com o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Comparativamente com o Papa Francisco, mas Deus tem, na sua provid\u00eancia, dado nos \u00faltimos anos Papas que foram fundamentais, n\u00e3o s\u00f3 para a Igreja, mas para o mundo. Olha, no tempo do Muro de Berlim veio um Papa daqueles lados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Neste tempo de grandes superpot\u00eancias, um Papa que ao mesmo tempo tem um cora\u00e7\u00e3o e uma aspira\u00e7\u00e3o latino-americana, embora origens norte-americanas, parece-me um caminho que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil nem para ele, nem para a Igreja, mas \u00e9 preciso encontrar caminhos de razoabilidade, da tal raz\u00e3o da f\u00e9, de raz\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, da convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da mente, para que leve a uma convers\u00e3o de atitudes. Isto dentro da Igreja, mas tamb\u00e9m na sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Acha que assa voz da Am\u00e9rica, que \u00e9 o presidente dos Estados Unidos, ouve a outra voz da Am\u00e9rica, que \u00e9 o Papa Le\u00e3o XIV? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Ele faz-se ouvir, por todo o mundo, a sua voz, diz o salmo. \u00c9 bom que o Papa fale.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 Mesmo que aparentemente sem resultados?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio. Jesus, se acabou na cruz, \u00e9 porque n\u00e3o foi ouvido. Mas essa palavra n\u00e3o ficou enterrada &#8211; caiu na terra e morreu para dar fruto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nestes tempos, faz falta que a Igreja saiba semear palavras de paz e de fraternidade. E que saiba distinguir o trigo do joio. E que diga que n\u00e3o \u00e9 qualquer apar\u00eancia de poder ou de imposi\u00e7\u00e3o que vai resolver os problemas do mundo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aquilo que o Papa disse no domingo de P\u00e1scoa \u00e9 muito claro: aqueles que come\u00e7am as guerras pensem que h\u00e1 outras maneiras de construir o futuro e que n\u00e3o s\u00e3o as guerras que v\u00e3o resolver, mas s\u00f3 v\u00e3o complicar o futuro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_420086\" aria-describedby=\"caption-attachment-420086\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420086 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-10.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420086\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>M\u00e9dio Oriente<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 D. Jos\u00e9 Ornelas \u00e9 biblista e investigou as ci\u00eancias b\u00edblicas tamb\u00e9m em toda aquela regi\u00e3o da Terra Santa. Como analisa o comportamento de Israel em todo este conflito no M\u00e9dio Oriente? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Para falar de Israel, \u00e9 preciso encontrar tamb\u00e9m as diversas mentalidades de Israel. Nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social se percebe a clara contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra, se eu fosse israelita, tamb\u00e9m me sentia muito preocupado com a quest\u00e3o de outros extremismos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando se estica a m\u00e3o para a corda de um lado e do outro, acaba-se em m\u00e9todos terroristas &#8211; porque s\u00e3o terroristas tamb\u00e9m os [outros] pa\u00edses, quando se bombardeiam as escolas, quando se bombardeiam os meios essenciais de vida, e quando se faz disso uma amea\u00e7a, e uma amea\u00e7a concretizada, n\u00e3o vai dar certo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 tenta\u00e7\u00e3o de dizer que queremos a nossa seguran\u00e7a, \u00e0 custa dos outros\u2026 H\u00e1 manipula\u00e7\u00e3o, tanto de um lado como do outro, e manipula\u00e7\u00f5es religiosas. Isto n\u00e3o \u00e9 novo, sempre houve. O resultado disso \u00e9 um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 anos que aqueles que mais procuraram o sentido da paz, tantas vezes foram cilindrados. O que aconteceu tamb\u00e9m com o Patriarca de Jerusal\u00e9m nestes dias [a pol\u00edcia israelita impediu o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusal\u00e9m, de entrar na Bas\u00edlica do Santo Sepulcro para celebrar a missa no Domingo de Ramos, ndr]) foi a ditadura a funcionar ao mais alto n\u00edvel. Isto n\u00e3o s\u00e3o modos de construir a paz.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso que haja vozes que se lembrem de semear paz, de semear a possibilidade de um outro caminho, que n\u00e3o seja das armas. Porque no das armas, todos perdemos, exceto os fabricantes delas. Mas tamb\u00e9m esses acabam por cair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Este problema da guerra no Ir\u00e3o coloca essa prioridade do fim dos conflitos. Tamb\u00e9m na Ucr\u00e2nia, sobretudo, o que est\u00e1 em causa \u00e9 o respeito pela autodetermina\u00e7\u00e3o de um povo e pelo seu territ\u00f3rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Sim, \u00e9 o povo, e \u00e9 na Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m em Israel. Israel tem direito a viver. Os palestinianos t\u00eam direito a viver. Se encontrarem boa vontade, convivem e v\u00e3o ser bons para os dois. Se estiverem constantemente em guerra, vai ser s\u00f3 a lei do mais forte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O paradoxo da R\u00fassia: o pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 o maior do mundo em superf\u00edcie, mas acha que n\u00e3o chega. Ainda tem de ir desestabilizar e conquistar outro pa\u00eds. Isto \u00e9 uma doidice que n\u00e3o d\u00e1 para entender. E agora o objetivo \u00e9 tirar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o os meios essenciais para viver. N\u00e3o foi isso a Segunda Guerra Mundial? Cidades bombardeadas com avi\u00f5es programados para destruir popula\u00e7\u00f5es inteiras?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O mundo quis sair desse belicismo e encontrar caminhos de di\u00e1logo, para resolver os problemas &#8211; e criou-se a ONU. Estes senhores, para terem m\u00e3o livre, n\u00e3o querem nem institui\u00e7\u00f5es internacionais, n\u00e3o querem institui\u00e7\u00f5es de di\u00e1logo. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o aquilo que eu dito que ser\u00e3o, acho que eles n\u00e3o fizeram o suficiente e, portanto, vamos destru\u00ed-los a todos. Isto n\u00e3o \u00e9 um discurso de gente. Ouvimos isto na Segunda Guerra Mundial, de sistemas que n\u00e3o t\u00eam nada de recomend\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ou procuramos um caminho novo, um caminho de entendimento, ou ent\u00e3o \u00e9 o terrorismo e a repress\u00e3o para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; S\u00e3o novos nazismos.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; S\u00e3o novos nazismos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_420079\" aria-describedby=\"caption-attachment-420079\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420079 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/jose-ornelas-entrevista-3.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-420079\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Papa em \u00c1frica. E em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; O Papa Le\u00e3o XIV inicia na segunda-feira, dia 13, uma viagem a \u00c1frica: Arg\u00e9lia, Camar\u00f5es, Angola, Guin\u00e9 Equatorial. A Igreja Cat\u00f3lica em Portugal tem liga\u00e7\u00f5es muito fortes, nomeadamente com Angola. Que expectativa tem para esta desloca\u00e7\u00e3o do Papa, desde Arg\u00e9lia, \u00e0s suas ra\u00edzes agostinianas e depois a outros pa\u00edses do continente? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Acho que o continente africano precisa de visitas destas, que apontem para a esperan\u00e7a. E onde tamb\u00e9m, apesar de n\u00e3o parecer, os l\u00edderes n\u00e3o ficam do lado da instabilidade. \u00c9 importante para Igrejas que est\u00e3o a nascer tamb\u00e9m, e com vivacidade, Igrejas irm\u00e3s, particularmente em Angola, e que precisam da visita do pai da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Reconcilia\u00e7\u00e3o e paz s\u00e3o os temas.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Para um momento de reconcilia\u00e7\u00e3o e paz, para estas Igrejas que est\u00e3o a desenvolver-se, e que precisam de estar conscientes dos valores da paz, para n\u00e3o se deixarem envolver por manipula\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m a\u00ed, como em todo lado, elas acontecem. Acho que a presen\u00e7a do Papa \u00e9 uma sensibilidade para um continente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Lembro-me do professor Adriano Moreira, nos anos 80: ele dizia que estes pa\u00edses, depois da Guerra Fria, deixaram de ser estrategicamente importantes. E \u00c1frica foi abandonada. Voltam agora a ser interessantes por causa das mat\u00e9rias-primas. Mas a manipula\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. E o pior problema n\u00e3o \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o local, mas os frutos da corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o investidos nestes pa\u00edses, s\u00e3o enviados para fora. Entre os quais tamb\u00e9m Portugal. \u00c9 um saque a \u00c1frica. Alguns beneficiam l\u00e1, e muitos, mas o povo fica na mis\u00e9ria e precisa de motivos de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Para quando uma visita do Papa Le\u00e3o XIV a Portugal? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Espero que seja em breve. J\u00e1 lhe escrevi, ainda hoje seguiu mais uma carta, depois de ter falado com ele. Mas em nome da CEP, e pedindo oficialmente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 evidente que o Papa tem a sua agenda, mas espero que seja para breve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Deixou j\u00e1 esse pedido formal, em fim de mandato, para vir a Portugal?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Sim, j\u00e1 falei com ele. A \u00faltima vez que estive em Roma falei com ele. E agora, como algu\u00e9m dizia l\u00e1, \u2018se n\u00e3o veio de vermelho, agora pode vir de branco\u2019. Mas ser\u00e1 um gosto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para a Igreja em Portugal, tamb\u00e9m seria uma ocasi\u00e3o muito boa de celebrar com ele o nosso ser Igreja. E aquilo em que podemos colaborar juntos para a Igreja aqui em Portugal. \u00c9 uma Igreja que sempre foi aberta ao mundo. Queremos encontrar motivos para o gosto de ser Igreja e de uma Igreja que se p\u00f5e ao servi\u00e7o de um mundo melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; Os 110 anos das Apari\u00e7\u00f5es em F\u00e1tima poderiam ser uma boa ocasi\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 110 das apari\u00e7\u00f5es, 10 anos da canoniza\u00e7\u00e3o dos pastorinhos, Francisco e Jacinta, e os 500 anos da formaliza\u00e7\u00e3o da Nunciatura apost\u00f3lica, reconhecendo as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre a Santa S\u00e9 do Estado portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE &#8211; E o processo de irm\u00e3 L\u00facia tamb\u00e9m est\u00e1 em curso?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO \u2013 Est\u00e1 em curso e est\u00e1 nas m\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>AE \u2013 D. Jos\u00e9, muito obrigado por ter estado connosco.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">JO &#8211; Um bom tempo pascal, porque \u00e9 tempo de reconstru\u00e7\u00e3o. Que aconte\u00e7a Pentecostes, que \u00e9 a vinda do Esp\u00edrito, que nos transforme n\u00f3s e a este mundo. Bem-haja tamb\u00e9m \u00e0 Ecclesia, pelo trabalho que fazem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Ornelas est\u00e1 a terminar o segundo mandato como Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP). Foi eleito na pandemia e, nos seis anos que se seguiram, viu a reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Portugal alterar-se profundamente. 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