{"id":42015,"date":"2009-11-20T16:37:13","date_gmt":"2009-11-20T16:37:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/20\/lugar-da-religiao-na-edificacao-do-bem-comum\/"},"modified":"2009-11-20T16:37:13","modified_gmt":"2009-11-20T16:37:13","slug":"lugar-da-religiao-na-edificacao-do-bem-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lugar-da-religiao-na-edificacao-do-bem-comum\/","title":{"rendered":"Lugar da religi\u00e3o na edifica\u00e7\u00e3o do \u00abbem-comum\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo na Semana Social <!--more--> <\/p>\n<p><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o<br \/><\/strong>1. &Agrave; maneira de introdu&ccedil;&atilde;o, devemos tomar consci&ecirc;ncia da vastid&atilde;o e amplitude do tema que me foi proposto, com as inevit&aacute;veis consequ&ecirc;ncias na maneira de o desenvolver, fazendo op&ccedil;&otilde;es e seleccionando prioridades.<\/p>\n<p>O &ldquo;bem-comum&rdquo; diz respeito a toda e qualquer forma de agrega&ccedil;&atilde;o dos seres humanos, pondo em pr&aacute;tica o princ&iacute;pio de que o homem s&oacute; se realiza com os outros homens e se sente respons&aacute;vel por todos os outros. O conjunto das express&otilde;es desta solidariedade humana constitui a sociedade, na linguagem contempor&acirc;nea, a &ldquo;polis&rdquo; da cultura grega, que &eacute;, necessariamente, a converg&ecirc;ncia harm&oacute;nica de todas as institui&ccedil;&otilde;es com que os seres humanos convergem na busca da pr&oacute;pria realiza&ccedil;&atilde;o: fam&iacute;lia, associa&ccedil;&otilde;es, empresas, comunidades religiosas, a organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade.<\/p>\n<p>Emerge, neste conjunto, o papel do Estado como servi&ccedil;o desta converg&ecirc;ncia em harmonia. A globaliza&ccedil;&atilde;o alargou ao horizonte de toda a fam&iacute;lia humana, a necessidade desta converg&ecirc;ncia. Nunca, como hoje, o bem das pessoas e dos grupos humanos dependeu tanto do bem de toda a humanidade.<\/p>\n<p>O que se me pede &eacute; que fale do papel da religi&atilde;o na constru&ccedil;&atilde;o deste bem de toda a humanidade. Compreendi assim o facto de o tema proposto n&atilde;o falar do papel do cristianismo, mas da religi&atilde;o, na edifica&ccedil;&atilde;o do &ldquo;bem-comum&rdquo;, o que alarga, ainda mais, o &acirc;mbito do tema e o torna dif&iacute;cil, porque somos todos pouco conhecedores dos diversos contributos das v&aacute;rias religi&otilde;es: conhecemo-las mal, e temos pouca experi&ecirc;ncia dos poss&iacute;veis contributos positivos de cada uma em cada sociedade e na sociedade global. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, no &acirc;mbito de uma confer&ecirc;ncia, abarcar a vastid&atilde;o deste horizonte. Sinto-me, assim, livre para fazer a minha proposta que, inevitavelmente, ter&aacute; como refer&ecirc;ncia fundamental o papel do cristianismo nas nossas sociedades.<\/p>\n<p><strong>O que se entende por &ldquo;bem-comum&rdquo;<\/p>\n<p><\/strong>2. A express&atilde;o e o seu significado ocuparam um lugar central e desenvolveram-se no &acirc;mbito da Doutrina Social da Igreja e adquiriram uma relev&acirc;ncia tal que mereceram integrar o corpo doutrinal do Conc&iacute;lio e do Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica, como das grandes enc&iacute;clicas sociais, a &uacute;ltima das quais &eacute; a &ldquo;Caritas in Veritate&rdquo;, de Bento XVI. &Eacute;, no conjunto da linguagem da Igreja, uma express&atilde;o facilmente compreendida por todos e &eacute; frequentemente usada nas diversas inst&acirc;ncias culturais, sociais e pol&iacute;ticas, sobretudo no Ocidente.<\/p>\n<p>Os pol&iacute;ticos e os agentes da comunica&ccedil;&atilde;o falam, de prefer&ecirc;ncia, de &ldquo;direitos humanos&rdquo;. Em que medida os dois conceitos coincidem ou, pelo menos, convergem, &eacute; discuss&atilde;o em aberto que originou j&aacute; uma abundante literatura. Uma diferen&ccedil;a, por&eacute;m, a ter em conta &eacute; que o &ldquo;bem-comum&rdquo; n&atilde;o se limita aos direitos, reconhecidos e respeitados, mas alarga-se sobretudo aos deveres do dom e da solidariedade de cada um para com o corpo social em que est&aacute; inserido.<\/p>\n<p>Para se entender o &ldquo;bem-comum&rdquo; tem de ter-se em conta a dimens&atilde;o dialogal e social do ser humano que s&oacute; encontra a pr&oacute;pria realiza&ccedil;&atilde;o empenhando-se na busca do bem da comunidade social, em que se integra, ou porque a escolheu, como &eacute; o caso da fam&iacute;lia, das comunidades religiosas, das associa&ccedil;&otilde;es culturais, ou porque a ela pertence por circunst&acirc;ncias que n&atilde;o dependeram da sua escolha, como &eacute; o caso da comunidade nacional ou &eacute;tnica onde nasceu. Estas comunidades sociais s&atilde;o uma &ldquo;personalidade colectiva&rdquo;, como o pr&oacute;prio direito reconheceu, ao consider&aacute;-las &ldquo;pessoas jur&iacute;dicas&rdquo;. &Eacute; do bem destas pessoas que se trata. Como afirma Bento XVI, &ldquo;ao lado do bem individual, existe um bem ligado &agrave; vida social das pessoas, o bem-comum. &Eacute; o bem daquele &laquo;n&oacute;s todos&raquo;, formado por indiv&iacute;duos, fam&iacute;lias e grupos interm&eacute;dios que se unem em comunidade social&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>O bem desse &ldquo;n&oacute;s colectivo&rdquo; pode n&atilde;o se identificar totalmente com o bem das pessoas individuais, mas deve com ele convergir. Porque a pessoa individual s&oacute; encontra o seu bem, a sua realiza&ccedil;&atilde;o, na medida em que se insere e se compromete com a comunidade, ela tem de encontrar no &ldquo;bem-comum&rdquo; o seu bem pessoal, mas n&atilde;o pode exigir que toda a comunidade garanta &ldquo;bens individuais&rdquo;, porventura leg&iacute;timos, que n&atilde;o s&atilde;o relevantes para a prossecu&ccedil;&atilde;o do &ldquo;bem-comum&rdquo;. Bento XVI alerta: &ldquo;n&atilde;o &eacute; um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que s&oacute; nela podem realmente e com maior efic&aacute;cia obter o pr&oacute;prio bem&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>&Eacute; bom ter em conta a finalidade humana das institui&ccedil;&otilde;es e organiza&ccedil;&otilde;es. A busca do &ldquo;bem-comum&rdquo; tem de ser sempre a busca do bem das pessoas que &eacute;, sobretudo para n&oacute;s crist&atilde;os, uma exig&ecirc;ncia do amor fraterno. Quando a busca do &ldquo;bem-comum&rdquo; tem a exig&ecirc;ncia da caridade, &eacute; f&aacute;cil fazer coincidir a busca do &ldquo;bem-comum&rdquo; e a do bem pessoal. Diz o Santo Padre: &ldquo;este &eacute; o caminho institucional, podemos mesmo dizer pol&iacute;tico, da caridade, n&atilde;o menos qualificado e incisivo do que o &eacute; a caridade que vai directamente ao encontro do pr&oacute;ximo, fora das media&ccedil;&otilde;es institucionais da &laquo;polis&raquo;&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn3\">[3]<\/a>. Ali&aacute;s o vigor da caridade &eacute;, talvez, o contributo mais significativo da f&eacute; crist&atilde; para a constru&ccedil;&atilde;o do &ldquo;bem-comum&rdquo;. Todos os homens s&atilde;o chamados a empenhar-se na constru&ccedil;&atilde;o do bem-comum. Mas a caridade d&aacute; a esse empenho uma radicalidade de dom, que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito de Deus. O Papa n&atilde;o esquece este contributo espec&iacute;fico dos crist&atilde;os: &ldquo;quando o empenho pelo bem-comum &eacute; animado pela caridade, tem uma val&ecirc;ncia superior &agrave; do empenho simplesmente secular e pol&iacute;tico&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>A religi&atilde;o e a edifica&ccedil;&atilde;o do bem-comum<\/p>\n<p><\/strong>3. Na complexidade das sociedades contempor&acirc;neas e dos m&uacute;ltiplos corpos sociais, s&atilde;o muitas as concretiza&ccedil;&otilde;es do bem-comum. E &eacute; na an&aacute;lise de cada uma delas que se pode perceber com clareza o papel da religi&atilde;o, tendo em conta que as pr&oacute;prias religi&otilde;es est&atilde;o na origem de corpos sociais significativos e de experi&ecirc;ncias de comunidade, que se devem comprometer na busca do bem-comum de toda a comunidade humana e n&atilde;o apenas do bem pr&oacute;prio e espec&iacute;fico de cada comunidade religiosa. Se n&atilde;o o fizerem, correm o risco de aparecerem aos olhos da sociedade a defenderem apenas os seus direitos, n&atilde;o dando testemunho do seu empenho apaixonado na busca do bem de todos os homens.<\/p>\n<p>Nesta busca do bem-comum, as comunidades religiosas inter-agem com outras organiza&ccedil;&otilde;es e, sobretudo, com o Estado, cuja fun&ccedil;&atilde;o &eacute; potenciar, na harmonia, o contributo de todas elas para o bem-comum da sociedade e da humanidade. Isso sup&otilde;e converg&ecirc;ncia e reconhecimento m&uacute;tuo na prossecu&ccedil;&atilde;o dos objectivos comuns. No que &agrave; Igreja diz respeito, ela pr&oacute;pria um povo organizado, e &agrave; for&ccedil;a das suas institui&ccedil;&otilde;es, com que interv&eacute;m na sociedade na busca do bem-comum, come&ccedil;a a ser urgente uma nova equa&ccedil;&atilde;o com o Estado e outros corpos sociais da sociedade civil. O relegar a religi&atilde;o para a esfera da intimidade privada, e considerar as institui&ccedil;&otilde;es com que interv&eacute;m para o bem da sociedade como transit&oacute;rias, e dispens&aacute;veis logo que poss&iacute;vel, nem sequer garante os interesses da comunidade humana como um todo. Um conceito de laicidade, alargado injustamente a toda a sociedade, cria um ambiente de tens&atilde;o, pelo menos latente, que n&atilde;o assegura a necess&aacute;ria converg&ecirc;ncia harm&oacute;nica de todos os intervenientes na prossecu&ccedil;&atilde;o do bem-comum. A laicidade do Estado, a &uacute;nica que est&aacute; consagrada na nossa Constitui&ccedil;&atilde;o, pode ser um valor positivo, mesmo para a pr&oacute;pria Igreja, deixando-lhe espa&ccedil;o aberto e respeitado para a especificidade da sua interven&ccedil;&atilde;o na sociedade, e levando-a a reconhecer e a respeitar a especificidade pr&oacute;pria dos outros intervenientes sociais.<\/p>\n<p>4. Seleccionarei, a partir de agora, algumas concretiza&ccedil;&otilde;es na busca do bem-comum, seguindo como crit&eacute;rio a refer&ecirc;ncia &agrave;quelas onde o contributo da religi&atilde;o pode ser mais importante, porventura indispens&aacute;vel, o que n&atilde;o significa que eu pense que a Igreja se deva desinteressar das demais concretiza&ccedil;&otilde;es do bem-comum.<\/p>\n<p><strong>Reconhecer o lugar de Deus na Cidade<br \/><\/strong><strong><br \/><\/strong>5. A prossecu&ccedil;&atilde;o do bem-comum da sociedade e de toda a fam&iacute;lia humana sup&otilde;e uma cultura, enraizada na compreens&atilde;o do mist&eacute;rio do homem e da sua irrecus&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o com Deus, seu criador e salvador. Ele &eacute; a fonte donde jorra a for&ccedil;a para o dom generoso em favor dos outros, a luz que aponta os caminhos da generosidade e do amor, os ensinamentos que apontam o caminho para a edifica&ccedil;&atilde;o de um mundo ao n&iacute;vel da dignidade da pessoa humana. Querer construir a sociedade sem contar com a interven&ccedil;&atilde;o amorosa de Deus na nossa vida e na nossa hist&oacute;ria, &eacute; comprometer o alcance do bem-comum definitivo e fechar o horizonte da esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Sempre existiram diversas formas de ate&iacute;smo. Mas nunca tomaram, como hoje, o papel envolvente que parece influenciar definitivamente a constru&ccedil;&atilde;o da sociedade. Procurar influenciar a cultura de modo a garantir, nessa compreens&atilde;o din&acirc;mica do futuro da humanidade, a poderosa interven&ccedil;&atilde;o de Deus, &eacute; contribuir, de forma decisiva, para o bem-comum da humanidade. E esta interven&ccedil;&atilde;o na muta&ccedil;&atilde;o cultural s&oacute; os crentes a podem fazer, com o testemunho da sua f&eacute;, mas sobretudo com o testemunho da sua contribui&ccedil;&atilde;o generosa para o bem de todos os homens seus irm&atilde;os. Esta &eacute; uma luta de flagrante actualidade, pois nunca, como hoje, as for&ccedil;as ateisantes, que se apresentam como defensoras da autonomia e da grandeza do homem, procuram neutralizar a influ&ecirc;ncia da religi&atilde;o e dos crentes nos dinamismos construtores da sociedade.<\/p>\n<p>Vale a pena relermos uma p&aacute;gina da <strong>Caritas in Veritate<\/strong>. Diz o Papa: &ldquo;A religi&atilde;o crist&atilde; e as outras religi&otilde;es s&oacute; podem dar o seu contributo para o desenvolvimento, se Deus encontrar lugar tamb&eacute;m na esfera p&uacute;blica, nomeadamente nas dimens&otilde;es cultural, social, econ&oacute;mica e particularmente pol&iacute;tica. A doutrina social da Igreja nasceu para reivindicar este &laquo;estatuto de cidadania&raquo; da religi&atilde;o crist&atilde;. A nega&ccedil;&atilde;o do direito de professar publicamente a pr&oacute;pria religi&atilde;o e de fazer com que as verdades da f&eacute; moldem a vida p&uacute;blica, acarreta consequ&ecirc;ncias negativas para o verdadeiro desenvolvimento. A exclus&atilde;o da religi&atilde;o do &acirc;mbito p&uacute;blico e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso, impedem o encontro entre as pessoas e a sua colabora&ccedil;&atilde;o para o progresso da humanidade. A vida p&uacute;blica torna-se pobre de motiva&ccedil;&otilde;es, e a pol&iacute;tica assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos humanos correm o risco de n&atilde;o ser respeitados, porque ficam privados do seu fundamento transcendente ou porque n&atilde;o &eacute; reconhecida a liberdade pessoal. No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um di&aacute;logo fecundo e de uma prof&iacute;cua colabora&ccedil;&atilde;o entre a raz&atilde;o e a f&eacute; religiosa. A raz&atilde;o tem sempre necessidade de ser purificada pela f&eacute;; e isto vale tamb&eacute;m para a raz&atilde;o pol&iacute;tica, que n&atilde;o se deve crer omnipotente. A religi&atilde;o, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela raz&atilde;o, para mostrar o seu aut&ecirc;ntico rosto humano. A ruptura deste di&aacute;logo implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>N&atilde;o haver&aacute; bem-comum adaptado &agrave; natureza e ao destino do homem se n&atilde;o aprendermos a considerar o bem-comum, neste mundo, como an&uacute;ncio do bem definitivo, na eternidade. Escutemos, mais uma vez, Bento XVI: &ldquo;A ac&ccedil;&atilde;o do ser humano sobre a terra, quando &eacute; inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edifica&ccedil;&atilde;o daquela cidade universal de Deus que &eacute; a meta para onde caminha a hist&oacute;ria da fam&iacute;lia humana. Numa sociedade em vias de globaliza&ccedil;&atilde;o, o bem comum e o empenho em seu favor n&atilde;o podem deixar de assumir as dimens&otilde;es da fam&iacute;lia humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das na&ccedil;&otilde;es, para dar forma de unidade e paz &agrave; cidade do homem e torn&aacute;-la, em certa medida, antecipa&ccedil;&atilde;o que prefigura a cidade de Deus sem barreiras&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Uma educa&ccedil;&atilde;o humanizante<\/p>\n<p><\/strong>6. A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um contributo decisivo para o bem-comum, em que o papel da Igreja, que, ao dar pela sua mensagem, um sentido novo a todas as coisas, com a sua experi&ecirc;ncia comunit&aacute;ria e com a interven&ccedil;&atilde;o directa atrav&eacute;s das suas institui&ccedil;&otilde;es educativas, &eacute; relevante. A realiza&ccedil;&atilde;o da pessoa humana e a qualidade da conviv&ecirc;ncia humana, em comunidade, depende em grande parte, da educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta deveria ser profundamente humanizante, tendo no centro a grandeza e a dignidade da pessoa humana. S&oacute; assim cada um descobrir&aacute; o valor e a responsabilidade da sua liberdade, a capacidade de construir o pr&oacute;prio projecto de vida, com os outros, em inter-ac&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria. A dimens&atilde;o comunit&aacute;ria &eacute; essencial &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da liberdade, que abre para a responsabilidade de cada um na digna realiza&ccedil;&atilde;o de todos os que participam da mesma comunidade.<\/p>\n<p>A educa&ccedil;&atilde;o dever&aacute; ser humanizante, levando a projectos pessoais e comunit&aacute;rios que realizem, em cada tempo, a perene grandeza do homem. A quest&atilde;o antropol&oacute;gica, isto &eacute;, a afirma&ccedil;&atilde;o da real dignidade do ser humano, &eacute; hoje decisiva para o futuro da humanidade. Dela decorre a inspira&ccedil;&atilde;o &eacute;tica do &ldquo;conviver&rdquo;, isto &eacute;, de viver em sociedade, o sentido da vida e da morte, a grandeza da liberdade. Os grandes problemas da humanidade actual, tais como a paz, o desenvolvimento, a quest&atilde;o social t&ecirc;m uma profunda dimens&atilde;o antropol&oacute;gica, isto &eacute;, a solu&ccedil;&atilde;o depende da compreens&atilde;o que se tiver do ser humano. Bento XVI afirma: &ldquo;hoje a quest&atilde;o social tornou-se radicalmente antropol&oacute;gica, enquanto toca o pr&oacute;prio modo, n&atilde;o s&oacute; de conceber, mas tamb&eacute;m de manipular a vida&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>A compreens&atilde;o que se comunicar do homem e da vida, do seu sentido e dos caminhos para a sua plena realiza&ccedil;&atilde;o &eacute;, hoje, decisiva. E da vis&atilde;o antropol&oacute;gica a comunicar tem de constar a necess&aacute;ria dimens&atilde;o comunit&aacute;ria e consequente responsabilidade colectiva da liberdade humana. Na vis&atilde;o b&iacute;blica do ser humano, a rela&ccedil;&atilde;o, o conviver, o construir a vida com os outros, definem ontologicamente o pr&oacute;prio &ldquo;humanum&rdquo;. Nem todas as religi&otilde;es t&ecirc;m esta vis&atilde;o do homem. O Papa afirma na &ldquo;Caritas in Veritate&rdquo;: &ldquo;O mundo actual regista a presen&ccedil;a de algumas culturas de matriz religiosa que n&atilde;o empenham o ser humano na comunh&atilde;o, mas isolam-no na busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicol&oacute;gicos&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>A conviv&ecirc;ncia das diversas religi&otilde;es no mundo globalizado, n&atilde;o adquire sempre a seriedade do di&aacute;logo inter-religioso, gerando antes um certo sincretismo religioso que pode levar &agrave; relativiza&ccedil;&atilde;o da mensagem educacional da tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde;, que valoriza a generosidade, o dom, a corresponsabilidade de uns pelos outros. Na &uacute;ltima Enc&iacute;clica, o Papa afirma-o claramente: &ldquo;A&nbsp;caridade na verdade&nbsp;coloca o ser humano perante a admir&aacute;vel experi&ecirc;ncia do dom. A gratuidade est&aacute; presente na sua vida sob m&uacute;ltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma vis&atilde;o meramente produtiva e utilitarista da exist&ecirc;ncia. O ser humano est&aacute; feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimens&atilde;o de transcend&ecirc;ncia&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>7. A educa&ccedil;&atilde;o, rectamente concebida, &eacute; a primeira responsabilidade da sociedade, na diversidade dos corpos sociais que a integram: a fam&iacute;lia, a escola, o Estado, as Igrejas. Para que ela seja garantida numa correcta orienta&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica, h&aacute; preocupa&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias a ter em conta:<\/p>\n<p>* N&atilde;o identificar educa&ccedil;&atilde;o e instru&ccedil;&atilde;o. A instru&ccedil;&atilde;o &eacute;, hoje, um elemento importante da educa&ccedil;&atilde;o e deveria ser ministrada em perspectiva educativa e n&atilde;o de mera aprendizagem. Ainda continuamos a chamar ao sistema escolar, que adquiriu uma import&acirc;ncia relevante nas sociedades contempor&acirc;neas, sistema educativo. Mas todos conhecemos as dificuldades que os professores encontram para serem realmente educadores;<\/p>\n<p>* Ter consci&ecirc;ncia da primazia das institui&ccedil;&otilde;es na educa&ccedil;&atilde;o. A prioridade da fam&iacute;lia, do ponto de vista te&oacute;rico, imp&otilde;e-se por si, mas na pr&aacute;tica tem perdido essa prioridade decisiva, dada a fragilidade que atingiu a fam&iacute;lia nos seus novos enquadramentos sociais. Fragilizar a miss&atilde;o educativa da fam&iacute;lia na educa&ccedil;&atilde;o &eacute; comprometer o futuro da sociedade. Exige-se, pois, uma inter-ac&ccedil;&atilde;o e complementaridade mais estruturadas e viabilizadas entre a escola e a fam&iacute;lia, que s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel se for querida e desejada por ambas as institui&ccedil;&otilde;es;<\/p>\n<p>* Perceber que a educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; um acto individual, mas comunit&aacute;rio, e que exige a comunica&ccedil;&atilde;o de uma tradi&ccedil;&atilde;o cultural viva, definit&oacute;ria da identidade da comunidade a que se pertence. Se isso n&atilde;o for garantido, a sociedade ser&aacute; cada vez mais um conjunto de indiv&iacute;duos cuja liberdade nem sempre converge para o bem-comum e em que a autoridade se v&ecirc; limitada &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de resolver conflitos.<\/p>\n<p>8. A Igreja tem um contributo real a dar &agrave; tarefa educativa. A sua prioridade &eacute; clara: colaborar com a fam&iacute;lia na sua miss&atilde;o educativa. F&aacute;-lo atrav&eacute;s das escolas que cria, atrav&eacute;s da catequese, dos movimentos juvenis. Mas talvez, no presente, este seu contributo para a educa&ccedil;&atilde;o deva passar por uma pastoral familiar global, que fortale&ccedil;a e defenda a fam&iacute;lia no todo da sua realidade, n&atilde;o se limitando a colaborar com a fam&iacute;lia na especificidade da fun&ccedil;&atilde;o educativa. No fortalecimento da fun&ccedil;&atilde;o educativa da escola, a Igreja n&atilde;o pode pensar apenas nas suas escolas, mas em todas as escolas, atrav&eacute;s dos meios poss&iacute;veis no actual quadro escolar, o principal dos quais &eacute; a influ&ecirc;ncia de professores crist&atilde;os, que lutem por uma aut&ecirc;ntica educa&ccedil;&atilde;o humanizante.<\/p>\n<p><strong>Proporcionar a todos o desenvolvimento digno da pessoa humana<\/strong>9. O desenvolvimento &eacute;, sem d&uacute;vida, uma express&atilde;o central do bem-comum que todos devemos procurar. Consegui-lo &eacute; tarefa da comunidade humana como um todo, desafia o poder pol&iacute;tico, as for&ccedil;as econ&oacute;micas, as empresas, os homens de cultura e tamb&eacute;m as religi&otilde;es. A Igreja Cat&oacute;lica, em concreto, tem participado significativamente nos processos de desenvolvimento atrav&eacute;s do ensinamento l&uacute;cido da sua doutrina social, ajudando a construir uma consci&ecirc;ncia colectiva que enquadre um desenvolvimento global, digno do homem. Nesse ensinamento da Igreja, &ldquo;o termo desenvolvimento quer indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os povos da fome, da mis&eacute;ria, das doen&ccedil;as end&eacute;micas e do analfabetismo&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>A pessoa humana, na sua dignidade e potencialidades, est&aacute; no centro dos processos de desenvolvimento, porque &eacute; o seu objectivo e o seu art&iacute;fice. &Eacute; o seu objectivo, porque o verdadeiro desenvolvimento contempla a pessoa toda, na complexa riqueza da sua realidade. A vis&atilde;o economicista do progresso n&atilde;o garante, pode at&eacute; comprometer, o completo desenvolvimento do homem. Bento XVI lembra que &ldquo;n&atilde;o &eacute; suficiente progredir do ponto de vista econ&oacute;mico e tecnol&oacute;gico; &eacute; preciso que o desenvolvimento seja verdadeiro e integral. A sa&iacute;da do atraso econ&oacute;mico n&atilde;o resolve a complexa problem&aacute;tica da promo&ccedil;&atilde;o do ser humano&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn11\">[11]<\/a>. S&oacute; na cultura e na profundidade espiritual o ser humano afirma a sua especificidade e superioridade. E nestes aspectos, o papel das religi&otilde;es &eacute;, porventura, insubstitu&iacute;vel. Seria justo que as sociedades reconhecessem a fun&ccedil;&atilde;o das religi&otilde;es na vida espiritual das pessoas como elemento relevante dos processos de desenvolvimento. &Eacute; miss&atilde;o tamb&eacute;m das religi&otilde;es explicitar e anunciar as exig&ecirc;ncias &eacute;ticas dos principais intervenientes nos processos de desenvolvimento: os Estados, as empresas, os grupos financeiros, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, os agentes culturais. Sem exig&ecirc;ncias &eacute;ticas colectivamente claras e aceites, os processos de desenvolvimento podem acentuar ego&iacute;smos, n&atilde;o s&oacute; das pessoas individuais, mas de grupos e de na&ccedil;&otilde;es inteiras, que lesando gravemente a justi&ccedil;a, comprometem a paz e podem mesmo p&ocirc;r em risco o equil&iacute;brio do planeta Terra, casa comum da fam&iacute;lia humana. Neste aspecto, o homem como art&iacute;fice e protagonista do desenvolvimento, assume responsabilidades gigantescas. Foi-lhe dada por Deus criador a miss&atilde;o e o dever de melhorar a Terra, pondo-a, cada vez mais, ao servi&ccedil;o do homem; mas sabemos tamb&eacute;m que, nessa interven&ccedil;&atilde;o, a pode destruir. A quest&atilde;o ecol&oacute;gica n&atilde;o &eacute;, hoje, um &ldquo;fait divers&rdquo; dos &ldquo;mass-media&rdquo;; sobretudo na sua dimens&atilde;o de &ldquo;ecologia humana&rdquo;, tem de ser uma quest&atilde;o central da cultura<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn12\">[12]<\/a>. Bento XVI n&atilde;o hesita em enunciar a responsabilidade da Igreja neste processo: &ldquo;A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela cria&ccedil;&atilde;o e deve fazer valer esta responsabilidade tamb&eacute;m em p&uacute;blico. Ao faz&ecirc;-lo, n&atilde;o tem apenas de defender a terra, a &aacute;gua e o ar como dons da cria&ccedil;&atilde;o que a todos pertencem, mas deve sobretudo proteger o homem da destrui&ccedil;&atilde;o de si mesmo. Requer-se uma esp&eacute;cie de ecologia da pessoa humana, entendida no justo sentido. De facto, a degrada&ccedil;&atilde;o da natureza est&aacute; estreitamente ligada &agrave; cultura que molda a conviv&ecirc;ncia humana: quando a &laquo;ecologia humana&raquo; &eacute; respeitada dentro da sociedade, beneficia tamb&eacute;m a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas s&atilde;o inter-comunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma p&otilde;e em risco tamb&eacute;m as outras, assim tamb&eacute;m o sistema ecol&oacute;gico se baseia no respeito de um projecto que se refere tanto &agrave; s&atilde; conviv&ecirc;ncia em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>10. Deste bem-comum que &eacute; o desenvolvimento, faz parte a luta contra a pobreza, onde a Igreja, na sua mensagem e na sua ac&ccedil;&atilde;o, tem sempre estado na primeira linha. Como afirmou Jo&atilde;o Paulo II, &ldquo;a luta contra a pobreza encontra uma forte motiva&ccedil;&atilde;o na op&ccedil;&atilde;o e no amor preferencial da Igreja pelos pobres&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn14\">[14]<\/a>. Neste campo a Igreja n&atilde;o age motivada por an&aacute;lises sociol&oacute;gicas, vai ao encontro das pessoas concretas, concretizando o amor e a capacidade de dom. Afirma corajosamente o destino universal dos bens, o que equivale a dizer que os pobres t&ecirc;m direito a receber algo do que os outros possuem.<\/p>\n<p>Se a motiva&ccedil;&atilde;o da luta contra a pobreza n&atilde;o &eacute; apenas sociol&oacute;gica, mas &eacute; o amor fraterno pela pessoa do pobre, a Igreja n&atilde;o se pode limitar a repartir bens, mas a promover a dignidade da pessoa do pobre. &Eacute; a complementaridade necess&aacute;ria entre a solidariedade e subsidiariedade. Paulo VI afirmou: &ldquo;o princ&iacute;pio da solidariedade, tamb&eacute;m na luta contra a pobreza, deve ser sempre oportunamente ladeado pelo da subsidiariedade, gra&ccedil;as ao qual &eacute; poss&iacute;vel estimular o esp&iacute;rito de iniciativa, base fundamental de todo o desenvolvimento socioecon&oacute;mico, nos pa&iacute;ses pobres. Deve olhar-se para os pobres, n&atilde;o como um problema, mas como poss&iacute;veis sujeitos e protagonistas de um futuro novo e mais humano para todo o mundo&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn15\">[15]<\/a>. E Bento XVI, citando este texto, acrescenta: &ldquo; a subsidiariedade sem a solidariedade cai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>11. Fala-se hoje de novas formas de pobreza, que interpelam a Igreja e a sociedade, entre as quais est&aacute; a solid&atilde;o. Citemos, mais uma vez, Bento XVI: &ldquo;Uma das pobrezas mais profundas que o ser humano pode experimentar &eacute; a solid&atilde;o&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn17\">[17]<\/a>. A Igreja conhece bem esta realidade, presente nos imigrantes, nos presos, nos anci&atilde;os, nas pessoas sem amor. Experimentamos continuamente que o carinho, uma presen&ccedil;a amiga e uma palavra que fa&ccedil;am a pessoa sentir-se em comunh&atilde;o, reconhecida como pessoa, s&atilde;o uma preciosa concretiza&ccedil;&atilde;o do bem-comum. Bento XVI afirma: &ldquo;A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunh&atilde;o. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que s&atilde;o uma s&oacute; fam&iacute;lia, a qual colabora em verdadeira comunh&atilde;o e &eacute; formada por sujeitos que n&atilde;o se limitam a viver uns ao lado dos outros&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn18\">[18]<\/a>. E acrescenta: &ldquo;de natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas rela&ccedil;&otilde;es inter-pessoais&rdquo;; por isso, &ldquo;o tema do desenvolvimento coincide com o da inclus&atilde;o relacional de todas as pessoas e de todos os povos na &uacute;nica comunidade da fam&iacute;lia humana, que se constr&oacute;i na solidariedade, tendo por base os valores fundamentais da justi&ccedil;a e da paz&rdquo;<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>O bem-comum &eacute; uma realidade global<\/p>\n<p><\/strong>12. O facto de ter seleccionado estas concretiza&ccedil;&otilde;es do bem-comum, certamente aquelas em que a Igreja e mesmo as outras confiss&otilde;es religiosas podem ter uma interven&ccedil;&atilde;o mais expl&iacute;cita, n&atilde;o significa que o bem-comum se esgota nelas, ou que o papel da Igreja n&atilde;o seja importante em todas as outras express&otilde;es do bem-comum. Este &eacute; uma realidade global, diz respeito a todas as dimens&otilde;es do crescimento da pessoa humana, inserida em comunidade, tais como o direito ao trabalho, &agrave; sa&uacute;de, a constru&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a e da paz. No centro do bem-comum est&aacute; sempre a dignidade da pessoa humana e a constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade digna do homem. E tudo o que diz respeito ao homem e &agrave; sua realiza&ccedil;&atilde;o faz parte da miss&atilde;o da Igreja, concebida n&atilde;o apenas como hierarquia, mas como Povo de Deus, comunidade organizada no meio da sociedade. Contribuir para o bem-comum &eacute; realiza&ccedil;&atilde;o da miss&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>Os modos de interven&ccedil;&atilde;o da Igreja na prossecu&ccedil;&atilde;o do bem-comum s&atilde;o v&aacute;rios. Antes de mais a sua mensagem expressa nesse vasto conjunto de Magist&eacute;rio a que chamamos Doutrina Social da Igreja, importante para formar a consci&ecirc;ncia dos crist&atilde;os na sua presen&ccedil;a e ac&ccedil;&atilde;o no seio da sociedade. E esta consci&ecirc;ncia dos crist&atilde;os, presentes no concreto da vida, pode ser decisiva para o contributo da Igreja na busca do bem-comum. O ensinamento da Igreja contribui tamb&eacute;m para formar uma consci&ecirc;ncia mundial em favor do bem-comum. Este aspecto deve, cada vez mais, fazer parte do dinamismo da forma&ccedil;&atilde;o que a Igreja proporciona aos seus fi&eacute;is.<\/p>\n<p>A Igreja interv&eacute;m igualmente e de forma espec&iacute;fica na sociedade, atrav&eacute;s das suas institui&ccedil;&otilde;es e dos seus membros, empenhados noutros corpos sociais, quer do Estado, quer da sociedade civil. H&aacute; uma complementaridade entre ac&ccedil;&atilde;o directa e inspira&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, que d&aacute; sentido e aponta para o quadro de valores e de atitudes em prol do bem-comum. Isto sup&otilde;e uma converg&ecirc;ncia da ac&ccedil;&atilde;o da Igreja com a ac&ccedil;&atilde;o de outros intervenientes na sociedade, na busca do bem-comum. A Igreja tem consci&ecirc;ncia de que h&aacute; &aacute;reas espec&iacute;ficas de compet&ecirc;ncia, pol&iacute;tica, econ&oacute;mica, t&eacute;cnica, que n&atilde;o lhe pertencem, o que n&atilde;o exclui a sua atitude de empenhamento cooperante.<\/p>\n<p>No caso das outras comunidades religiosas h&aacute; um longo caminho a andar, para se chegar &agrave; consci&ecirc;ncia de valores comuns em favor de uma sociedade digna do homem. Sem cair em sincretismos f&aacute;ceis, &eacute; poss&iacute;vel apurar um &ldquo;universal humano&rdquo;, proposto por quase todas as religi&otilde;es e que teriam mais peso na sociedade se apresentassem um sentir comum. As sociedades europeias v&atilde;o caindo na tend&ecirc;ncia cultural de excluir a dimens&atilde;o religiosa da compreens&atilde;o din&acirc;mica da busca do bem-comum.<\/p>\n<p>No que &agrave; Igreja Cat&oacute;lica diz respeito, &eacute; urgente solidificar cultural e institucionalmente um novo quadro de relacionamento da Igreja com a sociedade, que ultrapasse os desejos de dom&iacute;nio, por parte da Igreja, e a agressividade laicista dos Estados e da cultura ambiente<a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftn20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<p>Termino, enunciando uma verdade evidente, mas que devemos interiorizar cada vez mais: lutar pelo bem-comum &eacute;, para a Igreja, realizar a salva&ccedil;&atilde;o do homem, que come&ccedil;a j&aacute; neste mundo, em ordem &agrave; plena realiza&ccedil;&atilde;o escatol&oacute;gica. A salva&ccedil;&atilde;o &eacute; a suprema express&atilde;o do bem-comum.<\/p>\n<p>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref1\">[1]<\/a> Bento XVI, &ldquo;<strong>Caritas in Veritate<\/strong>&rdquo;, n&ordm; 7<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref2\">[2]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref3\">[3]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref4\">[4]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref5\">[5]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 56<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref6\">[6]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 7<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref7\">[7]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 75<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref8\">[8]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 55<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref9\">[9]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 34<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref10\">[10]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 21<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref11\">[11]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 23<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref12\">[12]<\/a> cf. <strong>Ibidem<\/strong>, nn&ordm; 48-52<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref13\">[13]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 51<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref14\">[14]<\/a> cf. <strong>Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja<\/strong>, n&ordm; 449<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref15\">[15]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref16\">[16]<\/a> Bento XVI, op. cit. n&ordm; 58<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref17\">[17]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 53<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref18\">[18]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 53<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref19\">[19]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 54<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/scripts\/tiny_mce3\/plugins\/paste\/pasteword.htm#_ftnref20\">[20]<\/a> cf. <strong>Ibidem<\/strong>, n&ordm; 56<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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