{"id":419260,"date":"2026-04-05T10:15:58","date_gmt":"2026-04-05T09:15:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=419260"},"modified":"2026-04-05T10:15:58","modified_gmt":"2026-04-05T09:15:58","slug":"homilia-do-bispo-do-ordinariato-castrense-na-missa-do-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-ordinariato-castrense-na-missa-do-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Ordinariato Castrense na Missa do Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Irm\u00e3s e irm\u00e3os,<\/p>\n<p>H\u00e1 uma corrida neste Evangelho que merece ser contemplada com aten\u00e7\u00e3o, porque tem muito a dizer-nos hoje.<\/p>\n<p>Pedro e Jo\u00e3o correm ao sepulcro. Jo\u00e3o chega primeiro, para \u00e0 entrada, espreita, v\u00ea as ligaduras no ch\u00e3o, mas n\u00e3o entra. Chega Pedro \u2014 com o peso de quem negou tr\u00eas vezes o seu Mestre. Ele entra. E depois entra Jo\u00e3o. E o Evangelista escreve, com uma simplicidade impressionante: <em>\u00abviu e acreditou.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o diz que Jo\u00e3o compreendeu tudo. Diz que viu \u2014 as ligaduras no ch\u00e3o, o sud\u00e1rio cuidadosamente dobrado e colocado \u00e0 parte \u2014 e acreditou. <strong>A f\u00e9 pascal nasce de sinais pequenos, lidos com o cora\u00e7\u00e3o aberto. <\/strong>Nasce de detalhes que uma raz\u00e3o honesta n\u00e3o consegue ignorar: quem rouba um cad\u00e1ver dobra o sud\u00e1rio com cuidado? H\u00e1 uma ordem naquela cena que desmente o caos. H\u00e1 uma liberdade naquela aus\u00eancia que anuncia uma presen\u00e7a maior.<\/p>\n<p><strong>O primeiro dia de uma cria\u00e7\u00e3o <span style=\"letter-spacing: -.2pt;\">nova<\/span><\/strong><\/p>\n<p>O Evangelho come\u00e7a com uma indica\u00e7\u00e3o que parece apenas cronol\u00f3gica, mas que Jo\u00e3o carrega de teologia: \u00ab<em>no primeiro dia da semana.\u00bb <\/em>Para quem conhece a B\u00edblia, esta express\u00e3o faz ressoar outra passagem das suas primeiras p\u00e1ginas: \u00ab<em>No princ\u00edpio, Deus criou o c\u00e9u e a terra&#8230; E disse Deus: Haja luz. E houve luz&#8230; E foi a tarde e foi a manh\u00e3: o primeiro dia.\u00bb<\/em>(Gn. 1, 1-5). O primeiro dia \u00e9 o dia em que Deus disse: \u00ab<em>Haja luz.\u00bb<\/em> Ao diz\u00ea-lo, <strong>Jo\u00e3o anuncia que aqui come\u00e7a algo radicalmente novo \u2014 n\u00e3o se trata apenas de um acontecimento no interior da hist\u00f3ria, mas do in\u00edcio de uma cria\u00e7\u00e3o nova, de um tempo novo, de um homem novo<\/strong>.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tamb\u00e9m uma indica\u00e7\u00e3o de escurid\u00e3o: Maria Madalena vai ao sepulcro \u00ab<em>de manh\u00e3 cedo, ainda escuro.\u00bb<\/em> A nova cria\u00e7\u00e3o come\u00e7a ainda no escuro. \u00c9 assim que Deus age \u2014 n\u00e3o com fanfarra, n\u00e3o com ex\u00e9rcitos, n\u00e3o com demonstra\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que impressionem os poderosos. Age no sil\u00eancio, nos sinais discretos que s\u00f3 quem est\u00e1 atento consegue ler.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00f3s vivemos nessa hora que ainda est\u00e1 escura. Olhamos para o mundo e vemos a Ucr\u00e2nia, o Ir\u00e3o, o L\u00edbano &#8230; e tantos outros lugares que os notici\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o mencionam, mas onde o sofrimento continua real. Vemos uma ret\u00f3rica que endurece, <strong>em que a linguagem da for\u00e7a substitui a do direito<\/strong>, onde o <strong>medo se transforma em pol\u00edtica<\/strong>, onde <strong>a mentira se apresenta como verdade<\/strong><strong>. <\/strong><u>Mas \u00e9 precisamente nesta hora que a mensagem pascal<\/u> <u>ressoa com mais for\u00e7a: <strong>o primeiro dia j\u00e1 come\u00e7ou<\/strong><\/u>.<\/p>\n<p><strong>A grande vit\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Na primeira leitura, Pedro anuncia a Ressurrei\u00e7\u00e3o diante de Corn\u00e9lio \u2014 um centuri\u00e3o romano, um militar pag\u00e3o, representante do poder que crucificou Jesus. E n\u00e3o h\u00e1 ressentimento. N\u00e3o h\u00e1 acusa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 apenas an\u00fancio: <strong>\u00ab<em>N\u00f3s somos testemunhas. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia.\u00bb <\/em><\/strong>E a conclus\u00e3o \u00e9 radical: \u00ab<em>quem acredita n&#8217;Ele recebe pelo seu nome a remiss\u00e3o dos pecados.\u00bb <\/em>Todos. Sem fronteiras. Sem exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A Ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria contra algu\u00e9m. \u00c9 uma vit\u00f3ria para todos<\/strong>. E, neste mundo partido e estilha\u00e7ado \u2014 onde a l\u00f3gica dos blocos divide e o inimigo precisa de ser desumanizado para que a guerra seja poss\u00edvel \u2014 esta mensagem \u00e9 subversiva. <strong>A miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o obedece a mapas geopol\u00edticos<\/strong>.<\/p>\n<p>Celebramos a P\u00e1scoa porque, gra\u00e7as ao Senhor ressuscitado, fica definitivamente estabelecido que <strong>a raz\u00e3o \u00e9 mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. <\/strong>Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 um programa de vida. \u00c9 uma declara\u00e7\u00e3o que contraria frontalmente a l\u00f3gica do mundo.<\/p>\n<p>Porque a l\u00f3gica do mundo diz que vence quem tem mais for\u00e7a bruta, mais capacidade de destrui\u00e7\u00e3o, mais habilidade de manipular a narrativa. A P\u00e1scoa diz: n\u00e3o! N\u00e3o definitivamente. A mentira pode enganar multid\u00f5es \u2014 mas a verdade teima em ressurgir. O \u00f3dio pode matar \u2014 mas n\u00e3o consegue destruir o amor que o gerou. A viol\u00eancia pode vencer batalhas \u2014 mas n\u00e3o vence a guerra \u00faltima. <strong>A vit\u00f3ria de Cristo \u00e9 a vit\u00f3ria do bem sobre o mal, da paz sobre a viol\u00eancia, do amor sobre o \u00f3dio, da verdade sobre a mentira<\/strong>. E esta vit\u00f3ria j\u00e1 aconteceu. \u00c9 o facto mais decisivo da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p><strong>Aspirar \u00e0s coisas do alto<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo convida-nos: \u00ab<em>Se ressuscitastes com Cristo, aspirai \u00e0s coisas do alto.\u00bb <\/em>N\u00e3o \u00e9 uma fuga do mundo. \u00c9 exatamente o oposto. Significa orientar a vida pelo horizonte \u00faltimo \u2014 pelo facto de que a morte n\u00e3o tem a \u00faltima palavra, que h\u00e1 uma dignidade humana inviol\u00e1vel que nenhum ex\u00e9rcito nem nenhuma propaganda pode anular. <strong>Implica agir neste mundo com crit\u00e9rios que n\u00e3o s\u00e3o os do mundo: resistir \u00e0 l\u00f3gica do medo, recusar que o \u00f3dio dite as escolhas, cultivar a paz onde se est\u00e1 <\/strong>\u2014 em casa, no trabalho, na forma como se usa a palavra, na maneira como se olha para o outro.<\/p>\n<p>O Salmo disse-o com uma beleza que nenhuma teologia supera:<\/p>\n<p>\u00ab<em>N\u00e3o morrerei, mas hei de viver, para anunciar as obras do Senhor.\u00bb <\/em>Esta \u00e9 a nossa miss\u00e3o: n\u00e3o nos deixarmos matar por dentro pelo desespero, pelo cinismo, pela resigna\u00e7\u00e3o ao mal. Mas viver \u2014 e anunciar que o primeiro dia j\u00e1 come\u00e7ou. Que a luz j\u00e1 rompeu, mesmo quando nem todos a conseguem ver. Que o sepulcro est\u00e1 vazio. Que Cristo ressuscitou.<\/p>\n<p>E n\u00f3s somos testemunhas.<\/p>\n<p>Que Maria, a primeira a acreditar \u2014 aquela que guardou tudo no cora\u00e7\u00e3o quando os outros ainda n\u00e3o compreendiam, aquela que n\u00e3o abandonou o Filho nem na hora mais escura do Calv\u00e1rio e que esperou com uma f\u00e9 que nenhuma pedra selada conseguiu vencer \u2014 <strong>nos ensine a correr tamb\u00e9m n\u00f3s, como Pedro e Jo\u00e3o, ao encontro do Ressuscitado. <\/strong>Que ela, Rainha da Paz, interceda por este mundo partido e estilha\u00e7ado e nos ajude a ser, cada dia, artes\u00e3os daquela paz que o mundo n\u00e3o pode dar, mas que Cristo nos deixou como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Feliz P\u00e1scoa a todos. Aleluia.<\/p>\n<p>\u2020 S\u00e9rgio Dinis,<\/p>\n<p>Bispo do Ordinariato Castrense de Portugal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":17,"featured_media":369831,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[271],"class_list":["post-419260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-ordinariato-castrense"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=419260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/369831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=419260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=419260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=419260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}