{"id":419234,"date":"2026-04-05T12:27:21","date_gmt":"2026-04-05T11:27:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=419234"},"modified":"2026-04-05T11:27:33","modified_gmt":"2026-04-05T10:27:33","slug":"homilia-do-bispo-da-guarda-na-missa-do-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-da-guarda-na-missa-do-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo da Guarda na Missa do Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><em>\u00abNo primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manh\u00e3zinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. [\u2026] Pedro partiu com o outro disc\u00edpulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro disc\u00edpulo antecipou-se, correndo mais depressa\u2026\u00bb.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Nesta manh\u00e3, todos os caminhos v\u00e3o dar ao sepulcro. Uns, porque percorridos pelos que procuram ainda na escurid\u00e3o, alguma luz que fa\u00e7a sentido.<\/p>\n<p>Quantas vezes, a dada altura do caminho, os desencontros, os des\u00e2nimos, o peso da idade, as perdas fazem sentir fugir o ch\u00e3o debaixo dos p\u00e9s. Aquilo em que se acreditou, e pelo qual se gastou as melhores for\u00e7as e os maiores entusiasmos da juventude, parece j\u00e1 n\u00e3o ser suficiente.<\/p>\n<p>Muitas vezes \u00e9 apenas a habitua\u00e7\u00e3o, a rotina, o desgaste e o cansa\u00e7o. Mas h\u00e1 uma noite escura, apenas penumbra ou noite cerrada, que envolve o cora\u00e7\u00e3o e rouba a motiva\u00e7\u00e3o. Ainda assim, permanece uma r\u00e9stia de esperan\u00e7a capaz de nos mover ao sepulcro, nem que seja para nos alimentar a partir das mem\u00f3rias boas antes vividas.<\/p>\n<p>Outros, porque percorridos pelos que procuram a novidade que concretize o sobressalto gerado por uma not\u00edcia esperan\u00e7osa, por uma lideran\u00e7a pr\u00f3xima e motivadora, ou por um acontecimento renovador. \u00c9 uma centelha que se reaviva e intensifica e faz correr ao sepulcro.<\/p>\n<p>Em ritmos diferenciados, segundo a condi\u00e7\u00e3o e a provoca\u00e7\u00e3o interior experimentada por cada um. Mas ainda assim juntos, isto \u00e9, em sintonia de procura.<\/p>\n<p>Indistintamente dos personagens da narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica, estas realidades podem ser vividas por qualquer um, em diferentes fases da sua vida, e at\u00e9 da sua rela\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e de compromisso com a Igreja.<\/p>\n<p>Acima de tudo, esta passagem da Palavra de Deus confirma a bondade de manter viva a capacidade de procura, sem desistir de o fazer por des\u00e2nimo, nem estagnar por julgar ter alcan\u00e7ado todas as respostas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus mostra-nos que a \u00fanica certeza \u00e9 a de que Deus sempre est\u00e1 l\u00e1, e nos pode surpreender. Diante da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus podemos estar seguros de que n\u00e3o h\u00e1 becos sem sa\u00edda. Nem a morte foi ou \u00e9 um ponto final. H\u00e1 uma sa\u00edda que abre para um nova vida, n\u00e3o um retorno ao que se guardou, mas um caminho que projecta mais al\u00e9m e se completa no definitivo de Deus.<\/p>\n<p>Que nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pela mente humana; mas que Deus preparou, tendo semeado, no cora\u00e7\u00e3o de cada um, a semente que irromper\u00e1 em apelo de procura que n\u00e3o quer ser reprimido.<\/p>\n<p>Neste tempo, t\u00e3o atravessado por contradi\u00e7\u00f5es, por desilus\u00f5es face a propostas que n\u00e3o cumpriram o que anunciavam e prometiam, por esc\u00e2ndalos, pelo descr\u00e9dito das institui\u00e7\u00f5es, inclusive as religiosas, \u00e9 preciso proclamar bem alto a novidade desta manh\u00e3 pascal: quem procura, encontra; quem n\u00e3o desiste, \u00e9 surpreendido; quem mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria, alcan\u00e7a com deslumbramento.<\/p>\n<p>Neste mundo, chamado ocidental, que tem dificuldade em tocar o divino e confunde apropria\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da religi\u00e3o com a f\u00e9 sobrenatural aut\u00eantica, acabando por rejeitar esta \u00faltima, \u00e9 preciso proclamar bem alto a novidade desta manh\u00e3 pascal: Cristo torna poss\u00edvel a vit\u00f3ria da vida, sem viol\u00eancia, sem domina\u00e7\u00e3o; e o sobrenatural alarga e supera, n\u00e3o reduz nem divide.<\/p>\n<p>Mas voltando ao texto evang\u00e9lico de hoje, vale a pena olhar cada uma das tr\u00eas personagens.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 Santa Maria Madalena, a ap\u00f3stola dos ap\u00f3stolos. \u00c9 a mulher junto aos Doze; depois da Virgem Santa Maria \u00e9 a primeira que permanece, que n\u00e3o desiste, assume a iniciativa, abre caminho, est\u00e1 presente (com haviam estado, quase s\u00f3 as mulheres, junto \u00e0 cruz de Jesus), conhece e anuncia; aquela que garante a transmiss\u00e3o imediata e viva da f\u00e9.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o divide, n\u00e3o age por conta pr\u00f3pria, n\u00e3o se apropria da gra\u00e7a recebida. Constr\u00f3i a Igreja, alarga a Igreja, renova a Igreja, comunh\u00e3o de disc\u00edpulos amados por Deus e por Ele guiados pelos que foram constitu\u00eddos em autoridade: <em>\u00ab[Maria Madalena] correu ent\u00e3o e foi ter com Sim\u00e3o Pedro e com o outro disc\u00edpulo que Jesus amava\u2026\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o como uma submiss\u00e3o, mas como um protagonismo articulado, um rasgar de caminho, que uma vez aberto se torna ch\u00e3o comum a desenvolver e construir em comunh\u00e3o de diferentes carismas.<\/p>\n<p>Encontramos tamb\u00e9m S\u00e3o Pedro, o impetuoso que aprendeu a ser tornado rocha que confirma na f\u00e9 e na unidade. \u00c9 o que representa os Doze; com eles, tem a solicitude de escutar e observar, sabendo partir quando e logo que necess\u00e1rio, mas sem apressar o que precisa de ser iluminado e integrado na unidade da f\u00e9:<\/p>\n<p><em>\u00abentretanto, chegou tamb\u00e9m Sim\u00e3o Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu\u2026 [\u2026] Na verdade, ainda n\u00e3o tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o o faz isoladamente, como poder autorreferencial e absoluto, mas seguindo atr\u00e1s do sentir da f\u00e9 dos disc\u00edpulos (o outro que corre junto com ele mas mais depressa), acolhendo a express\u00e3o do seu acreditar, e voltando para discernir, com os Doze, como enquadrar os acontecimentos recentes com o testemunho anterior recebido do Senhor.<\/p>\n<p>Vemos, finalmente, o outro disc\u00edpulo (tamb\u00e9m dito disc\u00edpulo amado), no testemunho da Igreja antiga considerado tratar-se de S\u00e3o Jo\u00e3o, o autor deste evangelho. \u00c9 o jovem, de cora\u00e7\u00e3o apaixonado e vibrante de amor ao ter-se encontrado com o cora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>\u00c9 aquele que corre de entusiasmo e vai mais depressa; o que se enche de for\u00e7a interior e coragem, capaz de enfrentar os perigos (o \u00fanico do Doze junto \u00e0 cruz); o que est\u00e1 bem integrado no seu tempo e abre caminhos para a presen\u00e7a da Igreja (como no p\u00e1tio do sumo sacerdote); o que \u00e9 aut\u00eantico e imediato a acreditar quando \u00e9 tocado por Deus: <em>\u00abEntrou tamb\u00e9m o outro disc\u00edpulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os jovens s\u00e3o o hoje da Igreja, chamados com o seu entusiasmo e ousadia a correr adiante, a assumir o protagonismo de ver e acreditar, a propor express\u00f5es de traduzir a f\u00e9 neste tempo. N\u00e3o o fazem sozinhos nem o querem fazer.<\/p>\n<p>S\u00e3o os primeiros a reclamar a proximidade de pastores e animadores, n\u00e3o para simplesmente os inserirem em grupos e formas dos mais velhos, mas para os escutarem, acompanharem, formarem e confirmarem: \u00abchegou primeiro ao sepulcro. Debru\u00e7ando-se, viu as ligaduras no ch\u00e3o, mas n\u00e3o entrou\u00bb. A par de espa\u00e7o e iniciativa, eles pedem forma\u00e7\u00e3o e confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, as gera\u00e7\u00f5es anteriores a eles precisamos de aprender a discernir os sinais dos tempos de que eles s\u00e3o portadores por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 a\u00ed muitos de n\u00f3s preocupados e at\u00e9 assustados: uns porque os jovens s\u00e3o muito \u201cprogressistas\u201d e j\u00e1 n\u00e3o abra\u00e7am algumas tradi\u00e7\u00f5es e h\u00e1bitos; outros, porque os jovens s\u00e3o muito \u201cconservadores\u201d e querem recuperar formas que lhes d\u00e3o seguran\u00e7a e abrem para uma densidade que n\u00e3o encontram, mas das quais nos esfor\u00e7\u00e1mos por deixar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>No fundo, uns e outros queremos que eles se encaixem no equil\u00edbrio a que cheg\u00e1mos e se tornou para n\u00f3s seguro: seja a seguran\u00e7a de f\u00f3rmulas equilibradas, seja a seguran\u00e7a de permanecer nas perguntas sem ter de assumir respostas.<\/p>\n<p>O mundo mudou e a Igreja e precisa de saber ler os sinais dos tempos. Que n\u00e3o s\u00e3o a simples leitura dos dados psicossociais. Mas a escuta do que de Deus irrompe por entre tais dados, mas n\u00e3o se confunde com eles.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas os jovens da d\u00e9cada de sessenta e seguintes do s\u00e9culo passado que eram portadores dos sinais dos tempos. Tanto os que contestavam os usos e costumes estatu\u00eddos como os que se entusiasmavam com os mestres das novas correntes de teologia (b\u00edblica, dogm\u00e1tica e moral), de liturgia, de aggiornamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o s\u00e3o os das primeiras d\u00e9cadas do actual mil\u00e9nio, com acentua\u00e7\u00f5es, continuidades e altera\u00e7\u00f5es, face aos jovens que j\u00e1 fomos.<\/p>\n<p>A sabedoria da manh\u00e3 da P\u00e1scoa \u00e9 a de que fa\u00e7amos o caminho juntos, valorizando as diferentes procuras e integrando-as na comunh\u00e3o. Que se enriquece com o apostolado fecundo de Santa Maria Madalena, o ardor juvenil de S\u00e3o Jo\u00e3o, e o minist\u00e9rio apost\u00f3lico de S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>Seja a for\u00e7a da manh\u00e3 da P\u00e1scoa a sustentar-nos na transforma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria e sinodal da Igreja universal e da nossa Igreja diocesana da Guarda.<\/p>\n<p>Catedral da Guarda, 5 de abril de 2026<\/p>\n<p>+ D. Jos\u00e9 Pereira, bispo da Guarda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":17,"featured_media":417749,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168],"class_list":["post-419234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=419234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419234\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/417749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=419234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=419234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=419234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}