{"id":419222,"date":"2026-04-05T12:55:09","date_gmt":"2026-04-05T11:55:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=419222"},"modified":"2026-04-05T10:37:31","modified_gmt":"2026-04-05T09:37:31","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-pascoa-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-pascoa-4\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal no Domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>1. \u201cNo primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manh\u00e3zinha, ainda escuro, ao sepulcro, e viu a pedra retirada do sepulcro\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o, o autor do IV Evangelho, diz simplesmente que Maria Madalena, a fiel disc\u00edpula do Senhor, se dirigiu ao sepulcro, antes do raiar da manh\u00e3. Os demais evangelistas dizem que ia acompanhada de outras mulheres (tamb\u00e9m elas do grupo que seguia o Senhor). Dizem que o fez porque os ritos de sepultura n\u00e3o tinham sido completados. Pouco importam estas diverg\u00eancias secund\u00e1rias. As v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es concordam no acontecimento: ao romper do primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro. \u00c9 um dos dados mais seguros acerca da hist\u00f3ria daquele primeiro Domingo!<\/p>\n<p>Sabemos que, quando l\u00e1 chegou, ao contr\u00e1rio das expectativas, a pedra que selava o sepulcro \u2014 e que impedia aos vivos de entrar e aos mortos de sair \u2014 se encontrava afastada, e que o t\u00famulo de Jesus estava vazio. Facilmente entendemos o alarme e a urg\u00eancia com que Maria se dirigiu aos primeiros dos disc\u00edpulos: \u201cLevaram o Senhor do sepulcro e n\u00e3o sabemos onde O puseram\u201d. Tal como entendemos a corrida de Pedro e Jo\u00e3o ao t\u00famulo do Mestre e o cen\u00e1rio com que, l\u00e1 chegados, se depararam: o t\u00famulo vazio, as ligaduras arrumadas a um canto, e o len\u00e7ol (o sud\u00e1rio) que cobria o rosto do Senhor, tamb\u00e9m ali deixado, como que indiciando n\u00e3o tanto o roubo do cad\u00e1ver mas um acontecimento de outra natureza.<\/p>\n<p>O t\u00famulo de Jesus, o t\u00famulo daquele que todos viram morto na cruz; o t\u00famulo que recebeu o seu corpo sem vida durante o dia de s\u00e1bado \u2014 esse t\u00famulo que parecia ser o sinal da vit\u00f3ria definitiva da morte sobre Deus e sobre as esperan\u00e7as humanas; que parecia o sinal da impossibilidade da salva\u00e7\u00e3o, eis que agora, longe de se encontrar encerrado para sempre, se apresenta aberto, escancarado. \u201cQue \u00e9 feito do corpo do Nazareno?\u201d: \u00e9 a quest\u00e3o que surge, espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>Inicialmente, a resposta de Maria Madalena e de Pedro esteve longe de ser a resposta da f\u00e9. Foi, antes, a resposta que se apresentava mais imediata: \u201croubaram o corpo do Senhor\u201d. Isso mesmo se apressaram a defender as autoridades judaicas e aquelas romanas. E assim continuam hoje, teimosamente, incapazes de ousar o passo da f\u00e9, tantos outros a responder.<\/p>\n<p>\u00c9 a resposta l\u00f3gica, humana, conveniente: a resposta que n\u00e3o exige nenhum outro passo, que n\u00e3o provoca esc\u00e2ndalo. N\u00e3o era a primeira vez, nem seria a \u00faltima que um cad\u00e1ver seria roubado: os disc\u00edpulos poderiam regressar a sua casa, \u00e0s suas terras e \u00e0s suas profiss\u00f5es, talvez cansados de se verem envolvidos em todos aqueles acontecimentos. O t\u00famulo de Jesus permaneceria o ponto final duma \u201caventura\u201d de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>2. E, no entanto, Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo amado, foi capaz de ir mais longe que a mera e imediata apar\u00eancia. O amor faz ver mais longe, alarga os horizontes da l\u00f3gica humana, admite outras raz\u00f5es que a raz\u00e3o se mostra incapaz de conhecer: \u201cViu e acreditou\u201d, escreve Jo\u00e3o, resumindo aqueles momentos. Viu o mesmo que Pedro e que Madalena, mas ousou ir mais longe, e acreditou. Em que acreditou?<\/p>\n<p>Acreditou na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Acreditou com que raz\u00f5es? Em primeiro lugar, acreditou nos an\u00fancios que Jesus tinha realizado da sua Paix\u00e3o na cruz e da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Os evangelhos est\u00e3o cheios desses an\u00fancios. Por exemplo, ao narrar o gesto da purifica\u00e7\u00e3o do Templo, S. Jo\u00e3o diz: \u201cJesus respondeu-lhes: \u00abDestru\u00ed este templo, e em tr\u00eas dias o levantarei\u00bb. Disseram-lhe, ent\u00e3o, os judeus: \u00abForam precisos quarenta e seis anos para se edificar este templo, e Tu em tr\u00eas dias o levantar\u00e1s?\u00bb. Ele, por\u00e9m, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando ressuscitou dos mortos, os seus disc\u00edpulos recordaram-se de que tinha dito isto e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus\u201d (Jo 3,19-22). E v\u00e1rias outras passagens poder\u00edamos aqui acrescentar.<\/p>\n<p>Parece pois claro: Jesus anunciou aos seus disc\u00edpulos a sua morte, mas anunciou igualmente a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, realidade que, naquele momento, os disc\u00edpulos n\u00e3o foram capazes de compreender. Isso mesmo o vemos, por exemplo, em S. Marcos, no final da narrativa da transfigura\u00e7\u00e3o, na conversa entre Pedro, Tiago e Jo\u00e3o: \u201cRetiveram para si estas palavras, debatendo o que seria ressuscitar dos mortos\u201d (Mc 9,10).<\/p>\n<p>Nesse momento, nenhum deles percebeu o que significava \u201cressuscitar dos mortos\u201d. Mas agora, Jo\u00e3o, confrontado com o acontecimento do t\u00famulo vazio, entende as palavras de Jesus. Agora sabe o que significa \u201cressuscitar dos mortos\u201d.<\/p>\n<p>Mas Jo\u00e3o acreditou tamb\u00e9m nas Escrituras. N\u00e3o sabemos identificar a que passagem exacta do Antigo Testamento S. Jo\u00e3o se referia, mas sabemos que todo o conjunto das Escrituras proclama, sem sombra de d\u00favidas, a vit\u00f3ria de Deus sobre a morte. Eis que o an\u00fancio de toda a Antiga Alian\u00e7a se tornou, agora, realidade, acontecimento, hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>3. Mas sabemos que o pr\u00f3prio Jesus ressuscitado foi mais longe. Sabemos que, logo ap\u00f3s a descoberta do t\u00famulo vazio, se apresentou a Maria Madalena, tratando-a pelo nome; e que, depois, se apresentou aos disc\u00edpulos reunidos no Cen\u00e1culo, uma e outra vez; e tamb\u00e9m nas margens do Lago. S\u00e3o Paulo, ao recordar aos crist\u00e3os de Corinto a realidade hist\u00f3rica da ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, n\u00e3o hesita em enumerar: \u201cApareceu a Cefas e depois aos Doze. Depois disso, apareceu de uma s\u00f3 vez a mais de quinhentos irm\u00e3os, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns j\u00e1 tenham adormecido. Depois disso apareceu a Tiago e, depois, a todos os ap\u00f3stolos. Por \u00faltimo, como a um nascido fora de tempo, apareceu-me tamb\u00e9m a mim\u201d (1Cor 15,5-8).<\/p>\n<p>O amor de Jo\u00e3o permitiu-lhe ver mais longe. Depois dele, muitos outros disc\u00edpulos, muitos outros crist\u00e3os acreditaram, mesmo sem terem visto. Deixemos que, tal como sucedeu com o disc\u00edpulo amado, a certeza da ressurrei\u00e7\u00e3o inunde a nossa vida, nos permita olhar mais longe que os estreitos limites dos sentidos f\u00edsicos, e nos encha da alegria que n\u00e3o tem fim: Cristo venceu a morte para sempre. Aleluia!<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 5 de abril de 2026<\/p>\n<p>+\u00a0D. Nuno Br\u00e1s, bispo do Funchal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":17,"featured_media":419295,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-419222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=419222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419222\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/419295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=419222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=419222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=419222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}