{"id":419057,"date":"2026-04-06T09:23:53","date_gmt":"2026-04-06T08:23:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=419057"},"modified":"2026-04-04T17:26:43","modified_gmt":"2026-04-04T16:26:43","slug":"o-inferno-comeca-quando-acreditas-no-rotulo-entre-o-erro-e-o-inferno-ha-uma-decisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-inferno-comeca-quando-acreditas-no-rotulo-entre-o-erro-e-o-inferno-ha-uma-decisao\/","title":{"rendered":"O inferno come\u00e7a quando acreditas no r\u00f3tulo &#8211;  Entre o erro e o inferno h\u00e1 uma decis\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-228266 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>O inferno n\u00e3o come\u00e7a nas grandes quedas. Come\u00e7a quando deixamos de distinguir entre aquilo que fizemos e aquilo que somos, quando trocamos a consci\u00eancia pelo r\u00f3tulo e a responsabilidade pela resigna\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse instante que a queda deixa de ser epis\u00f3dio e passa a ser morada.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma frase, atribu\u00edda a Bel Rodrigues, que ilumina esta quest\u00e3o: \u201co diabo conhece o nosso nome, mas chama-nos pelos nossos pecados; Deus conhece os nossos pecados, mas chama-nos pelo nosso nome\u201d. A sua for\u00e7a n\u00e3o reside na demonologia, mas na identidade. O problema nunca foi simplesmente o erro; \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o de nos redefinirmos a partir dele.<\/p>\n<p>Habitu\u00e1mo-nos a uma cultura que simplifica aquilo que \u00e9 complexo e transforma quedas em defini\u00e7\u00f5es. Um deslize torna-se nome, uma falha converte-se em ess\u00eancia. Julgamos com ru\u00eddo e perdoamo-nos em sil\u00eancio. E nesse duplo crit\u00e9rio acabamos por perder algo decisivo: a diferen\u00e7a entre fazer justi\u00e7a e querer condenar.<\/p>\n<p>A cultura digital agravou este processo ao registar, arquivar e eternizar o instante. O passado torna-se senten\u00e7a permanente. Por\u00e9m, o mais inquietante n\u00e3o \u00e9 o que os outros fazem connosco, mas o que fazemos a n\u00f3s pr\u00f3prios. Deixamos de dizer \u2018errei\u2019 para come\u00e7ar a dizer \u2018eu sou assim\u2019. A frase parece humilde. Na verdade, \u00e9 rendi\u00e7\u00e3o. Mais, \u00e9 aqui que come\u00e7a o inferno: na identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se cair \u00e9 humano, instalar-se na queda \u00e9 uma escolha. Ali\u00e1s, quando decoramos a falha como se fosse um destino, abdicamos da liberdade e estreitamos o futuro at\u00e9 quase o anular. Por isso, a falha deixa de ser acto e transforma-se em identidade.<\/p>\n<p>Vejamos v\u00e1rios exemplos: um ci\u00fame n\u00e3o trabalhado passa a ser crit\u00e9rio; uma inveja discreta converte-se em lente; uma m\u00e1goa antiga come\u00e7a a interpretar o mundo inteiro. Psicologicamente, o processo \u00e9 claro: a emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o integrada gera narrativa, a narrativa constr\u00f3i identidade e a identidade molda comportamento. Passamos a viver a partir da ferida e n\u00e3o da liberdade, e acabamos por chamar car\u00e1cter ao que \u00e9 apenas defesa.<\/p>\n<p>Teologicamente, a quest\u00e3o \u00e9 ainda mais radical. O pecado n\u00e3o nos destr\u00f3i apenas pelo que faz, mas sobretudo pelo que nos convence que somos. Quando acreditamos que a nossa pior vers\u00e3o \u00e9 a nossa verdade definitiva, come\u00e7amos a agir como se j\u00e1 n\u00e3o houvesse reden\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e tornamo-nos c\u00famplices da pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, se o erro \u00e9 acto, a pessoa, por\u00e9m, permanece mist\u00e9rio. Mais, a dignidade n\u00e3o \u00e9 o pr\u00e9mio reservado \u00e0 boa conduta, mas o fundamento que precede qualquer queda. Identificar-se com a falha \u00e9 abdicar do futuro e reduzir a liberdade \u00e0 mem\u00f3ria de um fracasso.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, uma dimens\u00e3o mais inc\u00f3moda que raramente confessamos: o r\u00f3tulo tamb\u00e9m oferece abrigo. Enquanto me defino pela minha ferida, ningu\u00e9m me exige crescimento; e, enquanto me declaro prisioneiro da minha hist\u00f3ria, evito a responsabilidade do presente. O inferno come\u00e7a, pois, no momento em que a narrativa substitui a decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Conta-se que um jovem entrou num comboio no Pocinho com destino ao Porto. A carruagem estava vazia. Sentou-se. Come\u00e7ou a pingar \u00e1gua exactamente sobre a sua cabe\u00e7a e ali permaneceu. O revisor perguntou-lhe: \u2018Porque n\u00e3o muda de lugar?\u2019 O rapaz respondeu: \u2018Troco com quem? N\u00e3o est\u00e1 aqui ningu\u00e9m\u2019.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso haver algu\u00e9m para trocar. \u00c9 preciso decidir levantar-se.<\/p>\n<p>Quantos vivem debaixo da pinga constante do ressentimento, da compara\u00e7\u00e3o ou da culpa e preferem suport\u00e1-la a assumir o esfor\u00e7o de se mover? A maior pris\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o erro; \u00e9 a acomoda\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o ignora as nossas sombras, mas n\u00e3o nos chama por elas. Chama-nos pelo nome. E o nome \u00e9 sempre maior do que a falha.<\/p>\n<p>Enquanto acreditares no r\u00f3tulo, viver\u00e1s reduzido, mas enquanto decidires levantar-te, haver\u00e1 futuro. Porque ningu\u00e9m \u00e9 definitivamente aquilo que errou.<\/p>\n<p><strong>O inferno n\u00e3o \u00e9 cair: \u00e9 desistir de se levantar!<\/strong><\/p>\n<p><em>Padre Manuel Ribeiro, reitor do Santu\u00e1rio do Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria, em Cerejais, Alf\u00e2ndega da F\u00e9.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":228266,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-419057","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419057","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=419057"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419057\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/228266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=419057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=419057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=419057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}