{"id":41903,"date":"2009-11-13T16:15:55","date_gmt":"2009-11-13T16:15:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/13\/a-construcao-do-bem-comum-responsabilidade-da-pessoa\/"},"modified":"2009-11-13T16:15:55","modified_gmt":"2009-11-13T16:15:55","slug":"a-construcao-do-bem-comum-responsabilidade-da-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-construcao-do-bem-comum-responsabilidade-da-pessoa\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o do bem comum, responsabilidade da pessoa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Eu chego a ser Eu no Tu; ao chegar a ser Eu digo Tu &ndash; Toda a vida verdadeira &eacute; encontro. <\/em>(M. Buber)<\/p>\n<p>A pessoa &eacute; um ser de rela&ccedil;&atilde;o. A sua natureza mais profunda &eacute; relacional, sem os outros um ser humano n&atilde;o se torna <em>pessoa<\/em>. Uma crian&ccedil;a, quando nasce, n&atilde;o aprende a falar e a pensar (duas capacidades que se desenvolvem em interdepend&ecirc;ncia e que distinguem o ser humano dos outros animais) sem o est&iacute;mulo exterior dos seus familiares e das outras crian&ccedil;as. No isolamento, sem rela&ccedil;&atilde;o, as suas capacidades n&atilde;o desabrocham e acabar&atilde;o at&eacute; por atrofiar.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m disso, a pr&oacute;pria imagem que de si vai construindo a crian&ccedil;a, &eacute; o espelho da imagem que lhe devolvem os outros. A crian&ccedil;a come&ccedil;a, ali&aacute;s, por se referir a si pr&oacute;pria na 3&ordf; pessoa: &ldquo;A In&ecirc;s quer papar&rdquo;. Ela tem consci&ecirc;ncia de si a partir da consci&ecirc;ncia que dela t&ecirc;m os que a v&ecirc;em e lhe restituem a sua pr&oacute;pria identidade.<\/p>\n<p>Podemos at&eacute; considerar que a nossa natureza relacional prov&eacute;m da nossa origem primordial: o homem foi criado &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a de Deus. Ora, Deus &eacute;, Ele pr&oacute;prio, rela&ccedil;&atilde;o. As tr&ecirc;s pessoas da Sant&iacute;ssima Trindade s&atilde;o a imagem perfeita da <em>identidade na rela&ccedil;&atilde;o<\/em>. Deus <em>&eacute;<\/em> (Yav&eacute; &ndash; &ldquo;eu sou&rdquo;) na interna rela&ccedil;&atilde;o das tr&ecirc;s pessoas nas quais a sua identidade din&acirc;mica se desdobra.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&oacute;s, &agrave; semelhan&ccedil;a de Deus, somos internamente complexos. No entanto, a nossa identidade n&atilde;o se forma somente no di&aacute;logo interior entre as v&aacute;rias partes de n&oacute;s mesmos, mas &eacute; um sistema aberto, que se alimenta do exterior. Ser EU n&atilde;o implica ser fechado sobre mim, ser uma c&aacute;psula imperme&aacute;vel que &eacute; t&atilde;o mais coerente quanto mais resistir &agrave;s influ&ecirc;ncias externas. Pelo contr&aacute;rio, sem a rela&ccedil;&atilde;o com o outro vou definhando, entro em curto-circuito e, de forma est&eacute;ril, acabo por me tornar um disco riscado que repete incessantemente a mesma frase, sem se renovar, sem desenvolver o seu potencial.<\/p>\n<p>Arist&oacute;teles, no s&eacute;c. IV a.C., foi mais longe, afirmando que a pessoa se realiza na Cidade (<em>polis<\/em>), como express&atilde;o m&aacute;xima da inter-rela&ccedil;&atilde;o que permite n&atilde;o s&oacute; viver, como <em>viver bem<\/em>. A cidade existe como colectividade auto-suficiente a n&iacute;vel material e capaz de realizar o Homem em todas as suas potencialidades, alcan&ccedil;ando a &ldquo;vida boa&rdquo;.<\/p>\n<p>Para Arist&oacute;teles, ali&aacute;s, esta dimens&atilde;o colectiva que permite a plena realiza&ccedil;&atilde;o humana n&atilde;o &eacute; o fruto da dimens&atilde;o individual, n&atilde;o &eacute; um <em>todo<\/em> que resulta da soma das <em>partes<\/em>. Pelo contr&aacute;rio, &eacute; o seu pressuposto. A pessoa como indiv&iacute;duo n&atilde;o existe (pois n&atilde;o chega a ser pessoa). As partes s&oacute; existem (s&oacute; fazem sentido) no todo. Como pe&ccedil;as de um puzzle, como partes de um corpo. E por isso Arist&oacute;teles afirma que a cidade &eacute;, &ldquo;por natureza, anterior ao indiv&iacute;duo&rdquo;.<\/p>\n<p>&laquo;A natureza de uma coisa &eacute; o seu fim: aquilo que cada coisa se torna quanto atinge seu completo desenvolvimento (&hellip;). Essas considera&ccedil;&otilde;es tornam evidente que a cidade &eacute; uma realidade natural e que o homem &eacute;, por natureza, um animal pol&iacute;tico (<em>politik&oacute;n z&ocirc;on<\/em>). E aquele que, por natureza e n&atilde;o por mero acidente, n&atilde;o faz parte de uma cidade &eacute; ou um ser degradado ou um ser superior ao homem.&raquo; (Arist&oacute;teles, <em>Pol&iacute;tica<\/em>, livro 1 cap.2)<\/p>\n<p>Nesta linha de pensamento, a sociedade moderna tem vindo a realizar plenamente a natureza relacional do homem, ao alargar a <em>polis<\/em> &agrave; dimens&atilde;o planet&aacute;ria. A rede de rela&ccedil;&otilde;es comerciais e socioculturais tornou-se uma complexa tela de fios entrela&ccedil;ados em redor do globo. Desde os cereais que como de manh&atilde;, &agrave;s cal&ccedil;as que visto ou a cada pe&ccedil;a do meu telem&oacute;vel, tudo o que uso no meu quotidiano tem uma origem global que me ultrapassa, tornando-me dependente de todos os homens para a minha pr&oacute;pria subsist&ecirc;ncia. Culturalmente, tamb&eacute;m, as influ&ecirc;ncias que contribu&iacute;ram para a minha forma de pensar e olhar o mundo estendem-se de forma impressionante ao longo de s&eacute;culos e de milhares de quil&oacute;metros.<\/p>\n<p>Por outro lado, por&eacute;m, o mundo moderno tem vindo a idealizar como modelo de &ldquo;vida boa&rdquo; a autonomia e a realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Eu sou tanto mais feliz quanto mais puder fazer o que quero e quando quero, quanto menos dependente dos outros e mais &ldquo;livre&rdquo; for &ndash; no sentido redutor de n&atilde;o ter de prestar contas a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Ora, este modelo de <em>pessoa<\/em>, que est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o com todos os outros (atrav&eacute;s da globaliza&ccedil;&atilde;o material e cultural), mas que quer da&iacute; trazer s&oacute; benef&iacute;cios e nenhuma contra-partida em responsabilidade global, come&ccedil;a a dar sinais de implos&atilde;o.<\/p>\n<p>Os homens e mulheres de hoje, cada vez mais citadinos mas mais solit&aacute;rios, agarram-se com unhas e dentes &agrave; sua autonomia evitando rela&ccedil;&otilde;es e compromissos que lhes tolham a independ&ecirc;ncia, mas simultaneamente t&ecirc;m de recorrer a psic&oacute;logos e f&aacute;rmacos para resolver problemas que as sociedade anteriores &agrave; nossa apresentavam em muito menor grau. Problemas de solid&atilde;o, de falta de di&aacute;logo, de frustra&ccedil;&otilde;es profundas, de uma insatisfa&ccedil;&atilde;o permanente.<\/p>\n<p>O dia-a-dia da maior parte das pessoas &eacute; uma sucess&atilde;o de tarefas individuais, no emprego ou na fam&iacute;lia (fam&iacute;lias estas, tamb&eacute;m cada vez mais reduzidas e mais fechadas sobre si mesmas), para al&eacute;m das quais procuram pequenos momentos de satisfa&ccedil;&atilde;o pessoal atrav&eacute;s da ida ao gin&aacute;sio, da aula de yoga &ndash; actividades necess&aacute;rias para a &ldquo;sanidade mental&rdquo;. E o tempo para estar com os outros &eacute; sempre reduzido, e a participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica a n&iacute;vel associativo torna-se a &uacute;ltima prioridade.<\/p>\n<p>O Homem, cuja natureza necessita da rela&ccedil;&atilde;o com os outros, pretende crescer actualmente sem que essa rela&ccedil;&atilde;o o afecte, julga poder desenvolver a sua identidade na escuta somente de si mesmo e n&atilde;o dos outros e da colectividade. E assim, como uma planta que precisa de sol e se encontra a crescer &agrave; sombra, vai mirrando, definhando gradualmente.<\/p>\n<p>O Bem Comum &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o da <em>polis<\/em> de Arist&oacute;teles, &eacute; a realiza&ccedil;&atilde;o da pessoa no todo que lhe d&aacute; sentido.<\/p>\n<p>A sociedade de hoje espera talvez que uma &ldquo;m&atilde;o invis&iacute;vel&rdquo; construa o puzzle, a partir de pe&ccedil;as que, convictamente aut&oacute;nomas e independentes, pretendem antes de mais realizar-se individualmente. Torna-se provavelmente um objectivo irrealiz&aacute;vel &agrave; partida: se cada um considera ter deveres s&oacute; para consigo mesmo, e ter in&uacute;meros direitos perante a colectividade, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel construir a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Joana Rigato, Vice-presidente da Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu chego a ser Eu no Tu; ao chegar a ser Eu digo Tu &ndash; Toda a vida verdadeira &eacute; encontro. (M. Buber) A pessoa &eacute; um ser de rela&ccedil;&atilde;o. A sua natureza mais profunda &eacute; relacional, sem os outros um ser humano n&atilde;o se torna pessoa. 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