{"id":418853,"date":"2026-04-03T16:53:23","date_gmt":"2026-04-03T15:53:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=418853"},"modified":"2026-04-04T00:06:50","modified_gmt":"2026-04-03T23:06:50","slug":"setubal-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/setubal-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Set\u00fabal: Homilia da celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_417844\" aria-describedby=\"caption-attachment-417844\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-417844 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-400x266.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-400x266.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/D.-Americo-Aguiar-Setubal-Domingo-de-Ramos3.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-417844\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ricardo Perna\/Diocese de Set\u00fabal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s,<\/p>\n<p>Celebrar a Paix\u00e3o do Senhor \u00e9 muito mais do que reviver a sequ\u00eancia dos acontecimentos que acab\u00e1mos de escutar. N\u00e3o estamos aqui apenas para recordar um drama do passado. Estamos aqui para nos deixarmos tocar por uma realidade que continua a acontecer \u2014 na hist\u00f3ria do mundo e na hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A Palavra de Deus que hoje escut\u00e1mos coloca-nos frente a frente com o mist\u00e9rio do sofrimento, do mal e da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>O profeta Isa\u00edas falou-nos do Servo sofredor: \u201cdesprezado e rejeitado pelos homens, homem de dores, habituado ao sofrimento\u201d. Um rosto desfigurado, algu\u00e9m de quem se desvia o olhar. E, no entanto, \u00e9 por meio dele que chega a salva\u00e7\u00e3o: \u201cpelas suas chagas fomos curados\u201d.<\/p>\n<p>Na Carta aos Hebreus, somos convidados a olhar para Jesus como Aquele que conhece as nossas fraquezas, que foi provado em tudo, que rezou com l\u00e1grimas, que aprendeu a obedi\u00eancia no sofrimento. N\u00e3o temos um Deus distante. Temos um Deus que entra na nossa dor.<\/p>\n<p>E o Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o faz-nos percorrer cada passo da Paix\u00e3o: a trai\u00e7\u00e3o, a nega\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia, a cobardia, o julgamento injusto, a condena\u00e7\u00e3o, a cruz.<\/p>\n<p>Celebrar a Paix\u00e3o de Jesus \u00e9, portanto, sermos confrontados com tudo aquilo que continua a marcar a vida humana: a injusti\u00e7a, o medo, a desilus\u00e3o, a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Jesus sabia que iria sofrer. Mas isso n\u00e3o diminui a realidade da dor, nem o impacto da viol\u00eancia que sofreu. E \u00e9 imposs\u00edvel escutar esta Paix\u00e3o sem pensar no mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>Hoje, como naquele tempo, h\u00e1 sofrimento inocente. H\u00e1 m\u00e3es que choram os seus filhos. H\u00e1 cidades destru\u00eddas. H\u00e1 povos inteiros a viver na inseguran\u00e7a, na mis\u00e9ria, no medo.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o pensar na Ucr\u00e2nia, na Terra Santa, no M\u00e9dio Oriente, em \u00c1frica, em tantas regi\u00f5es do mundo marcadas pela guerra? Como n\u00e3o reconhecer que, nesta mesma hora, a viol\u00eancia continua a escrever p\u00e1ginas de dor na hist\u00f3ria da humanidade?<\/p>\n<p>Mas a Paix\u00e3o de Jesus n\u00e3o acontece apenas nos grandes cen\u00e1rios da hist\u00f3ria. Continua a acontecer de tantas formas diferentes, tantas vezes silenciosas, tantas vezes escondidas aos olhos do mundo. Basta recordar o olhar de Noelia Castillo, a jovem espanhola que morreu recentemente, v\u00edtima da legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia. Quem pode duvidar do calv\u00e1rio que viveu, do abandono que sentiu, do sofrimento que a atravessou? Tamb\u00e9m a\u00ed somos chamados a reconhecer um grito de dor que interpela a nossa consci\u00eancia, a nossa humanidade, a nossa f\u00e9.<\/p>\n<p>Mas a Paix\u00e3o n\u00e3o nos deixa apenas a olhar para fora. Obriga-nos a olhar para dentro.<\/p>\n<p>Como entendemos n\u00f3s o amor, \u00e0 luz da Cruz de Jesus?<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o amor de Deus no meio de tanto sofrimento?<\/p>\n<p>E mais ainda: que lugar tem o amor nas nossas palavras, nas nossas atitudes, nas nossas rela\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>O Papa desafiava-nos recentemente a \u201cdesarmar as palavras\u201d. Talvez seja um dos caminhos mais concretos que hoje podemos assumir. Porque tantas vezes \u00e9 com palavras que come\u00e7amos a construir a viol\u00eancia: palavras que ferem, que humilham, que excluem, que matam lentamente.<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 outras formas de viol\u00eancia, que fazem parte do nosso quotidiano: a viol\u00eancia dom\u00e9stica, os abusos, a pornografia, a explora\u00e7\u00e3o, a indiferen\u00e7a, a intoler\u00e2ncia. Tudo isto chega at\u00e9 n\u00f3s, entra nas nossas casas, molda a nossa forma de viver.<\/p>\n<p>Seremos capazes de reconhecer, nestas realidades, a Paix\u00e3o de Jesus que continua?<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 as perguntas mais dif\u00edceis. As mais pessoais.<\/p>\n<p>Perante a Cruz, onde nos colocamos n\u00f3s?<\/p>\n<p>Seremos como Pedro, que nega?<\/p>\n<p>Como os disc\u00edpulos, que fogem?<\/p>\n<p>Ou seremos capazes de permanecer, como Maria e o disc\u00edpulo amado, junto \u00e0 Cruz \u2014 assumindo a totalidade do sofrimento , apesar de tristes e desolados, com o cora\u00e7\u00e3o ferido?<\/p>\n<p>Talvez pensemos que nada disto tem a ver connosco. Que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cruzes levantadas nos montes, que ningu\u00e9m nos obriga a renegar a f\u00e9, que podemos viver livremente como crist\u00e3os.<\/p>\n<p>E, no entanto, a Paix\u00e3o continua.<\/p>\n<p>Continua nos rostos concretos de quem sofre, de quem se sente abandonado, de quem perde a esperan\u00e7a. Continua nas situa\u00e7\u00f5es em que a dignidade humana \u00e9 posta em causa, nas decis\u00f5es que banalizam a vida, nos caminhos que deixam o ser humano sozinho diante da dor.<\/p>\n<p>E continua tamb\u00e9m nas pequenas escolhas do nosso dia a dia: quando escolhemos o sil\u00eancio em vez da verdade, a indiferen\u00e7a em vez do compromisso, a agressividade em vez da paz.<\/p>\n<p>Por isso, ganha ainda mais for\u00e7a o alerta deixado pelo Papa Le\u00e3o XIV na sua mensagem para o \u00faltimo Dia Mundial da Paz, quando denuncia que, \u201cem vez de uma cultura da mem\u00f3ria, que preserve a consci\u00eancia adquirida no s\u00e9culo XX e n\u00e3o esque\u00e7a os milh\u00f5es de v\u00edtimas, promovem-se campanhas de comunica\u00e7\u00e3o e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, que difundem a perce\u00e7\u00e3o de que se vive continuamente sob amea\u00e7a e transmitem uma no\u00e7\u00e3o de defesa e seguran\u00e7a meramente armada\u201d.<\/p>\n<p>Estas palavras s\u00e3o duras, mas necess\u00e1rias. Porque nos recordam que a viol\u00eancia n\u00e3o come\u00e7a apenas nos campos de batalha; come\u00e7a tamb\u00e9m nas mentalidades, nas linguagens, nos h\u00e1bitos, nas narrativas que normalizam o medo, justificam a hostilidade e fazem da for\u00e7a a primeira resposta.<\/p>\n<p>A Cruz de Cristo revela-nos at\u00e9 onde vai o amor de Deus. Um amor que n\u00e3o responde \u00e0 viol\u00eancia com viol\u00eancia. Um amor que n\u00e3o desiste. Um amor que se entrega totalmente.<\/p>\n<p>E \u00e9 diante desta Cruz que somos chamados a tomar posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o com grandes discursos, mas com a vida. Desarmar as palavras.<\/p>\n<p>Desmistificar os \u00f3dios. Romper com as pequenas viol\u00eancias que vamos aceitando como normais. Escolher, todos os dias, caminhos de reconcilia\u00e7\u00e3o, de respeito, de cuidado.<\/p>\n<p>Talvez seja este o caminho poss\u00edvel para a constru\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n<p>Hoje, diante da Cruz, n\u00e3o temos todas as respostas. E talvez nem precisemos de as ter. Mas temos um sinal: Aquele que foi trespassado. E, olhando para Ele, compreendemos que o amor \u2014 mesmo ferido, mesmo crucificado \u2014 tem sempre a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p><em>Set\u00fabal &#8211; Dia 03 de abril, Sexta-Feira Santa<\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-size: 16px;\">Cardeal D. Am\u00e9rico Aguiar<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":417844,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[181,867],"class_list":["post-418853","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-setubal","tag-pascoa-sexta-feira-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418853\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/417844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}