{"id":418849,"date":"2026-04-03T16:30:28","date_gmt":"2026-04-03T15:30:28","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=418849"},"modified":"2026-04-04T00:51:50","modified_gmt":"2026-04-03T23:51:50","slug":"lisboa-homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lisboa-homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do patriarca de Lisboa Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_382004\" aria-describedby=\"caption-attachment-382004\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-382004 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Rui-Valerio_Ordenacoes-Lisboa.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-382004\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>1 &#8211; A Cruz \u00e9 o lugar onde a dor humana toca o Mist\u00e9rio eterno de Deus; \u00e9 o \u00fanico tempo que tem tempo para o sofrimento do homem: porque o eleva acima do tempo \u2013 situa-o na intimidade do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Jesus, o Sofredor por amor, apresenta-se diante de n\u00f3s com as feridas abertas. E, no entanto, o Seu olhar n\u00e3o se fixa em Si mesmo. Volta-se para o mundo. D\u00f3i-Lhe mais o mal que habita no cora\u00e7\u00e3o dos homens, do que as feridas que dilaceram o Seu Corpo. As chicotadas que O fazem tremer de dor, n\u00e3o s\u00e3o apenas as infligidas pelos soldados, s\u00e3o tamb\u00e9m as do desprezo do homem por Deus e pelo irm\u00e3o. A indiferen\u00e7a que isola, o ego\u00edsmo que fecha, a maldade que se insinua nas estruturas e nos cora\u00e7\u00f5es \u2013 tudo isso atravessa o Seu corpo como nova ferida. Por isso, a Cruz n\u00e3o est\u00e1 diante de n\u00f3s como algo exterior ou como objeto de tortura ign\u00f3bil. \u00c9 a Cruz que se planta e cresce na vida de cada homem\u2026 e ningu\u00e9m v\u00ea e compreende melhor o sofrimento como quem o vive no corpo e na alma. O olhar de Cristo penetra mais fundo do que qualquer outro olhar, porque \u00e9 o olhar de quem carrega em Si a dor de todos (cf. Is 53, 4): dos que s\u00e3o destru\u00eddos pela guerra; das v\u00edtimas das injusti\u00e7as; dos discriminados pela cor da pele; dos exclu\u00eddos pela pobreza e nacionalidade; dos ignorados ou silenciados pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>2 &#8211; A Cruz de Jesus vem culminar a via-sacra dum total esvaziamento que, tendo come\u00e7ado longe, consumou-se plenamente na d\u00e1diva de Si e de todo o Seu ser ao Pai por amor (cf. Fl 2, 7). Este esvaziamento n\u00e3o foi uma estrat\u00e9gia asc\u00e9tica, mas a plenitude da Sua Encarna\u00e7\u00e3o: ao assumir a nossa natureza, esta foi, n&#8217;Ele, conduzida \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o total para regenerar uma nova condi\u00e7\u00e3o santificada.<\/p>\n<p>Assim, esta tarde, ao contemplar o drama do Calv\u00e1rio, somos transportados, de alguma maneira, para o caos primordial. Como narram os evangelistas: \u00abas trevas cobriram toda a terra, o sol eclipsou-se, o v\u00e9u do templo rasgou-se ao meio, a terra tremeu e as rochas fenderam-se\u00bb (Lc 23, 45; Mt 27, 51).<\/p>\n<p>Jesus crucificado e morto recria a condi\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio, ex nihilo, pr\u00e9via ao tempo, ao espa\u00e7o e ao pecado. N\u00e3o um \u00abregresso\u00bb, puro e simples, ao princ\u00edpio sem princ\u00edpio, mas \u00e0quele \u00abnada\u00bb que anula o nada que nega a vida, a santidade, o ser humano e as suas rela\u00e7\u00f5es; isto \u00e9, o nada do pecado e da morte. N\u00e3o se trata do nada absoluto, mas do que destr\u00f3i a vida, a felicidade, a comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os\u2026 O Crucificado por amor \u2013 v\u00edtima inocente da aus\u00eancia da justi\u00e7a e de sentido de humanidade \u2013 ao fazer-se pecado por n\u00f3s, assumindo a nossa culpa, e morrendo em doa\u00e7\u00e3o incondicional e gratuita de vida, aniquilou o nada do pecado e da morte, for\u00e7as de vazio que reduzem a nada tudo o que tocam e \u00e9 positivo\u2026 a doa\u00e7\u00e3o de amor de Jesus anula o nada que reduz a nada o que \u00e9\u2026 Por isso, no mist\u00e9rio da Cruz, esconde-se uma for\u00e7a regeneradora do que \u00e9 genu\u00edno, primordial, anterior ao tempo e \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>No seio do despojamento, da aniquila\u00e7\u00e3o, do esvaziamento e da morte, Jesus liberta o homem do peso da culpa e da corrup\u00e7\u00e3o da morte, e projeta-nos para a Nova Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3 &#8211; Por isso, Jesus Crucificado ergue-se diante de n\u00f3s, n\u00e3o apenas como sinal de sofrimento, mas como verdadeiro acontecimento de salva\u00e7\u00e3o. A nossa liberta\u00e7\u00e3o foi, e s\u00ea-lo-\u00e1 sempre, uma nova cria\u00e7\u00e3o a partir da absoluta aus\u00eancia de pecado e de mal alcan\u00e7ada pelo amor feito doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como a liberta\u00e7\u00e3o do Egipto n\u00e3o nasceu da for\u00e7a do povo oprimido, mas da interven\u00e7\u00e3o de Deus, tamb\u00e9m agora a salva\u00e7\u00e3o nasce da iniciativa divina. Ela acontece no sil\u00eancio do sacrif\u00edcio, na entrega do inocente. E \u00e9 isto que nos desconcerta: a vit\u00f3ria de Deus, a nova cria\u00e7\u00e3o do homem, n\u00e3o se manifesta na for\u00e7a, mas na entrega; n\u00e3o deriva da prepot\u00eancia, mas da humildade; n\u00e3o se realiza na ostenta\u00e7\u00e3o, mas no despojamento; n\u00e3o vem do orgulho, mas da morte.<\/p>\n<p>A Cruz \u00e9 a vit\u00f3ria da gra\u00e7a sobre o pecado. N\u00e3o foi numa disputa de for\u00e7as que o mal foi vencido. Foi no dom total de Cristo que se doou, se esvaziou. O Calv\u00e1rio revela-nos o sentido \u00faltimo da Encarna\u00e7\u00e3o: o Filho de Deus fez-Se homem para poder morrer, para poder amar at\u00e9 ao fim, que \u00e9 morrer por amor (cf. Jo 13, 1).<\/p>\n<p>4 &#8211; Caros irm\u00e3os, a morte na Cruz de Jesus Cristo, Filho de Deus, foi um drama em que interveio a humanidade \u2014 com o papel ambivalente de espetadora, acusadora e, simultaneamente, principal benefici\u00e1ria \u2014, e o Pai, o Esp\u00edrito Santo e o pr\u00f3prio Cristo. Foi um drama que conjugou e concentrou m\u00faltiplos protagonistas. Mas ele encerra tamb\u00e9m a chave para n\u00f3s agirmos no mundo, na sociedade, como promotores de vida nova juntos dos irm\u00e3os. N\u00e3o h\u00e1 vida sem morte; ningu\u00e9m renasce se, antes, n\u00e3o permitir que a for\u00e7a do amor aniquile em si o n\u00e3o ser do pecado, do ego\u00edsmo, da viol\u00eancia&#8230; convido-vos, pois, a fixar a Cruz e encontrar nela o segredo da nossa miss\u00e3o no mundo. \u00c9 no esvaziamento da arrogante autonomia e do orgulho, do pecado que podemos aniquilar o sentido de autossufici\u00eancia de hoje; a nossa humildade pode esvaziar a arrog\u00e2ncia e a falta do sentido de Deus, t\u00e3o em voga na nossa cultura. O sacrif\u00edcio de Cristo incluiu a imola\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o pecadora do homem. Por isso, ressuscita quem, n\u2019Ele, morre para o \u00abhomem velho\u00bb, porque no Seu sacrif\u00edcio foi destru\u00edda a podrid\u00e3o do pecado.<\/p>\n<p>5 &#8211; Na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, Aquele que aniquilou a morte e o pecado \u2013 que os fez Seus e por eles morreu, sendo, como diz S\u00e3o Paulo, \u00abfeito pecado\u00bb por n\u00f3s (cf. 2 Cor 5, 21) \u2013 ressurgiu luminoso e radiante, com uma carne glorificada e incorrupt\u00edvel. E, com Jesus, ressuscita toda a humanidade. Esta for\u00e7a primordial reeditada, purificou o ser humano e restituiu-lhe a santidade inicial.<\/p>\n<p>Cristo \u00e9 o \u00fanico Salvador, porque s\u00f3 Ele, atrav\u00e9s do esvaziamento absoluto de Si pr\u00f3prio, pode recriar o \u00abantes do tempo\u00bb para proporcionar a nova vida da Ressurrei\u00e7\u00e3o. O sentido da morte redentora abre o caminho para a Ressurrei\u00e7\u00e3o como Nova Cria\u00e7\u00e3o. A humanidade recebe a gra\u00e7a que realiza j\u00e1 a promessa do Apocalipse: \u00abEis que fa\u00e7o novas todas as coisas\u00bb (Ap 21, 5). Amen.<\/p>\n<p><em>S\u00e9 Patriarcal, 3 de abril de 2026 &#8211; D. Rui Val\u00e9rio, Patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":382004,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,867],"class_list":["post-418849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-pascoa-sexta-feira-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418849\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/382004"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}