{"id":418795,"date":"2026-04-03T10:01:46","date_gmt":"2026-04-03T09:01:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=418795"},"modified":"2026-04-07T12:02:01","modified_gmt":"2026-04-07T11:02:01","slug":"a-antropologia-do-mar-a-vista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-antropologia-do-mar-a-vista\/","title":{"rendered":"A antropologia do \u2018mar \u00e0 vista\u2019"},"content":{"rendered":"<p>A insularidade como potencial lugar teol\u00f3gico e a experi\u00eancia da omnipresente finitude<!--more--><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266200 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><span id=\"more-406113\"><\/span><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX, pela pena de Ludwig Feuerbach, Karl Marx e demais membros da dita \u2018esquerda hegueliana\u2019, acusou a religi\u00e3o de alienar. Segundo estes, a religi\u00e3o, ao prometer uma salva\u00e7\u00e3o meta-hist\u00f3rica e ao conceber Deus que estes apelidavam (segundo L. Feuerbach) de n\u00e3o ser mais do que uma proje\u00e7\u00e3o do humano, ao ponto de considerar que a teologia n\u00e3o seria sen\u00e3o uma antropologia, constitu\u00eda-se como fonte de uma aliena\u00e7\u00e3o das debilidades da hist\u00f3ria, descomprometendo o sujeito de se transformar e de transformar o mundo.<\/p>\n<p>A tese fez escola e continua a ser repetida, ao longo do s\u00e9culo XX e, ainda hoje, em pleno s\u00e9culo XXI. Mas a leitura merece olhar atento.<\/p>\n<p>Observe-se, desde j\u00e1, que a constata\u00e7\u00e3o de poder haver proje\u00e7\u00e3o em Deus daquilo que o ser humano deseja n\u00e3o se constitui, por si s\u00f3, como uma conclus\u00e3o de inexist\u00eancia d\u2019Aquele sobre o qual se projetam os desejos humanos. A Hans K\u00fcng devemos esta constata\u00e7\u00e3o, formulada no seu famoso \u00abDeus existe?\u00bb. Como o mesmo recorda, a proje\u00e7\u00e3o, no nosso pai, dos nossos desejos de um super-homem ou de um grande protetor, como acontece na inf\u00e2ncia, n\u00e3o cria o nosso pai, antes necessita dele para que a proje\u00e7\u00e3o possa efetivar-se.<\/p>\n<p>Acrescente-se que a dimens\u00e3o da proje\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas parte da problem\u00e1tica da \u2018correspond\u00eancia\u2019 de Deus aos desejos humanos. Na verdade, de Deus diz-se muito mais do que o projetado, como evidencia a teologia apof\u00e1tica que se acerca de Deus com a humildade de Dele s\u00f3 ousar dizer o que n\u00e3o \u00e9, pressuposto o Seu excesso.<\/p>\n<p>Mas socorramo-nos da categoria de \u2018aliena\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p>Os \u2018heguelianos\u2019, conclu\u00edda a alienabilidade da natureza por a\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o, consideravam necess\u00e1ria esta den\u00fancia (de que a religi\u00e3o \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o) para da\u00ed partirem para a afirma\u00e7\u00e3o da real natureza do Homem. O \u00fcbermensch (\u2018al\u00e9m-do-Homem\u2019, \u2018super-Homem\u2019, \u2018sobre-Homem\u2018) de Friedrich Nietzsche e o seu necess\u00e1rio eterno retorno emergem como consequ\u00eancias inevit\u00e1veis dessa liberta\u00e7\u00e3o da alienabilidade religiosa.<\/p>\n<p>Com estas, a vontade de poder, a recusa de \u2018n\u00e3o viver\u2019, o abandono da fragilidade. O Homem que emerge da recusa da religi\u00e3o como aliena\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista\u2026 Um Homem sem limites, autocriado, autodeterminado, sem fragmentos nem fragilidades.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria encarregou-se de evidenciar os custos desta conclus\u00e3o. O Homem \u2018infraturado\u2019, \u2018infragilizado\u2019, \u2018invulner\u00e1vel\u2019 deixou na berma da Hist\u00f3ria o homem real.<\/p>\n<p>E continua a estender a largura da berma\u2026 E os cad\u00e1veres nela depositados.<\/p>\n<p>Ousemos, por isso, reler a cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Comecemos por aceitar que, em muito, coincida o desejo humano de superar-se com o que Deus oferece. E que, tamb\u00e9m, em determinadas circunst\u00e2ncias, a religi\u00e3o, ao prometer a eternidade, possa gerar alheamento dos horrores da Hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o estamos a falar da condi\u00e7\u00e3o essencial da religi\u00e3o. Antes, do seu uso e abuso.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, ao recordar a intr\u00ednseca depend\u00eancia do transcendente, ao afirmar que o ser humano n\u00e3o nasce de si, a religi\u00e3o \u00e9 o verdadeiro ant\u00eddoto contra as mais radicais aliena\u00e7\u00f5es: as que distraem o Humano da sua condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, aquela que, genuinamente, solidariza os humanos uns com os outros e com as suas comuns debilidades e fragilidades.<\/p>\n<p>Tomemos a met\u00e1fora da condi\u00e7\u00e3o insular, que cham\u00e1mos a t\u00edtulo. O Homem insular vive com a omnipresente consci\u00eancia dos limites. Sabe-se \u2018efinito\u2019 (<em>e\/ex<\/em> \u2013 preposi\u00e7\u00e3o latina com significado de \u2018a partir de, proveni\u00eancia, etc), ser que s\u00f3 pode pensar-se e viver \u2018a partir da finitude\u2019, \u2018a partir do limite\u2019, com a consci\u00eancia permanente da fronteira (\u2018limes\u2019, em latim, oferece-nos esta multiplicidade sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Por oposi\u00e7\u00e3o, o \u2018Homem continental\u2019 vive a ilus\u00e3o do ilimitado, da invulnerabilidade, a ilus\u00e3o de se auto-bastar. At\u00e9 que um tsunami (quando o mar assoma ao seu mundo) ou a necessidade de chegar a outro continente (quando o seu mundo assoma ao mar) lhe denuncia, de forma incontorn\u00e1vel, a sua intr\u00ednseca limita\u00e7\u00e3o: o seu mundo n\u00e3o \u00e9, afinal, infinito. Ele, como o islenho, \u00e9, mesmo \u2018efinito\u2019: n\u00e3o pode conceber-se sem o limite.<\/p>\n<p>Esta condi\u00e7\u00e3o <em>efinita<\/em> pode constituir-se, a esta luz, como aut\u00eantico \u2018lugar teol\u00f3gico\u2019, superando os lugares identificados por Melchor Cano.<\/p>\n<p>A fragilidade, a finitude, o limite n\u00e3o s\u00e3o fatores de aliena\u00e7\u00e3o, antes, aut\u00eanticos \u2018despertadores\u2019 para a real condi\u00e7\u00e3o humana, sem os quais o Humano se aliena de quem \u00e9, gerando, a\u00ed sim, uma identidade inexistente. A religi\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9, assim, alienante, mas, por oposi\u00e7\u00e3o, a voz que lembra o \u2018h\u00famus\u2019 de que se faz o humano. N\u00e3o fosse, o Homem \u2018da\u2019 religi\u00e3o, Ad\u00e3o!<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A insularidade como potencial lugar teol\u00f3gico e a experi\u00eancia da omnipresente finitude<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-418795","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418795\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}