{"id":418645,"date":"2026-04-02T20:27:31","date_gmt":"2026-04-02T19:27:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=418645"},"modified":"2026-04-02T21:40:14","modified_gmt":"2026-04-02T20:40:14","slug":"a-eucaristia-que-celebramos-chama-nos-a-coerencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-eucaristia-que-celebramos-chama-nos-a-coerencia\/","title":{"rendered":"\u00abA Eucaristia que celebramos chama-nos \u00e0 coer\u00eancia\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do bispo de Set\u00fabal na Missa da Ceia do Senhor <!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_418678\" aria-describedby=\"caption-attachment-418678\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-418678\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2-400x210.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2-400x210.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2-768x403.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Setubal_bispo_D.-Americo_lava-pes-2026-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-418678\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ricardo Perna\/Diocese de Set\u00fabal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s,<\/p>\n<p>A \u00daltima Ceia, que hoje celebramos, ter\u00e1 sido, muito provavelmente, um dos \u00faltimos momentos de paz na vida de Jesus e dos seus disc\u00edpulos. Conseguimos quase ver aquela sala, sentir o ambiente de alegria pr\u00f3prio de uma refei\u00e7\u00e3o partilhada \u2014 e ainda mais de uma ceia pascal. Havia festa, havia comunh\u00e3o, havia esperan\u00e7a\u2026 mas, como tantas vezes acontece tamb\u00e9m connosco, essa esperan\u00e7a n\u00e3o foi compreendida na sua verdadeira profundidade. Nem sequer a sombra da trai\u00e7\u00e3o de Judas foi, naquele momento, plenamente entendida.<\/p>\n<p>A liturgia desta tarde ajuda-nos a entrar nesse mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>A primeira leitura, do Livro do \u00caxodo, recorda-nos a P\u00e1scoa do povo de Israel: uma noite de liberta\u00e7\u00e3o, marcada pelo sangue do cordeiro, pela pressa da partida, pela confian\u00e7a num Deus que salva. N\u00e3o \u00e9 apenas uma mem\u00f3ria do passado \u2014 \u00e9 um caminho novo que come\u00e7a, uma vida que se abre \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p>E S\u00e3o Paulo, na segunda leitura, transmite-nos aquilo que tamb\u00e9m ele recebeu: \u201cIsto \u00e9 o meu Corpo\u2026 Este c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a no meu Sangue\u201d. Na noite em que ia ser entregue, Jesus transforma a ceia pascal numa realidade nova e definitiva. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas o cordeiro antigo \u2014 \u00e9 Ele pr\u00f3prio que Se oferece. Cada Eucaristia torna presente este dom total.<\/p>\n<p>E o Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o leva-nos ainda mais fundo: \u201cAmou-os at\u00e9 ao fim\u201d. E como \u00e9 que Jesus mostra esse amor? Ajoelhando-Se. Curvando-Se. Lavando os p\u00e9s aos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Este gesto, irm\u00e3os e irm\u00e3s, \u00e9 absolutamente desconcertante.<\/p>\n<p>Repetir os gestos de Jesus tem sido o oxig\u00e9nio da vida da Igreja; e a gra\u00e7a dos Sacramentos \u00e9 como o sangue que nos corre nas veias. Mas o lava-p\u00e9s recorda-nos que n\u00e3o h\u00e1 Eucaristia verdadeira sem servi\u00e7o concreto. Ajoelhar-se diante do outro, cuidar, servir, tornar-se pequeno para que o outro cres\u00e7a \u2014 esta \u00e9 a l\u00f3gica de Deus.<\/p>\n<p>Uma humildade que n\u00e3o \u00e9 humilha\u00e7\u00e3o, mas amor em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o \u00e0 mesa. Ao p\u00e3o partido. Ao c\u00e1lice partilhado.<\/p>\n<p>Como deve ter sido surpreendente, para os disc\u00edpulos, ouvir Jesus dizer que aquele p\u00e3o era o seu Corpo, que aquele vinho era o seu Sangue. E, no entanto, h\u00e1 mais de vinte s\u00e9culos que estes gestos e palavras s\u00e3o repetidos em todo o mundo, em todas as l\u00ednguas. Um mist\u00e9rio que atravessa a hist\u00f3ria: sinal vis\u00edvel de uma realidade invis\u00edvel, presen\u00e7a real de Cristo no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p>E por isso, a Eucaristia n\u00e3o pode deixar-nos indiferentes. Ela coloca-nos perguntas exigentes:<\/p>\n<p>Como vivemos cada Eucaristia? Que lugar tem, na nossa vida, o sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o? Com que verdade nos aproximamos da comunh\u00e3o? Sabemos que existem crit\u00e9rios, fundamentos na doutrina da Igreja. Mas, no mais profundo de n\u00f3s, n\u00e3o corremos o risco de nos colocarmos do lado \u201ccerto\u201d, separando o trigo do joio? Somos trigo? Somos joio?\u2026<\/p>\n<p>Talvez a \u00fanica forma verdadeira de responder seja aquela que o Evangelho nos sugere: reclinar a cabe\u00e7a sobre o cora\u00e7\u00e3o de Jesus, como fez o disc\u00edpulo amado. S\u00f3 a\u00ed, nesse lugar de intimidade, podemos escutar, compreender e deixar-nos transformar. N\u00e3o como ju\u00edzes, mas como filhos amados.<\/p>\n<p>E, neste contexto, ecoam as palavras do Papa Le\u00e3o XIV: \u201cA paz \u00e9 uma presen\u00e7a e um caminho.\u201d Tamb\u00e9m a comunh\u00e3o \u2014 esta comunh\u00e3o que hoje celebramos \u2014 \u00e9 presen\u00e7a e caminho. N\u00e3o \u00e9 apenas um gesto lit\u00fargico. \u00c9 uma forma de viver.<\/p>\n<p>Mas o mundo em que vivemos desafia-nos. N\u00e3o podemos ignorar que, nesta mesma hora, h\u00e1 guerras a destruir vidas, fam\u00edlias, povos inteiros. Em Jerusal\u00e9m, lugar santo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver plenamente estas celebra\u00e7\u00f5es em comunidade. A viol\u00eancia continua, a m\u00e1quina da guerra n\u00e3o p\u00e1ra, e os mais fr\u00e1geis continuam a sofrer.<\/p>\n<p>E por isso, a pergunta torna-se inevit\u00e1vel: Como olhamos para estas guerras? E que guerras trazemos dentro de n\u00f3s? Que conflitos alimentamos nas nossas rela\u00e7\u00f5es, nas nossas palavras, nas nossas escolhas?<\/p>\n<p>A Eucaristia que celebramos chama-nos \u00e0 coer\u00eancia: n\u00e3o podemos comungar o Corpo de Cristo e viver na l\u00f3gica da divis\u00e3o, da agressividade, da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>E, por fim, n\u00e3o podemos ignorar a figura de Judas. Tamb\u00e9m ele estava \u00e0 mesa. Tamb\u00e9m ele foi escolhido. Tamb\u00e9m ele escutou, viu, caminhou com Jesus. E, no entanto, traiu.<\/p>\n<p>Talvez a pergunta mais exigente desta noite seja esta:\u00a0 em algum momento da nossa vida, somos tamb\u00e9m n\u00f3s Judas? Tra\u00edmos Jesus nas pequenas escolhas, nas omiss\u00f5es, nas incoer\u00eancias? Tra\u00edmos os outros, ferindo, julgando, afastando, usando a agressividade como linguagem?<\/p>\n<p>Mas esta noite n\u00e3o termina na trai\u00e7\u00e3o. Termina no amor.<\/p>\n<p>Um amor que vai at\u00e9 ao fim. Um amor que n\u00e3o desiste. Um amor que perdoa.<\/p>\n<p>Sabemos que o perd\u00e3o ter\u00e1 sempre a \u00faltima palavra. \u00c9 desta reden\u00e7\u00e3o que nasce a Boa Nova. \u00c9 este amor de Deus que nos salva, que nos surpreende, que nos levanta sempre de novo.<\/p>\n<p>Confiamos este caminho a Santa Maria da Gra\u00e7a, nossa padroeira, para que nos ensine a viver com humildade, com f\u00e9 e com disponibilidade para servir.<\/p>\n<p>E, ao aproximarmo-nos do altar, fa\u00e7amo-lo com o cora\u00e7\u00e3o aberto: para acolher este amor, para nos deixarmos transformar por ele, e para sermos, no meio do mundo, sinais vivos de uma Igreja que serve, que ama e que constr\u00f3i a paz.<\/p>\n<p>Am\u00e9n.<\/p>\n<p>Cardeal D. Am\u00e9rico Aguiar<br \/>\nBispo de Set\u00fabal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do bispo de Set\u00fabal na Missa da Ceia do Senhor<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":418641,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[181],"class_list":["post-418645","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-setubal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418645"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418645\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/418641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}