{"id":418269,"date":"2026-04-05T09:31:04","date_gmt":"2026-04-05T08:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=418269"},"modified":"2026-04-01T15:34:08","modified_gmt":"2026-04-01T14:34:08","slug":"o-que-a-ressurreicao-nos-diz-e-diz-nos-com-uma-clareza-que-nenhuma-guerra-consegue-apagar-e-que-a-morte-nao-tem-a-ultima-palavra-d-sergio-dinis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-que-a-ressurreicao-nos-diz-e-diz-nos-com-uma-clareza-que-nenhuma-guerra-consegue-apagar-e-que-a-morte-nao-tem-a-ultima-palavra-d-sergio-dinis\/","title":{"rendered":"\u00abO que a Ressurrei\u00e7\u00e3o nos diz, e diz-nos com uma clareza que nenhuma guerra consegue apagar, \u00e9 que a morte n\u00e3o tem a \u00faltima palavra\u00bb &#8211; D. S\u00e9rgio Dinis"},"content":{"rendered":"<p><em>Num mundo ainda fortemente marcado por o som das armas, procuramos hoje o significado da paz. Neste Domingo da P\u00e1scoa, \u00e9 nosso convidado o bispo das For\u00e7as Armadas e das For\u00e7as de Seguran\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_418275\" aria-describedby=\"caption-attachment-418275\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-418275 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/sergio_dinis_RR_Rita_Gonlcalves-5-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-418275\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Rita Gon\u00e7alves<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Nos \u00faltimos dias e nos pr\u00f3ximos dias tamb\u00e9m vai presidir a celebra\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios locais, neste contexto do Tr\u00edduo Pascal, da P\u00e1scoa, como \u00e9 que esta mensagem de Cristo ressuscitado, do Pr\u00edncipe da Paz, como tantas vezes se diz, \u00e9 acolhida e vivida por homens cuja miss\u00e3o muitas vezes exige o uso da for\u00e7a? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta que me toca muito, porque \u00e9 uma pergunta que eu pr\u00f3prio me fa\u00e7o cada vez que celebro numa unidade militar, num comando da GNR ou num comando da PSP. E o que encontro, invariavelmente, surpreende quem est\u00e1 por vezes de fora. Encontro homens e mulheres com uma sensibilidade espiritual muito profunda, precisamente porque conhecem a fragilidade da vida de uma forma que a maioria das pessoas nunca vai conhecer.<\/p>\n<p>Quem convive com o risco, quem j\u00e1 viveu o sofrimento de perto, n\u00e3o precisa de convencer-se sobre o valor da paz, j\u00e1 o sabe na sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, no seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p><em>Muitas vezes \u00e9 isso que o move, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, e por isso, a mensagem de Cristo ressuscitado, Pr\u00edncipe da Paz, n\u00e3o \u00e9 recebida por eles como uma contradi\u00e7\u00e3o com a sua profiss\u00e3o.\u00a0\u00c9 recebida como um horizonte, aquilo que o seu servi\u00e7o, no fundo, aponta. Um militar n\u00e3o quer a guerra, quer que a guerra seja desnecess\u00e1ria. E \u00e9 isso que a P\u00e1scoa anuncia, que a viol\u00eancia n\u00e3o tem a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p>O que me pedem nas celebra\u00e7\u00f5es, para al\u00e9m de algum ensinamento, alguma doutrina, alguma palavra de esperan\u00e7a, \u00e9 acima de tudo presen\u00e7a. \u00c9 algu\u00e9m que os olhe e diga, o que fazeis, o vosso trabalho, tem sentido, faz sentido, tem dignidade e h\u00e1 um Deus que vos acompanha tamb\u00e9m nos momentos mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, prop\u00f4s aos militares e \u00e0s for\u00e7as de seguran\u00e7a um caminho de convers\u00e3o \u00e0 verdade. Numa era que \u00e9 marcada pela desinforma\u00e7\u00e3o e por narrativas de guerra manipuladas, qual \u00e9 a import\u00e2ncia pr\u00e1tica de procurar e defender esta verdade no dia-a-dia de um militar? <\/em><\/p>\n<p>Vivemos num tempo em que a palavra foi profundamente ferida. A desinforma\u00e7\u00e3o, as meias-verdades, as narrativas constru\u00eddas para manipular, tudo isso n\u00e3o \u00e9 apenas um problema, eu diria, pol\u00edtico ou medi\u00e1tico, \u00e9 acima de tudo um problema moral.<\/p>\n<p>E os militares e as for\u00e7as de seguran\u00e7a est\u00e3o na linha da frente desse problema. Porque as suas decis\u00f5es t\u00eam consequ\u00eancias reais na vida das pessoas. Por isso, disse na mensagem que a palavra, quando usada sem verdade, pode tornar-se uma arma.\u00a0Uma arma que fere, que destr\u00f3i, que mata. E num conflito armado, uma narrativa falsa pode custar vidas, sem d\u00favida alguma. Pode justificar o injustific\u00e1vel.<\/p>\n<p>A mentira, pode transformar v\u00edtimas em culpados e agressores em her\u00f3is. Por isso, o que pedi, concretamente, foi rigor. Dizer a verdade a partir dos factos, n\u00e3o de suposi\u00e7\u00f5es, com linguagem precisa, procurar n\u00e3o descontextualizar o que se ouve ou o que se v\u00ea. Isto pode parecer muito simples, mas numa cultura onde a insinua\u00e7\u00e3o, a suspeita, se tornar a moeda corrente, \u00e9 um ato de coragem.<\/p>\n<p>E h\u00e1 uma dimens\u00e3o ainda, eu diria, mais interior. Antes de exigir verdade ao mundo, \u00e9 preciso procur\u00e1-la em si pr\u00f3prio. Quem sou eu realmente?\u00a0Sou coerente entre o que digo e o que fa\u00e7o?<\/p>\n<p>Esta lucidez acho que \u00e9 o fundamento de toda a \u00e9tica profissional. Um militar que n\u00e3o se conhece a si pr\u00f3prio, que n\u00e3o tem esta honestidade interior, dificilmente resistir\u00e1 \u00e0s press\u00f5es que o mundo lhe vai colocar.<\/p>\n<p>Por isso, a verdade n\u00e3o \u00e9 apenas um valor abstrato, eu diria, \u00e9 uma escolha que se tem que fazer diariamente, a cada instante. \u00c9 uma forma de estar em qualquer profiss\u00e3o, mas particularmente tamb\u00e9m quem tem que garantir a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem-se discutido o regresso do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio. Que opini\u00e3o tem o D. S\u00e9rgio?<\/em><\/p>\n<p>Primeiro, eu acho que este tema tem de entrar na discuss\u00e3o p\u00fablica. Com certeza que h\u00e1 pessoas bem mais preparadas, com mais conhecimentos do que eu, para falar sobre a mat\u00e9ria. O que me parece, depois do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio que n\u00f3s tivemos, e muito ligado \u00e0 nossa guerra colonial, viu-se o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio como algo a eliminar e ser impens\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um resqu\u00edcio de um regime que j\u00e1 tinha sido superado?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Agora, penso que \u00e9 impens\u00e1vel voltar um servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio nos moldes de 1980 ou de 1990, mas se calhar precisamos de um servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio que ajude as novas gera\u00e7\u00f5es a ganharem alguns valores e um certo patriotismo, e isto n\u00e3o confundamos patriotismo com nacionalismo, somos um pa\u00eds aberto, um pa\u00eds inserido plenamente na Europa, mas precisamos de ganhar amor \u00e0 p\u00e1tria e isto \u00e9 indispens\u00e1vel. E este div\u00f3rcio, eu diria assim, que se criou entre a sociedade e as for\u00e7as militares, &#8211; estes dois mundos &#8211; tem de alguma forma de ser reaproximados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso leva-me \u00e0 pr\u00f3xima pergunta, porque temos visto o Le\u00e3o XIV a condenar veemente e sucessivamente as justifica\u00e7\u00f5es religiosas para a guerra, por exemplo, particularmente relevante no M\u00e9dio Oriente, e apelos muito fortes e sucessivos para que se deponham as armas. Isto entra em confronto com o que tem sido o discurso pol\u00edtico, temos a NATO a ser pressionada para investir cada vez mais em defesa, temos l\u00edderes como Donald Trump a colocar press\u00e3o sobre a Europa nesse sentido tamb\u00e9m. Pergunto como \u00e9 que para si \u00e9 poss\u00edvel gerir aquilo que parece uma contradi\u00e7\u00e3o profunda entre o apelo evang\u00e9lico ao desarmamento e uma necessidade, que parece a objetiva, de rearmamento dos aliados?<\/em><\/p>\n<p>Antes de mais, \u00e9 importante ler bem o que diz o Santo Padre e tamb\u00e9m ler bem o que ele n\u00e3o diz. Le\u00e3o XIV n\u00e3o pede que os ex\u00e9rcitos se dissolvam, o que ele critica \u00e9 uma l\u00f3gica, e qual \u00e9 essa l\u00f3gica?<\/p>\n<p>\u00c9 a l\u00f3gica de quem v\u00ea na guerra uma solu\u00e7\u00e3o, de quem aumenta arsenais alimentado pelo medo, de quem delega em m\u00e1quinas as decis\u00f5es sobre a vida e a morte das pessoas. Isso \u00e9 muito diferente de dizer que um pa\u00eds n\u00e3o pode defender-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem a ver com as prioridades das decis\u00f5es?\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Ora, a Igreja tem uma tradi\u00e7\u00e3o muito clara a este respeito. O pr\u00f3prio Catecismo reconhece o direito e o dever dos governos \u00e0 leg\u00edtima defesa.<\/p>\n<p>O que a Igreja ensina e o que o Magist\u00e9rio sempre exigiu \u00e9 que esse direito tenha limites, que sejam esgotados os meios pac\u00edficos, que haja proporcionalidade, que n\u00e3o se fa\u00e7am males maiores do que os que se quer evitar. Portanto, a minha posi\u00e7\u00e3o, como Bispo das For\u00e7as Armadas e das For\u00e7as de Seguran\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 de contradi\u00e7\u00e3o. Eu diria, h\u00e1 aqui uma certa tens\u00e3o, se quiser, e eu estou dentro da institui\u00e7\u00e3o militar acompanhando homens e mulheres que servem o pa\u00eds, muitas vezes em miss\u00e3o de paz, em contextos de enorme sacrif\u00edcio pessoal, e \u00e9 precisamente por isso que tenho o dever de lhes dizer:<\/p>\n<p>O que vos torna cred\u00edveis n\u00e3o \u00e9 o armamento que carregais, n\u00e3o \u00e9 a arma que trazeis no coldre, \u00e9 o servi\u00e7o que prestais \u00e0 paz. Quanto \u00e0 quest\u00e3o do rearmamento que a Nato exige, isso \u00e9 uma realidade pol\u00edtica que os governos t\u00eam de gerir, mas o Papa, aten\u00e7\u00e3o, faz uma distin\u00e7\u00e3o que me parece fundamental. Uma coisa \u00e9 manter capacidades de defesa leg\u00edtima, outra coisa \u00e9 construir toda uma cultura do medo, da intimida\u00e7\u00e3o, onde se procura convencer a popula\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 permanentemente amea\u00e7ada para justificar gastos militares ilimitados.<\/p>\n<p>E, claro, isto o Papa e todos n\u00f3s condenamos com clareza. O que me cabe a mim, enquanto pastor, enquanto Bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a? \u00c9 estar presente tamb\u00e9m onde as decis\u00f5es dif\u00edceis se tomam e lembrar que h\u00e1 sempre uma alternativa \u00e0 espiral de viol\u00eancia. E as alternativas s\u00e3o\u00a0a diplomacia, o di\u00e1logo, o direito internacional, o respeito por determinados princ\u00edpios e, acima de tudo, o respeito pela dignidade da pessoa humana. Portanto, eu estou convencido que quando as For\u00e7as Armadas operam bem, est\u00e3o ao servi\u00e7o da paz e est\u00e3o ao servi\u00e7o da seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O D. S\u00e9rgio j\u00e1 falou do esfor\u00e7o exigido pela NATO e Portugal atingiu em 2025 a meta do 2% do PIB destinado \u00e0 defesa, mas ainda est\u00e1 no grupo de cinco pa\u00edses que menos gastam neste setor, isto de acordo com o relat\u00f3rio anual da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica.<br \/>\nContudo, na \u00faltima cimeira em Haia, em junho, os 32 membros da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica comprometeram-se com uma nova meta, aumentar os gastos em defesa para 5% do PIB at\u00e9 2035. Compreende-se este caminho? <\/em><\/p>\n<p>Compreendo as raz\u00f5es que levam a este caminho. Todos n\u00f3s sabemos, todos n\u00f3s sentimos, o mundo mudou. A guerra voltou \u00e0 Europa e ningu\u00e9m pode fechar os olhos a isso.<br \/>\nMas permita-me ser honesto. Quando ou\u00e7o falar em 5% do PIB em defesa, a primeira pergunta que me ocorre n\u00e3o \u00e9 financeira, \u00e9 acima de tudo moral. O que estamos a construir?\u00a0Uma Europa mais segura ou uma Europa que aprendeu apenas a linguagem da for\u00e7a?<\/p>\n<p><em>E mais desigual, porque se investe em defesa n\u00e3o se investe noutros setores, provavelmente?<br \/>\n<\/em>Bom, vejamos, tamb\u00e9m sem defesa e sem seguran\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o temos sociedades livres e democr\u00e1ticas.\u00a0Tem de haver aqui um equil\u00edbrio.<br \/>\nE a Igreja n\u00e3o \u00e9 pacifista, diria, ing\u00eanua. Reconhece o direito e o dever da defesa leg\u00edtima, ou da leg\u00edtima defesa, se quisermos.\u00a0E eu, como bispo castrense, conhe\u00e7o bem o custo humano de for\u00e7as armadas subfinanciadas. Equipamentos obsoletos, pessoal mal remunerado, miss\u00f5es cumpridas com sacrif\u00edcio enorme, militares, pol\u00edcias que trabalham para al\u00e9m das horas que deveriam trabalhar, muitas vezes sem ser remunerados. Portanto, eu n\u00e3o estou contra o investimento na defesa.\u00a0Tem que haver o equil\u00edbrio, obviamente.<\/p>\n<p>O que me preocupa \u00e9 outra coisa. O Papa Le\u00e3o XIV alertou recentemente para uma l\u00f3gica que transforma o medo em pol\u00edtica.<\/p>\n<p>E desculpem que eu repita esta ideia. Uma tentativa de convencer as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o permanentemente amea\u00e7adas para justificar gastos militares crescentes, sem limite, sem questionamento; essa l\u00f3gica, sim, \u00e9 perigosa, porque nos leva a pensar que a seguran\u00e7a s\u00f3 se compra com armamento.<\/p>\n<p>A verdadeira seguran\u00e7a constr\u00f3i-se tamb\u00e9m com diplomacia, com institui\u00e7\u00f5es fortes, com desenvolvimento e justi\u00e7a. Se os 5%, e gostaria de deixar isto bem claro, forem apenas para mais canh\u00f5es e mais m\u00edsseis e menos di\u00e1logo, teremos pa\u00edses mais armados e um mundo menos seguro. Por isso digo, sim ao investimento necess\u00e1rio na defesa, mas com discernimento, com transpar\u00eancia e sem perder de vista que o objetivo final n\u00e3o \u00e9 ter o melhor ex\u00e9rcito.\u00a0\u00c9 n\u00e3o precisar de o usar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu volto aqui a uma quest\u00e3o que o Sr. D. S\u00e9rgio levantou que tem a ver com a voca\u00e7\u00e3o do militar, porque falou das nossas for\u00e7as que est\u00e3o destacadas em miss\u00e3o de paz, \u00e9 assim que nos habituamos, sobretudo em Portugal, a olhar para as for\u00e7as armadas, mas hoje tamb\u00e9m o paradigma mudou muito para a prontid\u00e3o de combate, para a dissuas\u00e3o. Este \u00e9 um desafio particular para quem est\u00e1 neste campo?<\/em><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de paradigma \u00e9 real e seria desonesto da minha parte ignor\u00e1-la, mas n\u00e3o creio que a voca\u00e7\u00e3o do militar tenha mudado no essencial. O militar serve a paz, sempre serviu. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje esse servi\u00e7o exige uma prontid\u00e3o que durante anos n\u00e3o foi necess\u00e1ria.\u00a0Ou melhor, que julg\u00e1vamos n\u00e3o ser necess\u00e1ria. O ideal crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 viver na ingenuidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o h\u00e1 aquilo que se chama o ironismo\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 procurar viver buscando a justi\u00e7a e muitas vezes para encontrar a justi\u00e7a ou para fazer a justi\u00e7a exige que algu\u00e9m esteja disposto a interpor-se entre o agressor e a v\u00edtima. Isso tem um nome muito nobre, \u00e9 prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 servi\u00e7o, \u00e9 no fundo amor ao pr\u00f3ximo na sua forma mais exigente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, desculpe-me interromper-vos, porque lemos no evangelho que ningu\u00e9m tem mais amor do que aquilo que d\u00e1 a vida para o pr\u00f3ximo&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>E veja o que \u00e9 que o militar diz no dia do juramento, \u201cdar a vida se necess\u00e1rio for\u201d. Portanto, o que a f\u00e9 pede ao militar n\u00e3o \u00e9 que deponha as armas de forma irrespons\u00e1vel. Pede-lhe que nunca esque\u00e7a porque \u00e9 que as carrega, que mantenha a consci\u00eancia viva, que saiba distinguir entre defender e destruir, que saiba distinguir entre o que \u00e9 servir e o que \u00e9 dominar. Num mundo fraturado como o nosso, a voca\u00e7\u00e3o do militar crist\u00e3o, eu diria, \u00e9 ser artes\u00e3o da paz.\u00a0Mesmo quando isso obriga a estar pronto para o combate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesta Semana Santa, o Papa lembrou os crist\u00e3os que est\u00e3o impedidos de viver os ritos pascais devido \u00e0 guerra, como acontece tragicamente, como todos sabemos, na Terra Santa. Portugal tem militares destacados em v\u00e1rias geografias e algumas delas altamente vol\u00e1teis.\u00a0 Que relatos lhe chegam? <\/em><\/p>\n<p>Eu pr\u00f3prio j\u00e1 visitei algumas for\u00e7as militares destacadas, nomeadamente na Rom\u00e9nia, em Mo\u00e7ambique, onde estamos a preparar os militares tamb\u00e9m mo\u00e7ambicanos para o combate ao terrorismo, particularmente na regi\u00e3o de Cabo Delgado. E posso dizer que o Ordinariado Castrense e as For\u00e7as Armadas est\u00e3o a fazer um esfor\u00e7o muito grande e muito concreto para que a maioria dos nossos militares possa viver este tempo de P\u00e1scoa com assist\u00eancia espiritual. Neste momento temos um capel\u00e3o na Rep\u00fablica Centro-Africana a acompanhar aquela for\u00e7a que talvez seja a que est\u00e1 mais exposta e a perigos.\u00a0\u00a0Temos outro capel\u00e3o na Litu\u00e2nia, com um n\u00famero consider\u00e1vel de homens, nomeadamente fuzileiros. E amanh\u00e3 mesmo partem mais dois capel\u00f5es para outros teatros de opera\u00e7\u00f5es onde est\u00e3o for\u00e7as nacionais destacadas. N\u00e3o \u00e9 apenas um gesto simb\u00f3lico, \u00e9 uma presen\u00e7a real, f\u00edsica, ao lado de quem serve.<\/p>\n<p>Porque a P\u00e1scoa vivida num teatro de opera\u00e7\u00f5es tem um valor e um sabor completamente diferente. Eu diria que o\u00a0Gets\u00e9mani\u00a0deixa de ser uma imagem piedosa e torna-se ali muitas vezes uma realidade reconhec\u00edvel. E a Ressurrei\u00e7\u00e3o deixa de ser um dogma e torna-se uma necessidade, uma esperan\u00e7a visceral para quem convive com o risco todos os dias.<\/p>\n<p>O que os nossos militares nos pedem, sabem o que \u00e9? \u00c9 que n\u00e3o os esque\u00e7amos. E mais, que acompanhemos as suas fam\u00edlias que ficam c\u00e1.\u00a0Que as comunidades, as fam\u00edlias c\u00e1 em Portugal rezem por eles.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante que n\u00f3s muitas vezes celebramos a Eucaristia a partir de alguma unidade das For\u00e7as Armadas ou das For\u00e7as de Seguran\u00e7a, e a\u00ed normalmente recordam-se os nossos militares, quer os que j\u00e1 partiram, quer aqueles que est\u00e3o em for\u00e7as nacionais destacadas. E n\u00e3o imagina o quanto os toca, porque muitos deles assistem pela televis\u00e3o \u00e0 Eucaristia Dominical.<\/p>\n<p>E por isso o mais importante \u00e9 que eles n\u00e3o se sintam s\u00f3s, se sintam acompanhados. Dentro de algum tempo tamb\u00e9m eu espero estar com uma das for\u00e7as que neste momento est\u00e1 num dos quatro continentes do mundo. Sim, porque as For\u00e7as Armadas e tamb\u00e9m as For\u00e7as de Seguran\u00e7a est\u00e3o em quatro continentes do nosso mundo. Os portugueses est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p><em>O cen\u00e1rio atual leva a uma proje\u00e7\u00e3o de alastramento de cen\u00e1rios, a um risco de alastramento dos cen\u00e1rios globais, desse contacto que vai chegando e do acompanhamento, quais s\u00e3o as principais preocupa\u00e7\u00f5es que chegam dos militares, das suas fam\u00edlias relativamente a esta situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>O principal, o militar quando parte n\u00e3o tem medo da morte, n\u00e3o tem medo de dar a vida. Sim, sabe do risco, mas o medo normalmente n\u00e3o est\u00e1 presente. O que mais pesa \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o os que ficam?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 a fam\u00edlia que fica.<\/p>\n<p>O militar parte com uma miss\u00e3o clara, mas a mulher, o marido, os filhos ficam em casa e esses n\u00e3o t\u00eam miss\u00e3o, t\u00eam apenas uma coisa, esperar, esperar. E a espera sem estrutura, sem sentido, pode ser devastadora. E esse peso \u00e0s vezes chega-me com frequ\u00eancia. H\u00e1 tamb\u00e9m uma ang\u00fastia um bocadinho mais silenciosa que os pr\u00f3prios militares, raramente, e n\u00e3o s\u00f3 militares, aten\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 aqueles que est\u00e3o fora, mas os que trabalham c\u00e1, pela nossa seguran\u00e7a, diariamente, dia e noite, \u00e9 o medo de regressar a casa diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O terreno muda, as pessoas&#8230;\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente.\u00a0Um homem, seja da PSP, seja da Guarda Nacional Republicana, depois de uma interven\u00e7\u00e3o, a um ambiente, a uma fam\u00edlia com viol\u00eancia dom\u00e9stica, onde v\u00ea filhos da idade dos seus, a chorar, a gritar, tem medo. A\u00ed sim que tem medo. N\u00e3o tem medo de morrer, tem medo de chegar a casa diferente. E, portanto, para dizer-vos tamb\u00e9m que, num momento em que os conflitos se multiplicam e a ret\u00f3rica da guerra endurece, h\u00e1 uma pergunta que come\u00e7a a surgir com frequ\u00eancia, sobretudo nos mais jovens: Para qu\u00ea?\u00a0Qual \u00e9 o sentido disto tudo?<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que a presen\u00e7a pastoral \u00e9 insubstitu\u00edvel. N\u00e3o para dar respostas f\u00e1ceis, porque n\u00e3o as h\u00e1, mas para que ningu\u00e9m fa\u00e7a essas perguntas sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste mundo que parece estar mergulhado numa espiral de viol\u00eancia cont\u00ednua, desde Gaza \u00e0 Ucr\u00e2nia, mas n\u00e3o esquecendo naturalmente \u00c1frica, que mensagem de esperan\u00e7a gostava de deixar aos ouvintes neste domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>A P\u00e1scoa \u00e9 a festa de quem acredita que a vit\u00f3ria \u00e9 poss\u00edvel. Mesmo no meio da escurid\u00e3o, mesmo no meio da dor e mesmo no meio da noite.<\/p>\n<p>E por isso, Gaza, Ucr\u00e2nia, Cabo Delgado e tantos outros lugares que os notici\u00e1rios j\u00e1 nem sequer mencionam, e tamb\u00e9m a muitas fam\u00edlias onde \u00e0s vezes a guerra est\u00e1 dentro, queria dizer que \u00e9 poss\u00edvel a vit\u00f3ria da paz. O que a Ressurrei\u00e7\u00e3o nos diz, e diz-nos com uma clareza que nenhuma guerra consegue apagar, \u00e9 que a morte n\u00e3o tem a \u00faltima palavra. Que a viol\u00eancia, por mais brutal que seja, n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E depois quero deixar uma palavra tamb\u00e9m muito concreta.<\/p>\n<p>Neste momento h\u00e1 portugueses em miss\u00e3o longe de casa. Na Rep\u00fablica Centro-Africana, na Litu\u00e2nia, noutros lugares do mundo, em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>Est\u00e3o l\u00e1 para que os outros possam viver em paz. Isso \u00e9, no fundo, um gesto pascal. \u00c9 dar a pr\u00f3pria vida pelo outro.<\/p>\n<p>Por isso a mensagem que deixo \u00e9 muito simples. N\u00e3o percam a esperan\u00e7a. Cultivem a paz onde est\u00e3o, c\u00e1 e l\u00e1, em casa, na fam\u00edlia, no trabalho, na forma como falam uns com os outros.<\/p>\n<p>A paz n\u00e3o come\u00e7a nos tratados internacionais. A paz come\u00e7a em cada um de n\u00f3s. A paz come\u00e7a no teu, no meu, no nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num mundo ainda fortemente marcado por o som das armas, procuramos hoje o significado da paz. Neste Domingo da P\u00e1scoa, \u00e9 nosso convidado o bispo das For\u00e7as Armadas e das For\u00e7as de Seguran\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":418275,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[271,927],"class_list":["post-418269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-ordinariato-castrense","tag-pascoa-domingo-de-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418269\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/418275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}