{"id":41800,"date":"2009-11-09T12:53:46","date_gmt":"2009-11-09T12:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/09\/leigos-na-igreja-e-no-mundo-relendo-a-christifideles-laici\/"},"modified":"2009-11-09T12:53:46","modified_gmt":"2009-11-09T12:53:46","slug":"leigos-na-igreja-e-no-mundo-relendo-a-christifideles-laici","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/leigos-na-igreja-e-no-mundo-relendo-a-christifideles-laici\/","title":{"rendered":"Leigos na Igreja e no mundo \u2013 relendo a \u00abChristifideles Laici\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>(Interven&ccedil;&atilde;o de D. Manuel Clemente na comemora&ccedil;&atilde;o dos 75 anos da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">1. Comecemos por um trecho da exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica p&oacute;s-sinodal <em>Christifideles Laici<\/em>, que quase resume tudo quanto direi de seguida:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Em virtude da comum dignidade baptismal, o fiel leigo &eacute; correspons&aacute;vel, juntamente com os ministros ordenados e com os religiosos e as religiosas, da miss&atilde;o da Igreja. Mas a comum dignidade baptismal assume no fiel leigo uma modalidade que o distingue, sem todavia o separar, do presb&iacute;tero, do religioso e da religiosa. O Conc&iacute;lio Vaticano II apontou a &iacute;ndole secular como sendo essa modalidade. &lsquo;A &iacute;ndole secular &eacute; pr&oacute;pria e peculiar dos leigos&rsquo; (<em>LG<\/em>, 31)&rdquo; (<em>Christifideles Laici<\/em>, 30 de Dezembro de 1988, n&ordm; 15).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Correspons&aacute;veis na miss&atilde;o da Igreja, segundo a &iacute;ndole secular que lhes &eacute; espec&iacute;fica, assim se distinguem os leigos do Vaticano II, da <em>Christifideles Laici<\/em> e do s&eacute;culo XXI. Assim os vamos considerar agora, na just&iacute;ssima comemora&ccedil;&atilde;o dos 75 anos da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa.<\/p>\n<p>A corresponsabilidade, mesmo etimologicamente, insere-os na &ldquo;resposta&rdquo; que a Igreja &eacute; em rela&ccedil;&atilde;o a Deus e em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo. No Esp&iacute;rito de Cristo, a Igreja d&aacute; ao Pai a &uacute;nica resposta que Ele espera, em perfeito retorno, de adora&ccedil;&atilde;o e louvor. No Esp&iacute;rito de Cristo, a Igreja responde ao mundo concretizando o Evangelho e alargando o Reino, para que a retribui&ccedil;&atilde;o ao Pai seja universal e tudo realize como cria&ccedil;&atilde;o ultimada. Em Cristo nos descobrimos filhos de Deus, em Cristo somos enviados ao mundo para a filia&ccedil;&atilde;o universal e, por isso, fraterna. Finalmente filhos, finalmente fraternos e universais.<\/p>\n<p>Aos leigos, directamente inseridos nas realidades temporais, cabe especificamente a impregna&ccedil;&atilde;o da sociedade, da pol&iacute;tica, do trabalho e da cultura desta primeira e &uacute;ltima significa&ccedil;&atilde;o das coisas, que se ganha em Cristo. E a secularidade que vivem, no respeito activo pela consist&ecirc;ncia da cria&ccedil;&atilde;o &ndash; ou seja da dimens&atilde;o esp&aacute;cio-temporal do mundo &ndash; leva-os a respeitar e a melhorar todo o modo de fazer sem nunca perderem a absoluta dimens&atilde;o do ser, como da finalidade das coisas.<\/p>\n<p>Nos seus trabalhos de Nazar&eacute; Jesus n&atilde;o era menos Verbo de Deus incarnado do que nos tr&ecirc;s anos de prega&ccedil;&atilde;o que se seguiram, antes exemplificava na pr&aacute;tica local e laboral &ndash; tamb&eacute;m &ldquo;religiosa&rdquo; na celebra&ccedil;&atilde;o sab&aacute;tica a que n&atilde;o faltava &ndash; o que seja a consagra&ccedil;&atilde;o do mundo. Poderemos dizer que n&atilde;o era melhor carpinteiro por ser mais religioso, mas que a sua religi&atilde;o o levava a ser competent&iacute;ssimo, quer no trabalho que executava quer no modo como o oferecia a Deus e aos outros. E tudo isto era j&aacute; Evangelho, Boa Nova sobre o significado das coisas de todos os dias, quando se eternizam pela inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Desde o an&uacute;ncio do Reino, pelos trinta anos na sinagoga de Nazar&eacute;, Jesus dedica-se inteiramente &agrave; prega&ccedil;&atilde;o e &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o sacramental dum &ldquo;sacerd&oacute;cio&rdquo; de palavras e gestos que encontra na Ceia e na Cruz a sua express&atilde;o cabal, para a salva&ccedil;&atilde;o do mundo. E a &ldquo;imita&ccedil;&atilde;o de Cristo&rdquo; leva os crist&atilde;os a viverem particularmente, segundo a pr&oacute;pria gra&ccedil;a, esta ou aquela dimens&atilde;o duma vida segundo o Esp&iacute;rito, que s&oacute; no conjunto manifesta tudo o que em Cristo foi inteiramente oferecido.<\/p>\n<p>Esclarece-nos o Conc&iacute;lio num passo maior: &ldquo;Mas os dons do Esp&iacute;rito s&atilde;o diversos: enquanto chama uns a dar um testemunho manifesto do desejo da morada celeste e a mant&ecirc;-lo vivo na fam&iacute;lia humana, chama outros a dedicar-se ao servi&ccedil;o terreno dos homens, preparando, com esta sua actividade, a mat&eacute;ria do reino dos c&eacute;us. A todos, por&eacute;m, liberta para que, renunciando ao amor pr&oacute;prio e reunindo todas as energias terrestres em favor da vida humana, eles se lancem para as realidades futuras, em que a pr&oacute;pria humanidade se tornar&aacute; uma oferenda agrad&aacute;vel a Deus&rdquo; (<em>Gaudium et Spes<\/em>, n&ordm; 38).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">2. Na sua variedade carism&aacute;tica e ministerial, t&atilde;o grande como a unidade complexa do Corpo de Cristo que tamb&eacute;m &eacute;, a Igreja vive uma comunh&atilde;o<\/span> que tem em Deus uno e trino a sua fonte e o seu fim. Foi precisamente em torno da comunh&atilde;o que o Conc&iacute;lio Vaticano II assentou a sua eclesiologia, como a <em>Christifideles Laici<\/em> quis lembrar:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Esta &eacute; a ideia central que a Igreja deu de si no Conc&iacute;lio Vaticano II, como no-la recorda o S&iacute;nodo extraordin&aacute;rio de 1985, celebrado a vinte anos do acontecimento conciliar: &lsquo;A eclesiologia da comunh&atilde;o &eacute; a ideia central e fundamental nos documentos do Conc&iacute;lio&rsquo;. [&hellip;.] Logo a seguir ao Conc&iacute;lio, Paulo VI assim se dirigia aos fi&eacute;is: &lsquo;A Igreja &eacute; uma comunh&atilde;o. Que significa neste caso comunh&atilde;o? Vamos ao par&aacute;grafo do catecismo que fala da <em>sanctorum communionem<\/em>, a comunh&atilde;o dos santos. E comunh&atilde;o dos santos quer dizer uma dupla participa&ccedil;&atilde;o vital: a incorpora&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os na vida de Cristo e a circula&ccedil;&atilde;o dessa mesma caridade em todo o tecido dos fi&eacute;is, neste mundo e no outro. Uni&atilde;o a Cristo e em Cristo; e uni&atilde;o entre os crist&atilde;os, na Igreja&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 19).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Igreja e nela o laicado t&ecirc;m muito para fazer, mas t&ecirc;m sobretudo de ser. E para serem exactamente uma conviv&ecirc;ncia, n&atilde;o apenas de vizinhan&ccedil;a, mas de aut&ecirc;ntica circula&ccedil;&atilde;o de vida e de gra&ccedil;as, sendo estas de todos para todos segundo cada um.<\/p>\n<p>Em qualquer momento, &eacute; de acolher e transmitir comunh&atilde;o que se trata, logicamente antes de qualquer vantagem funcional ou &ldquo;pr&aacute;tica&rdquo;. &Eacute; tamb&eacute;m neste sentido que se poder&aacute; adiantar que o mais importante de cada reuni&atilde;o &ndash; e temos tantas! &#8211; &eacute; a pr&oacute;pria reuni&atilde;o, como experi&ecirc;ncia de ora&ccedil;&atilde;o, partilha e projec&ccedil;&atilde;o conjunta dessa mesma comunh&atilde;o. Valendo aqui repetir as palavras paradigm&aacute;ticas com que abre a <em>1&ordf; Carta de Jo&atilde;o<\/em>: &ldquo;O que existia desde o princ&iacute;pio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contempl&aacute;mos e as nossas m&atilde;os tocaram relativamente ao Verbo da Vida, [&hellip;] isso vos anunciamos, para que tamb&eacute;m v&oacute;s estejais em comunh&atilde;o connosco. E n&oacute;s estamos em comunh&atilde;o com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemo-vos isto para que a nossa alegria seja completa&rdquo; (<em>1 Jo<\/em> 1, 1-4).<\/p>\n<p>Assim sendo, cada presen&ccedil;a laical ser&aacute; um convite vivo para a comunh&atilde;o completa, partilhando da insist&ecirc;ncia com que Cristo nos convida para o Reino. Sendo o Reino a realiza&ccedil;&atilde;o da comunh&atilde;o, cada crist&atilde;o ter&aacute; de demonstrar esteja onde estiver, por palavras e obras, que viver &eacute; conviver, no sentido mais preenchido do verbo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">3. Come&ccedil;ando imediatamente pela comunidade crist&atilde; de todos e cada um, como experi&ecirc;ncia b&aacute;sica e activa de m&uacute;tua aten&ccedil;&atilde;o e m&uacute;tuo est&iacute;mulo.<\/span><\/p>\n<p>Ultrapassados devem ser os tempos em que a comunidade crist&atilde; era protagonizada por este ou aquele cl&eacute;rigo, somente ou quase. Herdeira duma acep&ccedil;&atilde;o preponderantemente &ldquo;sacral&rdquo; da eclesiologia te&oacute;rica e pr&aacute;tica, a massa dos fi&eacute;is ficava-se pela assist&ecirc;ncia a actos de culto realizados por &ldquo;sacerdotes&rdquo;, ajudados que fossem por alguns sacrist&atilde;es e poucos mais.<\/p>\n<p>Na nossa Igreja portuguesa &ndash; ou em parte crescente dela &ndash; tal j&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel; e tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; desej&aacute;vel, mais devedor que &eacute; &agrave; religiosidade ancestral do que &agrave; comunh&atilde;o evang&eacute;lica e mission&aacute;ria propriamente dita. &ndash; Dura e positiva circunst&acirc;ncia esta que nos obrigar&aacute; a todos &ndash; padres e leigos &ndash; a redescobrir a Igreja, o mundo e a rela&ccedil;&atilde;o Igreja &ndash; mundo como se intui das fontes neo-testament&aacute;rias e patr&iacute;sticas.<\/p>\n<p>&nbsp; A Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica foi, efectivamente, um grande campo de ensaios desta eclesiologia renovada. Com ela vimos leigos a tomarem parte inteira nos diversos sectores apost&oacute;licos, na par&oacute;quia e para al&eacute;m dela. Da Missa &agrave; f&aacute;brica, aos campos, &agrave; escola, &agrave; Universidade, vimo-los, os militantes da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, no conjunto das suas cinco vogais, profundamente comprometidos na miss&atilde;o, para a qual tinham at&eacute; um refor&ccedil;ado &ldquo;mandato&rdquo; hier&aacute;rquico.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Naturalmente, cresciam tamb&eacute;m em participa&ccedil;&atilde;o interna, par&oacute;quia a par&oacute;quia. Atitude nova que o Conc&iacute;lio reconheceu, o novo C&oacute;digo de Direito Can&oacute;nico previu e a <em>Christifideles Laici<\/em> tamb&eacute;m enunciou, nos seguintes termos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;&hellip; os pastores devem reconhecer e promover os of&iacute;cios e as fun&ccedil;&otilde;es dos fi&eacute;is leigos, que t&ecirc;m o seu fundamento sacramental no Baptismo e na Confirma&ccedil;&atilde;o, bem como, para muitos deles, no Matrim&oacute;nio. [&hellip;] O C&oacute;digo de Direito Can&oacute;nico escreve: &lsquo;Onde as necessidades da Igreja o aconselharem, por falta de ministros, os leigos [&hellip;] podem suprir alguns of&iacute;cios, como os de exercer o minist&eacute;rio da palavra, presidir &agrave;s ora&ccedil;&otilde;es lit&uacute;rgicas, conferir o baptismo e distribuir a Sagrada Comunh&atilde;o, segundo as prescri&ccedil;&otilde;es do direito (c&acirc;n. 230, &sect; 3)&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 23).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o certo &eacute; que esta participa&ccedil;&atilde;o interna &ndash; hoje t&atilde;o requerida em muitas dioceses, dada a falta de padres &ndash; n&atilde;o pode diminuir nem a &iacute;ndole secular nem a prem&ecirc;ncia apost&oacute;lica do laicado. Muito pelo contr&aacute;rio, deve refor&ccedil;ar atrav&eacute;s deles, mesmo nas fun&ccedil;&otilde;es internas que desempenhem, a natureza mission&aacute;ria que a Igreja n&atilde;o pode perder, antes tem de acrescentar, para se realizar como comunh&atilde;o atractiva e expansiva que verdadeiramente h&aacute;-de ser. Dizendo com a <em>Christifideles Laici<\/em>:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Habituem-se os leigos a trabalhar na Par&oacute;quia intimamente unidos aos seus sacerdotes, a trazer para a comunidade eclesial os pr&oacute;prios problemas e os do mundo e as quest&otilde;es que dizem respeito &agrave; salva&ccedil;&atilde;o dos homens, para que todos se examinem e resolvam com o concurso de todos. [&hellip;] Nas actuais circunst&acirc;ncias, os fi&eacute;is leigos podem e devem fazer muit&iacute;ssimo para o crescimento de uma aut&ecirc;ntica comunh&atilde;o eclesial no seio das suas par&oacute;quias e para o despertar do impulso mission&aacute;rio em ordem aos n&atilde;o crentes e mesmo aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a pr&aacute;tica da vida crist&atilde;&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 27).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">4. Dos anos sessenta para c&aacute; desenvolveram-se muito na Igreja variad&iacute;ssimos movimentos e associa&ccedil;&otilde;es laicais<\/span>. Mais ligados uns a espiritualidade espec&iacute;ficas, mais ligados outros a actua&ccedil;&otilde;es neste ou naquele sector, todos formam hoje uma densa constela&ccedil;&atilde;o religiosa.<\/p>\n<p>Coincide isto mesmo com alguns aspectos da sensibilidade p&oacute;s-moderna, no que ela tem de menos sistem&aacute;tico e ordenado, t&atilde;o diferente do que sucedeu na primeira metade do s&eacute;culo XX com a organiza&ccedil;&atilde;o geral do apostolado, t&iacute;pica da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica da altura.<\/p>\n<p>Sabemos como esta diversifica&ccedil;&atilde;o causou perplexidade nalguns e hesita&ccedil;&otilde;es noutros. Como sabemos que foram muito pr&oacute;prios de Jo&atilde;o Paulo II o reconhecimento e o aproveitamento desses &ldquo;movimentos&rdquo; para a &ldquo;nova evangeliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; em que insistia.<\/p>\n<p>Mas era preciso acertar crit&eacute;rios de discernimento desta realidade emergente. Assim aconteceu tamb&eacute;m no S&iacute;nodo dos Bispos de 1987, que est&aacute; na base da <em>Christifideles Laici<\/em>. E uma das contribui&ccedil;&otilde;es mais decisivas desta exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica &eacute; exactamente o crit&eacute;rio que nos oferece sobre esta realidade t&atilde;o relevante para a Igreja e o apostolado. Podemos ler no seu precioso n&ordm; 30:<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; sempre na perspectiva da comunh&atilde;o e da miss&atilde;o da Igreja e n&atilde;o, portanto, em contraste com a liberdade associativa, que se compreende a necessidade de claros e precisos crit&eacute;rios de discernimento e de reconhecimento das associa&ccedil;&otilde;es laicais, tamb&eacute;m chamados &lsquo;crit&eacute;rios de eclesialidade&rsquo;. [&hellip;] &ndash; O primado dado &agrave; voca&ccedil;&atilde;o crist&atilde; &agrave; santidade [&hellip;]. &ndash; A responsabilidade em professar a f&eacute; cat&oacute;lica [&hellip;]. &ndash; O testemunho de uma comunh&atilde;o s&oacute;lida e convicta [com o Papa, o Bispo e as outras formas de apostolado] [&hellip;]. &ndash; A conformidade e a participa&ccedil;&atilde;o na finalidade apost&oacute;lica da Igreja [&hellip;]. O empenho de uma presen&ccedil;a na sociedade humana&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 30).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos ler e podemos rever-nos duas d&eacute;cadas depois &agrave; sua luz. E logo na primeira asser&ccedil;&atilde;o, ao adiantar que &eacute; na perspectiva da comunh&atilde;o e da miss&atilde;o da Igreja e n&atilde;o em contraste com a liberdade associativa que tais crit&eacute;rios se estabelecem. Na verdade &eacute; um ganho da eclesiologia conciliar e do Direito Can&oacute;nico posterior o maior reconhecimento da legitimidade associativa dos fi&eacute;is para juntos levarem por diante iniciativas v&aacute;rias de piedade e ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; para contrariar tal liberdade que a <em>Christifideles Laici<\/em> elencou estes itens. Trata-se, isso sim, de reconhecer e refor&ccedil;ar em tais iniciativas o seu inteiro cariz eclesial, alertando-as e estimulando-as nesse sentido, sem o qual, menos do que particulares, ficariam &ldquo;privativas&rdquo; ou subjectivas. &ldquo;Falariam&rdquo; por si, valendo o que valessem, mas n&atilde;o poderiam ser reconhecidas como express&atilde;o eclesial propriamente dita, que se joga sempre totalmente nas v&aacute;rias concretiza&ccedil;&otilde;es que tenha. &nbsp;<\/p>\n<p>E os crit&eacute;rios s&atilde;o traduz&iacute;veis na voca&ccedil;&atilde;o &agrave; santidade, como principal escopo de qualquer associa&ccedil;&atilde;o de fi&eacute;is leigos; na profiss&atilde;o da f&eacute; cat&oacute;lica, passando da mera designa&ccedil;&atilde;o &agrave; subst&acirc;ncia, comunicando a verdade sobre Cristo, a Igreja e o homem em conson&acirc;ncia com o magist&eacute;rio eclesial; na comunh&atilde;o efectiva com a hierarquia apost&oacute;lica, que garante a continuidade da f&eacute; e da actua&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is; na efectiva&ccedil;&atilde;o do apostolado eclesial, evangelizando, santificando e formando, para assim atingir as comunidades e os ambientes; e na presen&ccedil;a activa na sociedade para a&iacute; promover a dignidade integral da cada pessoa. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">5. E &eacute; na sequ&ecirc;ncia disto que a exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica se refere directamente &agrave; Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica<\/span>, nos seguintes termos: &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Entre as v&aacute;rias formas de apostolado dos leigos, que t&ecirc;m uma particular rela&ccedil;&atilde;o com a Hierarquia, os Padres sinodais expressamente mencionaram v&aacute;rios movimentos e associa&ccedil;&otilde;es da <em>Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica<\/em>, onde os leigos se associam livremente de forma org&acirc;nica e est&aacute;vel, sob o impulso do Esp&iacute;rito Santo, na comunh&atilde;o com o Bispo e com os sacerdotes, de forma a poderem servir, no estilo pr&oacute;prio da sua voca&ccedil;&atilde;o, com um m&eacute;todo particular, o crescimento de toda a comunidade crist&atilde;, os projectos pastorais e a anima&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica de todos os sectores da vida, com fidelidade e operosidade&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 31).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A&iacute; temos os elementos que ainda hoje caracterizam a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica: associa&ccedil;&atilde;o laical org&acirc;nica e est&aacute;vel; comunh&atilde;o hier&aacute;rquica; estilo pr&oacute;prio e m&eacute;todo particular, certamente o t&atilde;o apurado &ldquo;ver, julgar e agir&rdquo; em cada &ldquo;meio&rdquo; espec&iacute;fico; resultados positivos no crescimento da comunidade crist&atilde; e na evangeliza&ccedil;&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p>Importante &eacute; esta passagem verificar que o empenhamento apost&oacute;lico dos militantes da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, dirigindo-se especificamente a cada meio social, &eacute; tamb&eacute;m causa de crescimento da pr&oacute;pria comunidade crist&atilde; a que pertencem. &Eacute; uma lei evang&eacute;lica por excel&ecirc;ncia, a de que &ndash; muito mais do que voltada para si mesma &#8211; a Igreja cresce na medida em que se volta para o mundo, como fermento, sal e luz. S&oacute; comunidades apost&oacute;licas crescem em identidade, consist&ecirc;ncia e caridade. Neste sentido podemos dizer que os 75 anos da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa beneficiaram o pa&iacute;s mas n&atilde;o beneficiaram menos a Igreja, tornando-a, por assim dizer, mais &ldquo;cat&oacute;lica e apost&oacute;lica&rdquo;, mais cat&oacute;lica porque apost&oacute;lica.<\/p>\n<p>Nisto mesmo nos refor&ccedil;a a exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica, ao definir a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o como um movimento renovado de miss&atilde;o, que tem na comunidade o seu sujeito e o seu objecto. Da comunidade que h&aacute; para a melhor comunidade que h&aacute;-de haver, mediante o dinamismo apost&oacute;lico que mantenha. N&atilde;o podia ser mais esclarecedor o passo seguinte:&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Esta nova evangeliza&ccedil;&atilde;o, dirigida n&atilde;o apenas aos indiv&iacute;duos mas a inteiras faixas de popula&ccedil;&atilde;o, nas suas diversas situa&ccedil;&otilde;es, ambientes e culturas, tem por fim <em>formar comunidades eclesiais maduras<\/em>, onde a f&eacute; desabroche e realize todo o seu significado origin&aacute;rio de ades&atilde;o &aacute; pessoa de Cristo e de comunh&atilde;o sacramental com Ele, de exist&ecirc;ncia vivida na caridade e no servi&ccedil;o. Os fi&eacute;is leigos t&ecirc;m a sua parte a desempenhar na forma&ccedil;&atilde;o de tais comunidades eclesiais, n&atilde;o s&oacute; com uma participa&ccedil;&atilde;o activa e respons&aacute;vel na vida comunit&aacute;ria, e, portanto, com o seu insubstitu&iacute;vel testemunho, mas tamb&eacute;m com o entusiasmo e com a ac&ccedil;&atilde;o mission&aacute;ria dirigida a quantos n&atilde;o cr&ecirc;em ainda ou j&aacute; n&atilde;o vivem a f&eacute; recebida no baptismo&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 34).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim estamos j&aacute; e, muito especialmente, onde se mantenha acesa a chama da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica. E nem precisa de ser multitudin&aacute;ria, porque a l&oacute;gica do Evangelho vai sempre do pouco para o muito, sendo aquele consistente e persistente. Temos hoje muito para comemorar e tamb&eacute;m muito para agradecer, porque a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, assim como ofereceu ao Conc&iacute;lio a experi&ecirc;ncia e o m&eacute;todo que tinha acumulado j&aacute;, tamb&eacute;m nos oferece agora, rumo &agrave; nova evangeliza&ccedil;&atilde;o, o mesmo modo de fazer e o mesmo &acirc;nimo de persistir.<\/p>\n<p>Mas sendo a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, antes de mais, uma agrega&ccedil;&atilde;o e um modo de intervir em cada meio s&oacute;cio-cultural, ter&aacute; de ser t&atilde;o atenta no ver como s&aacute;bia no julgar. E, para julgar ou ajuizar correctamente das realidades e circunst&acirc;ncias envolventes, ter&aacute; de insistir muito nos crit&eacute;rios devidos, evang&eacute;licos sempre.<\/p>\n<p>Foi desta preocupa&ccedil;&atilde;o com o meio que nasceu a Doutrina Social da Igreja, a pouco e pouco sistematizada, desde Le&atilde;o XIII sobretudo. E &eacute; muito referida hoje em dia a necessidade de boas forma&ccedil;&otilde;es nessa doutrina, para mais consistentemente intervir nos meios.<\/p>\n<p>&Eacute; a &uacute;ltima alus&atilde;o que fa&ccedil;o, projectando no presente para o futuro esta proposi&ccedil;&atilde;o da <em>Christifideles Laici<\/em>, tornada urg&ecirc;ncia absoluta nas actuais circunst&acirc;ncias:<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;A forma&ccedil;&atilde;o <em>doutrinal<\/em> dos fi&eacute;is leigos mostra-se hoje cada vez mais urgente, n&atilde;o s&oacute; pelo natural dinamismo de aprofundar a sua f&eacute;, mas tamb&eacute;m pela exig&ecirc;ncia de &lsquo;racionalizar a esperan&ccedil;a&rsquo;que est&aacute; dentro deles, perante o mundo e os seus problemas graves e complexos. [&hellip;] Em particular, sobretudo para os fi&eacute;is leigos, de v&aacute;rias formas empenhados no campo social e pol&iacute;tico, &eacute; absolutamente indispens&aacute;vel uma consci&ecirc;ncia mais exacta da doutrina social da Igreja&rdquo; (<em>CL<\/em>, n&ordm; 60). &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Consci&ecirc;ncia e ci&ecirc;ncia, sensibilidade a compet&ecirc;ncia. Assim quer a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica enfrentar o mundo e as variadas problem&aacute;ticas que o comp&otilde;em e nos interpelam. Creio firmemente que a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa tem na sua gloriosa experi&ecirc;ncia passada a melhor garantia da igual conveni&ecirc;ncia futura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Porto, Col&eacute;gio dos &Oacute;rf&atilde;os, 8 de Novembro de 2009<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Interven&ccedil;&atilde;o de D. Manuel Clemente na comemora&ccedil;&atilde;o dos 75 anos da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa) &nbsp; 1. Comecemos por um trecho da exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica p&oacute;s-sinodal Christifideles Laici, que quase resume tudo quanto direi de seguida: &nbsp; &ldquo;Em virtude da comum dignidade baptismal, o fiel leigo &eacute; correspons&aacute;vel, juntamente com os ministros ordenados e com os religiosos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[118,139,187,199],"class_list":["post-41800","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-apostolado-dos-leigos","tag-communio","tag-diocese-do-porto","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41800"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41800\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}