{"id":41784,"date":"2009-11-06T15:48:22","date_gmt":"2009-11-06T15:48:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/11\/06\/acp-e-o-catolicismo-portugues-do-seculo-xx\/"},"modified":"2009-11-06T15:48:22","modified_gmt":"2009-11-06T15:48:22","slug":"acp-e-o-catolicismo-portugues-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acp-e-o-catolicismo-portugues-do-seculo-xx\/","title":{"rendered":"ACP e o Catolicismo Portugu\u00eas do S\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<p>O aparecimento da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa (ACP) insere-se num contexto de recomposi&ccedil;&atilde;o do catolicismo portugu&ecirc;s, marcado decisivamente pelo contributo que o Concilio Plen&aacute;rio Portugu&ecirc;s (1926) trouxe &agrave; Igreja em Portugal, recentemente confrontada com o radicalismo republicano. Nesse contexto, a necessidade de uni&atilde;o dos cat&oacute;licos por motivos de recupera&ccedil;&atilde;o religiosa e de conte&uacute;dos pol&iacute;ticos fez com que, os Bispos assumissem uma centralidade eclesial e social, capaz de lhe dar uma autoridade cat&oacute;lica na sociedade com elevada e verdadeira express&atilde;o.<\/p>\n<p>Estas realidades nacionais inseriam-se no contexto da Igreja Universal, pois as orienta&ccedil;&otilde;es de Pio XI eram definidas, desde a origem do seu pontificado (1921), a partir da vigorosa proposta de um projecto de restaura&ccedil;&atilde;o da ordem social crist&atilde;, apresentando a Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica (AC) como uma nova proposta de apostolado, que de modo crescente se foi institucionalizando nos diversos pa&iacute;ses de tradi&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, como It&aacute;lia (1923), Pol&oacute;nia (1925), Espanha (1926), Cro&aacute;cia, na Jugosl&aacute;via e Checoslov&aacute;quia (1927) e na &Aacute;ustria (1928).<\/p>\n<p>Apoiando os esfor&ccedil;os dos Bispos portugueses, Pio XI dirigiu uma carta ao Cardeal-Patriarca de Lisboa a 10 de Novembro de 1933, a qual &eacute; refer&ecirc;ncia decisiva da ACP. Nesta carta, Pio XI considerava &laquo;o apostolado dos fi&eacute;is&raquo; como instrumento adequado para fermentar crist&atilde;mente a sociedade, a qual via muitas vezes a f&eacute;, como assunto privado, organizando-se sem o reconhecimento do contributo social que o catolicismo era capaz de oferecer. Para o Papa, a ac&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is &laquo;sob a direc&ccedil;&atilde;o dos seus Bispos, d&atilde;o o seu concurso &agrave; Igreja de Deus e completam, de uma certa maneira, o seu minist&eacute;rio pastoral&raquo;. O lema da ACP, &laquo;<em>cor unum, anima una<\/em>&raquo; exprimia a convic&ccedil;&atilde;o que a efic&aacute;cia desta iniciativa dependeria em larga escala da organiza&ccedil;&atilde;o unit&aacute;ria e do comando unificado, que devia actuar em forma de corpo, na sociedade e no Estado, sobretudo nas suas pretens&otilde;es hegem&oacute;nicas e anti-religiosas.<\/p>\n<p>Pio XI estendia a actua&ccedil;&atilde;o da AC, tamb&eacute;m &agrave; assist&ecirc;ncia espiritual e material dos oper&aacute;rios, &agrave; forma&ccedil;&atilde;o religiosa e moral das crian&ccedil;as e dos jovens e &agrave; funda&ccedil;&atilde;o e divulga&ccedil;&atilde;o da &laquo;boa imprensa&raquo;.<\/p>\n<p>Baseando-se nesta &laquo;Carta Magna&raquo; de Pio XI, os Bispos portugueses promulgaram as Bases Org&acirc;nicas da AC a 16 de Novembro de 1933. Afirmava-se neste momento uma estrat&eacute;gia de grande mobiliza&ccedil;&atilde;o dos cat&oacute;licos a n&iacute;vel social e religioso, com a finalidade de se proceder a uma &laquo;nova cruzada de reconquista crist&atilde; de Portugal&raquo;, atrav&eacute;s de uma forte presen&ccedil;a do catolicismo na sociedade. Passados dez anos, em 1943, o Papa Pio XII apresentou a enc&iacute;clica <em>Mysticis Corporis Christi<\/em>, cuja teologia do Corpo M&iacute;stico de Cristo foi assumida pela ACP, enquanto espiritualidade de uma organiza&ccedil;&atilde;o que se queria assumir cada vez mais como movimento religioso.<\/p>\n<p>A institucionaliza&ccedil;&atilde;o da ACP verificou-se no contexto sociopol&iacute;tico da afirma&ccedil;&atilde;o do Estado Novo, a qual remetia a interven&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica para o campo estritamente religioso e s&oacute;cio-caritativo. Deste modo, a AC ao pretender dar consist&ecirc;ncia e melhor organiza&ccedil;&atilde;o &agrave;s actividades cat&oacute;licas j&aacute; existentes, formou uma escola de militantes capazes de intervir nos diversos meios que constituam a sociedade, de modo a evangelizar as popula&ccedil;&otilde;es, acabando por participar, como elemento socialmente valioso, no projecto de restaura&ccedil;&atilde;o nacional do Estado Novo.<\/p>\n<p>A exist&ecirc;ncia da AC nunca figurou na Concordata de 1940, apesar de se saber que foi ponderada a sua refer&ecirc;ncia num protocolo adicional, mas que de facto nunca chegou a ser realizado. O facto de n&atilde;o possuir personalidade jur&iacute;dica pr&oacute;pria, fez com que a AC tivesse de encontrar a legitimidade necess&aacute;ria para as suas actua&ccedil;&otilde;es, numa articula&ccedil;&atilde;o directa com hierarquia cat&oacute;lica, atrav&eacute;s de um Bispo que presidia &agrave; Junta Central e de Assistentes Eclesi&aacute;sticos aos diversos n&iacute;veis organizativos (nacionais, diocesanos e paroquiais).<\/p>\n<p>Esta estrutura evidenciou o grande peso da hierarquia, produzindo-se o controlo directo da ac&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is leigos pelos Assistentes Eclesi&aacute;sticos; sublinhando-se ainda a fronteira entre o &laquo;pol&iacute;tico&raquo; e o &laquo;religioso&raquo;, expresso nas suas bases org&acirc;nicas ao afirmar que: &laquo;A ACP actuaria fora e acima de todas as correntes pol&iacute;ticas, sem deixar de reivindicar e defender as liberdades da Igreja&raquo;.<\/p>\n<p>Foram os diversos entendimentos sobre o que se entende por &laquo;pol&iacute;ticas&raquo; e como deve ser constru&iacute;da a rela&ccedil;&atilde;o da Igreja com estas, que justificaram alguns posicionamentos por parte das diversas sensibilidades e protagonistas do Catolicismo portugu&ecirc;s, surgindo mesmo como elemento diferenciador da Igreja portuguesa nas d&eacute;cadas de 30 a 70.<\/p>\n<p>A concep&ccedil;&atilde;o e a organiza&ccedil;&atilde;o de uma AC integrada, totalizante, centralizada e fortemente hierarquizada perdurou durante as tr&ecirc;s primeiras d&eacute;cadas da sua exist&ecirc;ncia. Posteriormente o Conc&iacute;lio Vaticano II (1926-1965) aprofundou e desenvolveu a natureza e a miss&atilde;o dos leigos na Igreja e no mundo, contribuindo para o refor&ccedil;o da &laquo;indispens&aacute;vel unidade da ACP e a leg&iacute;tima autonomia dos Movimentos Apost&oacute;licos que a integram&raquo;.<\/p>\n<p>Estes tempos novos fizeram com que o Episcopado, em 1965, considerasse necess&aacute;rio &laquo;estudar a oportunidade e os processos de actualiza&ccedil;&atilde;o da ACP&raquo;, entregando simultaneamente a direc&ccedil;&atilde;o da AC a um leigo, atrav&eacute;s do cargo de Secret&aacute;rio Geral. A 24 de Junho de 1971, o Episcopado aprovava, a t&iacute;tulo experimental, um conjunto de princ&iacute;pios b&aacute;sicos, por um per&iacute;odo de cinco anos e em 1976, suspendia a AC como estrutura unit&aacute;ria.<\/p>\n<p>Com o desmembramento da AC verificou-se a uma reformula&ccedil;&atilde;o progressiva dos v&aacute;rios movimentos surgidos como fruto das suas actividades. Assim, os organismos masculinos e femininos do meio oper&aacute;rio deram origem a movimentos mistos, mantendo todavia os nomes de LOC e JOC; os organismos adultos dos meios rurais formaram a AC Rural e os de jovens originaram a Juventude Agr&aacute;ria e Rural Cat&oacute;lica. Os movimentos dos meios independentes formaram a AC Independente e a antiga JEC e JUC dos estudantes, na ocasi&atilde;o j&aacute; movimentos mistos, fundiram-se, em 1982, no novo Movimento Cat&oacute;lico de Estudantes. H&aacute; ainda outros grupos em restrutura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O reconhecimento de cada uma destas organiza&ccedil;&otilde;es enquanto Movimentos de AC iniciou em 1976 e n&atilde;o aconteceu de modo f&aacute;cil e imediato, antes exigiu a aprova&ccedil;&atilde;o interna de novos estatutos e o seu reconhecimento pelo Espiscopado, por vezes em processos de di&aacute;logo exigente e at&eacute; de momentos dif&iacute;ceis de conflituosidade interna.<\/p>\n<p>Conclu&iacute;mos, com um olhar retrospectivo da ACP e verificamos o contributo que proporcionou atrav&eacute;s dos seus diversos organismos &agrave; dinamiza&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o de comportamentos e de mentalidades, proporcionados tamb&eacute;m pela troca de experi&ecirc;ncias que os contactos internacionais proporcionaram. Em v&aacute;rias das suas fases foi tamb&eacute;m uma escola de &ldquo;leaders&rdquo; em v&aacute;rios campos da sociedade e ao longo de v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es, tendo tido uma elevada capacidade de oferta de boa forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A metodologia e a sua din&acirc;mica de reflex&atilde;o foram de grande significado para a Igreja Cat&oacute;lica, contribuindo para a evolu&ccedil;&atilde;o das suas concep&ccedil;&otilde;es pastorais.<\/p>\n<p>A aten&ccedil;&atilde;o que a ACP soube dar a certos meios descristianizados, motivou a realiza&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios inqu&eacute;ritos e an&aacute;lises que deram origem a diversos estudos de sociologia religiosa. Atrav&eacute;s desta preocupa&ccedil;&atilde;o pela an&aacute;lise da realidade e das muta&ccedil;&otilde;es tornou-se experi&ecirc;ncia inspiradora da teologia dos &laquo;Sinais dos tempos&raquo; que o Concilio Vaticano II haveria de consignar.<\/p>\n<p>A actual cultura cat&oacute;lica, com caracter&iacute;sticas mais indutivas, mais participativas e valorativas das experi&ecirc;ncias crist&atilde;s do quotidiano e mais integradora das viv&ecirc;ncias sociais e pessoais, com a consequente actualiza&ccedil;&atilde;o das &laquo;realidades terrestres&raquo;, recebeu muitos contributos do processo pedag&oacute;gico utilizado pela AC para a transmiss&atilde;o da experi&ecirc;ncia Religiosa, bem entendida no m&eacute;todo da &laquo;revis&atilde;o de vida&raquo; e na metodologia anal&iacute;tica e actuante do &laquo;ver-julgar-agir&raquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Senra Coelho, Professor no Instituto Superior de Teologia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aparecimento da Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica Portuguesa (ACP) insere-se num contexto de recomposi&ccedil;&atilde;o do catolicismo portugu&ecirc;s, marcado decisivamente pelo contributo que o Concilio Plen&aacute;rio Portugu&ecirc;s (1926) trouxe &agrave; Igreja em Portugal, recentemente confrontada com o radicalismo republicano. 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