{"id":417437,"date":"2026-03-29T09:31:33","date_gmt":"2026-03-29T08:31:33","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=417437"},"modified":"2026-03-26T16:05:26","modified_gmt":"2026-03-26T16:05:26","slug":"igreja-sociedade-nao-estamos-habituados-a-dar-protagonismo-a-pessoas-com-deficiencia-carmo-diniz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-sociedade-nao-estamos-habituados-a-dar-protagonismo-a-pessoas-com-deficiencia-carmo-diniz\/","title":{"rendered":"Igreja\/Sociedade: \u00abN\u00e3o estamos habituados a dar protagonismo a pessoas com defici\u00eancia\u00bb &#8211; Carmo Diniz"},"content":{"rendered":"<p><em>Diretora do Servi\u00e7o da Pastoral a Pessoas com Defici\u00eancia da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, tem um percurso marcado pela inclus\u00e3o. A nossa convidada deste domingo da Ag\u00eancia Ecclesia e da Renascen\u00e7a \u00e9 uma voz ativa neste setor, tendo ajudado a desenhar a mais recente proposta do S\u00ednodo dos Bispos<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_262543\" aria-describedby=\"caption-attachment-262543\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-262543 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carmo-Diniz-3-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-262543\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Miguel Rato\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Faz parte do subgrupo internacional do S\u00ednodo que acaba de propor a cria\u00e7\u00e3o de um &#8220;Observat\u00f3rio Eclesi\u00e1stico sobre a Defici\u00eancia&#8221;. O relat\u00f3rio publicado na \u00faltima semana defende a implementa\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio Eclesial sobre a Defici\u00eancia, com poder de decis\u00e3o aut\u00f3nomo e lideran\u00e7a partilhada. Na pr\u00e1tica, o que \u00e9 que esta nova estrutura quer mudar na forma como a Igreja olha e acolhe as pessoas com defici\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Se come\u00e7armos pelo princ\u00edpio, n\u00f3s estamos em S\u00ednodo j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios anos e foi apresentado um documento final [2024], que tem uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es e um n\u00famero no qual se diz \u201cconstitua-se um observat\u00f3rio para a defici\u00eancia dentro da Igreja\u201d. Depois de ser apresentado este documento, foram constitu\u00eddos 10 grupos de trabalho para pensar e refletir e emitir propostas pr\u00e1ticas e concretas de como aplicar o que s\u00e3o os resultados do S\u00ednodo, que as pessoas entenderam que era importante mudar na vida da Igreja. E dentro do grupo 2, com a miss\u00e3o de \u201cescutar o grito dos pobres\u201d, foi colocada aqui dentro esta demanda de procurar encontrar um observat\u00f3rio para a defici\u00eancia dentro da Igreja.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que precisamos de um observat\u00f3rio? Como \u00e9 que isto chegou at\u00e9 ao documento final do S\u00ednodo?<\/p>\n<p>Houve um trabalho muito, muito importante que foi feito pelo Dicast\u00e9rio Leigos Fam\u00edlia e Vida, um dos minist\u00e9rios da C\u00faria Romana, quando se apercebeu que, no processo Sinodal, as pessoas com defici\u00eancia de alguma maneira n\u00e3o iriam ter voz direta. Primeiro porque, apesar de ser a maior minoria do mundo, continua a ser uma minoria e, portanto, nos processos sinodais seriam sempre uma minoria tamb\u00e9m; depois porque a sua capacidade de express\u00e3o \u00e9 reduzida, por v\u00e1rias raz\u00f5es. O Dicast\u00e9rio entendeu que devia fazer uma consulta espec\u00edfica a pessoas com defici\u00eancia e eu tive a gra\u00e7a de participar nesses grupos tamb\u00e9m, quer como respons\u00e1vel do Servi\u00e7o Pastoral, quer como familiar de uma pessoa com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 a semente desse subgrupo. O facto de estes anos de trabalho terem sido explicitamente assumidos no relat\u00f3rio do Grupo 2 \u00e9 uma valida\u00e7\u00e3o do que foi feito? De que forma \u00e9 que a ideia de se avan\u00e7ar com o observat\u00f3rio pode ser algo que traga uma mudan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Desse trabalho pr\u00e9vio saiu um documento tamb\u00e9m muito importante, chamado \u201cUma alegria sem limites\u201d e que, esse sim, diz tudo aquilo que as pr\u00f3prias pessoas com defici\u00eancia entendem que pode ser a sua contribui\u00e7\u00e3o para a Igreja e o que pedem \u00e0 Igreja. Esse documento \u00e9 muito mais extenso e tem muito mais do que um observat\u00f3rio. O observat\u00f3rio foi o que o S\u00ednodo dos Bispos entendeu ser a ponta do novelo por onde se pode puxar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso entender se as pessoas com defici\u00eancia est\u00e3o ou n\u00e3o dentro da Igreja e, se n\u00e3o est\u00e3o, por que motivo \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o, o que podemos fazer para mudar.<\/p>\n<p>Portanto o princ\u00edpio do observat\u00f3rio \u00e9 esse, \u00e9 conseguir de uma forma muito complexa, porque temos uma casa muito grande, entender dentro da casa comum se as pessoas com defici\u00eancia t\u00eam um lugar dentro da Igreja ou n\u00e3o e, se n\u00e3o t\u00eam, o que podemos fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pedia que falasses muito brevemente das pessoas que estavam contigo nesse subgrupo porque isso por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 um exemplo de inclus\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Foi maravilhoso, foi muito bom, foi mesmo muito bom, at\u00e9 porque j\u00e1 nos conhec\u00edamos alguns do trabalho pr\u00e9vio. Dentro deste grupo, muito pequenino, estava uma professora de teologia australiana que era s\u00f3 moderadora; depois estava o Vittorio Scelzo, que \u00e9 a pessoa dentro do Dicast\u00e9rio para os Leigos Fam\u00edlia e Vida que mais sabe sobre defici\u00eancia, com um olhar mundial, porque conhece todos os servi\u00e7os pastorais, j\u00e1 trabalhou com todos e tem um pensamento muito longo sobre os temas da defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Um padre jesu\u00edta australiano que \u00e9 te\u00f3logo tamb\u00e9m, que \u00e9 o Justin Glyn, que publicou j\u00e1 um livro que vamos traduzir agora em portugu\u00eas, sobre os temas da defici\u00eancia. Ele pr\u00f3prio tem muita baixa vis\u00e3o, \u00e9 praticamente cego.<\/p>\n<p>Estava o Enrique Alarc\u00f3n Garc\u00eda, que \u00e9 um espanhol com paralisia cerebral, tamb\u00e9m muito ativo no Dicast\u00e9rio e em Espanha para os direitos e a contribui\u00e7\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia na igreja, e o Peter Hepp, que \u00e9 cego e surdo.<\/p>\n<p>Ou seja, as reuni\u00f5es eram todas online e, portanto, tinha de haver um int\u00e9rprete, podemos imaginar que algu\u00e9m cego e surdo tem mesmo muita dificuldade em comunicar. O Peter foi extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eram reuni\u00f5es e encontros online, mais longas, naturalmente, porque \u00e9 preciso mais tempo para todo este di\u00e1logo e num esp\u00edrito tamb\u00e9m p\u00f3s-sinodal, com tempo e espa\u00e7o para ouvir, foram mesmo muito interessantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A proposta que ajudou a redigir defende que este observat\u00f3rio seja co-presidido por uma pessoa com defici\u00eancia e que nenhuma decis\u00e3o substantiva seja tomada sem a aprova\u00e7\u00e3o da maioria. Esta exig\u00eancia do \u201cnada sobre n\u00f3s sem n\u00f3s\u201d \u00e9 um choque de realidade na partilha de responsabilidades dentro da C\u00faria Romana?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. N\u00f3s n\u00e3o estamos habituados a dar protagonismo a pessoas com defici\u00eancia, n\u00e3o estamos, e muitas vezes at\u00e9 fazemos a injusti\u00e7a de tomar umas defici\u00eancias pelas outras. Isso v\u00ea-se quando temos pessoas com defici\u00eancias motoras e achamos que elas n\u00e3o s\u00e3o capazes de ter um racioc\u00ednio claro; ou que uma pessoa surda n\u00e3o tem o mesmo grau de conhecimento ou de reflex\u00e3o, isso \u00e9 profundamente injusto. Isto \u00e9 um tema da sociedade que tamb\u00e9m se reflete na Igreja.<\/p>\n<p>Na Igreja tamb\u00e9m n\u00e3o estamos habituados a ter pessoas com defici\u00eancia em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e temos pessoas com defici\u00eancias extraordin\u00e1rias, com capacidades muito acima da m\u00e9dia e que podem contribuir para este tema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O documento pede que a Igreja abandone uma vis\u00e3o \u201cdolorista e assistencialista\u201d. \u00c9 uma abordagem que ainda persiste?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, diria que a abordagem assistencialista, que tem como base um modelo m\u00e9dico em que a defici\u00eancia \u00e9 um tema que se tem de tratar, ainda \u00e9 muito vigente, ali\u00e1s, ela convive com o modelo social em que o problema est\u00e1 mais na sociedade do que propriamente na pessoa. Quantas e quantas vezes n\u00f3s tomamos atitudes de n\u00e3o confiar ou de n\u00e3o querer ou n\u00e3o entregar plenamente um assunto ou uma responsabilidade a uma pessoa com defici\u00eancia, porque achamos que ela n\u00e3o \u00e9 capaz?<\/p>\n<p>Em termos de Igreja isto \u00e0s vezes toma dimens\u00f5es mais graves e h\u00e1 aqui um tema, do acesso \u00e0 catequese e aos sacramentos, da pr\u00e1tica: as pessoas dizem que uma pessoa com defici\u00eancia n\u00e3o pode aceder aos sacramentos porque n\u00e3o consegue ter uma rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no documento final do S\u00ednodo, ali\u00e1s&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 grav\u00edssimo, n\u00e3o \u00e9? \u00c0s vezes n\u00f3s ouvimos e podemos ouvir \u00e0 nossa volta, \u201cah, coitadinha, ele n\u00e3o consegue\u201d. Estou a dizer que ele n\u00e3o consegue ter uma rela\u00e7\u00e3o com Deus e quem \u00e9 que sou eu para dizer isso? Ou ent\u00e3o digo uma coisa que ainda \u00e9 pior, \u201cah, coitadinho, ele \u00e9 um anjinho\u201d, ele n\u00e3o precisa de rela\u00e7\u00e3o com Deus. S\u00e3o duas afirma\u00e7\u00f5es que v\u00eam da sociedade, mais uma vez, v\u00eam da pr\u00e1tica, a Igreja n\u00e3o diz isto, mas que se refletem numa exclus\u00e3o que \u00e9 gritante e que n\u00f3s n\u00e3o podemos permitir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s falamos aqui sobretudo da inclus\u00e3o em contexto de Igreja, onde h\u00e1 muito o que fazer, como acabou de nos provar, mas a realidade, ao n\u00edvel da sociedade, \u00e9, por certo, ainda mais dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Na sociedade \u00e9 mais dif\u00edcil, porque implica um n\u00famero maior de pessoas. Quando pensamos, por exemplo, nos surdos e em Portugal, eles s\u00e3o muito pouco catequizados, porque n\u00e3o existem catequistas que saibam l\u00edngua gestual ou existem muito poucos. Portanto, a catequiza\u00e7\u00e3o dos surdos vem pela fam\u00edlia, n\u00e3o h\u00e1 outra maneira.<\/p>\n<p>Na sociedade em geral, temos um Estado que tenta regular e permitir os acessos e tem estruturas, at\u00e9, o Instituto Nacional de Reabilita\u00e7\u00e3o, todas as leis que s\u00e3o produzidas para a acessibilidade e que s\u00e3o boas. O Estado desempenha a\u00ed um papel, mas depois h\u00e1 aqui uma barreira que muitas vezes \u00e9 financeira, atrevo-me a dizer, porque \u00e9 sempre \u201cah, mas ent\u00e3o n\u00f3s n\u00e3o temos ningu\u00e9m, a rampa custa tanto dinheiro, vou constru\u00ed-la quando n\u00e3o tenho ningu\u00e9m em cadeira de rodas?\u201d. Mas eu n\u00e3o tenho ningu\u00e9m em cadeira de rodas porque a rampa n\u00e3o existe. Ou n\u00e3o contrato um int\u00e9rprete de l\u00edngua gestual porque n\u00e3o tenho nenhum surdo, e esse pensamento j\u00e1 o percorremos h\u00e1 muito tempo em termos mundiais: primeiro tem de haver condi\u00e7\u00f5es para depois as pessoas poderem l\u00e1 chegar, isso \u00e9 muito evidente. Em termos de sociedade, o padr\u00e3o mant\u00e9m-se, ali\u00e1s, o que se v\u00ea na Igreja, volto a dizer, \u00e9 um reflexo da sociedade, n\u00f3s convivemos com os dois mundos, na sociedade h\u00e1 mais gente, o problema \u00e9 maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Passamos agora tamb\u00e9m para algumas das responsabilidades como diretora-executiva da C\u00e1ritas de Lisboa. Sabemos que pobreza e defici\u00eancia est\u00e3o muitas vezes ligadas: como \u00e9 que esta rede de atendimento se adapta para conseguir identificar e apoiar pessoas que muitas vezes correm o risco de ficar vis\u00edveis?<\/em><\/p>\n<p>Na C\u00e1ritas de Lisboa, o tema principal \u00e9 apoiar a pobreza e a exclus\u00e3o social, sobretudo quando se esgotam os recursos da comunidade. N\u00f3s trabalhamos muito a partir do servi\u00e7o social, ou seja, encontrar a pessoa, escutar a pessoa, olhar para a vida dela e ajudar, ou tentar ajudar ao m\u00e1ximo a organizar-se. Muitas pessoas que nos chegam ainda n\u00e3o t\u00eam os apoios todos que lhes s\u00e3o devidos por lei. Portanto, h\u00e1 uma parte do trabalho que \u00e9 garantir que as pessoas t\u00eam os apoios aos quais t\u00eam direito. E depois a outra parte do trabalho \u00e9 olhar para a pessoa de uma forma integral e pensar: esta pessoa tem casa, n\u00e3o tem casa? Tem trabalho, n\u00e3o tem trabalho? Como \u00e9 o agregado familiar, quais \u00e9 que s\u00e3o as dificuldades, consegue alimentar-se como deve ser, o que \u00e9 que ela pode fazer para viver uma vida mais plena, como \u00e9 que ela ocupa o seu tempo? O tema do autocuidado, o tema da espiritualidade, s\u00e3o temas que ocupam o nosso atendimento.<\/p>\n<p>O nosso Estado preocupa-se com os mais pobres e tem muitos apoios, existem muitos apoios sociais para os mais pobres, que continuam a existir e a quem dar uma vida digna. Mas h\u00e1 uma faixa de pobreza muito grande at\u00e9 chegar a uma vida digna e n\u00f3s sabemos que temos muito pouco tempo para intervir quando uma pessoa, por algum azar, quando est\u00e1 a viver no limite, na corda bamba &#8211; h\u00e1 ali um tempo de interven\u00e7\u00e3o para recompor a vida, sen\u00e3o a pessoa entra num ciclo de pobreza e da\u00ed vai aumentando a pobreza, se quisermos, as condi\u00e7\u00f5es de pobreza e multiplicam-se as vulnerabilidades que existem. Come\u00e7am a expressar-se e a ganhar dimens\u00f5es de uma tal maneira que a pessoa perde o norte, at\u00e9 ao limite da dignidade.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o da dignidade come\u00e7a muito antes: quando tenho um trabalho, de repente n\u00e3o consigo pagar a renda da casa ou tenho de escolher se pago a renda da casa, se os meus filhos conseguem ir \u00e0 escola e estudar ou n\u00e3o conseguem fazer um tratamento m\u00e9dico, tomar uma medica\u00e7\u00e3o que precisam. Quando come\u00e7o a fazer estas escolhas, a dignidade est\u00e1 em jogo. A C\u00e1ritas sobretudo trabalha nesta linha, que \u00e9 impedir que a pessoa entre no ciclo de pobreza e \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil fazer este trabalho, porque o o tema da habita\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um tema grav\u00edssimo no nosso pa\u00eds, s\u00f3 tende a escalar. O que n\u00f3s esperamos de subida do custo de vida, seja por alimenta\u00e7\u00e3o, seja por desloca\u00e7\u00e3o, n\u00f3s prevemos que aqui nesta corda bamba o n\u00famero vai aumentar, n\u00e3o podemos esperar de outra maneira, esta instabilidade internacional leva-nos a isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es questionou recentemente a aposta do Estado em criar mais centros de instala\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria em detrimento da abertura de vias legais e seguras. Que leitura faz sobre a forma como Portugal est\u00e1 a gerir a chegada destas pessoas?<\/p>\n<p>A leitura que n\u00f3s fazemos em rela\u00e7\u00e3o a este tema \u00e9 que, de facto, houve aqui muitos anos em que a porta estava escancarada, sem apoio. Uma pessoa vir de uma situa\u00e7\u00e3o de guerra, ou vir de uma situa\u00e7\u00e3o mais fr\u00e1gil para Portugal e n\u00e3o ter apoio c\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 indigno e injusto. Portanto, n\u00f3s louvamos o esfor\u00e7o do governo em acelerar os processos na AIMA (Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo), em apoiar as pessoas a regularizarem-se, \u00e9 muito importante termos as pessoas com a situa\u00e7\u00e3o documentada e organizada. A sociedade n\u00e3o funcionar\u00e1 de outra maneira sem o m\u00ednimo de apoio e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s reconhecemos o esfor\u00e7o do governo neste sentido. Agora, h\u00e1 muito para fazer, mesmo muito para fazer, ainda h\u00e1 muitas pessoas que est\u00e3o \u00e0 espera de receber os seus documentos, h\u00e1 muitas pessoas que recebem as famosas notifica\u00e7\u00f5es de abandono e que ficam completamente perdidas sem saber o que fazer, porque j\u00e1 est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria c\u00e1, voltar n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se conseguem organizar. Em que situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que ficam? Reconhecendo o esfor\u00e7o que tem sido feito, sobretudo nos \u00faltimos dois anos, h\u00e1 aqui muito para fazer, n\u00e3o podemos simplesmente tornar-nos ativistas do \u201cv\u00e3o-se embora\u201d, n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o c\u00e1 e s\u00e3o \u00fateis, n\u00f3s vimos os estudos recentes que t\u00eam sido publicados, os migrantes em Portugal desempenham um papel important\u00edssimo, n\u00f3s precisamos das pessoas c\u00e1 e temos de as tratar bem, temos de dar-lhes as condi\u00e7\u00f5es para que nos possam ajudar a crescer como sociedade. N\u00f3s estamos habituados a ter uma sociedade muito de l\u00edngua portuguesa s\u00f3, de uma \u00fanica cultura, porque tamb\u00e9m foi a nossa hist\u00f3ria, foram as pessoas que se cruzaram connosco e que quiseram vir para c\u00e1; esta abertura ao mundo traz-nos uma riqueza que devemos valorizar, \u00e9 bom encontrar pessoas diferentes, que pensam de maneira diferente, que trabalham de maneira diferente, isso s\u00f3 nos ajuda a crescer, n\u00f3s temos de valorizar isto. N\u00e3o podemos entrar em discuss\u00f5es polarizadas, nem agressivas, n\u00e3o \u00e9 da nossa natureza sequer, diria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E neste contexto socioecon\u00f3mico t\u00e3o duro, como o da regi\u00e3o de Lisboa, marcado por uma crise profunda na habita\u00e7\u00e3o, da qual j\u00e1 falou, e de dificuldades no acesso \u00e0 sa\u00fade e ao trabalho, quais s\u00e3o os maiores obst\u00e1culos para que os imigrantes e as fam\u00edlias vulner\u00e1veis consigam passar da depend\u00eancia para uma verdadeira autonomia?<\/em><\/p>\n<p>As bases s\u00e3o sempre a habita\u00e7\u00e3o e o emprego, se bem que j\u00e1 ouvimos falar muito que existem cada vez mais pobres empregados, e \u00e9 verdade que existem. Garantir o emprego e a habita\u00e7\u00e3o s\u00e3o dois pilares muito importantes de princ\u00edpio de caminho, sem isso \u00e9 muito complicado uma fam\u00edlia se estruturar, uma pessoa sequer se estruturar, tem de ter um s\u00edtio para viver e tem de ter trabalho, para assim se poder alimentar e poder crescer e florescer e contribuir para a sociedade.<\/p>\n<p>Eu diria que s\u00e3o claramente os dois temas, n\u00f3s na C\u00e1ritas, se formos olhar para os \u00faltimos anos, eu diria 5 anos, pelo menos, a maior fatia do apoio \u00e9 em garantir que a pessoa mantenha a sua casa, a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 o tema que n\u00f3s tratamos mais, por isso estamos a fazer esfor\u00e7os acrescidos, porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pagar uma renda ou uma casa, mas onde \u00e9 que est\u00e1 essa casa, porque sabemos que h\u00e1 falta de casas, h\u00e1 patrim\u00f3nio para recuperar, h\u00e1 aqui muito trabalho a fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entramos hoje na Semana Santa. O ponto 5 dos objetivos do Observat\u00f3rio sobre a defici\u00eancia fala precisamente em &#8220;aprofundar a reflex\u00e3o sobre a Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o&#8221;. Que mensagem deixa para quem se prepara para viver estes dias em contextos de maior dificuldade?<\/em><\/p>\n<p>Uma vez ouvi um amigo, um grande amigo meu, usar uma express\u00e3o: \u201cDeus \u00e9 o mendigo do nosso amor\u201d. \u00c9 uma express\u00e3o que me acompanha muitas, muitas vezes, Deus mendiga o nosso amor. Eu gostava muito que n\u00f3s, sobretudo com a alegria da P\u00e1scoa que est\u00e1 quase a chegar, nos lembr\u00e1ssemos disso e que pud\u00e9ssemos corresponder a esse amor de Deus por n\u00f3s, independentemente da condi\u00e7\u00e3o em que me encontro. \u00c9 o princ\u00edpio da dignidade infinita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretora do Servi\u00e7o da Pastoral a Pessoas com Defici\u00eancia da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, tem um percurso marcado pela inclus\u00e3o. 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