{"id":416623,"date":"2026-03-20T09:41:36","date_gmt":"2026-03-20T09:41:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=416623"},"modified":"2026-03-19T17:43:44","modified_gmt":"2026-03-19T17:43:44","slug":"o-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-suicidio\/","title":{"rendered":"O Suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>O suic\u00eddio est\u00e1 na ordem do dia. Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, est\u00e3o a acontecer oitocentos mil suic\u00eddios por ano em todo o mundo. Morrem mais pessoas por suic\u00eddio do que por sida, mal\u00e1ria, cancro da mama, na guerra ou homic\u00eddio. Em Portugal, por dia, estima-se que tr\u00eas pessoas tiram a vida, em m\u00e9dia. A maior incid\u00eancia acontece nos homens com mais de 65 anos, mais no interior e sul do pa\u00eds (dados recolhidos no podcast Da Pra\u00e7a de Pedro, de 13 de novembro de 2025). O suic\u00eddio \u00e9 a segunda principal causa de morte entre jovens (15-19 anos) na Uni\u00e3o Europeia. Nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, no ano de 2022, cinquenta mil americanos puseram fim \u00e0 sua vida. Muitos eram adolescentes e jovens. Nos \u00faltimos anos a taxa tem diminu\u00eddo, mas a incid\u00eancia continua a ser preocupante.<\/p>\n<p>Est\u00e1 a acontecer tamb\u00e9m entre o clero da Igreja cat\u00f3lica. Neste ano de 2026, j\u00e1 s\u00e3o conhecidos, pelo menos, cinco casos de sacerdotes que puseram fim \u00e0 sua vida. Todos conhecemos um caso ou casos bem perto de n\u00f3s, pessoas que exibiam rostos alegres e vidas, aparentemente, felizes e realizadas, mas que por baixo da epiderme se debatiam com um grande drama e luta pessoal, debatiam-se pela sobreviv\u00eancia, num grande sofrimento, ang\u00fastia, falta de sentido e vazio existencial.<\/p>\n<p>N\u00e3o vamos cair em avalia\u00e7\u00f5es e julgamentos f\u00e1ceis, nem acusar de forma leviana, ou apontar causas que poder\u00e3o ser \u00f3bvias, mas poder\u00e3o ser falaciosas e injustas. As causas do suic\u00eddio s\u00e3o complexas. E cada caso \u00e9 um caso. Todos concordamos que temos de fazer mais, institui\u00e7\u00f5es, fam\u00edlias e sociedade, na preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. Algumas pistas s\u00e3o inevit\u00e1veis. \u00c9 preciso prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental. As pessoas est\u00e3o a revelar mais fragilidade, instabilidade e vulnerabilidade neste campo. A falta de sa\u00fade mental est\u00e1 na origem de grande n\u00famero de suic\u00eddios. E no caso dos padres, um padre n\u00e3o \u00e9 uma fortaleza eterna no campo da sa\u00fade mental. Depois \u00e9 preciso respeitar mais a fam\u00edlia e o tempo que a fam\u00edlia precisa para ser fam\u00edlia. Neste mundo da pressa e sem tempo, a fam\u00edlia convive pouco e mal, h\u00e1 pouco tempo para a escuta, nem sempre os pais, dispersos e sobrecarregados de trabalho, prestam a devida aten\u00e7\u00e3o aos filhos, que facilmente podem cair nas armadilhas que podem levar ao suic\u00eddio. Por fim, temos de repensar alguns valores que se promovem na cultura atual: o narcisismo doentio que s\u00f3 vive de exibicionismo e aprova\u00e7\u00e3o a toda a hora e que n\u00e3o sabe viver com a rejei\u00e7\u00e3o e a insignific\u00e2ncia; o individualismo exacerbado, que mergulha na solid\u00e3o pouco saud\u00e1vel; o isolamento e a indiferen\u00e7a entre as pessoas; o materialismo e o hedonismo reinantes, que arrastam para a insatisfa\u00e7\u00e3o e o vazio existencial; a falta de rela\u00e7\u00f5es sociais de qualidade; inexist\u00eancia de\u00a0 projetos de vida s\u00f3lidos, humanizantes e realizadores, para al\u00e9m do imediato e \u00fatil da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, era noticiado que um em cada cinco portugueses vive com sofrimento psicol\u00f3gico. 23 % sofrem de doen\u00e7as mentais, sobretudo perturba\u00e7\u00f5es depressivas e ansiedade, a mais alta da Europa. Aumentou o consumo de antidepressivos e de tranquilizantes, assim como do \u00e1lcool, sobretudo da parte das mulheres, dos idosos e das pessoas com menos escolaridade. Uma boa parte do Portugal profundo vive com sofrimento ps\u00edquico, num turbilh\u00e3o de tristeza, nervosismo, insatisfa\u00e7\u00e3o e desespero.<\/p>\n<p>Como padre, preocupa-me, certamente o que se est\u00e1 a passar com os padres. Como seres humanos que s\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o imunes nem t\u00eam um escudo que os livre das fragilidades da condi\u00e7\u00e3o humana. O Sacramento da Ordem n\u00e3o \u00e9 um antiv\u00edrus contra as maleitas do comum dos mortais, mas muitos crist\u00e3os pensam que sim. O padre n\u00e3o \u00e9 um super-homem. Penso que \u00e9 preciso rever e refletir seriamente o que a Igreja quer do padre e como se pode ser padre para os tempos atuais. Persistimos no modelo pastoral que prevaleceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mas que se est\u00e1 a revelar desajustado e anacr\u00f3nico para o n\u00famero de padres que temos atualmente. S\u00e3o muitos os padres que manifestam exaust\u00e3o ministerial, face ao n\u00famero de par\u00f3quias que t\u00eam a seu cargo. O minist\u00e9rio sacerdotal est\u00e1 a perder algum do seu encanto. O padre, adsorvido numa grande dispers\u00e3o e com responsabilidades de v\u00e1ria ordem, algumas alheias ao minist\u00e9rio, est\u00e1 a tornar-se mais um prestador de servi\u00e7os ou um funcion\u00e1rio do sagrado e do social, sem tempo para dar densidade e profundidade ao seu minist\u00e9rio. Muitos enfrentam grandes horas de solid\u00e3o, com grande indiferen\u00e7a das comunidades, que s\u00f3 querem saber que o padre esteja no lugar e na hora que est\u00e1 marcada, quando lhes interessa e conv\u00e9m. Se o padre \u00e9 correto, rigoroso e exigente, \u00e9, muitas vezes, submetido ao linchamento p\u00fablico e atacado com cr\u00edticas e vitup\u00e9rios vindos de todo o lado, por vezes escarnecido e at\u00e9 dado ao desprezo. Em vez de sentir acolhimento, apoio e colabora\u00e7\u00e3o, o padre, em certos momentos, sente que faz o seu trabalho pastoral sob o olhar da indiferen\u00e7a e da cr\u00edtica f\u00e1cil e trocista de um bom n\u00famero de crist\u00e3os, e por vezes at\u00e9 enfrenta uma resist\u00eancia que lhe mina todo o trabalho e a\u00e7\u00e3o pastoral. Toda a sua vida \u00e9 constantemente escrutinada, comentada e avaliada, e n\u00e3o raras vezes maquilhada com boatos e mentiras sem qualquer fundamento. Para al\u00e9m desta embirrante press\u00e3o social, hoje o padre tamb\u00e9m se v\u00ea vergado \u00e0 press\u00e3o pastoral da efici\u00eancia, do rendimento e do ativismo, que infelizmente anda a tomar conta da Igreja. Padre que n\u00e3o mostre dinamismo, nem que seja esse dinamismo vertiginoso e tonto que por a\u00ed anda, padre que n\u00e3o mostre frenesim pastoral e mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es pastorais de encher o olho, facilmente \u00e9 rotulado de indolente, um imobilista ou conservador, um \u201cantiquado\u201d, um padre desinteressado dos paroquianos e da Igreja. Se n\u00e3o apresenta resultados vistosos, \u00e9 um inepto e um incompetente.<\/p>\n<p>O padre sabe que o seu minist\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Tamb\u00e9m tem de ter alguma fibra e coragem. Como homem, tamb\u00e9m tem as suas car\u00eancias, fragilidades, descompensa\u00e7\u00f5es e erros. Todos os dramas humanos t\u00eam a sua cota parte de culpa pessoal. Mas cobra-se demasiado ao padre. N\u00e3o faz sentido muita da press\u00e3o a que o padre est\u00e1 sujeito, n\u00e3o faz sentido tanta falta de respeito pela humanidade do padre dentro da Igreja, n\u00e3o faz sentido muitas das exig\u00eancias que hoje se imp\u00f5em ao padre, tornando-se o sacerd\u00f3cio um fardo pesado e um minist\u00e9rio pouco realizador e gozoso. Da\u00ed que aconte\u00e7a o abandono e por vezes para alguns n\u00e3o reste outra sa\u00edda que o precip\u00edcio do suic\u00eddio. Imp\u00f5e-se \u00e0 Igreja uma grande aten\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-416623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=416623"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416623\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=416623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=416623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=416623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}