{"id":416268,"date":"2026-03-17T12:10:25","date_gmt":"2026-03-17T12:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=416268"},"modified":"2026-03-17T12:10:39","modified_gmt":"2026-03-17T12:10:39","slug":"manter-tudo-ou-voltar-a-missao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/manter-tudo-ou-voltar-a-missao\/","title":{"rendered":"Manter tudo\u2026 ou voltar \u00e0 miss\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Padre Hugo Gon\u00e7alves, Diocese de Beja<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-266299 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>H\u00e1 uma pergunta que paira, silenciosa, sobre muitas comunidades crist\u00e3s do nosso pa\u00eds: porque \u00e9 que falamos tanto de renova\u00e7\u00e3o da Igreja e, na pr\u00e1tica, mudamos t\u00e3o pouco? Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas repetiu-se, em documentos, encontros pastorais e assembleias sinodais, a ideia de que os leigos t\u00eam uma palavra a dizer e um papel insubstitu\u00edvel na vida da Igreja. Afirmou-se vezes sem conta que a miss\u00e3o n\u00e3o pertence apenas aos padres, que toda a comunidade \u00e9 chamada a evangelizar. No entanto, quando chega a hora de concretizar estas palavras, a realidade mostra frequentemente outra coisa.<\/p>\n<p>Em muitas par\u00f3quias continua a existir um certo imobilismo, quase uma resist\u00eancia silenciosa \u00e0 mudan\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 uma recusa declarada; \u00e9 antes uma in\u00e9rcia que se instala e que vai adiando, indefinidamente, qualquer transforma\u00e7\u00e3o mais profunda. Fala-se da import\u00e2ncia dos leigos, mas quando \u00e9 preciso assumir responsabilidades, quando se pede disponibilidade para participar na vida da comunidade ou para pensar novos caminhos pastorais, surgem quase sempre as mesmas respostas: falta de tempo, compromissos familiares, trabalho, outras ocupa\u00e7\u00f5es. Muitos querem uma Igreja viva, mas poucos est\u00e3o realmente dispostos a dedicar parte da sua vida para que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m entre o clero se sente o peso de estruturas e rotinas que parecem dif\u00edceis de ultrapassar. Os padres s\u00e3o cada vez menos e as exig\u00eancias administrativas multiplicam-se. Entre reuni\u00f5es, pap\u00e9is, gest\u00e3o de patrim\u00f3nio e organiza\u00e7\u00e3o de celebra\u00e7\u00f5es, o tempo escasseia para aquilo que deveria ser o essencial: estar com as pessoas, escut\u00e1-las, acompanh\u00e1-las, ir ao encontro de quem se afastou. Muitas vezes o minist\u00e9rio sacerdotal corre o risco de ficar confinado a um percurso curto e repetido: de casa para a igreja, da igreja para o cart\u00f3rio paroquial, do cart\u00f3rio para outra reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, a realidade \u00e0 nossa volta mudou profundamente. As cidades e as vilas n\u00e3o s\u00e3o hoje o que eram h\u00e1 cinquenta anos. As fam\u00edlias vivem ritmos diferentes, as novas gera\u00e7\u00f5es cresceram num contexto cultural muito mais plural e distante da linguagem religiosa tradicional. Evangelizar neste contexto exige proximidade, criatividade, capacidade de sair dos espa\u00e7os habituais e ir onde as pessoas realmente est\u00e3o. Exige ir aos are\u00f3pagos do nosso tempo \u2014 aos locais de trabalho, aos ambientes culturais, aos caf\u00e9s, \u00e0 academia, \u00e0s pra\u00e7as digitais onde hoje se constr\u00f3i grande parte da vida social.<\/p>\n<p>Mas muitas comunidades continuam presas a um modelo pastoral que pertence claramente a outra \u00e9poca. Tudo parece concentrar-se na manuten\u00e7\u00e3o do que sempre existiu: hor\u00e1rios de Missas, festas religiosas, algumas pr\u00e1ticas de piedade que, embora valiosas, n\u00e3o chegam para responder aos desafios actuais. A liturgia \u00e9, sem d\u00favida, o cora\u00e7\u00e3o da vida crist\u00e3. A Eucaristia \u00e9 fonte e cume da vida da Igreja. Contudo, quando a vida pastoral se reduz quase exclusivamente \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de celebra\u00e7\u00f5es, corre-se o risco de esquecer que a miss\u00e3o da Igreja come\u00e7a precisamente quando a Missa termina e os fi\u00e9is regressam \u00e0 vida quotidiana.<\/p>\n<p>Numa cidade pequena como Beja, por exemplo, esta realidade torna-se particularmente vis\u00edvel. Multiplicam-se as celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas semanais, algumas com pouco mais de uma d\u00fazia de pessoas. Cada grupo quer a sua Missa, \u00e0 sua hora, na sua \u2018capela\u2019, no seu espa\u00e7o habitual. H\u00e1 quem se sinta profundamente ligado a essas tradi\u00e7\u00f5es, e isso \u00e9 compreens\u00edvel. Mas raramente se questiona se este modelo continua a ser o mais adequado para a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja hoje. Enquanto se mant\u00eam agendas cheias de celebra\u00e7\u00f5es com comunidades muito reduzidas, sobra pouco tempo para o contacto pessoal com tantos homens e mulheres que h\u00e1 muito deixaram de frequentar a Igreja.<\/p>\n<p>S\u00e3o as \u201covelhas fora do redil\u201d de que fala o Evangelho. Pessoas baptizadas que perderam o v\u00ednculo com a comunidade, jovens que nunca chegaram verdadeiramente a encontrar um lugar na Igreja, fam\u00edlias que vivem \u00e0 margem da vida paroquial. Procur\u00e1-los exige tempo, disponibilidade e uma verdadeira mudan\u00e7a de mentalidade. Exige que algu\u00e9m percorra as ruas, bata \u00e0s portas, esteja presente na vida concreta das pessoas. Foi assim que Jesus viveu a sua miss\u00e3o. Percorreu a Galil\u00e9ia, passou pela Samaria, subiu a Jerusal\u00e9m. Encontrou-se com pescadores, cobradores de impostos, doentes, pecadores, estrangeiros. N\u00e3o ficou \u00e0 espera que viessem ter com Ele.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 raro que a vida pastoral se concentre sobretudo naqueles que j\u00e1 est\u00e3o dentro. A comunidade organiza-se para servir quem j\u00e1 participa, mas raramente consegue dar passos consistentes para alcan\u00e7ar quem est\u00e1 fora. E quando algu\u00e9m tenta propor mudan\u00e7as, reorganizar hor\u00e1rios, apostar em novas formas de presen\u00e7a pastoral, surgem frequentemente resist\u00eancias inesperadas.<\/p>\n<p>Curiosamente, muitas dessas resist\u00eancias v\u00eam precisamente dos leigos. Aqueles que, por um lado, reconhecem que a Igreja precisa de renova\u00e7\u00e3o, por outro mostram dificuldade em aceitar qualquer altera\u00e7\u00e3o concreta. Talvez seja, em parte, uma caracter\u00edstica do nosso povo: uma certa prud\u00eancia perante a mudan\u00e7a, um apego forte ao que sempre foi feito da mesma maneira. Como os c\u00e9lebres \u201cvelhos do Restelo\u201d da nossa tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, h\u00e1 quem olhe para qualquer novidade com desconfian\u00e7a, mesmo quando reconhece que a situa\u00e7\u00e3o actual n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim se cria um c\u00edrculo dif\u00edcil de quebrar. Os padres, sobrecarregados com m\u00faltiplas tarefas, continuam a manter uma estrutura pastoral que consome grande parte do seu tempo. Os leigos, por sua vez, permanecem muitas vezes num papel passivo, esperando que tudo continue a funcionar como sempre funcionou. Falta iniciativa, falta criatividade pastoral, falta ousadia evangelizadora.<\/p>\n<p>Entretanto, o mundo continua a mudar a um ritmo acelerado. Novas gera\u00e7\u00f5es crescem sem refer\u00eancias crist\u00e3s significativas. Muitos dos nossos contempor\u00e2neos nunca ouviram verdadeiramente o an\u00fancio do Evangelho de forma que fa\u00e7a sentido para a sua vida. E a Igreja, que deveria ser sinal de esperan\u00e7a no meio deste mundo, corre o risco de se fechar em si pr\u00f3pria, preocupada sobretudo em conservar o que resta de um passado mais religioso.<\/p>\n<p>Talvez tenha chegado o momento de reconhecer, com humildade, que n\u00e3o basta repetir discursos sobre a import\u00e2ncia dos leigos ou sobre a necessidade de uma Igreja em sa\u00edda. \u00c9 preciso que essas palavras se tornem realidade concreta nas nossas par\u00f3quias e comunidades. Isso implica que os leigos assumam verdadeiramente a sua voca\u00e7\u00e3o baptismal, participando activamente na vida e na miss\u00e3o da Igreja. Implica tamb\u00e9m que os padres encontrem formas de libertar tempo e energia para aquilo que \u00e9 essencial: estar com as pessoas, acompanhar as suas vidas, anunciar o Evangelho nas encruzilhadas do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Nada disto ser\u00e1 poss\u00edvel sem uma mudan\u00e7a de mentalidade, sem a coragem de rever pr\u00e1ticas e estruturas que j\u00e1 n\u00e3o servem plenamente a miss\u00e3o. A fidelidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da Igreja nunca significou imobilismo. Pelo contr\u00e1rio, a hist\u00f3ria do cristianismo mostra uma capacidade constante de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades de cada tempo, mantendo intacto o essencial da f\u00e9 enquanto se renovam as formas de a viver e anunciar.<\/p>\n<p>Talvez seja esta a grande pergunta que hoje se coloca \u00e0s nossas comunidades. N\u00e3o apenas aos padres, n\u00e3o apenas aos leigos, mas a todos. Que Igreja queremos ser? Uma Igreja preocupada sobretudo em manter aquilo que sempre existiu, mesmo que cada vez com menos pessoas? Ou uma Igreja que se arrisca a sair, a procurar, a experimentar novos caminhos para levar o Evangelho a quem j\u00e1 n\u00e3o se sente parte dela?<\/p>\n<p>No fundo, trata-se de decidir que Igreja queremos construir. Uma Igreja fechada nas suas rotinas ou uma Igreja capaz de percorrer novamente as estradas da Galil\u00e9ia dos nossos dias. Uma Igreja satisfeita com o pouco que resta ou uma Igreja que acredita, verdadeiramente, que ainda vale a pena ir procurar as ovelhas perdidas.<\/p>\n<p>Pe. Hugo Gon\u00e7alves<br \/>\nDiocese de Beja<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Hugo Gon\u00e7alves, Diocese de Beja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":266299,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-416268","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=416268"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416268\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=416268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=416268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=416268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}