{"id":415931,"date":"2026-03-14T08:59:32","date_gmt":"2026-03-14T08:59:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=415931"},"modified":"2026-03-14T08:59:32","modified_gmt":"2026-03-14T08:59:32","slug":"a-fe-e-as-emocoes-uma-reflexao-necessaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-fe-e-as-emocoes-uma-reflexao-necessaria\/","title":{"rendered":"A f\u00e9 e as emo\u00e7\u00f5es: uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Ricardo Figueiredo, Diocese de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_397532\" aria-describedby=\"caption-attachment-397532\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-397532\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ricardo-figueiredo.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-397532\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00abO an\u00fancio de Cristo n\u00e3o procura diretamente provocar sentimentos, mas testemunhar um acontecimento que transformou a hist\u00f3ria e \u00e9 capaz de transformar a exist\u00eancia de todo o ser humano, ocupando o centro da sua vida\u00bb (n. 4), \u00e9 assim que a Comiss\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 da Confer\u00eancia Episcopal Espanhola define de forma certeira o objetivo da miss\u00e3o evangelizadora da Igreja, num recente documento, intitulado: <em>Cor ad cor loquitur<\/em>, uma nota doutrinal sobre o papel das emo\u00e7\u00f5es no ato de f\u00e9<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. \u00c9 um tema atual e a referida nota doutrinal dos Bispos espanh\u00f3is mostra bem a sua pertin\u00eancia para os nossos dias.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o parte de um olhar s\u00f3brio e rigoroso para as linhas gerais que definem o homem contempor\u00e2neo. Com efeito, a premente tend\u00eancia emotiva para analisar-se a si pr\u00f3prio, os outros e o mundo \u00e0 sua volta, conduz a uma fragmenta\u00e7\u00e3o do ser humano, como se refere na Nota: \u00abO homem \u201cemotivista\u201d experimenta-se fragmentado, porque as emo\u00e7\u00f5es, por si mesmas, s\u00e3o inconexas e n\u00e3o lhe podem oferecer uma vis\u00e3o hol\u00edstica da realidade\u00bb (n. 8). Continua mais \u00e0 frente: \u00abAplicado \u00e0 vida espiritual, o \u201cemotivista religioso\u201d faz depender a f\u00e9 da intensidade da emo\u00e7\u00e3o, reduzindo-a \u00e0 medida do sentimento e ao grau de prazer que possa proporcionar, o que se refor\u00e7a quando se trata de experi\u00eancias partilhadas\u00bb (n. 8). N\u00e3o se trata de recusar ou apagar os aspetos emotivos, mas de \u00abencontrar um equil\u00edbrio, dentro da vida espiritual, entre os aspetos intelectivos, volitivos e sentimentais\u00bb (n. 9). Ali\u00e1s, o documento oferece uma exposi\u00e7\u00e3o profunda sobre a import\u00e2ncia dos sentimentos para a vida espiritual (cf. n. 11-15). Fazendo jus ao t\u00edtulo dado \u00e0 Nota, uma exposi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e magisterial apresenta a import\u00e2ncia da categoria do \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb como chave para oferecer uma s\u00edntese da totalidade do ser humano (cf. n. 16-20).<\/p>\n<p>Os sentimentos, as emo\u00e7\u00f5es e os afetos n\u00e3o s\u00e3o realidades negativas. A reflex\u00e3o dos Bispos espanh\u00f3is aponta para uma antropologia integral e uma vis\u00e3o do ser humano em que todos os aspetos se unem. \u00c9 neste sentido que este documento mostra toda a sua pertin\u00eancia: numa sociedade fragmentada, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista pol\u00edtico, mas sobretudo do ponto de vista do entendimento do ser humano de si pr\u00f3prio, \u00e9 necess\u00e1rio convidar a lan\u00e7ar um olhar que seja pleno, integral, completo. Na sua mensagem para a Quaresma de 2026, o Patriarca de Lisboa chamava a aten\u00e7\u00e3o para o analfabetismo humano e espiritual do nosso tempo. Escrevia D. Rui Val\u00e9rio: \u00abEste analfabetismo n\u00e3o \u00e9 apenas psicol\u00f3gico ou cultural; \u00e9 espiritual. \u00c9 a perda da linguagem da interioridade, da escuta e da consci\u00eancia diante de Deus. Quando deixamos de saber ler o cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m deixamos de saber ler a vida\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio recuperar a alfabetiza\u00e7\u00e3o e a literacia que permite o ser humano compreender-se. Ora, o Conc\u00edlio Vaticano II indicou de forma clara a \u00abchave\u00bb que destranca o mist\u00e9rio do ser humano: \u00abCristo, novo Ad\u00e3o, na pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua voca\u00e7\u00e3o sublime\u00bb (<em>Gaudium et Spes<\/em>, n. 22).<\/p>\n<p>A Nota da Comiss\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 dos Bispos de Espanha elenca, de seguida, os crit\u00e9rios teol\u00f3gico-espirituais para o discernimento das experi\u00eancias pastorais de evangeliza\u00e7\u00e3o, que crescem de forma decisiva, n\u00e3o s\u00f3 em Espanha, mas tamb\u00e9m em Portugal, raz\u00e3o pela qual me parece muito pertinente a reflex\u00e3o deste documento. Elenco os crit\u00e9rios, com breves cita\u00e7\u00f5es que indicam o caminho do discernimento que se deve fazer.<\/p>\n<ol>\n<li>A Sant\u00edssima Trindade: est\u00e1 no centro e em toda a extens\u00e3o da experi\u00eancia crist\u00e3. Por isso, \u00ab\u00c9 importante que a ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o perca a sua identidade trinit\u00e1ria, e que o primeiro an\u00fancio, bem como os processos de discipulado, apresentem Jesus Cristo, a quem conhecemos pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, que nos revela o rosto do Pai\u00bb (n. 23).<\/li>\n<li>Unidade do ser humano: a f\u00e9 n\u00e3o diz respeito apenas a uma dimens\u00e3o isolada da pessoa, mas ao todo e a cada parte da vida humana. Deste modo, \u00aba f\u00e9, certamente, n\u00e3o se reduz ao assentimento te\u00f3rico a determinados dogmas, mas \u00e9 um ato pelo qual toda a pessoa se entrega livremente a Deus, que Se nos revela e Se nos entrega em Cristo\u00bb (n. 24).<\/li>\n<li>Necessidade de forma\u00e7\u00e3o: o ato de f\u00e9, na medida em que implica todas as dimens\u00f5es do ser humano, necessita n\u00e3o s\u00f3 da dimens\u00e3o subjetiva, mas tamb\u00e9m da dimens\u00e3o objetiva que se consubstancia na profiss\u00e3o de f\u00e9. Assim sendo, \u00abn\u00e3o h\u00e1 encontro com Cristo quando se considera apenas o aspeto subjetivo, sem aprofundar o conte\u00fado da f\u00e9 e a doutrina. A forma\u00e7\u00e3o \u00e9 o meio primordial que permite integrar a verdade no amor. Se o ato de f\u00e9, enquanto ades\u00e3o pessoal a Cristo, perde a sua profunda unidade com a verdade salvadora que Ele nos trouxe, transforma-se num ato vazio e cego\u00bb (n. 27).<\/li>\n<li>A f\u00e9 acontece sempre em Igreja: numa sociedade cada vez mais individualista, o documento chama a aten\u00e7\u00e3o para o facto de a f\u00e9 crist\u00e3 ser sempre eclesial, ou seja, nunca acontece de forma isolada: \u00abN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma experi\u00eancia nem um conhecimento de Deus de modo direto e individualista. Ningu\u00e9m se fez crist\u00e3o a si mesmo, nem \u00e9 crente por si s\u00f3. Cremos porque algu\u00e9m nos falou do Senhor e nos transmitiu a f\u00e9 da Igreja no \u00e2mbito da fam\u00edlia, de uma par\u00f3quia, de um grupo ou de um movimento eclesial. A pr\u00f3pria profiss\u00e3o de f\u00e9 \u00e9 um ato simultaneamente pessoal e eclesial, de modo que, quando o crist\u00e3o diz \u201ccreio\u201d, ao mesmo tempo diz \u201ccremos\u201d\u00bb (n. 29).<\/li>\n<li>O servi\u00e7o aos outros como crit\u00e9rio decisivo: a f\u00e9 crist\u00e3 tem sempre consequ\u00eancias na forma de viver. Jesus colocou no centro do julgamento a que ser\u00e3o sujeitos os seus disc\u00edpulos a capacidade de O encontrar nos mais pobres e fr\u00e1geis (cf. <em>Mt<\/em> 25, 31-46). Por isso, \u00aba f\u00e9 n\u00e3o pode ficar reduzida a uma experi\u00eancia meramente emocional, mas traduz-se na caridade para com os mais pobres, no testemunho e no servi\u00e7o que transfiguram o mundo, tornando nele presentes os valores do Reino\u00bb (n. 33).<\/li>\n<li>Viv\u00eancia lit\u00fargica: a liturgia \u00e9 um dos pilares sobre os quais assenta a vida crist\u00e3, por isso, as celebra\u00e7\u00f5es devem ser vividas como momentos eclesiais, de celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Cristo. Numa liturgia, a pessoa ou um grupo n\u00e3o se celebram a si pr\u00f3prios, mas a presen\u00e7a de Cristo e, assim, de todo o Corpo do Senhor. \u00c9 neste sentido que o documento indica: \u00abAs iniciativas de evangeliza\u00e7\u00e3o devem cuidar de n\u00e3o fomentar uma ora\u00e7\u00e3o \u201cespiritualista\u201d desencarnada ou celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas intimistas e sensacionalistas. Corre-se o perigo de reduzir a liturgia a um mero \u201cdevocionalismo\u201d que potencia o subjetivismo sentimental em detrimento do que \u00e9 comunit\u00e1rio, objetivo e sacramental\u00bb (n. 36).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Este documento n\u00e3o pretende levantar suspeitas sobre as experi\u00eancias pastorais e de evangeliza\u00e7\u00e3o que est\u00e3o a acontecer. Pretende, pelo contr\u00e1rio, ajudar a fazer caminho s\u00e9rio e verdadeiro de f\u00e9. \u00c9 neste sentido que me parece uma reflex\u00e3o central: ajuda pastores e fi\u00e9is a fazerem exame de consci\u00eancia sobre as prioridades da evangeliza\u00e7\u00e3o e a redescobrir que a grande miss\u00e3o que temos diante de cada um de n\u00f3s \u00e9, sempre, ser instrumentos de Cristo vivo para a humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Acess\u00edvel aqui: <a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.es\/nota-doctrinal-papel-emociones-fe\/\">https:\/\/www.conferenciaepiscopal.es\/nota-doctrinal-papel-emociones-fe\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Ricardo Figueiredo, Diocese de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":397532,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-415931","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=415931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415931\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/397532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=415931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=415931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=415931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}