{"id":415773,"date":"2026-03-12T23:03:09","date_gmt":"2026-03-12T23:03:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=415773"},"modified":"2026-03-12T23:03:09","modified_gmt":"2026-03-12T23:03:09","slug":"abissus-abissum-invocat-um-abismo-chama-outro-abismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abissus-abissum-invocat-um-abismo-chama-outro-abismo\/","title":{"rendered":"\u00abAbissus abissum invocat\u00bb &#8211; \u00abUm abismo chama outro abismo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>\u00c9 um bel\u00edssimo poema aquele salmo e, talvez, um dos mais cantados nas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas das nossas igrejas no momento da comunh\u00e3o: \u00ab<em>Como o veado anseia p\u2019las \u00e1guas vivas, assim minh\u2019alma anseia por V\u00f3s, Senhor<\/em>\u00bb. Muitos saber\u00e3o entoar a solo este refr\u00e3o musicado pelo falecido P. Manuel Lu\u00eds [1926-1981]. \u00c9 o primeiro vers\u00edculo do salmo quarenta e um, adaptado a refr\u00e3o nesta composi\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o constando na pauta musical a que tive acesso, \u00e9 nesse salmo que encontramos o vers\u00edculo que encima esta cr\u00f3nica. Reza assim, conforme a tradu\u00e7\u00e3o da Difusora B\u00edblica: \u00ab<em>O abismo chama outro abismo no fragor das Vossas cataratas. Todas as vossas vagas e torrentes passaram sobre mim<\/em>.\u00bb Ou, conforme o Salt\u00e9rio editado pelo Secretariado Nacional da Liturgia: \u00ab<em>Abismo atrai abismo no fragor das \u00e1guas revoltas<\/em>; <em>vossas torrentes e vagas passaram sobre mim<\/em>.\u00bb \u00a0\u00c9 o vers\u00edculo oitavo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro nem quando nem em que circunst\u00e2ncias terei ouvido, ou lido, pela primeira vez este vers\u00edculo. Sei que, mesmo na formula\u00e7\u00e3o latina, \u00ab<em>Abissus abissum invocat<\/em>\u00bb, fui-o fixando muito cedo, naquela altura em que o meu professor de Portugu\u00eas nos aconselhava a consultar as p\u00e1ginas de frases latinas que apareciam como anexo no Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa ent\u00e3o em uso. O jovem professor geralmente explicava o sentido das express\u00f5es e, no caso vertente, ia comentando que o que dizia a frase latina correspondia a muito do que acontecia na vida humana. Talvez por isso, at\u00e9 a descobrir mais tarde integrada no cantar e rezar do salmista, a frase latina ficou-me bem gravada na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sei agora que aquele salmo \u00e9 o lamento profundo de um exilado que, com saudade dos tempos passados no templo do Senhor, confia com esperan\u00e7a e fidelidade poder contemplar a face de Deus e satisfazer a sede como o veado que corre ansioso a satisfazer-se nas correntes das \u00e1guas. Tema recorrente, ali\u00e1s, na literatura cl\u00e1ssica, revestida de lirismo b\u00edblico ou de um platonismo sempre presente. Mas limitemo-nos ao aforismo \u00ab<em>Abissus abissum invocat<\/em>\u00bb, segundo o qual um abismo chama ou atrai outro abismo.<\/p>\n<p>Independentemente do que os exegetas b\u00edblicos digam ou possam dizer analisando o salmo, coadjuvados ou n\u00e3o pelas palavras dos profetas Ezequiel [\u00abDesencadear-se-\u00e3o trag\u00e9dias sobre trag\u00e9dias\u00bb \u2013 7.27] e Jeremias [\u00abUm golpe chama outro golpe.\u00bb &#8211; 4.20], aquele dizer do salmo foi sendo assumido no uso corrente na descri\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es do quotidiano viver para traduzir a ideia de que, uma vez entrados num atoleiro moral ou emocional, se poder\u00e1 cair cada vez mais fundo de onde dificilmente se poder\u00e1 sair. Assim, um erro provoca outro erro, tal como uma mentira, para ser sustentada, provoca novas mentiras. Uma asneira puxa por outra asneira, e uma pequena falta propicia faltas maiores, tal como um pequeno crime poder\u00e1 ser a raiz de crimes mais graves.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Abissus abissum invocat<\/em>.\u00bb N\u00e3o faltar\u00e3o exemplos que possam confirmar a verdade do salmo na nossa hist\u00f3ria recente ou na Hist\u00f3ria da Humanidade. \u00c9 o conhecido \u00abefeito domin\u00f3\u00bb em que cada pe\u00e7a arrasta outra at\u00e9 ao final da s\u00e9rie ou da \u00abladeira escorregadia\u00bb onde, uma vez entrados, se ganha cada vez maior velocidade e da qual dificilmente se sai a n\u00e3o ser quando se chega a um fundo insuper\u00e1vel indesejado. S\u00e3o Bernardino de Sena [1380-1444], no quadro do seu pensamento econ\u00f3mico em que se notabilizou, lembra que o abismo insaci\u00e1vel dos gastos desmedidos traz em si o abismo insaci\u00e1vel dos lucros il\u00edcitos.<\/p>\n<p>A verdade traduzida pelo salmista possui significativa express\u00e3o no quadro das ci\u00eancias humanas e das artes, da Psicologia e da Filosofia, da Literatura e do Cinema. \u00c9 bem conhecido o aforismo do fil\u00f3sofo da cultura, Friedrich Nietzsche [1844-1900], que, na sua obra <strong>&#8220;<\/strong>Para Al\u00e9m do Bem e do Mal<strong>&#8220;<\/strong>, publicada em 1886, assim escreveu no aforismo 146: \u00ab<em>Quem luta com monstros deve velar por que, ao faz\u00ea-lo, se n\u00e3o transforme tamb\u00e9m em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para dentro de um abismo, o abismo tamb\u00e9m olha para dentro de ti<\/em>.\u00bb [Guimar\u00e3es Editores, trad. De Hermann Pfl\u00fcger]<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos se aquele pensador alem\u00e3o se inspirou ou n\u00e3o na frase do salmista, mas a leitura do seu aforismo n\u00e3o deixar\u00e1 de o evocar no esp\u00edrito do leitor, mesmo considerando diferen\u00e7as. Se a express\u00e3o latina do salmo acentua uma sucess\u00e3o \u2013 um abismo arrasta outro abismo -, o aforismo de Friedrich Nietzsche centra-se na interac\u00e7\u00e3o: o abismo age sobre quem o olha demoradamente. O combate contamina e o abismo transforma-se em espelho: se encaro obsessivamente uma realidade sombria e absurda lutando contra ela, o combate acaba por exigir a utiliza\u00e7\u00e3o de instrumentos semelhantes. Nesta luta vai-se embotando a sensibilidade e o discernimento e desaparece ent\u00e3o a fronteira entre o \u201ceu\u201d que o contempla e o \u201cabismo\u201d contemplado. Como tamb\u00e9m pode desaparecer a fronteira entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se acontecer\u00e1 o mesmo com mais gente, mas \u00e9 disto que me lembro frequentemente nos tempos correntes. Tr\u00e1gicos. Todos os dias nos chegam imagens terr\u00edveis de guerras. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social v\u00e3o apresentando, todos os dias, especialistas e comentadores com pretensas an\u00e1lises. E os poderosos falam. E os decisores das guerras justificam. E as justifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o maldi\u00e7\u00f5es. E as maldi\u00e7\u00f5es s\u00e3o abismos. Cada vez abismos maiores, mesmo quando soam no mundo as palavras de alguns que ainda possuem alguma autoridade moral. Mas as palavras, clamores da Humanidade, n\u00e3o chegam a calar os sons dos instrumentos que reciprocamente interagem. Na guerra. \u00ab<em>Abissus abissum invocat<\/em>.\u00bb<\/p>\n<p>Aquele salmo \u00e9 um lamento de um exilado, mas tamb\u00e9m um grito de fidelidade, de confian\u00e7a e esperan\u00e7a de quem, como o veado, anseia pelas torrentes das \u00e1guas. Ser\u00e1 por isso que o Salmo levanta, por duas vezes, a pergunta [vs. 6 e 12]: \u00ab<em>Porque est\u00e1s abatida, \u00f3 minha alma e te perturbas dentro do mim?<\/em>\u00bb. \u00c9 o desabafo do fiel crente, mesmo quando todos lhe perguntam [v.4]: \u00ab<em>Onde est\u00e1 o teu Deus?<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/p>\n<p>Guarda, 9 de Mar\u00e7o de 2026<\/p>\n<p>morgado.salvado@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-415773","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=415773"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/415773\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=415773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=415773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=415773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}