{"id":415729,"date":"2026-03-15T09:30:55","date_gmt":"2026-03-15T09:30:55","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=415729"},"modified":"2026-03-12T14:24:16","modified_gmt":"2026-03-12T14:24:16","slug":"portugal-integracao-de-pessoas-em-situacao-de-sem-abrigo-exige-respostas-a-longo-prazo-e-uma-abordagem-intersectorial-carmo-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-integracao-de-pessoas-em-situacao-de-sem-abrigo-exige-respostas-a-longo-prazo-e-uma-abordagem-intersectorial-carmo-fernandes\/","title":{"rendered":"Portugal: Integra\u00e7\u00e3o de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo exige respostas a longo prazo e uma abordagem intersectorial \u2013 Carmo Fernandes"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo em Portugal triplicou. No seu mais recente relat\u00f3rio sobre pobreza e a exclus\u00e3o social em Portugal, a Caritas Portuguesa alertou para um aumento dram\u00e1tico do n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo.<\/p>\n<p>A Presid\u00eancia da Rep\u00fablica mudou sem que o presidente cessante, Marcelo Rebelo de Sousa,\u00a0conseguisse atingir o seu des\u00edgnio em acabar com este flagelo social.<br \/>\nCarmo Fernandes \u00e9 diretora-geral da Associa\u00e7\u00e3o dos Albergues Noturnos do Porto, uma institui\u00e7\u00e3o particular fundada no Porto em 1881, que tem a miss\u00e3o de acolher e integrar pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, e \u00e9 convidada deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_415686\" aria-describedby=\"caption-attachment-415686\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-415686 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CARMO-FERNANDES-2-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-415686\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/In\u00eas Sampaio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<p><em>Os n\u00fameros demonstram que n\u00e3o est\u00e3o a resultar as estrat\u00e9gias para a integra\u00e7\u00e3o\u00a0das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo.\u00a0\u00c9 falta de vontade pol\u00edtica ou resultado de estrat\u00e9gias mal elaboradas?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Respondendo de forma direta a essa pergunta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, acho que \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o\u00a0de v\u00e1rios fatores.<\/p>\n<p>O que \u00e9 importante aqui me parecer ter em conta \u00e9 que este \u00e9 um problema complexo e\u00a0multifatorial e que obriga a uma interven\u00e7\u00e3o numa perspetiva de longo prazo.\u00a0E a mim o que me parece \u00e9 que essa abordagem \u00e9 que tem faltado. Pensar em estrat\u00e9gias que\u00a0contribuam efetivamente para resolver de forma definitiva o problema.\u00a0N\u00f3s ainda estamos, muitas vezes, a tentar resolver a situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia do imediato\u00a0e vamos criando respostas que d\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o a pensar no imediato, mas a verdade \u00e9 que\u00a0a realidade nos mostra muitas situa\u00e7\u00f5es que ficam numa plataforma girat\u00f3ria e, portanto,\u00a0at\u00e9 podem ter um per\u00edodo de integra\u00e7\u00e3o, muitas dessas pessoas, durante um tempo, mas\u00a0que retornam \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e, portanto, o problema se vai tornando mais cr\u00f3nico.<\/p>\n<p>Por isso, parece-me necess\u00e1ria uma an\u00e1lise do problema em toda a sua complexidade, que junte v\u00e1rios setores, porque as causas tamb\u00e9m s\u00e3o muito diversas. Aqui tanto\u00a0entra a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, como a quest\u00e3o da sa\u00fade mental, dos comportamentos aditivos,\u00a0da situa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pobreza e do n\u00edvel de rendimentos que as pessoas t\u00eam, e, portanto,\u00a0todos precisam de ser convocados para encontrar a resposta adequada em fun\u00e7\u00e3o dos diferentes\u00a0perfis que a realidade nos apresenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao n\u00edvel pol\u00edtico, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 exclusivo de um minist\u00e9rio resolver o problema?<br \/>\n<\/em>N\u00e3o \u00e9.\u00a0Nem \u00e9 ao n\u00edvel do governo, nem \u00e9 ao n\u00edvel da nossa interven\u00e7\u00e3o no terreno. Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o,\u00a0por muita capacidade de resposta que tenha, o resolve de forma isolada, requer mesmo uma\u00a0abordagem integrada.\u00a0A verdade \u00e9 que n\u00f3s, a partir do momento em que passamos a ter uma estrat\u00e9gia nacional,\u00a0com capacidade, depois, de a n\u00edvel local, a tornar operacional com a sua realidade pr\u00f3pria,\u00a0\u00e9 um avan\u00e7o, porque j\u00e1 tivemos per\u00edodos anteriores em que isso n\u00e3o existia, mas ainda\u00a0assim me parece que n\u00e3o est\u00e3o completamente comprometidos todos os setores que precisam,\u00a0nem s\u00e3o alocados os recursos adequados para a resolu\u00e7\u00e3o do problema com o tempo necess\u00e1rio de que cada caso precisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 vamos falar de estrat\u00e9gia nacional, eu antes queria voltar \u00e0 quest\u00e3o da porta\u00a0girat\u00f3ria, porque sabemos, e j\u00e1 falou que entre a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo\u00a0h\u00e1 resist\u00eancias, h\u00e1 pessoas que t\u00eam depend\u00eancias, h\u00e1 a quest\u00e3o da sa\u00fade mental&#8230; Isto s\u00e3o\u00a0obst\u00e1culos mais dif\u00edceis de ultrapassar num trabalho de integra\u00e7\u00e3o e \u00e9 preciso\u00a0encontrar solu\u00e7\u00f5es novas para estas situa\u00e7\u00f5es em espec\u00edfico? <\/em><\/p>\n<p>Sim, ou seja, tamb\u00e9m a\u00ed \u00e9 complexo, porque o que \u00e9 que \u00e9 causa e o que \u00e9 consequ\u00eancia\u00a0da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, n\u00e3o \u00e9?\u00a0Para muitas situa\u00e7\u00f5es esses fatores podem levar a essa vulnerabilidade extrema da aus\u00eancia\u00a0de solu\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o e de alojamento, mas muitas outras s\u00e3o o resultado do pr\u00f3prio\u00a0processo da situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, nomeadamente quando ele se torna prolongado.\u00a0S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o exigentes, mas n\u00e3o s\u00e3o imposs\u00edveis de gerir. Precisam \u00e9\u00a0ter as respostas adequadas a cada uma delas e tamb\u00e9m cada pessoa n\u00e3o transporta apenas\u00a0uma problem\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9?\u00a0Cada pessoa traz, em si, uma combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios desafios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava tamb\u00e9m de outras situa\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos noticiado frequentemente, que \u00e9 o surgimento\u00a0dos novos rostos da exclus\u00e3o, pessoas com trabalho cujo sal\u00e1rio n\u00e3o chega para pagar\u00a0um quarto devido \u00e0 crise na habita\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um n\u00famero crescente de imigrantes rec\u00e9m-chegados tamb\u00e9m neste perfil. \u00c9 uma mudan\u00e7a que se est\u00e1 a sentir no terreno?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu posso falar mais da nossa experi\u00eancia. N\u00f3s temos centros de alojamento tempor\u00e1rio. N\u00f3s n\u00e3o estamos no primeiro n\u00edvel\u00a0de contacto que \u00e9 a rua, a este prop\u00f3sito dos centros de alojamento. Aos nossos centros de alojamento n\u00e3o tem chegado um n\u00famero t\u00e3o elevado comparado\u00a0com anos anteriores, n\u00f3s temos entre 10% e 12% dos nossos residentes nos centros de\u00a0alojamento tempor\u00e1rio que n\u00e3o t\u00eam a nacionalidade portuguesa.\u00a0Na rua percebe-se mais o efeito dessa situa\u00e7\u00e3o, o que n\u00f3s sentimos de facto nos \u00faltimos dois\u00a0ou tr\u00eas anos \u00e9 um aumento crescente das situa\u00e7\u00f5es que resultam diretamente de despejos, em que\u00a0o efeito da habita\u00e7\u00e3o e da dificuldade de as pessoas encontrarem uma habita\u00e7\u00e3o compat\u00edvel\u00a0com os seus rendimentos leva a essa vulnerabilidade. E tamb\u00e9m pessoas a trabalhar a terem mais dificuldade\u00a0em encontrar de facto uma solu\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o, mesmo quando elas j\u00e1 est\u00e3o connosco, mesmo\u00a0quando elas come\u00e7aram a trabalhar, a dificuldade depois em se autonomizarem, porque mesmo estando\u00a0a trabalhar n\u00e3o t\u00eam rendimentos suficientes para encontrar essa solu\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o,\u00a0mesmo que seja um quarto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A n\u00edvel local o trabalho que tem vindo a ser realizado pelas autarquias est\u00e1 a dar\u00a0mais frutos do que a estrat\u00e9gia nacional? por exemplo, no Porto, de acordo com os dados\u00a0conhecidos em final de 2024, havia menos pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo do que no ano\u00a0anterior\u2026.<\/em><\/p>\n<p>A problem\u00e1tica das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo tamb\u00e9m tem associado o pr\u00f3prio\u00a0conceito e a maneira como se define e estabelece do ponto de vista oficial quem s\u00e3o pessoas\u00a0em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, sem-teto e sem-casa.\u00a0A verdade \u00e9 que esse n\u00famero resulta da contribui\u00e7\u00e3o da rede na sua contabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00f3s nos nossos centros de alojamento temos mais de metade de pessoas\u00a0que n\u00e3o entram nessas estat\u00edsticas, por exemplo, e estou s\u00f3 a falar da nossa realidade.\u00a0Portanto, ou \u00e9 uma discuss\u00e3o ao n\u00edvel do conceito ou \u00e9 n\u00f3s olhamos para a realidade. E do nosso ponto de vista, de facto, aquelas pessoas que est\u00e3o connosco n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o\u00a0de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ou seja, os n\u00fameros que nos s\u00e3o apresentados n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade de acordo com\u00a0aquela que \u00e9 a vossa perspetiva?<\/em><\/p>\n<p>A nossa realidade n\u00e3o nos mostra isso.\u00a0N\u00f3s em 2025 voltamos a ter um n\u00famero muito significativo de pedidos de admiss\u00e3o, n\u00f3s\u00a0tivemos quase mais de 800 pedidos de admiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um n\u00famero superior ao ano anterior?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, um n\u00famero superior ao ano anterior. N\u00f3s temos capacidade com dois centros de alojamento\u00a0para ter a residir temporariamente connosco 97 pessoas, tivemos durante 2025, 270 entre\u00a0o ciclo de rota\u00e7\u00e3o, mas ainda temos muitas situa\u00e7\u00f5es de pessoas que permanecem muito\u00a0tempo, 25, 26% das nossas camas est\u00e3o ocupadas em perman\u00eancia, sendo uma resposta tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma resposta tempor\u00e1ria para mais de 20 anos, \u00e0s vezes?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes, sim. A pessoa mais antiga que n\u00f3s temos connosco tem mais de 25 anos connosco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o, como j\u00e1 tem 25 anos, \u00e9 mais complexa do que a atual circunst\u00e2ncia\u00a0em que n\u00f3s vivemos. J\u00e1 falamos aqui, e \u00e9 por mais sabido que os problemas da habita\u00e7\u00e3o se t\u00eam agravado. Qual \u00e9 a grande dificuldade para que as pessoas se autonomizem, porque acredito que esse \u00e9\u00a0o grande objetivo do trabalho nos Albergues?\u00a0 \u00c9 permitir que elas depois deem\u00a0esse passo&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>Sim, e de novo depende muito da realidade de cada situa\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 do ponto de vista\u00a0estat\u00edstico, eu dou um exemplo, a idade m\u00e9dia das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo \u00e9\u00a0acima dos 50 anos. Muitas pessoas j\u00e1 foram acumulando v\u00e1rias patologias, quer de sa\u00fade\u00a0f\u00edsica e tamb\u00e9m de sa\u00fade mental.\u00a0N\u00f3s sabemos os desafios que existem ao n\u00edvel da integra\u00e7\u00e3o profissional, por exemplo. Muitas destas pessoas j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 tanto pela integra\u00e7\u00e3o profissional que v\u00e3o conseguir\u00a0o seu caminho da autonomiza\u00e7\u00e3o. tem que haver outras formas de fazer este\u00a0processo.\u00a0Para n\u00f3s \u00e9 muito importante perceber que a forma de cada um se autonomizar \u00e9 distinta\u00a0e muitas vezes precisa de ser completamente acompanhado, isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o\u00a0consiga ter uma resposta digna e integrada na comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Associa\u00e7\u00e3o dos Albergues Noturnos do Porto tem vindo a promover alguns programas que incentivam\u00a0precisamente essa integra\u00e7\u00e3o, pode falar-me um pouco dessa realidade e tamb\u00e9m dos seus\u00a0resultados?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, n\u00f3s em 2025 decidimos avan\u00e7ar com um programa, chama-se Porto de Partida,\u00a0que pretende trazer aqui para a zona do Porto e zona da \u00e1rea metropolitana do Porto uma\u00a0resposta baseada na metodologia da Housing First.\u00a0Este \u00e9 exatamente para n\u00f3s um exemplo que mostra que \u00e9 poss\u00edvel ter outro tipo de\u00a0resultados.\u00a0\u00c9 uma experi\u00eancia que ainda por cima j\u00e1 tem bastante tempo, ela nasceu h\u00e1 mais de\u00a030 anos nos Estados Unidos, foi-se espalhando pelo mundo, em Portugal tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1\u00a0h\u00e1 mais de 15 anos, come\u00e7ou em Lisboa mas tamb\u00e9m j\u00e1 existe noutras zonas do pa\u00eds,\u00a0mas aqui ainda n\u00e3o tinha chegado.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 que ela tem que para n\u00f3s foi inspirador e que nos est\u00e1 a motivar para\u00a0ter esta interven\u00e7\u00e3o?\u00a0\u00c9 precisamente pensar nas situa\u00e7\u00f5es mais complexas, aqueles casos que at\u00e9 agora n\u00e3o\u00a0conseguiram encontrar solu\u00e7\u00e3o, tornam-se situa\u00e7\u00f5es cr\u00f3nicas, pessoas que acabam\u00a0por estar na rua ciclos muito prolongados, 10 anos, 15 anos, 20 anos, alguns mais, partindo\u00a0do princ\u00edpio de que o come\u00e7o do trabalho com elas \u00e9 numa casa.\u00a0Por isso, n\u00f3s neste caso vamos ao encontro das pessoas na rua depois de nos serem sinalizadas\u00a0pela rede, neste caso do\u00a0NPISA Porto (N\u00facleo de Planeamento e Interven\u00e7\u00e3o Sem-Abrigo)\u00a0e a partir de um determinado momento em que a confian\u00e7a\u00a0j\u00e1 est\u00e1 estabelecida, perguntamos \u00e0 pessoa o que \u00e9 que ela mais gostaria para mudar\u00a0a vida dela e a verdade \u00e9 que as pessoas o que falam \u00e9 numa casa, mas num sonho que\u00a0\u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>E n\u00f3s a determinada altura dizemos, mas n\u00f3s podemos ter aqui uma casa para ti: est\u00e1s\u00a0interessado?\u00a0E as pessoas entram na casa sem nenhuma contrapartida. As pessoas n\u00e3o t\u00eam que deixar os seus consumos,\u00a0n\u00e3o t\u00eam que deixar os seus h\u00e1bitos. Entram na casa na condi\u00e7\u00e3o exatamente em que se\u00a0encontram e a nossa equipa come\u00e7a a fazer o trabalho a partir da casa. Portanto, em vez\u00a0de trazer a pessoa para dentro da institui\u00e7\u00e3o, somos n\u00f3s que fazemos o trabalho indo \u00e0\u00a0casa que a pessoa passa a ter como sua. E tudo isto com caracter\u00edsticas muito particulares, a pessoa\u00a0vive sozinha, e\u00a0 portanto, n\u00e3o vai ter um regime partilhado como, por exemplo, teria nos nossos\u00a0centros de alojamento. N\u00f3s conhecemos v\u00e1rias destas pessoas porque em algum momento da\u00a0vida delas, elas de facto passaram pela nossa resposta de centro de alojamento, mas n\u00e3o\u00a0se conseguiram adaptar, e acabaram por abandonar ou por ser suspensas por algum comportamento\u00a0menos adequado dentro deste tipo de resposta. E estamos ent\u00e3o a avan\u00e7ar com esta resposta,\u00a0com um desafio grande para n\u00f3s, porque estamos a avan\u00e7\u00e1-la assumindo n\u00f3s o risco. Nos outros lugares do pa\u00eds t\u00eam avan\u00e7ado num compromisso entre financiamento da seguran\u00e7a\u00a0social e das autarquias, n\u00f3s aqui ainda n\u00e3o temos nem uma coisa nem outra, mas n\u00f3s optamos\u00a0por elaborar projetos, procurar financiamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que conseguem financiamento?<\/em><\/p>\n<p>Apresentamos a entidades a financiamento e\u00a0neste momento estamos a conseguir faz\u00ea-lo com o pr\u00e9mio BPI Funda\u00e7\u00e3o L\u00e1 Caixa, com\u00a0a Portugal Inova\u00e7\u00e3o Social e agora mais recentemente com a Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian,\u00a0porque no fundo n\u00f3s tamb\u00e9m quisemos avan\u00e7ar para mostrar que esta realidade tamb\u00e9m \u00e9\u00a0poss\u00edvel adaptar a metodologia \u00e0 nossa realidade, ali\u00e1s ela est\u00e1 a ser avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas n\u00e3o \u00e9 estranho que a autarquia e o Estado n\u00e3o intervenham convosco?<\/em><\/p>\n<p>Tem a ver com a forma como cada um, de alguma forma, define as suas pr\u00f3prias prioridades. A n\u00edvel nacional n\u00f3s estamos a aguardar que sejam abertos avisos que permitam dar\u00a0algum financiamento a estas respostas. A verdade \u00e9 que \u00e9 considerada pela estrat\u00e9gia uma\u00a0resposta priorit\u00e1ria e inovadora, mas desde 2023 n\u00e3o abre nenhuma possibilidade de financiamento\u00a0para esta resposta. Ainda assim quando abre \u00e9 com uma comparticipa\u00e7\u00e3o do nosso ponto\u00a0de vista muito baixa, abaixo de qualquer outro tipo de resposta. S\u00f3 para terem uma ideia,\u00a0o valor do \u00faltimo aviso dessa altura era de 200 euros por utente. Com 200 euros \u00e9 completamente\u00a0imposs\u00edvel implementar uma resposta desta natureza. Por isso \u00e9 que nos outros locais\u00a0tamb\u00e9m t\u00eam surgido as autarquias a complementar. N\u00f3s aqui no caso do Porto temos uma boa parceria\u00a0e um bom trabalho com a autarquia, n\u00f3s j\u00e1 temos 10 casas, destas 10 casas, 2 foram\u00a0disponibilizadas pela autarquia, mas n\u00e3o estamos ainda ao n\u00edvel que gostar\u00edamos de\u00a0estar para nos trazer alguma confian\u00e7a e convic\u00e7\u00e3o que esta \u00e9 uma resposta que requer longa\u00a0dura\u00e7\u00e3o. N\u00f3s neste momento temos o financiamento at\u00e9 junho de 2027, portanto acreditamos tamb\u00e9m\u00a0que vai ser um caminho constru\u00eddo, quer aqui com a autarquia do Porto, quer com as\u00a0autarquias \u00e0 volta aqui da \u00e1rea metropolitana. Porque \u00e9 fundamental dizer que nesta experi\u00eancia \u00e9 que j\u00e1 est\u00e1 mais do que estudada e avaliada\u00a0e diz que 90% das pessoas n\u00e3o regressam \u00e0 rua. Este para n\u00f3s foi o grande espoletador de que precis\u00e1vamos de avan\u00e7ar. Porque, na realidade, enquanto n\u00e3o avan\u00e7amos h\u00e1 imensa gente que n\u00e3o tem esta\u00a0oportunidade de poder, de facto, mudar a sua vida. N\u00f3s neste momento j\u00e1 integramos\u00a08 pessoas, as casas j\u00e1 s\u00e3o 10, porque as casas v\u00e3o \u00e0 frente das pessoas, e procuramos\u00a0fazer o melhor matching poss\u00edvel entre o perfil da pessoa e a caracter\u00edstica da casa. A casa est\u00e1 espalhada na comunidade, portanto a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 focada na pessoa,\u00a0\u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. N\u00f3s trabalhamos com o propriet\u00e1rio da casa, com os vizinhos,\u00a0com o contexto de proximidade envolvente a cada um destes residentes e o nosso objetivo \u00e9 chegar\u00a0at\u00e9 ao final deste ano com 20 casas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 percebemos desta conversa que toda esta tem\u00e1tica\u00a0\u00e9 complexa, o Henrique lembrava o Presidente Cessante,\u00a0Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha o prop\u00f3sito de que nas ruas portuguesas n\u00e3o houvesse nenhum\u00a0abrigo, acabou os seus 10 anos de mandato, e na realidade os n\u00fameros continuam a crescer. A pergunta \u00e9 se espera que\u00a0do novo Presidente, Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, uma aten\u00e7\u00e3o particular a esta realidade e tamb\u00e9m\u00a0mais efic\u00e1cia na atua\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Diria duas coisas, uma ainda sobre o Presidente cessante, porque parece-me\u00a0que \u00e9 mesmo muito importante que aquilo que fez ao longo destes anos de colocar muitas vezes na\u00a0agenda este tema. E isso faz-me transportar para o Presidente atual que de facto \u00e9 uma problem\u00e1tica\u00a0que \u00e0s vezes pela sua dimens\u00e3o, se falarmos dos n\u00fameros nacionais, mesmo sabendo que est\u00e3o\u00a0sobre representados, n\u00e3o chegam a 15 mil pessoas, parece de facto a uma escala nacional que seria\u00a0resol\u00favel, n\u00e3o \u00e9? Mas j\u00e1 vimos que a complexidade \u00e9 grande e por isso ter algu\u00e9m como Presidente\u00a0da Rep\u00fablica muito empenhado em trazer para a agenda esta problem\u00e1tica e mais do que trazer\u00a0para a agenda, tornar-se pr\u00f3ximo. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa muitas vezes esteve nos\u00a0lugares, teve no contato direto com as pessoas, sublinhou a import\u00e2ncia e isso acho que nos faz\u00a0falta e, portanto, gostaria que continuasse.<\/p>\n<p>Por outro, acho que tamb\u00e9m estes des\u00edgnios precisam\u00a0de facto de ser acompanhados tanto pela interven\u00e7\u00e3o como pela preven\u00e7\u00e3o. N\u00f3s podemos alargar imensas\u00a0respostas, mesmo estas que eu estava a dar exemplo, como \u00e9 do Housing First e podemos ter sempre esta\u00a0frustra\u00e7\u00e3o de que nunca se vai resolvendo o problema, porque v\u00e3o chegando muitas outras situa\u00e7\u00f5es e\u00a0portanto precisamos olhar bem para as causas, perceber que se n\u00e3o atuarmos a\u00ed, n\u00f3s tamb\u00e9m\u00a0estamos a fazer um trabalho que parece que nunca se consegue completar. A habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema-chave,\u00a0mas s\u00e3o tamb\u00e9m as quest\u00f5es da sa\u00fade mental, por exemplo, como a quest\u00e3o das crian\u00e7as e jovens\u00a0institucionalizados. N\u00f3s j\u00e1 sabemos que h\u00e1 determinadas condi\u00e7\u00f5es que podem levar a uma\u00a0maior probabilidade das pessoas se virem mais \u00e0 frente a confrontar com esta vulnerabilidade de\u00a0n\u00e3o terem uma solu\u00e7\u00e3o habitacional.<\/p>\n<p>As altas hospitalares, por exemplo, as sa\u00eddas das pris\u00f5es,\u00a0em que n\u00e3o existe uma alternativa para muitas dessas pessoas que se desligaram completamente da\u00a0sua rede.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Faltando uma verdadeira reinser\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Exato. A\u00ed \u00e9 um dos grandes trabalhos que me parece\u00a0que n\u00f3s aqui em Portugal, e depois aqui tamb\u00e9m no Porto, um enorme desafio.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia nova sublinha\u00a0esse aspeto, acrescenta a dimens\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o como um fator-chave, mas ainda estamos muito no in\u00edcio\u00a0e temos ainda muito trabalho pela frente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E ent\u00e3o, de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, espera que tamb\u00e9m se dedique\u00a0ou dedique parte do seu trabalho a esta realidade?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Gostava que sim, que tamb\u00e9m fosse de alguma maneira\u00a0aqui uma luz. Quando est\u00e1 a ficar mais invis\u00edvel, porque esta \u00e9 uma realidade muitas vezes invis\u00edvel,\u00a0que fosse luz para esta realidade. E tamb\u00e9m com o seu grau de influ\u00eancia, que tornasse tamb\u00e9m mais vis\u00edvel\u00a0a pertin\u00eancia de ser uma interven\u00e7\u00e3o integrada dos v\u00e1rios setores e que n\u00e3o ficasse ancorada num n\u00edvel\u00a0como hoje ela se encontra s\u00f3 dentro da seguran\u00e7a social, como se fosse um problema que se resolvesse\u00a0nesse nicho da interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Henrique Joaquim, o coordenador\u00a0da Estrat\u00e9gia Nacional para a Integra\u00e7\u00e3o das Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Sem-Abrigo, demitiu-se h\u00e1 cerca de um m\u00eas.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Instituto da Seguran\u00e7a Social passou a ser respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o do plano. Teme ou receia que possamos\u00a0estar perante a desvaloriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deste problema?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil neste momento avaliar exatamente o que significa.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que estamos num processo de mudan\u00e7a e desde que terminou a estrat\u00e9gia anterior, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que\u00a0estamos no arranque de uma nova estrat\u00e9gia e \u00e9 um arranque que custa a acontecer. 2025 j\u00e1 foi esse primeiro ano\u00a0da nova estrat\u00e9gia e para n\u00f3s, por exemplo, foi um lamento grande perceber que n\u00e3o avan\u00e7aram apoios, por exemplo,\u00a0para esta medida do Housing First. Agora houve esta mudan\u00e7a da coordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos um bocadinho na expectativa.\u00a0J\u00e1 h\u00e1 uma nova coordenadora. Cid\u00e1lia Craveiro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m temos de dar tempo para que possa apropriar-se da pasta, ir come\u00e7ando a fazer esta interven\u00e7\u00e3o,\u00a0mas n\u00e3o estamos especialmente com muito \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Ou seja, o nosso \u00e2nimo vem da nossa convic\u00e7\u00e3o daquilo que faz sentido\u00a0com as pessoas no trabalho que n\u00f3s vamos realizando. Gost\u00e1vamos que fosse mais convergente e mais ajustada\u00a0esta resposta local com depois as prioridades e os recursos que a n\u00edvel nacional tamb\u00e9m se v\u00e3o alocando para esta interven\u00e7\u00e3o,\u00a0porque s\u00f3 os NPISA, tamb\u00e9m sozinhos, n\u00e3o conseguem dar essa resposta. \u00c9 esta a expectativa que tenho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo em Portugal triplicou. 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