{"id":41572,"date":"2009-10-27T10:51:13","date_gmt":"2009-10-27T10:51:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/27\/um-sinodo-profetico-e-realista\/"},"modified":"2009-10-27T10:51:13","modified_gmt":"2009-10-27T10:51:13","slug":"um-sinodo-profetico-e-realista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-sinodo-profetico-e-realista\/","title":{"rendered":"Um S\u00ednodo prof\u00e9tico e realista"},"content":{"rendered":"<p>Durante o m&ecirc;s de Outubro, os bispos africanos foram uma presen&ccedil;a bem vis&iacute;vel nos meios, mais ou menos eclesi&aacute;sticos, de Roma, desde os ambientes da Pra&ccedil;a de S&atilde;o Pedro, onde se realizou o II S&iacute;nodo dos Bispos para a &Aacute;frica, aos ambientes populares do bairro de Trastevere, onde tem sede a Comunidade de Santo Eg&iacute;dio. As interven&ccedil;&otilde;es na aula sinodal foram not&iacute;cia di&aacute;ria nas ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias, nos jornais e nos media ligados &agrave; Igreja. Os institutos mission&aacute;rios e os movimentos laicais interessados na situa&ccedil;&atilde;o do continente, a Confer&ecirc;ncia dos Institutos Mission&aacute;rios da It&aacute;lia (CIMI) e outros fizeram de caixa de resson&acirc;ncia ao acontecimento, muito para al&eacute;m da aula sinodal.<\/p>\n<p>A primeira observa&ccedil;&atilde;o a fazer, diz, por isso, respeito ao lugar onde se realizou o s&iacute;nodo e que foi objecto de pol&eacute;mica entre os que defendem a sede vaticana como a mais apropriada para os s&iacute;nodos e os que defendem que o s&iacute;nodo se deveria realizar em &Aacute;frica, para garantir o interesse das comunidades eclesiais. A realiza&ccedil;&atilde;o do s&iacute;nodo no Vaticano garantiu um interesse maior da igreja universal e da comunica&ccedil;&atilde;o social. Mas n&atilde;o garantiu o envolvimento da igreja africana, das comunidades crist&atilde;s do continente, tanto na prepara&ccedil;&atilde;o como no seguimento. O primeiro s&iacute;nodo africano n&atilde;o teve o impacto que se esperava e o segundo corre o risco de repetir-lhe os passos. Os defensores da &Aacute;frica como lugar da realiza&ccedil;&atilde;o do s&iacute;nodo t&ecirc;m alguma raz&atilde;o: mesmo com outras limita&ccedil;&otilde;es, a realiza&ccedil;&atilde;o do s&iacute;nodo em &Aacute;frica teria certamente um impacto maior ao n&iacute;vel das bases eclesiais.<\/p>\n<p>A segunda observa&ccedil;&atilde;o vai para o tema do s&iacute;nodo: &laquo;A Igreja na &Aacute;frica ao servi&ccedil;o da reconcilia&ccedil;&atilde;o, da justi&ccedil;a e da paz&raquo;. O tema recolheu, desde o momento da sua escolha, um grande consenso entre todos os sectores eclesiais, dada a sua actualidade e pertin&ecirc;ncia. A &Aacute;frica que foi objecto das mais variadas interven&ccedil;&otilde;es na aula sinodal, &eacute; um continente necessitado de reconcilia&ccedil;&atilde;o, que aparece endemicamente dividido por conflitos da mais variada ordem. Se ultimamente alguns conflitos armados, de longa data, conheceram uma solu&ccedil;&atilde;o como os que ensanguentaram Angola e Mo&ccedil;ambique, Costa do Marfim&hellip; outros continuam a arrastar-se, com imenso sofrimento para as popula&ccedil;&otilde;es, e &agrave; espera de solu&ccedil;&atilde;o: Darfur, no Sud&atilde;o, Nordeste da RD do Congo, a Som&aacute;lia, a Eritreia, o Zimbabu&eacute;, as Guin&eacute;s&hellip;<\/p>\n<p>Algumas tens&otilde;es religiosas e &eacute;tnicas continuam igualmente a ser fonte de instabilidade no continente: a Nig&eacute;ria, o Sul do Sud&atilde;o, o Chade, a &Aacute;frica do Sul s&atilde;o exemplos de situa&ccedil;&otilde;es onde factores &eacute;tnicos e religiosos abrem brechas entre popula&ccedil;&otilde;es e semeiam instabilidade.<\/p>\n<p>A terceira observa&ccedil;&atilde;o vai para o estilo com que os africanos falaram de si e dos seus problemas. Foram muito corajosos dando nomes aos problemas e dramas que afligem as gentes do continente ao n&iacute;vel pol&iacute;tico, social, econ&oacute;mico. Os media falaram dos horrores de &Aacute;frica&raquo; que estavam a ser discutidos no s&iacute;nodo&hellip;Mas, falando dos seus males, n&atilde;o perderam o humor, conservaram a esperan&ccedil;a, reafirmaram o amor &agrave; vida e sobretudo foram propositivos, fazendo tesouro de experi&ecirc;ncias de reconcilia&ccedil;&atilde;o vividas no continente, dos valores culturais que favorecem os processos de reconcilia&ccedil;&atilde;o, de justi&ccedil;a e de paz.<\/p>\n<p>Quarta observa&ccedil;&atilde;o, fundamental: tratando de denunciar as situa&ccedil;&otilde;es de conflito, os membros do s&iacute;nodo souberam tamb&eacute;m colocar a foco a contribui&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica do Cristianismo no contexto africano. Reafirmaram o &laquo;an&uacute;ncio crist&atilde;o&raquo; que proclama uma reconcilia&ccedil;&atilde;o para al&eacute;m das fronteiras de culturas e etnias, que evoca as exig&ecirc;ncias do amor e do perd&atilde;o, sem esquecer requisitos da justi&ccedil;a e da verdade. Nas &laquo;proposi&ccedil;&otilde;es finais&raquo;, o s&iacute;nodo foi, por um lado, prof&eacute;tico ao denunciar os dramas africanos e apelar ao ideal crist&atilde;o; e foi igualmente realista ao reconhecer as peculiares exig&ecirc;ncias da reconcilia&ccedil;&atilde;o e as dificuldades dos caminhos da justi&ccedil;a e da paz em &Aacute;frica.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, a igreja africana reconheceu tamb&eacute;m que, para ser cred&iacute;vel na sua proposta de regenera&ccedil;&atilde;o e reconcilia&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica tem que ser aut&ecirc;ntica e come&ccedil;ar por promover a reconcilia&ccedil;&atilde;o ao seu interior, por arrumar a pr&oacute;pria casa. A necessidade de reconcilia&ccedil;&atilde;o em &Aacute;frica est&aacute; bem viva na vida da pr&oacute;pria Igreja, na qual conflitos entre clero e leigos, entre membros de diferentes etnias, entre clero local e mission&aacute;rios est&atilde;o longe de serem vest&iacute;gios do passado e continuam a minar a Igreja desde dentro, como recentemente se viu na Rep&uacute;blica Centro-Africana, no Ruanda, no Burundi, no Malawi, por exemplo.<\/p>\n<p>O desafio que o II s&iacute;nodo para a &Aacute;frica deixa &agrave; Igreja universal, para al&eacute;m das proposi&ccedil;&otilde;es, da mensagem e das recomenda&ccedil;&otilde;es finais &eacute; o de escutar a &Aacute;frica e a Igreja africana. O papa Bento XVI deu sinais de desejar um escutar atento ao reconhecer, no seu discurso de abertura, que &laquo;a &Aacute;frica &eacute; deposit&aacute;ria de um tesouro inestim&aacute;vel para o mundo inteiro: o seu profundo sentido de Deus&raquo;.<\/p>\n<p>Com a sua presen&ccedil;a ass&iacute;dua, sobretudo nos primeiros dias do s&iacute;nodo em que passou manh&atilde;s e tardes na aula, Bento XVI mostrou que estava a falar a s&eacute;rio quando considerou o continente africano como &laquo;um imenso pulm&atilde;o espiritual para a humanidade, em crise de f&eacute; e de esperan&ccedil;a&raquo;.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Pe Manuel Augusto Lopes<\/em><em> Ferreira, Director da revista Al&eacute;m-Mar<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o m&ecirc;s de Outubro, os bispos africanos foram uma presen&ccedil;a bem vis&iacute;vel nos meios, mais ou menos eclesi&aacute;sticos, de Roma, desde os ambientes da Pra&ccedil;a de S&atilde;o Pedro, onde se realizou o II S&iacute;nodo dos Bispos para a &Aacute;frica, aos ambientes populares do bairro de Trastevere, onde tem sede a Comunidade de Santo Eg&iacute;dio. 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