{"id":41570,"date":"2009-10-26T17:16:04","date_gmt":"2009-10-26T17:16:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/26\/homilia-de-d-carlos-azevedo-nos-150-anos-dos-vicentinos-em-portugal\/"},"modified":"2009-10-26T17:16:04","modified_gmt":"2009-10-26T17:16:04","slug":"homilia-de-d-carlos-azevedo-nos-150-anos-dos-vicentinos-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-carlos-azevedo-nos-150-anos-dos-vicentinos-em-portugal\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Carlos Azevedo nos 150 anos dos Vicentinos em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de 150 anos, gra&ccedil;as &agrave;s Confer&ecirc;ncias Vicentinas, em Portugal, como anuncia Jeremias, muitas l&aacute;grimas se transformaram em consola&ccedil;&atilde;o, muitos caminhos para a verdadeira vida foram abertos por vidas entregues. Damos gra&ccedil;as a Deus.<\/p>\n<p>Recolhamos as li&ccedil;&otilde;es da Palavra da liturgia deste domingo. Encontramos indica&ccedil;&otilde;es oportunas. Aprendamos como experimentar o sacerd&oacute;cio de Cristo na dedica&ccedil;&atilde;o ao servi&ccedil;o social.<\/p>\n<p>1. Neste ano sacerdotal, saboreemos um texto que raramente meditamos. Jesus &eacute; o sumo-sacerdote que tomou sobre si as nossas penas mais profundas e as nossas ora&ccedil;&otilde;es mais simples. Mas a comunidade a quem se dirige o serm&atilde;o aos hebreus questionava-se: como pode um Jesus sofredor na cruz, recusado e derrotado, ser algu&eacute;m com curriculum para ser sumo-sacerdote? A isto responde o texto da segunda leitura. O Pregador descreve as qualifica&ccedil;&otilde;es de Jesus para mostrar como superam as exig&ecirc;ncias requeridas para o lugar. Ele &eacute; o ministro justo para o minist&eacute;rio justo. Os sacerdotes do passado estavam inseridos num ordenamento provis&oacute;rio que Deus disponha para um tempo espec&iacute;fico da hist&oacute;ria, enquanto o sacerd&oacute;cio de Cristo tem eterno futuro. Como os &ldquo;escolhidos entre os homens&rdquo; Jesus &eacute; mediador entre Deus e a humanidade, mas &eacute; superior aos sacerdotes do passado porque n&atilde;o &eacute; s&oacute; mediador, mas fonte da salva&ccedil;&atilde;o, porque se ofereceu a si pr&oacute;prio, uma vez por todas. N&atilde;o precisa de ir muitas vezes ao altar por novos pecados e para novos sacrif&iacute;cios porque o seu minist&eacute;rio &eacute; eterno.<\/p>\n<p>Por outro lado, os sacerdotes do passado n&atilde;o eram meros funcion&aacute;rios lit&uacute;rgicos que mecanicamente exerciam os seus deveres, tamb&eacute;m eram pastores: recebiam ofertas como sinais simb&oacute;licos dos mais profundos segredos da vida, dos pecados e culpas, temores e esperan&ccedil;as, da fome de salva&ccedil;&atilde;o. Deviam ser pessoas compassivas que compreendiam as fraquezas humanas. Com sua do&ccedil;ura e indulg&ecirc;ncia tratavam os pecadores. Como tamb&eacute;m eram pecadores, apresentavam sacrif&iacute;cios por eles e pelo povo. Jesus &eacute; tamb&eacute;m um pastor bom e compassivo, conhece as dores e ambiguidades da condi&ccedil;&atilde;o humana, incarna esta vida com seus limites e debilidades. Jesus gritou no meio do sofrimento. Como sofredor Jesus realiza uma tarefa pastoral, carregada de humanidade. Mas a sua humanidade n&atilde;o desesperava, n&atilde;o se perdia no pecado. O sofrimento n&atilde;o &eacute; pecado, faz parte da condi&ccedil;&atilde;o humana. Limite e fraqueza n&atilde;o s&atilde;o pecado, caracterizam o ser humano. Mas Jesus aprendeu a&iacute; a obedi&ecirc;ncia, n&atilde;o esqueceu ser Filho e pode conduzir o perdido a casa.<\/p>\n<p>Os sacerdotes do passado n&atilde;o tinham a presun&ccedil;&atilde;o nem a arrog&acirc;ncia de se oferecerem como volunt&aacute;rios nem de pretenderem honra para si pr&oacute;prios. Eram chamados por Deus. Serviam uma miss&atilde;o. Tamb&eacute;m Jesus n&atilde;o procurou para si a gl&oacute;ria, era designado pelo Pai. N&atilde;o tinha s&oacute; a miss&atilde;o sacerdotal, mas a filial, n&atilde;o tinha dura&ccedil;&atilde;o limitada mas era eterna.<\/p>\n<p>Meus caros vicentinos e vicentinas: tomar sobre si as quest&otilde;es mais fundas, com do&ccedil;ura e indulg&ecirc;ncia, conhecer e assumir as situa&ccedil;&otilde;es dos que nos rodeiam com plena humanidade, com vis&atilde;o larga do tempo e preocupados com medidas que tenham futuro &eacute; ser como Cristo sacerdotes. Oferecer-se a si pr&oacute;prio e n&atilde;o exigir aos outros, participar e n&atilde;o esperar que sejam outros, intervir com prontid&atilde;o implicando-se nas decis&otilde;es, com amor real, s&oacute;lido, resistente &eacute; ser como Cristo sacerdotes. Realizar a miss&atilde;o como chamados por Deus e n&atilde;o sendo actores e agentes sociais por conta pr&oacute;pria &eacute; ser fi&eacute;is ao estilo de Jesus &uacute;nico sacerdote.<\/p>\n<p>2.No Evangelho, vemos Jesus a exercer o seu sacerd&oacute;cio. Jesus est&aacute; a caminho. Segue-o grande multid&atilde;o. H&aacute; um grito. H&aacute; uma vibra&ccedil;&atilde;o do meio do barulho da multid&atilde;o. A multid&atilde;o cala os gritos, sente-se incomodada pelos gritos inconvenientes. Mas Jesus est&aacute; atento aos que do meio da multid&atilde;o vibram com a sua passagem. Hoje tamb&eacute;m h&aacute; quem pretenda calar os gritos de socorro com arrevesadas teorias. Aten&ccedil;&atilde;o! Os m&eacute;todos s&atilde;o subtis. Ai dos crist&atilde;os na sua participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&oacute;mica quando esquecem os problemas profundos e se ficam pela rama superficial de quest&otilde;es secund&aacute;rias relativas a direitos individuais em detrimento da luta por direitos sociais!<\/p>\n<p>Jesus comove-se. P&aacute;ra. Chama. &Eacute; benevolente e dialoga. Mostra a sua aten&ccedil;&atilde;o de pastor, a sua qualidade de escuta dos apelos para fazer tamb&eacute;m ele apelos &agrave; multid&atilde;o, para que n&atilde;o abafe os gritos dos necessitados.<\/p>\n<p>&Eacute; a pedagogia de Jesus em ac&ccedil;&atilde;o. Raz&atilde;o tem o cego para que lhe chamar Mestre, depois de, na afli&ccedil;&atilde;o do pedido de ajuda, lhe ter chamado Filho de David, com refer&ecirc;ncia ao Antigo Testamento. Mas perante a novidade do seu comportamento, da sua aten&ccedil;&atilde;o chama-lhe Mestre. Tem raz&atilde;o. A f&eacute; do cego revela-se nos seus actos, nas suas atitudes: deixa a capa, d&aacute; o salto, vai ter com Jesus.<\/p>\n<p>Jesus n&atilde;o &eacute; um mestre paternalista, n&atilde;o recorre a m&eacute;todos assistencialistas. Requer que cada pessoa tome a iniciativa e fa&ccedil;a o seu caminho pessoal. Jesus quer de tal modo deixar a iniciativa, a demonstra&ccedil;&atilde;o da sua real verdade, sem complexos de perguntar ao cego o que ele quer. Era evidente! Jesus quer ouvir a voz dos pobres. Importava tomar consci&ecirc;ncia de que Deus nos liberta, nos consola, nos faz abrir os olhos para ver os outros com novos olhos, nos abre a mente. H&aacute; um caminho a fazer para a liberdade, mas a fazer com consci&ecirc;ncia, n&atilde;o por mero impulso repentino sem consequ&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Vai &ndash; a tua f&eacute; te salvou! &Eacute; assim Jesus. N&atilde;o quer pasmados &agrave; sua beira. N&atilde;o lhe abriu os olhos para ele ficar a olhar para Ele, mas para o salvo tamb&eacute;m ver agora as necessidades dos outros e fazer-se disc&iacute;pulo, seguir o seu caminho. O caminho da f&eacute; vem da consci&ecirc;ncia, apesar dos obst&aacute;culos. J&aacute; Jeremias previa, na sua experi&ecirc;ncia, a salva&ccedil;&atilde;o a chegar como luz. Jeremias partiu a chorar mas regressou a cantar. Na salva&ccedil;&atilde;o tudo depende da iniciativa de Deus. &Eacute; Deus que salva, que cura, que abre os olhos para a salva&ccedil;&atilde;o. Somos n&oacute;s, seu povo, que temos que tirar fora a capa, saltar, pormo-nos a mexer.<\/p>\n<p>3. Car&iacute;ssimos vicentinos: celebrar 150 anos de ac&ccedil;&atilde;o pastoral atenta aos mais carenciados &eacute; para v&oacute;s reconhecer que, como a Ozanam, &eacute; a escuta dos gritos aflitos e a luz da Palavra de Deus que vos p&otilde;e no caminho do seguimento de Cristo. &Eacute; a comunh&atilde;o com Cristo que d&aacute; nova vis&atilde;o, a vis&atilde;o da f&eacute; para olhar os gritos clamorosos ou os apelos abafados e surdos nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Sabeis como a convers&atilde;o para ir ao encontro, para seguir o caminho requer despojamento do que &eacute; estragado, dos sinais do passado para redescobrir a beleza &aacute;gil do homem novo. A Igreja em Portugal pede-vos esta renova&ccedil;&atilde;o para corresponder como povo sacerdotal &agrave;s propostas exigentes de inova&ccedil;&atilde;o social. A vossa firmeza na ora&ccedil;&atilde;o &eacute; raiz para manter a identidade do modo como acolheis e tratais os problemas sociais. As vossas entregas escondidas aos mais s&oacute;s e abandonados, aos mais perdidos e sem horizontes, aos mais feridos na sua dignidade s&atilde;o sacerd&oacute;cio vivo. As comunidades s&atilde;o mais povo sacerdotal pela agilidade da vossa media&ccedil;&atilde;o, ao serdes para a sociedade sinal de um Reino novo.<\/p>\n<p>&nbsp;D. Carlos Azevedo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de 150 anos, gra&ccedil;as &agrave;s Confer&ecirc;ncias Vicentinas, em Portugal, como anuncia Jeremias, muitas l&aacute;grimas se transformaram em consola&ccedil;&atilde;o, muitos caminhos para a verdadeira vida foram abertos por vidas entregues. Damos gra&ccedil;as a Deus. Recolhamos as li&ccedil;&otilde;es da Palavra da liturgia deste domingo. Encontramos indica&ccedil;&otilde;es oportunas. 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