{"id":413337,"date":"2026-02-22T09:31:25","date_gmt":"2026-02-22T09:31:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=413337"},"modified":"2026-02-19T16:28:12","modified_gmt":"2026-02-19T16:28:12","slug":"igreja-portugal-para-resolver-grandes-problemas-para-resolver-estruturalmente-as-regioes-e-preciso-uma-governacao-intermedia-d-jose-traquina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-para-resolver-grandes-problemas-para-resolver-estruturalmente-as-regioes-e-preciso-uma-governacao-intermedia-d-jose-traquina\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abPara resolver grandes problemas, para resolver estruturalmente as regi\u00f5es, \u00e9 preciso uma governa\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia\u00bb -D. Jos\u00e9 Traquina"},"content":{"rendered":"<p><em>No in\u00edcio da Quaresma e depois da celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Justi\u00e7a Social \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, bispo de Santar\u00e9m<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_412418\" aria-describedby=\"caption-attachment-412418\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-412418 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1277\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3-400x266.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornadas_turismo2026_RPerna-3-1536x1022.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-412418\" class=\"wp-caption-text\">D. Jos\u00e9 Traquina.<br \/>Foto: Ricardo Perna\/Diocese de Set\u00fabal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Portugal tenta reerguer-se dos danos provocados pelo comboio de tempestades, num cen\u00e1rio onde pobreza e precariedade ganham novas faces. Vemos que os dados econ\u00f3micos mostram que s\u00e3o precisas cinco gera\u00e7\u00f5es para uma fam\u00edlia sair da pobreza em Portugal. O que \u00e9 que falha sistematicamente para n\u00e3o conseguirmos inverter este ciclo de exclus\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Bem, falha a dedica\u00e7\u00e3o suficiente. N\u00e3o basta s\u00f3 que o estudo da realidade seja feito, mas requer-se uma vontade expressa de quem governa o pa\u00eds, e esta preocupa\u00e7\u00e3o com esta realidade em Portugal j\u00e1 tem muito tempo. Mudam-se os governos de partidos diferentes, mas o problema subsiste. Penso que \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar pelo princ\u00edpio e cuidar muito das crian\u00e7as, dos adolescentes e dos jovens, para termos um futuro que d\u00ea resultados diferentes no que diz respeito \u00e0 pobreza. Temos um resultado do \u00faltimo ano que \u00e9 animador, porque h\u00e1 uma baixa de n\u00famero de pessoas pobres e em risco de pobreza, mas n\u00e3o \u00e9 ainda suficiente para nos animarmos, e termos mais esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o podemos dizer que a redu\u00e7\u00e3o registada no \u00faltimo ano, se voltar a verificar-se nos pr\u00f3ximos anos, ent\u00e3o sim, daqui a uns anos estar\u00edamos em melhores condi\u00e7\u00f5es. Vamos com esperan\u00e7a e aguardando que da parte de quem governa surjam op\u00e7\u00f5es mais fortes para termos uma sociedade mais justa e equilibrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sequ\u00eancia do temporal das \u00faltimas semanas, que afetou em particular a regi\u00e3o Centro, n\u00f3s fomos ouvindo queixas de sentimento de abandono e h\u00e1 mesmo quem garanta que na sequ\u00eancia do que se est\u00e1 a passar j\u00e1 h\u00e1 empresas na regi\u00e3o de Leiria, por exemplo, a avan\u00e7ar com despedimentos. Temos ouvido de forma insistente a Igreja fazer apelos a que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s, mas a realidade vai-nos dizendo que h\u00e1 mesmo o risco do aumento das injusti\u00e7as por for\u00e7a dos temporais? <\/em><\/p>\n<p>Pode acontecer de tudo, mas eu tenho esperan\u00e7a de que na medida em que o tempo ganha estabilidade, vai tamb\u00e9m ajudar as pessoas a criar esperan\u00e7a. Repare que estivemos muitos dias com chuva e com vento e que n\u00e3o dava espa\u00e7o para nos animarmos a reerguer, e arranjar o que ficou danificado. E com a agravante de haver pessoas a morrer por estarem a tentar arranjar os seus telhados. Esse tempo est\u00e1 agora a mudar para melhor, estamos com um pouco mais de estabilidade porque o sol ainda n\u00e3o apareceu com aquela for\u00e7a que gostamos e desejamos, mas isso vai por certo animar.<\/p>\n<p>N\u00f3s para termos mais \u00e2nimo, mais esperan\u00e7a, precisamos tamb\u00e9m ter este apoio da natureza, sem mais chuva, sem tanto vento. Depois disto tamb\u00e9m esperamos e contamos, de facto, com a aten\u00e7\u00e3o dos respetivos minist\u00e9rios para erguer aquilo que caiu. E isso passa pelo patrim\u00f3nio das empresas, porque as empresas fazem falta, n\u00e3o s\u00f3 para quem trabalha porque \u00e9 mesmo necess\u00e1rio, mas tamb\u00e9m para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 uma esmola, \u00e9 mesmo a necessidade de resolver um assunto de futuro.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 mesmo uma quest\u00e3o de justi\u00e7a? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de justi\u00e7a, \u00e9 mesmo necess\u00e1rio. Eu tenho esperan\u00e7a que os industriais e os empres\u00e1rios n\u00e3o desistam e coloquem a esperan\u00e7a nas portas certas para erguer o seu estabelecimento, a sua empresa. As informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dadas \u00e9 que haja justi\u00e7a, isto \u00e9, n\u00e3o estejam a pedir coisas por oportunismo. Isto n\u00e3o faz sentido, devemos ser justos. Quem vai justificar que a empresa deixou de ter condi\u00e7\u00f5es para fazer o que fazia, e que isso \u00e9 importante para a popula\u00e7\u00e3o e para a economia do pa\u00eds, com certeza que h\u00e1 de ter uma resposta da parte de quem governa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o cria a esperan\u00e7a, o facto de se sentir quem est\u00e1 quase sem nada, ouvir agora esta amea\u00e7a de perder o emprego, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>Pode-se perder o emprego por meses, ou pelo tempo que for necess\u00e1rio para se erguer uma estrutura; isso pode acontecer. A pessoa recebe menos, mas tem de receber o suficiente para subsistir.\u00a0Esta \u00e9 uma medida que j\u00e1 foi aconteceu no passado recente, e existe para que as pessoas n\u00e3o desistam do seu local de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que se entende, por exemplo, que quase um m\u00eas depois da depress\u00e3o Kristin, ainda continuem muitas habita\u00e7\u00f5es sem energia?<\/em><\/p>\n<p>A realidade \u00e9 o que \u00e9 e, portanto, se as empresas n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para fazer chegar a energia, \u00e9 porque n\u00e3o conseguem mesmo. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o em pormenor as dificuldades todas, mas isto \u00e9 um ensinamento para mostrar como n\u00e3o devia acontecer. As empresas que fornecem energia t\u00eam de repensar a forma como fazem chegar a energia aos clientes.<\/p>\n<p>Uma cat\u00e1strofe destas, com outras dimens\u00f5es, em cidades ainda maiores, seria catastr\u00f3fico. Isto n\u00e3o pode acontecer.\u00a0 Neste caso alguma coisa falhou; ou ao n\u00edvel das condi\u00e7\u00f5es de fazer chegar a energia ao terreno ou ao n\u00edvel da falta de pessoas para trabalhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o ideia, n\u00e3o tenho explica\u00e7\u00e3o para a dificuldade. Mas imagino que isto pode servir de li\u00e7\u00e3o para, que no futuro, as coisas sejam diferentes. Ou seja, \u00e9 preciso pensar em fazer chegar a energia el\u00e9trica de maneira diferente.\u00a0 O que temos visto \u00e9 cabo e cabos danificados e postes partidos. Se calhar \u00e9 preciso come\u00e7ar a pensar em enterrar esses cabos, o que porventura proporciona mais seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Fala-nos a partir de um territ\u00f3rio que tamb\u00e9m sentiu o impacto do mau tempo. Que levantamento tem a Diocese e onde \u00e9 que est\u00e1, neste momento, prioritariamente focada a ajuda? <\/em><\/p>\n<p>Bem, no nosso caso, de Santar\u00e9m, foi a parte norte da Diocese a mais afetada. Toda a Vigararia de Tomar, Torres Novas, tamb\u00e9m a zona de Alcanena, Rio Maior, e a zona da Barquinha, todas estas zonas foram muito atingidas.<\/p>\n<p>Ou sejam, podemos dizer que toda a Diocese foi atingida, mas aquela onde houve mais estragos, de facto, foi na parte norte da Diocese. Eu visitei nessa regi\u00e3o, todas as tr\u00eas par\u00f3quias encostadas a Ferreira do Z\u00eazere, onde as igrejas paroquiais e as capelas, o centro social paroquial, a resid\u00eancia paroquial, foram atingidos, e os telhados atingidos e destru\u00eddos. Foi um momento dram\u00e1tico. Ficaram sem luz, ficaram sem cobertura, foi um momento dif\u00edcil.<\/p>\n<p>E no dia em que fui celebrar Missa numa das Igrejas atingidas; o que obrigou a tirar telhas de um lado para colocar noutro, foi muito curiosa a entreajuda entre as pessoas. Destaco em particular um homem que arranjou um gerador pequeno e que permitiu haver luz no Altar, e na Estante.\u00a0 Estiveram l\u00e1 os autarcas; o presidente da C\u00e2mara de Tomar, os presidentes de junta de freguesia. Foi uma Missa, no domingo seguinte \u00e0 trag\u00e9dia, e que se pode considerar um momento de consola\u00e7\u00e3o e de explica\u00e7\u00e3o. Foi o momento de dizer \u00e0s pessoas o que havia para distribuir, aonde \u00e9 que podiam ir carregar os telem\u00f3veis. Foi mesmo uma celebra\u00e7\u00e3o muito especial. A\u00ed vi enorme generosidade das pessoas. Olhe vi, o prior em cima dos telhados da Igreja a compor telhas. Vi a autarquia, as pessoas da par\u00f3quia, a C\u00e1ritas paroquial, todos embrenhados numa vontade expressa de ajudar as pessoas a sentirem-se mais acolhidas e mais apoiadas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Precisamente, esta crise provou que quem est\u00e1 pr\u00f3ximo &#8211; autarquias, par\u00f3quias, C\u00e1ritas locais &#8211; resolve melhor os problemas do que o poder central, o poder centralizado. Como \u00e9 que interpreta a resist\u00eancia do Estado em partilhar mais poder com quem est\u00e1 na linha da frente? <\/em><\/p>\n<p>Bem, sobre essa mat\u00e9ria eu quero dizer-lhe de caras que sou favor\u00e1vel \u00e0 regionaliza\u00e7\u00e3o. Eu penso que as c\u00e2maras municipais fazem um bom trabalho, e eu preciso de elogiar os presidentes de c\u00e2mara e as juntas de freguesia que contactei no espa\u00e7o da geografia da Diocese e que foram inexced\u00edveis. Senti toda a dedica\u00e7\u00e3o, todo o apoio, e senti que era feito tudo o que poss\u00edvel para apoiar as pessoas e salvar as pessoas das situa\u00e7\u00f5es. E\u00a0nomeadamente na zona do Rio Tejo, foi prestado todo o apoio que foi necess\u00e1rio para salvaguardar as pessoas de grandes problemas.<\/p>\n<p>E, na verdade, n\u00e3o tenho nada a dizer de menos abonat\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s autarquias que temos. Para resolver grandes problemas, para resolver estruturalmente as regi\u00f5es, \u00e9 preciso uma governa\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia. Estou convencido, j\u00e1 h\u00e1 tempos que estou convencido disto, embora respeite quem pensa diferente, mas temos sinais tamb\u00e9m na nossa zona de que, claramente, falta aqui uma refer\u00eancia interm\u00e9dia para chamar a aten\u00e7\u00e3o para dificuldades que n\u00e3o permitem o desenvolvimento de uma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 na hora de voltarmos a pensar no referendo?<br \/>\n<\/em>Porventura. Se isso \u00e9 preciso para tomar uma decis\u00e3o, que se fa\u00e7a, sim senhor.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Pode ser uma das conclus\u00f5es a tirar desta situa\u00e7\u00e3o. Outra das li\u00e7\u00f5es, e \u00e9 uma pergunta que eu fa\u00e7o, tem a ver com a quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es. N\u00f3s tivemos, esta semana, a Igreja Cat\u00f3lica a promover um encontro sobre o legado do Papa Francisco nessa mat\u00e9ria. Percebemos que a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds vai exigir muita m\u00e3o de obra, que n\u00e3o abunda. As cr\u00edticas consecutivas \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o caem por terra, desde logo, perante a necessidade pr\u00e1tica de bra\u00e7os para reerguer o pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Os migrantes fazem falta a Portugal, isto est\u00e1 provado, \u00e9 \u00f3bvio que fazem. Portanto, a cr\u00edtica que \u00e9 aceit\u00e1vel, digamos assim, \u00e9 relativa \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o. Temos de exigir a legalidade das pessoas, e o controle. E claro manter essa exig\u00eancia para que n\u00e3o haja tr\u00e1fico e para que n\u00e3o haja explora\u00e7\u00e3o humana. Isso tem de funcionar do nosso lado para impor regras europeias, regras de justi\u00e7a em Portugal.<\/p>\n<p>Mas que os migrantes fazem falta n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. \u00c9 um fen\u00f3meno mundial, desde sempre. N\u00f3s estamos num momento da hist\u00f3ria de Portugal em que s\u00e3o precisas pessoas aqui a trabalhar. Esta \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o obvia, assim como \u00e9 fundamental o respeito pela pessoa humana. N\u00e3o podemos admitir pessoas que s\u00e3o exploradas por terceiros, em vez de fazer contratos com as pessoas. Faz-se contrato com o empres\u00e1rio, mas depois n\u00e3o se sabe muito bem como \u00e9 que as coisas funcionam. Portanto, tem que haver esse cuidado para respeitar as pessoas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E pensa que muitas vezes o foco das cr\u00edticas est\u00e1 nos mais fracos, em vez de ir a esses sistemas de explora\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas eu com franqueza ao n\u00edvel dos contatos que fa\u00e7o, n\u00e3o tenho outra imagem que n\u00e3o seja de um bom relacionamento e de um bom acolhimento. Volto outra vez \u00e0s autarquias. As autarquias est\u00e3o a fazer com os migrantes um bom trabalho. Nomeadamente o sentido de acolhimento, o sentido de rece\u00e7\u00e3o, de festa, de partilha cultural est\u00e1 sempre presente. Arranjaram inclusive um dia no ano para fazer uma festa com eles.<\/p>\n<p>Tudo isso acontece nos munic\u00edpios e \u00e9 muito interessante. \u00c9 muito humano, muito interessante. E eu vejo isso como um sinal dos tempos em que somos chamados a ver com \u00e2nimo e n\u00e3o com desprezo, n\u00e3o com cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m daquilo que me \u00e9 dado perceber na Igreja, temos uma presen\u00e7a de estrangeiros que \u00e9 muito significativa, nomeadamente de brasileiros. E o relacionamento \u00e9 fraterno, porque as pessoas na Igreja n\u00e3o se sentem estrangeiras. N\u00e3o h\u00e1 estrangeiros na Igreja. Somos todos irm\u00e3os e irm\u00e3s, seja qual for a nossa nacionalidade. E, portanto, as pessoas sentem-se bem.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Voltando um pouco atr\u00e1s e \u00e0 necessidade de m\u00e3o de obra, isto vai implicar uma altera\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica relativa \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o que temos atualmente, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>Bem, se forem necess\u00e1rias mais pessoas, o Estado deve ter ideia da dimens\u00e3o das necessidades. E, portanto, quando se der um alerta a convidar pessoas para vir trabalhar para Portugal, tem de se saber como \u00e9 que se controla a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode ir a outro pa\u00eds, convidar pessoas para vir sem uma legaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sobre isso \u00e9 bom saber que, ainda n\u00e3o h\u00e1 muitos anos, foi feito um acordo de 160 pa\u00edses que se reuniram no Norte de \u00c1frica, em que era sublinhada essa preocupa\u00e7\u00e3o com a imigra\u00e7\u00e3o legal. Foi em Marrocos que isso aconteceu. Se os pa\u00edses est\u00e3o todos de acordo, h\u00e1 necessidade de tratar disso, de concretizar isso e travar a imigra\u00e7\u00e3o ilegal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, as pessoas n\u00e3o sabem, chegam c\u00e1 sem documentos e isso n\u00e3o \u00e9 caminho. Agora, \u00e9 preciso que cada pa\u00eds fa\u00e7a a sua parte. N\u00e3o conv\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 pedag\u00f3gico, digo eu, convidar pessoas para virem sem saber se t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para virem e depois chegarem c\u00e1 chorarem porque n\u00e3o existe essa hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Vamos esperar que as coisas corram bem, e que as pessoas possam vir trabalhar para c\u00e1 nas condi\u00e7\u00f5es de respeitabilidade, e na defesa pela sua dignidade e para que haja condi\u00e7\u00f5es para as receber.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E olhando para a reforma laboral que se avizinha, longa e pol\u00e9mica, que princ\u00edpios de dignidade do trabalho n\u00e3o podem ser sacrificados em nome da urg\u00eancia econ\u00f3mica da reconstru\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>As coisas t\u00eam de se conjugar. Tem de se conjugar a dignidade humana, o respeito pela pessoa, os direitos da pessoa. A pessoa tem de trabalhar as horas estabelecidas, n\u00e3o deve trabalhar mais e deve receber um sal\u00e1rio justo. Em nenhuma situa\u00e7\u00e3o, se justifica a explora\u00e7\u00e3o humana. Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Portanto, as pessoas devem trabalhar o que \u00e9 justo e correto, e depois n\u00e3o pode haver a aposta numa avalanche de pessoas para que o trabalho fique mais barato. As pessoas devem ser acolhidas no respeito pelos direitos do trabalho, sem esquecer as quest\u00f5es de resid\u00eancia, as quest\u00f5es de sa\u00fade. E aqui, deixem-me sublinhar, \u00e9 preciso valorizar os empres\u00e1rios que j\u00e1 est\u00e3o a assumir-se como agentes sociais. Isto \u00e9, h\u00e1 empres\u00e1rios que reconhecem a necessidade de apoiar os seus trabalhadores em algumas mat\u00e9rias, nomeadamente na procura de casa e em outras dimens\u00f5es da vida, para que eles se sintam bem, se sintam felizes e possam sonhar a sua vida em Portugal. H\u00e1 empres\u00e1rios que est\u00e3o a fazer isto com cuidado, bem, e com \u00eaxito. E, portanto, para mim \u00e9 um est\u00edmulo ver empres\u00e1rios a fazer isso. E, ali\u00e1s, h\u00e1 alguns migrantes que testemunham isso mesmo. \u00c9 mesmo muito bom que isso aconte\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p><em>H\u00e1 outra mat\u00e9ria da Pastoral Social de que gostar\u00edamos de falar. Soube-se esta semana da demiss\u00e3o do coordenador da Estrat\u00e9gia Nacional para as Pessoas sem Abrigo, Henrique Joaquim. Num pa\u00eds com mais de 14 mil pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o, a instabilidade pol\u00edtica na coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator de alarme?<\/em><\/p>\n<p>Bem, esta miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil, diria eu. N\u00e3o \u00e9 um trabalho f\u00e1cil.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 um trabalho f\u00e1cil porqu\u00ea? Porque damos conta de pessoas que n\u00e3o querem sair de onde est\u00e3o. Portanto, o problema a certa altura \u00e9 quando h\u00e1 uma vontade da sociedade de recuperar pessoas, de tir\u00e1-las da situa\u00e7\u00e3o, e essas pessoas n\u00e3o querem sair da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 dram\u00e1tico, e nas grandes cidades ganha mais volume o problema. \u00c9 muito dif\u00edcil quando, um profissional se empenha em retirar a pessoa da rua e a pessoa n\u00e3o quer sair da rua. N\u00e3o tenho li\u00e7\u00f5es a dar sobre essa mat\u00e9ria, mas sei que, de facto, isto acontece. E, portanto, eu diria que \u00e9 muito complicado gerir a causa p\u00fablica com pessoas que pensam desta maneira. Da\u00ed que eu digo, como disse no princ\u00edpio, que \u00e9 preciso come\u00e7ar cedo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso junto das crian\u00e7as e jovens, criar um acompanhamento nessas idades para que, como adultos, acabem por pensar diferente. N\u00f3s temos pessoas em Lisboa, que morrem e que s\u00e3o enterradas e que n\u00e3o se sabe quem s\u00e3o, n\u00e3o se sabe que nome t\u00eam, n\u00e3o se sabe a que fam\u00edlia pertencem. E l\u00e1 vai a miseric\u00f3rdia, cuidar de um funeral com pessoas que n\u00e3o t\u00eam identidade, n\u00e3o t\u00eam identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que foi poss\u00edvel chegar aqui? Chega-se aqui com pessoas que se abandonam, que se abandonaram. Portanto, penso que \u00e9 importante come\u00e7ar muito cedo a criar est\u00edmulos de vida para que n\u00e3o se chegue aqui. E esta \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que deve ser alargada a toda a comunidade abrangente, a todas as institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no terreno, para que se crie motiva\u00e7\u00e3o nas pessoas e, sobretudo para que n\u00e3o as deixemos dependentes de influ\u00eancias das redes e de influ\u00eancias que exploram a pessoa humana para depois a deixar na rua, na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esta demiss\u00e3o do Coordenador Nacional da Estrat\u00e9gia \u00e9 mais um gr\u00e3o de areia nessa engrenagem?<\/em><\/p>\n<p>Sim, o Henrique Joaquim tem toda a credibilidade, porque sempre trabalhou nesta \u00e1rea de apoio com ao sem-abrigo. \u00c9 pena que ele deixe o lugar, mas ele saber\u00e1 as raz\u00f5es pelas quais o deixa. Mas \u00e9 uma pessoa muito cred\u00edvel na dedica\u00e7\u00e3o aos sem-abrigo e, n\u00e3o conhe\u00e7o melhor do que ele no conhecimento dessa realidade e na capacidade de lidar com estas pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio da Quaresma e depois da celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Justi\u00e7a Social \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, bispo de Santar\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":412418,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[180,282,314],"class_list":["post-413337","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-diocese-de-santarem","tag-pastoral-social","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/413337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=413337"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/413337\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/412418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=413337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=413337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=413337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}