{"id":41292,"date":"2009-10-13T11:18:43","date_gmt":"2009-10-13T11:18:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/13\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-peregrinacao-internacional-de-outubro\/"},"modified":"2009-10-13T11:18:43","modified_gmt":"2009-10-13T11:18:43","slug":"homilia-de-d-jose-policarpo-na-peregrinacao-internacional-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jose-policarpo-na-peregrinacao-internacional-de-outubro\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo na Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional de Outubro"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;Como Maria viveu o Sacerd&oacute;cio do seu Filho, Jesus Cristo&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Neste Ano Sacerdotal, quando o Pa&iacute;s inteiro se prepara para receber o Sucessor de Pedro, cabe&ccedil;a do Col&eacute;gio dos Ap&oacute;stolos, somos convidados a interiorizar essa manifesta&ccedil;&atilde;o inaudita do amor de Deus pela humanidade, que &eacute; a dimens&atilde;o sacerdotal, cuja plenitude se exprimiu em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Maria, que pela Sua vida e pela a Sua morte reconduziu definitivamente todos os homens &agrave; intimidade com Deus, Trindade Sant&iacute;ssima, comunh&atilde;o de amor. Esta fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal, plenamente realizada por Jesus Cristo, &eacute; vivida pela Igreja, Povo Sacerdotal, a que preside, de forma perene e definitiva, o pr&oacute;prio Jesus Cristo, atrav&eacute;s daqueles a quem consagrou pelo Esp&iacute;rito Santo para exercer, em seu nome, as fun&ccedil;&otilde;es sacerdotais da Igreja, Povo de Deus. Pelo lugar especial&iacute;ssimo que ocupa na vida e miss&atilde;o de Jesus Cristo, assim como na Igreja, que a aclama como sua M&atilde;e, porque &eacute; o seu &ldquo;&iacute;cone&rdquo; inspirador, queremos contemplar a participa&ccedil;&atilde;o de Maria no sacerd&oacute;cio do seu Filho Jesus Cristo. Toda a Igreja, povo sacerdotal e todos os sacerdotes que tornam presente na Igreja o sacerd&oacute;cio de Jesus Cristo, podem contempl&aacute;-la como M&atilde;e e modelo, encontrando nela as express&otilde;es pr&oacute;prias da atitude sacerdotal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. O sacerd&oacute;cio &eacute; um mist&eacute;rio de amor, do amor infinito de Deus pelo homem que criou &agrave; sua imagem, que destinou a partilhar, na intimidade com Ele, a comunh&atilde;o de amor, onde encontrar&aacute; a plenitude da vida. Desse des&iacute;gnio eterno o homem afastou-se e continua a afastar-se pelo pecado. O sacerd&oacute;cio resume toda a pedagogia salv&iacute;fica de Deus: suscita na humanidade o fermento dessa voca&ccedil;&atilde;o sublime de amor; apesar do pecado, renuncia aos crit&eacute;rios do mundo e deixa-se guiar pela Palavra do Senhor, oferecendo-lhe a sua vida e aprendendo a viv&ecirc;-la como express&atilde;o de louvor. Para isso escolheu e formou um Povo a que o Profeta Isa&iacute;as chama &ldquo;linhagem que o Senhor aben&ccedil;oou&rdquo; (Is. 61,9). Express&atilde;o de Deus em favor da humanidade, o Povo de Deus &eacute;, na sua identidade mais profunda, um povo sacerdotal, capaz de reconhecer o amor salv&iacute;fico de Deus e de se assumir como um Povo que louva o Senhor.<\/p>\n<p>O sacerd&oacute;cio &eacute; um mist&eacute;rio de amor, do infinito amor de Deus pelo Seu Povo, que volta a poder desejar a plenitude do amor, em Deus, e volta a ser capaz de viver a vida neste mundo, como antecipa&ccedil;&atilde;o dessa plenitude final. O Santo Cura d&rsquo;Ars, de quem celebramos este ano os 150 anos da sua morte, escreveu um dia: &ldquo;Oh, o padre tem alguma coisa de grande. N&atilde;o se compreender&aacute; bem o sacerd&oacute;cio sen&atilde;o no C&eacute;u. Se o compreend&ecirc;ssemos na Terra, morrer&iacute;amos, n&atilde;o de espanto, mas de amor&rdquo; (1).<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi apenas um santo sacerdote que reconheceu que o sacerd&oacute;cio &eacute; um mist&eacute;rio de amor. Santa Teresa de Lisieux, uma humilde carmelita, sente-se devorada pelo desejo de contribuir para a salva&ccedil;&atilde;o do mundo, quereria ser apostola desde o princ&iacute;pio do mundo at&eacute; &agrave; escatologia e quereria dar toda a sua vida derramando o sangue como os m&aacute;rtires. Mas Deus fez-lhe perceber, lendo S&atilde;o Paulo, que, no amor, ela poderia ser tudo isso e escreve: &ldquo;compreendi que a Igreja tem cora&ccedil;&atilde;o, um cora&ccedil;&atilde;o ardente de amor; compreendi que s&oacute; o amor fazia actuar os membros da Igreja e que, se o amor viesse a extinguir-se, nem os ap&oacute;stolos continuariam a anunciar o Evangelho, nem os m&aacute;rtires a derramar o seu sangue; compreendi que o amor encerra em si todas as voca&ccedil;&otilde;es, que o amor &eacute; tudo e que abrange todos os tempos e lugares, numa palavra, que o amor &eacute; eterno. E ent&atilde;o (&hellip;) exclamei: a minha voca&ccedil;&atilde;o &eacute; o amor&rdquo; (2).<\/p>\n<p>Nem podemos imaginar a intensidade com que Maria amou o mundo, encarnando a intensidade do amor salv&iacute;fico de Deus. Essa intensidade comoveu o pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o de Deus, a ponto de o mensageiro divino a saudar como a &ldquo;cheia de gra&ccedil;a&rdquo;, aquela que vive a plenitude do amor. Na sua voca&ccedil;&atilde;o, ao aceitar o chamamento de Deus, onde ela identifica o des&iacute;gnio salv&iacute;fico, ao partilhar com o seu Filho o sacrif&iacute;cio redentor, Maria viveu, na radicalidade do seu cora&ccedil;&atilde;o o amor sacerdotal. Como mais tarde a Igreja, ela percebeu e aceitou que a sua voca&ccedil;&atilde;o e a sua miss&atilde;o era o amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. A dimens&atilde;o sacerdotal do Povo de Deus e as suas institui&ccedil;&otilde;es inserem-se no dinamismo da reden&ccedil;&atilde;o, levando um Povo &ldquo;que o Senhor aben&ccedil;oou&rdquo; a recuperar a sua voca&ccedil;&atilde;o primordial de comunh&atilde;o com Deus. No des&iacute;gnio de salva&ccedil;&atilde;o, esta n&atilde;o consiste, apenas, na plenitude escatol&oacute;gica. A comunh&atilde;o com Deus &eacute; para ser vivida j&aacute; neste mundo, pois ela define o mist&eacute;rio da vida. O primeiro fruto da dimens&atilde;o sacerdotal &eacute; levar o Povo a louvar o Senhor, em tudo o que se &eacute; e o que se faz: rezando, toda a Liturgia &eacute; um acto de louvor, praticando o amor e a justi&ccedil;a, proclamando as maravilhas de Deus. Israel e a Igreja s&atilde;o chamados a ser um povo que louva o Senhor. A primeira manifesta&ccedil;&atilde;o desse louvor &eacute; reconhecer a ac&ccedil;&atilde;o de Deus em favor do Seu Povo, na consci&ecirc;ncia de que, sem Deus, os homens n&atilde;o conseguem ultrapassar a fronteira entre o pecado e a gra&ccedil;a. A confiss&atilde;o de f&eacute; dos crentes de Israel &eacute; recordar, fazer mem&oacute;ria, das maravilhas que Deus realizou em favor do seu Povo. Encontramos na primeira leitura que escut&aacute;mos (Is. 61, 9-11) essa atitude de louvor: &ldquo;Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salva&ccedil;&atilde;o e me envolveu num manto de Justi&ccedil;a&rdquo;. O Profeta Isa&iacute;as sente essa miseric&oacute;rdia de Deus como express&atilde;o da sua ternura amorosa: &ldquo;Como o noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas j&oacute;ias&rdquo;.<\/p>\n<p>Reconhecer e fazer mem&oacute;ria da ac&ccedil;&atilde;o salv&iacute;fica de Deus &eacute; a ess&ecirc;ncia da dimens&atilde;o sacerdotal. A pr&oacute;pria Eucaristia, principal express&atilde;o do Povo Sacerdotal, onde se tona clara a especificidade do minist&eacute;rio dos sacerdotes e da sua converg&ecirc;ncia com a oferta do Povo Sacerdotal, &eacute; a mem&oacute;ria da ac&ccedil;&atilde;o decisiva de Deus, em Jesus Cristo, para a salva&ccedil;&atilde;o da humanidade. Maria f&aacute;-lo espontaneamente, assumindo atitude sacerdotal, ao reconhecer as maravilhas que Deus realiza nela e que relaciona com as maravilhas que fez em favor do seu Povo: &ldquo;A minha alma glorifica o Senhor&hellip; o Todo Poderoso fez em mim maravilhas, Santo &eacute; o seu Nome&hellip; acolheu a Israel seu servo, lembrado da sua miseric&oacute;rdia, como tinha prometido a nossos pais&rdquo; (cf. Lc. 1,46-55).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. A dimens&atilde;o sacerdotal exprime-se, tamb&eacute;m, na oferta a Deus de sacrif&iacute;cios de louvor. A melhor express&atilde;o do louvor que o homem pode ter &eacute; oferecer a sua vida a Deus e viver a vida de modo digno para ser oferecida. S&atilde;o Paulo pede isso aos crist&atilde;os de Roma, como ouvimos na segunda leitura: &ldquo;Pe&ccedil;o-vos, irm&atilde;os, pela miseric&oacute;rdia de Deus, que vos ofere&ccedil;ais a v&oacute;s mesmos, como sacrif&iacute;cio vivo, santo, agrad&aacute;vel a Deus, como culto espiritual&rdquo; (Rom. 12,1). A consci&ecirc;ncia teol&oacute;gica de Israel vai percebendo que na oferta pura que o justo faz da sua vida a Deus, ele merece a reden&ccedil;&atilde;o dos seus irm&atilde;os. Encontramos a plenitude desta oferta sacerdotal da pr&oacute;pria vida, no sacrif&iacute;cio de Cristo de que a Igreja faz mem&oacute;ria sempre que celebra a Eucaristia.<\/p>\n<p>Esta oferta total da pr&oacute;pria vida, Maria f&aacute;-la desde o momento em que disse a Deus: &ldquo;fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua Palavra&rdquo; e radicaliza-a, para todo o sempre, aos p&eacute;s da Cruz de seu Filho, oferecendo-O e oferecendo-se com Ele. Ela &eacute; verdadeiramente co-redentora. Este sacrif&iacute;cio perene de Jesus Cristo, n&atilde;o se repete, mas actualiza-se, como se fosse oferecido hoje, no poder sacramental da Igreja na Eucaristia e na presen&ccedil;a amorosa de Maria na Igreja. A mem&oacute;ria viva que guarda no seu cora&ccedil;&atilde;o daquele momento decisivo do Calv&aacute;rio &eacute; tamb&eacute;m uma forma de lhe dar actualidade na vida da Igreja. Com a Igreja, Maria oferece e oferece-se em cada Eucaristia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. Proclamar a Palavra que nos revela o amor de Deus e levar o povo a escut&aacute;-la e a segui-la, pondo-a em pr&aacute;tica, &eacute; outra express&atilde;o da dimens&atilde;o sacerdotal. Esta dimens&atilde;o viveram-na apaixonadamente os profetas, deve devorar o cora&ccedil;&atilde;o dos sacerdotes que tamb&eacute;m s&atilde;o profetas. Maria &eacute;, tamb&eacute;m neste aspecto da dimens&atilde;o sacerdotal uma estrela que nos guia. &ldquo;Eu sou a escrava do Senhor, fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua Palavra&rdquo; (Lc. 1,18). E nas Bodas de Can&aacute; convida os criados: &ldquo;Fazei tudo o que Ele vos disser&rdquo; (Jo. 2,5). Esse &eacute; o desafio que a Igreja, Povo Sacerdotal, faz ao mundo a que &eacute; enviada: escutai o que Deus vos diz; fazei tudo o que Ele vos disser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. A dimens&atilde;o sacerdotal &eacute;, no meio dos homens, a manifesta&ccedil;&atilde;o da solicitude de Deus pelas necessidades do Povo e de cada um. Ele &eacute; o pastor do seu Povo, conhece as suas ovelhas, sabe do que precisam, cuida das doentes e das d&eacute;beis, vai &agrave; procura delas, carrega aos ombros a que est&aacute; ferida. Esta aten&ccedil;&atilde;o &agrave; vida concreta de cada homem &eacute; desafio a toda a Igreja, Povo Sacerdotal, &eacute;-o particularmente para n&oacute;s, sacerdotes, chamados a sermos presen&ccedil;as vivas de Cristo Bom Pastor. Nas Bodas de Can&aacute;, Maria mostra essa atitude pastoral de aten&ccedil;&atilde;o ao pequeno-grande problema que afligia os esposos. Mostra-o quando diz a Jesus: &ldquo;n&atilde;o t&ecirc;m vinho&rdquo; (Jo. 2,5). Que solicitude, que aten&ccedil;&atilde;o ao pormenor, que capacidade de avaliar um problema pessoal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. O sacerd&oacute;cio &eacute; a express&atilde;o do amor de Deus e hoje sabemos o seu nome: &eacute; o Esp&iacute;rito Santo, o que realiza toda a obra de Deus em favor do seu Povo. O Esp&iacute;rito Santo &eacute; o segredo da ac&ccedil;&atilde;o sacramental. Todos os membros da Igreja s&atilde;o sacerdotes porque s&atilde;o ungidos pelo Esp&iacute;rito Santo. Os sacerdotes s&atilde;o ungidos e consagrados pelo Esp&iacute;rito na sua ordena&ccedil;&atilde;o. E todos sabemos que a fecundidade sacerdotal &eacute; obra do Esp&iacute;rito Santo, a certeza da Igreja de &ldquo;que a Deus nada &eacute; imposs&iacute;vel&rdquo;. Contemplemos a miss&atilde;o de Maria como um sacerd&oacute;cio, em dois momentos da salva&ccedil;&atilde;o a acontecer. Na Anuncia&ccedil;&atilde;o, o Anjo diz a Maria: &ldquo;O Esp&iacute;rito Santo vir&aacute; sobre ti e a for&ccedil;a do Alt&iacute;ssimo te cobrir&aacute; com a Sua sombra&rdquo; (Lc. 1,35). E, na Eucaristia, antes da consagra&ccedil;&atilde;o do P&atilde;o e do Vinho, o sacerdote reza assim: &ldquo;santificai estes dons, derramando sobre eles o vosso Esp&iacute;rito, para que se convertam, para n&oacute;s, no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo&rdquo; (Euc. II). De facto a Deus nada &eacute; imposs&iacute;vel. A ac&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito em Maria prolonga-se na ac&ccedil;&atilde;o da Igreja, no seu poder sacerdotal. O amor de Deus continua a transformar a hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Santu&aacute;rio de F&aacute;tima, 13 de Outubro de 2009<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1 &#8211; P. Trouchou, O Santo Cura d&rsquo;Ars, p. 113<\/p>\n<p>2 &#8211; Manuscrits autobiographiques, Lisieux 1957, pp. 227-229<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Como Maria viveu o Sacerd&oacute;cio do seu Filho, Jesus Cristo&rdquo; &nbsp; 1. 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