{"id":41232,"date":"2009-10-09T16:13:19","date_gmt":"2009-10-09T16:13:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/09\/religiao-e-ciencia\/"},"modified":"2009-10-09T16:13:19","modified_gmt":"2009-10-09T16:13:19","slug":"religiao-e-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/religiao-e-ciencia\/","title":{"rendered":"Religi\u00e3o e Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente no Ciclo \u00abDi\u00e1logos com a Ci\u00eancia\u00bb <!--more--> <\/p>\n<p>&Eacute; geralmente bom come&ccedil;armos por defini&ccedil;&otilde;es assentes sobre os termos de que partimos. Seja assim o caso de hoje:<\/p>\n<p>&ldquo;Religi&atilde;o (do latim religio &ndash; onis). Cren&ccedil;a na exist&ecirc;ncia de um poder superior, do qual o homem depende. [&hellip;] Sistema estruturado de doutrinas, cren&ccedil;as, regras e pr&aacute;ticas de uma determinada comunidade de pessoas que instituem um determinado tipo de rela&ccedil;&atilde;o com um poder superior, sobre-humano&rdquo; (Dicion&aacute;rio da L&iacute;ngua Portuguesa Contempor&acirc;nea da Academia das Ci&ecirc;ncias de Lisboa, vol. 2, p. 3175). &ldquo;Ci&ecirc;ncia (do latim scientia). Conjunto dos conhecimentos exactos, universais e verific&aacute;veis, expressos por meio de leis, que o Homem tem sobre si pr&oacute;prio, sobre a natureza, a sociedade, o pensamento&rdquo; (Ibidem, vol. 1, p. 813).<\/p>\n<p>Sublinhem-se as palavras: da religi&atilde;o diz-se ser cren&ccedil;a, da ci&ecirc;ncia diz-se ser conhecimento exacto, universal e verific&aacute;vel; da religi&atilde;o salienta-se a despropor&ccedil;&atilde;o entre o sujeito e o objecto, entre o homem e o &ldquo;poder superior&rdquo; do qual depende; da ci&ecirc;ncia, a equival&ecirc;ncia entre o homem que conhece e a humanidade que &eacute; conhecida, ou mesmo a superioridade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; natureza observada.<\/p>\n<p>Podemos acrescentar que, dum n&iacute;vel para o outro, sai-se do opin&aacute;vel para o experiment&aacute;vel, diminuindo-se a margem da subjectividade ou do question&aacute;vel. De facto assim parece ser. Mas diminui tamb&eacute;m a liberdade, por se entrar no campo da evid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Caiba aqui um breve percurso hist&oacute;rico. Hoje distinguimos ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o; e acrescento: hoje felizmente distinguimos ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o. Na verdade, seria impens&aacute;vel faz&ecirc;-lo em &eacute;pocas menos desenvolvidas &ndash; digamos j&aacute; menos &ldquo;evolu&iacute;das&rdquo; &#8211; da humanidade, quando tudo era imediatamente sentido e ressentido, acontecido e sofrido.<\/p>\n<p>Nessa altura &ndash; mesmo quando persista ainda hoje &ndash; tudo era sincreticamente assumido, quando a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia era t&atilde;o insegura e sem recuo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s circunst&acirc;ncias previstas e imprevistas. Ainda assim acontece ou pode de repente acontecer, mal estreme&ccedil;am os esquemas habituais de previs&atilde;o e controlo, ou quando estes n&atilde;o tenham come&ccedil;ado sequer.<\/p>\n<p>Costumo lembrar a este prop&oacute;sito o que se passou d&eacute;cadas atr&aacute;s com um colega meu, universit&aacute;rio, num territ&oacute;rio do Pac&iacute;fico. Decidiu ele passar algum tempo com uma tribo nativa, culturalmente &ldquo;contempor&acirc;nea&rdquo; de mil&eacute;nios atr&aacute;s. Estranhou os constantes problemas gastrointestinais de que sofria e morria aquela pequena popula&ccedil;&atilde;o rec&ocirc;ndita e, como europeu do s&eacute;culo XX, procurou a causa observ&aacute;vel do problema. N&atilde;o tardou a descobri-la: a fonte donde vinha a &aacute;gua para a tribo era a mesma onde bebiam &ndash; e n&atilde;o s&oacute; &ndash; os animais da selva envolvente. Deduzida a raz&atilde;o, entrou a t&eacute;cnica, conseguindo improvisar uma separa&ccedil;&atilde;o relativamente s&oacute;lida da &aacute;gua para as pessoas e da &aacute;gua para os animais. Tamb&eacute;m n&atilde;o demoraram as consequ&ecirc;ncias ben&eacute;ficas, diminuindo muito os dist&uacute;rbios da sa&uacute;de da tribo. S&oacute; que tamb&eacute;m n&atilde;o passou muito tempo at&eacute; come&ccedil;ar a sentir desconfian&ccedil;a e hostilidade &agrave; sua volta, por se ter atrevido a tocar e a alterar aquela &ldquo;d&aacute;diva dos deuses&rdquo;, como era considerada a fonte em causa, perturbando o esquema impl&iacute;cito da seguran&ccedil;a da tribo. De tal modo que s&oacute; lhe restou abandonar rapidamente o local, para que n&atilde;o perigasse drasticamente a sua pr&oacute;pria seguran&ccedil;a f&iacute;sica&hellip;<\/p>\n<p>N&atilde;o nos julguemos t&atilde;o afastados assim deste caso e mentalidade, t&atilde;o at&aacute;vicas se manifestam as zonas mais profundas da nossa (in)consci&ecirc;ncia e sensibilidade. Basta-nos ouvir ou folhear notici&aacute;rios correntes para detectarmos situa&ccedil;&otilde;es semelhantes, mesmo na Europa e no nosso Portugal. Importante &eacute; verificar, ainda que rapidamente, como a pouco e pouco conseguimos distinguir campos e ensaiar m&eacute;todos, para percebermos a realidade exterior e interior, sem confundir sectores nem galgar patamares de conhecimento.<\/p>\n<p>Como importante ser&aacute; compreendermos como religi&atilde;o e ci&ecirc;ncia se tornam complementares e interactivas na melhor defini&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca. Como geralmente acontece, o crescimento delas realiza-se como aut&ecirc;ntica &ldquo;crise de crescimento&rdquo;: a afirma&ccedil;&atilde;o da mentalidade cient&iacute;fica exigiu a redefini&ccedil;&atilde;o da esfera religiosa; e a persist&ecirc;ncia da religi&atilde;o, em sucessivas decanta&ccedil;&otilde;es, situou a ci&ecirc;ncia no seu campo espec&iacute;fico, tanto em termos de m&eacute;todo e objecto como em l&uacute;cida auto-limita&ccedil;&atilde;o, para poder prosseguir com seguran&ccedil;a e acerto.<\/p>\n<p>Permiti-me um brev&iacute;ssimo relance sobre o percurso da ci&ecirc;ncia ocidental, como melhor maneira de ilustrar o que vai dito sobre a complementaridade interactiva da religi&atilde;o e da ci&ecirc;ncia:<\/p>\n<p>Com Arist&oacute;teles (s&eacute;c. IV a. C.), acentua-se j&aacute; a aten&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade observ&aacute;vel, da natural &agrave; ps&iacute;quica e social. Tamb&eacute;m &agrave; experi&ecirc;ncia. Sendo ele contempor&acirc;neo de Plat&atilde;o, para quem a realidade era outra e este mundo apenas sombra&hellip; Com os romanos depois, eminentemente pr&aacute;ticos. a ci&ecirc;ncia continuou a ser grega: Galeno, Ptolomeu&hellip; Com os crist&atilde;os tentou-se uma s&iacute;ntese ou manteve-se uma tens&atilde;o: &ldquo;aproveitaram&rdquo; a m&iacute;stica de Plat&atilde;o, mas a incarna&ccedil;&atilde;o levou-os no sentido aristot&eacute;lico.<\/p>\n<p>Terminado o Imp&eacute;rio Romano do Ocidente, guardou-se o saber antigo em igrejas e mosteiros. Desde o s&eacute;culo VII, foi tamb&eacute;m transmitido pelos &aacute;rabes, que entretanto ocuparam a parte oriental do mesmo Imp&eacute;rio e o passaram &agrave; Europa, nomeadamente atrav&eacute;s da Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica (de C&oacute;rdova a Toledo). S&iacute;mbolo desta heran&ccedil;a e transmiss&atilde;o &eacute; Gerberto de Aurillac (+ 1003), um beneditino franc&ecirc;s estudante em Vich (Espanha fronteiri&ccedil;a dos &aacute;rabes) e abade de Bobbio. Foi o papa do ano mil (Silvestre II), matem&aacute;tico e astr&oacute;nomo.<\/p>\n<p>No s&eacute;culo XII e XIII desenvolvem-se as Universidades, geralmente na &oacute;rbita da Igreja, a partir do tr&iacute;vio (gram&aacute;tica, ret&oacute;rica e dial&eacute;tica) e do quadr&iacute;vio (aritm&eacute;tica, geometria, astronomia e m&uacute;sica), presentes na faculdade das &ldquo;artes&rdquo; e proped&ecirc;uticas da Medicina, das Leis e dos C&acirc;nones, bem como da Teologia. Pretendia-se o saber universal e integrado, degrau a degrau, como o tentaram Alberto Magno (+ 1280), &ldquo;Doutor Universal&rdquo;, atento a tudo, qual Arist&oacute;teles crist&atilde;o, e o seu disc&iacute;pulo Tom&aacute;s de Aquino (+ 1274), ou o nosso Pedro Hispano, papa Jo&atilde;o XXI em 1276-1277.<\/p>\n<p>O s&eacute;culo XV assistiu &agrave;s grandes descobertas mar&iacute;timas, que uniram continentes e revelaram a Terra num todo insuspeitado. Mas tais viagens n&atilde;o se fizeram sem grande aten&ccedil;&atilde;o aos astros e tudo isto poria em causa a compreens&atilde;o antiga do lugar do nosso planeta no Universo, bem como a leitura ing&eacute;nua de antigos relatos, mesmo b&iacute;blicos, de incid&ecirc;ncia cosmol&oacute;gica.<\/p>\n<p>Nicolau de Cusa (+ 1464), alem&atilde;o e cardeal, desenvolveu c&aacute;lculos astron&oacute;micos, em que o Sol e a Terra se moviam como os outros corpos celestes (fim do geocentrismo). Como adiantaria depois o polaco Nicolau Cop&eacute;rnico (+ 1543), c&oacute;nego e astr&oacute;nomo: a Terra em movimento e o heliocentrismo. S&atilde;o tentativas e debates internos de homens religiosos e dentro da Igreja, que alargavam conceitos, distinguiam campos e redefiniam a sua f&eacute;. Assim Galileu Galilei, advogando depois a astronomia de Cop&eacute;rnico &#8211; ali&aacute;s n&atilde;o absolutamente comprov&aacute;vel na altura, antes contrariada pela do seu colega e coevo dinamarqu&ecirc;s Tycho Brahe &#8211; e revendo a exegese b&iacute;blica. Ambas as coisas lhe valeram a reprova&ccedil;&atilde;o do Santo Of&iacute;cio romano em 1632. Escutemos a aprecia&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Paulo II, em 1992: &ldquo;A maioria dos te&oacute;logos n&atilde;o percebia a distin&ccedil;&atilde;o formal entre a Sagrada Escritura e a sua interpreta&ccedil;&atilde;o, o que a conduziu a trasladar indevidamente para o &acirc;mbito da doutrina da f&eacute; uma quest&atilde;o de facto pertencente &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica&rdquo;. Outros j&aacute; a entendiam, mesmo nos meios romanos da altura, como o cardeal que diria: &ldquo;a Escritura n&atilde;o nos ensina como &eacute; o c&eacute;u, mas como havemos de ir para o C&eacute;u&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, cientistas jesu&iacute;tas como Cl&aacute;vio e Ricci acertavam o tempo e unificavam o mapa terrestre. Em 1582, Cl&aacute;vio ajustou o ano civil ao solar, muito desgarrados que j&aacute; estavam no calend&aacute;rio juliano. E Ricci fez em Nankin o &ldquo;mapa dos 10 000 reinos&rdquo;, em 1599. Ali&aacute;s, sucederam-se os sacerdotes cat&oacute;licos no desenvolvimento da ci&ecirc;ncia moderna, como Gassendi, franc&ecirc;s (+ 1655), astr&oacute;nomo, estudando a aurora boreal em 1621 e tamb&eacute;m os sat&eacute;lites de J&uacute;piter, esbo&ccedil;ando at&eacute; um &ldquo;princ&iacute;pio de relatividade&rdquo;, medindo a velocidade do som no ar, teorizando sobre os &aacute;tomos&hellip; Ou Mariotte, igualmente franc&ecirc;s (+ 1684), descobrindo como Boyle a rela&ccedil;&atilde;o entre o volume e a press&atilde;o dos gases, ou escrevendo a mais not&aacute;vel obra de fisiologia vegetal do s&eacute;culo XVII sobre a seiva, a nutri&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento das plantas.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o faltaram sacerdotes cientistas no s&eacute;culo do Iluminismo, como o escol&aacute;pio italiano Beccaria (+ 1781), da Universidade de Turim, que, segundo o seu coevo Priestley &ldquo;superou amplamente tudo o que tinham feito os especialistas da electricidade, franceses e ingleses&rdquo; e foi muito admirado por Franklin, que o fez traduzir em ingl&ecirc;s. Incluindo, na aplica&ccedil;&atilde;o taxin&oacute;mica, o nosso jesu&iacute;ta Jo&atilde;o Loureiro (+ 1791), que divulgou a flora da Cochinchina, como o seu confrade Ant&oacute;nio Cordeiro a das ilhas a&ccedil;orianas. (Lembre-se a prop&oacute;sito que a aplica&ccedil;&atilde;o dos s&aacute;bios jesu&iacute;tas no campo das ci&ecirc;ncias naturais se concretizaria entre n&oacute;s, no princ&iacute;pio do s&eacute;culo XX, com a revista Brot&eacute;ria, 1&ordf; s&eacute;rie, a partir do col&eacute;gio de S. Fiel (Beira Baixa), que Egas Monis frequentou em jovem e elogiaria mais tarde.) E foi em meados do s&eacute;culo XVIII, que o padre oratoriano Verney escreveu o seu &ldquo;verdadeiro m&eacute;todo de estudar&rdquo;, com a sistematiza&ccedil;&atilde;o moderna dos saberes e dos processos respectivos.<\/p>\n<p>Assim se caminhara, entre dificuldades de v&aacute;ria ordem, passando-se da historicidade humana, a pouco e pouco concebida, &agrave; temporalidade alargada da pr&oacute;pria natureza. Quando as revolu&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas puseram drasticamente em causa os quadros s&oacute;cio-pol&iacute;ticos imemoriais, as descobertas cient&iacute;ficas requereram igualmente um novo relacionamento do homem com o espa&ccedil;o e o tempo, ambos imensamente alargados.<\/p>\n<p>Nos s&eacute;culos XIX e XX n&atilde;o faltaram cientistas crentes, de Amp&egrave;re (electricidade) a Marconi (r&aacute;dio); nem escassearam sacerdotes cientistas, de Mendel (+ 1884), cujas leis da hereditariedade tanto complementaram a teoria evolucionista de Darwin, a George Lema&icirc;tre, astrof&iacute;sico e matem&aacute;tico belga que em 1927 avan&ccedil;ou a hip&oacute;tese do &ldquo;Big Bang&rdquo;, a explos&atilde;o inicial do Universo, ou a Teilhard de Chardin (+ 1955), que na evolu&ccedil;&atilde;o do universo distinguiu o crescimento da consci&ecirc;ncia humana, em complexifica&ccedil;&atilde;o e liberdade crescentes, rumo a um ponto &Oacute;mega t&atilde;o entrevisto como atractivo. Ali&aacute;s, o s&eacute;culo XX portugu&ecirc;s, em termos cient&iacute;ficos, quase come&ccedil;ou com a consagra&ccedil;&atilde;o internacional do nosso f&iacute;sico Pe. Manuel Himalaia (+ 1933), Grande Pr&eacute;mio da Exposi&ccedil;&atilde;o Universal de S. Lu&iacute;s em 1904; e contou, na segunda metade, com a actividade pioneira do Pe. Lu&iacute;s Archer, ainda felizmente entre n&oacute;s, no campo da biologia e da gen&eacute;tica molecular.<\/p>\n<p>Diremos, quase a concluir, que a rela&ccedil;&atilde;o entre religi&atilde;o e ci&ecirc;ncia n&atilde;o se pode considerar extr&iacute;nseca, pois coexiste num &uacute;nico ser humano, que vive e sobrevive, sofre e reage, persiste e cria. Por isso mesmo, a consci&ecirc;ncia de si e o sentido que d&aacute; a exist&ecirc;ncia pessoal e colectiva, se est&atilde;o profundamente ligados &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es materiais e sociais coet&acirc;neas, excedem as circunst&acirc;ncias por partirem de &ldquo;antes&rdquo; ou &ldquo;de dentro&rdquo; delas. A&iacute; sondaremos o que as religi&otilde;es nos lembram, sem substituir a materialidade em que a vida acontece. Mantendo este equil&iacute;brio, nenhum rev&eacute;s nos far&aacute; desistir do futuro. Da parte da Igreja Cat&oacute;lica, retomo as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&ldquo;O Magist&eacute;rio da Igreja est&aacute; directamente interessado pela quest&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o, pois ela se refere &agrave; concep&ccedil;&atilde;o do homem [&hellip;]. A considera&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo utilizado nas diversas ordens do saber permite harmonizar dois pontos de vista, que pareceriam inconcili&aacute;veis. As ci&ecirc;ncias da observa&ccedil;&atilde;o descrevem e medem, de modo cada vez mais preciso, as m&uacute;ltiplas manifesta&ccedil;&otilde;es da vida e inscrevem-nas na linha do tempo [&hellip;]. Mas a experi&ecirc;ncia do saber metaf&iacute;sico, da consci&ecirc;ncia de si e da sua reflexividade, a da consci&ecirc;ncia moral, a da liberdade, ou ainda a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica e religiosa, s&atilde;o da compet&ecirc;ncia da an&aacute;lise e da reflex&atilde;o filos&oacute;ficas, ainda que a teologia esclare&ccedil;a o seu sentido &uacute;ltimo segundo os des&iacute;gnios do Criador&rdquo; (Jo&atilde;o Paulo II, 22 de Outubro de 1996).<\/p>\n<p>Como se afirmasse, em chave b&iacute;blica, a radical distin&ccedil;&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao Criador, por iniciativa do pr&oacute;prio Deus, ecoando um sugestivo vers&iacute;culo (2 Mac 7, 28): &ldquo;Suplico-te, meu filho, que contemples o c&eacute;u e a terra. Reflecte bem: o que v&ecirc;s, Deus o criou do nada, assim como a todos os homens&rdquo;. Distin&ccedil;&atilde;o que nos situa, como cria&ccedil;&atilde;o, &ldquo;fora&rdquo; de Deus e certamente encarregados do futuro humano e c&oacute;smico at&eacute;. Mas que, em sentido propriamente religioso, nos leva a sondar a inten&ccedil;&atilde;o divina, que nos cria para a reciprocidade humano-divina, t&atilde;o livre como respons&aacute;vel. O crist&atilde;o ver&aacute; na vida de Jesus de Nazar&eacute; a realiza&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica de tal reciprocidade e procurar&aacute;, tamb&eacute;m neste ponto, respeitar &ldquo;o que &eacute; de C&eacute;sar e o que &eacute; de Deus&rdquo;. Isto &eacute;, respeitar o mundo como mundo, na compreens&atilde;o e progresso do seu dinamismo intr&iacute;nseco, e n&atilde;o perder nunca o sentido das coisas, como partilha universal da vida recebida, respeitada e potenciada, quer em termos pessoais e inter-pessoais, quer na dimens&atilde;o ecol&oacute;gica geral.<\/p>\n<p>Termino com as estimulantes palavras de John F. Haught, te&oacute;logo e professor da Universidade de Georgetown, num livro dedicado &agrave; oportun&iacute;ssima tem&aacute;tica da rela&ccedil;&atilde;o entre cristianismo e evolucionismo:<\/p>\n<p>&ldquo;Depois de Darwin, a reden&ccedil;&atilde;o &eacute; melhor entendida como S&atilde;o Paulo a entendeu: como nova cria&ccedil;&atilde;o. A nossa esperan&ccedil;a &eacute; de uma renova&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o de todo o cosmos, n&atilde;o apenas a salva&ccedil;&atilde;o das nossas almas individuais. [&hellip;] A perspectiva evolucionista da natureza sugere que, de algum modo, Deus quer que o mundo &lsquo;se torne ele pr&oacute;prio&rsquo;. &Agrave; medida que o Amor divino Se entrega a Si mesmo &agrave; cria&ccedil;&atilde;o, a independ&ecirc;ncia e a liberdade do mundo n&atilde;o diminuem, mas antes se consolidam. E quando os seres humanos surgem nesta hist&oacute;ria incrivelmente fascinante, a evolu&ccedil;&atilde;o passa a estar dotada de uma liberdade e de uma consci&ecirc;ncia sem precedentes. Mas esta liberdade traz consigo uma capacidade para o pecado. A f&eacute; em Deus, por&eacute;m, implica a f&eacute; na reden&ccedil;&atilde;o. O mal, o sofrimento e o pecado podem ser vencidos pela nova cria&ccedil;&atilde;o&rdquo; (John F. Haught, Cristianismo e evolucionismo em 101 perguntas e respostas, Lisboa, Gradiva, 2009, p. 216-217).<\/p>\n<p>Quem cr&ecirc; na P&aacute;scoa de Jesus, encontra nela a profecia inabal&aacute;vel duma P&aacute;scoa universal. E com essa f&eacute; se une inteiramente aos esfor&ccedil;os de crentes e n&atilde;o crentes para alimentar a esperan&ccedil;a da humanidade, respeitando tudo quanto a ci&ecirc;ncia vai descortinando e desenvolvendo das potencialidades intr&iacute;nsecas do mundo.&nbsp;<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/em><\/p>\n<p>(Interven&ccedil;&atilde;o no Ciclo de Confer&ecirc;ncias &ldquo;Di&aacute;logos com a Ci&ecirc;ncia&rdquo;, Reitoria da Universidade do Porto, 8 de Outubro de 2009)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de D. 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