{"id":41225,"date":"2009-10-09T15:08:01","date_gmt":"2009-10-09T15:08:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/09\/monaquismo-e-peregrinacao\/"},"modified":"2009-10-09T15:08:01","modified_gmt":"2009-10-09T15:08:01","slug":"monaquismo-e-peregrinacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/monaquismo-e-peregrinacao\/","title":{"rendered":"Monaquismo e peregrina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, Bispo do Porto <!--more--> <\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Os mosteiros nasceram para se peregrinar dentro de si.<\/span> A grande afirma&ccedil;&atilde;o dos primeiros monges foi a duma vida que n&atilde;o se resolvia nas circunst&acirc;ncias externas, como se, por exemplo, a interrup&ccedil;&atilde;o ou o fim das persegui&ccedil;&otilde;es romanas dispensasse a dimens&atilde;o martirial do Cristianismo. O caminho que Jesus &eacute; nunca mais acaba, porque o seu horizonte &eacute; t&atilde;o infindo como Deus Pai: &ldquo;Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ningu&eacute;m pode ir at&eacute; ao Pai sen&atilde;o por mim&rdquo; (<em>Jo<\/em> 14, 6).<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">No Cristianismo a primeira verdade oferecida &eacute; a da filia&ccedil;&atilde;o<\/span>: &eacute; como Filho de Deus que Jesus se apresenta e assim mesmo o v&atilde;o descobrindo os outros. N&atilde;o apenas como mais um mestre ou um homem extraordin&aacute;rio; sendo-o tamb&eacute;m, como referem os Evangelhos (mestre e extraordin&aacute;rio), a sua revela&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica incide precisamente na filia&ccedil;&atilde;o divina.<\/p>\n<p>&#8211; E em que sentido? Importa elucid&aacute;-lo tamb&eacute;m, porque a express&atilde;o &ldquo;Filho de Deus&rdquo; n&atilde;o se utilizou apenas em rela&ccedil;&atilde;o a Jesus. Dos fara&oacute;s eg&iacute;pcios aos imperadores romanos diziam-se coisas semelhantes, para inculcar nos povos uma rever&ecirc;ncia acrescida e porque os povos mantinham uma concep&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica ou religiosa do poder.<\/p>\n<p>Obviamente, nada disto se aplicava a Jesus de Nazar&eacute;, que rejeitava qualquer apropria&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da sua pessoa e se manifestava, neste cap&iacute;tulo, como um completo n&atilde;o-poder. Tamb&eacute;m como n&atilde;o-apar&ecirc;ncia, na acep&ccedil;&atilde;o ostensiva do termo (cf. <em>Mt<\/em> 4, 1 ss: a sua resist&ecirc;ncia &agrave; tripla tenta&ccedil;&atilde;o do ter, do parecer e do poder).<\/p>\n<p>Ultrapassando mesmo as compreens&iacute;veis expectativas prof&eacute;ticas e messi&acirc;nicas, Jesus revela-se &ldquo;Filho de Deus&rdquo; no sentido mais radical e &iacute;ntimo do termo. Refere ao &ldquo;Pai&rdquo; tudo quanto diz e faz; tem na rela&ccedil;&atilde;o com Ele a sua const&acirc;ncia, o seu segredo e a sua alegria; e dessa liga&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima e permanente pode concluir que quem o v&ecirc;, v&ecirc; o Pai (cf. <em>Jo<\/em> 14, 9). Porque ele e o Pai s&atilde;o um s&oacute; (cf. <em>Jo<\/em> 10, 30). A vida que recebe do Pai e inteiramente lhe devolve &eacute; outro nome do Esp&iacute;rito: Esp&iacute;rito de filia&ccedil;&atilde;o, precisamente, em que nos faz participar tamb&eacute;m (cf. <em>Rm<\/em> 8, 14 ss).<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Por isso chamei ao monaquismo crist&atilde;o uma &ldquo;peregrina&ccedil;&atilde;o dentro de si&rdquo;<\/span>. Diferentemente &ndash; muito diferentemente &ndash; doutros monaquismos anteriores ou posteriores, dos extremo-orientais a todos os tipos do gnose, n&atilde;o &eacute; no registo &ldquo;psicol&oacute;gico&rdquo; que o encontramos, qual exerc&iacute;cio de apaziguamento de paix&otilde;es ou de supera&ccedil;&atilde;o dos medos (de sofrer, de perder, de morrer&hellip;). Poder&aacute; incluir algo duma ou outra coisa, mas, quando aut&ecirc;ntico, o monaquismo crist&atilde;o &eacute; essencialmente a viv&ecirc;ncia insistente da filia&ccedil;&atilde;o divina, no Esp&iacute;rito de Cristo. Define-se como viv&ecirc;ncia baptismal absoluta.<\/p>\n<p>De peregrina&ccedil;&atilde;o se trata, porque responde ao convite de seguimento que o pr&oacute;prio Jesus continua a fazer (cf. <em>Mt<\/em> 19, 21). Peregrina&ccedil;&atilde;o que, podendo implicar mudan&ccedil;as externas e geogr&aacute;ficas, n&atilde;o tem nelas o seu fulcro, mas apenas a express&atilde;o ocasional.<\/p>\n<p>Valha, como inaugural de tantas outras, a hist&oacute;ria de Ant&atilde;o, pai do monaquismo crist&atilde;o, como a viveu no Egipto dos s&eacute;culos III e IV. Para seguir o apelo evang&eacute;lico, distribuiu quanto o prendia &agrave; vida habitual e dedicou-se inteiramente ao di&aacute;logo &iacute;ntimo ou rezado com o Pai, feito de escuta sem disson&acirc;ncias, resumindo-se nessa atitude, de jovem a anci&atilde;o. A ser, no Esp&iacute;rito de Cristo, filho de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Como sabemos, n&atilde;o tardou que esta dimens&atilde;o &iacute;ntima do monaquismo se alargasse como acolhimento e entreajuda fraterna<\/span>, quer em rela&ccedil;&atilde;o aos que procuravam os monges, para ajuda ou conselho, quer entre os pr&oacute;prios monges, que se juntavam sob a direc&ccedil;&atilde;o dum &ldquo;abade&rdquo; mais experiente ou carism&aacute;tico. Assim se uniram monaquismo anacor&eacute;tico (solit&aacute;rio) e cenob&iacute;tico (comunit&aacute;rio), do Oriente para o Ocidente.<\/p>\n<p>No Ocidente, entre outras express&otilde;es anteriores e coevas, desenvolveu-se particularmente o monaquismo beneditino, a partir do s&eacute;culo VI, trazendo a esta demanda espiritual a conota&ccedil;&atilde;o &ldquo;romana&rdquo; do equil&iacute;brio entre as v&aacute;rias dimens&otilde;es da vida filial e fraterna. Repartia a ocupa&ccedil;&atilde;o espiritual e corporal pelo amanho da terra e a sustenta&ccedil;&atilde;o da comunidade e dos h&oacute;spedes, a vida intelectual que possibilitava a leitura b&iacute;blica e o respectivo coment&aacute;rio e a ora&ccedil;&atilde;o pessoal e lit&uacute;rgica, que tudo alimentava e coroava.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, foi esta a tradi&ccedil;&atilde;o mon&aacute;stica que se imp&ocirc;s no Ocidente, consentindo ali&aacute;s sucessivas especifica&ccedil;&otilde;es, como a cluniacense no s&eacute;culo X e a cisterciense no final do seguinte.<\/p>\n<p>E sucedeu que, sendo sinais activos duma demanda &iacute;ntima, exercitando tamb&eacute;m a hospitalidade permanente, muitos mosteiros se tornaram ponto de paragem ou atrac&ccedil;&atilde;o de peregrina&ccedil;&otilde;es exteriores, activas ou reactivadas, como acontece agora. E certamente que interpelaram e interpelam muitos peregrinos em rela&ccedil;&atilde;o a um caminho que tem dentro de cada pessoa as suas fronteiras decisivas.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">E tamb&eacute;m parece que os mosteiros encontrar&atilde;o aqui uma particular voca&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea<\/span>, quer como comunidades hospitaleiras para quem procura outra qualidade de paz e precisa de (re)descobrir a dimens&atilde;o orante e solid&aacute;ria da exist&ecirc;ncia, quer dando &agrave;s nossa cidades a alma que lhes falta. S&atilde;o muito assinal&aacute;veis, por exemplo, algumas (novas) comunidades que se estabelecem em grandes cidades &ndash; verdadeiros &ldquo;desertos&rdquo; hoje em dia &ndash; quais o&aacute;sis de hospitalidade e ora&ccedil;&atilde;o. A&iacute; mesmo, onde a peregrina&ccedil;&atilde;o se interioriza e passa a significar a pr&oacute;pria vida, filial e fraterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>D. Manuel Clemente<\/em><\/p>\n<p>(Interven&ccedil;&atilde;o no IV Congresso Internacional sobre Cister em Portugal e na Galiza, Braga, 2 de Outubro de 2009)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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