{"id":411425,"date":"2026-02-06T16:06:22","date_gmt":"2026-02-06T16:06:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=411425"},"modified":"2026-02-06T16:06:22","modified_gmt":"2026-02-06T16:06:22","slug":"votar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/votar\/","title":{"rendered":"Votar"},"content":{"rendered":"<p><em>Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-207515 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/isabel-figueiredo.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Filha de um militar, andei por \u00c1frica em crian\u00e7a. Ainda me lembro do cheiro da terra molhada, do verde intenso das \u00e1rvores, do branco dos campos de algod\u00e3o. Das noites quentes, da areia que nos escaldava os p\u00e9s, em praias desertas e belas. Ainda me lembro dos mercados, das pessoas, de uma outra forma de viver que me prende a mem\u00f3ria e me provoca uma saudade dif\u00edcil de explicar.<\/p>\n<p>\u00c9ramos crian\u00e7as sem medos, mas sentimos a alegria da revolu\u00e7\u00e3o, quando a vida se tornou normal, porque o pai j\u00e1 n\u00e3o ia para a guerra, porque \u00edamos viver, para sempre, na mesma casa\u2026 a no\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es do fim de uma ditadura, assim como dos direitos da democracia, demorou tempo. O tempo da adolesc\u00eancia que nos atravessava o corpo e o cora\u00e7\u00e3o, deixava-nos longe da vida politica.<\/p>\n<p>Quando chegou a idade de votar, senti e continuo a sentir-me muito grata. Porque me senti e sinto, livre. Livre para exercer um direito de escolha, um direito que tem implica\u00e7\u00f5es na minha vida e na vida de todos, um direito que me obriga a pensar, a confrontar, a optar. Talvez por ter crescido muito marcada pela consci\u00eancia dos deveres, n\u00e3o foi complicado, nem dif\u00edcil, nem estranho, perceber que este direito era igualmente um dever. Se tantos homens e mulheres tinham lutado por esta liberdade, como n\u00e3o me sentir grata e devedora de cumprir a minha parte?!<\/p>\n<p>Tive ent\u00e3o a fase em que discutia com veem\u00eancia cada elei\u00e7\u00e3o, em que ia de transportes p\u00fablicos aos com\u00edcios, orgulhosa das minhas escolhas; escolhas e opini\u00f5es defendidas com o ardor e alegria, quando sentia que conseguia fazer vingar a minha op\u00e7\u00e3o, e com l\u00e1grimas e zangas quando perdia uma discuss\u00e3o. Era tudo muito intenso, gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>Mais tarde, a vida afastou-me destas discuss\u00f5es acesas, deste interesse pelo exerc\u00edcio da politica. Fui tendo as minhas ilus\u00f5es e desilus\u00f5es, mas nunca deixei de votar. Tal como nunca deixei de me sentir grata por vivermos em democracia, em liberdade.<\/p>\n<p>A minha F\u00e9 tamb\u00e9m foi um caminho, passo a passo com o que lia, pensava e rezava. Sempre me senti como parte de um todo imenso, onde a l\u00edngua que falamos, a cor da pele que temos, os estudos que fizemos, a casa onde vivemos, n\u00e3o s\u00e3o identit\u00e1rios, nem segregadores. A F\u00e9 que professamos n\u00e3o escolhe, n\u00e3o nos arruma em caixas e caixinhas, n\u00e3o nos separa, n\u00e3o nos diminui nem nos eleva. Somos Filhos de Deus, irm\u00e3os em Cristo, homens e mulheres, crian\u00e7as e jovens, ricos e pobres, doentes e saud\u00e1veis, analfabetos e letrados. A todos \u00e9 poss\u00edvel tocar o mist\u00e9rio do Amor de Deus por cada um de n\u00f3s. Esta grandeza atrai-me, seduz-me, encanta-me. Esta descoberta de nos sabermos amados, todos amados, surpreende-me, consola-me, inquieta-me. At\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O cruzamento entre o meu direito e dever de votar e a viv\u00eancia da minha F\u00e9 foi e \u00e9 inevit\u00e1vel. Acredito que assim aconte\u00e7a com milhares e milhares de crentes, assim aprendi com a Doutrina Social da Igreja que a todos insere na vida, de uma forma extraordin\u00e1ria, porque nova e inspiradora. E procurei ir respondendo, consciente de que era chamada a cumprir o meu dever c\u00edvico, o meu direito enquanto pessoa livre.<\/p>\n<p>Sempre considerei que a luta partid\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1ria, faz parte, \u00e9 um desafio saud\u00e1vel da conquista e do exerc\u00edcio da democracia. Mas quando a luta partid\u00e1ria nos revela gente sempre pronta a atacar, a lan\u00e7ar lama, a mentir sem receio, a falar mais alto, a aproveitar-se do conforto de quem fala sem ter de prestar contas do que faz ou n\u00e3o faz, quando a democracia permite este n\u00edvel de luta partid\u00e1ria, algo est\u00e1 errado. Quando a luta partid\u00e1ria invoca a F\u00e9 como componente identit\u00e1rio e o desalento como elemento agregador algo est\u00e1 muito errado.<\/p>\n<p>Quem ganha elei\u00e7\u00f5es governa. Quem perde elei\u00e7\u00f5es, pode e deve escrutinar o trabalho de quem governa, mas tem de ser capaz de sobrepor o interesse da maioria dos cidad\u00e3os aos seus interesses partid\u00e1rios. O que tem de implicar outra forma de estar na Assembleia da Rep\u00fablica, outra forma de fazer oposi\u00e7\u00e3o, outra forma de estar na politica.<\/p>\n<p>Precisamos de estar atentos \u00e0 quest\u00e3o do aproveitamento na vida politica. Todos sabemos que o aproveitamento dos outros se faz de muitas formas erradas e desonestas intelectualmente. Tamb\u00e9m vimos como o aproveitamento de uma cat\u00e1strofe, se faz \u00e0 luz do dia, sem vergonha, nem pudor. O aproveitamento da F\u00e9, custa mais a reconhecer. Mas tamb\u00e9m se faz.<\/p>\n<p>Perante a atualidade imprevista e dram\u00e1tica \u00e9 injusto sermos incapazes de reconhecer o esfor\u00e7o de quem governa, o valor dos outros. Tal como \u00e9 essencial reconhecer que a consci\u00eancia dos limites \u2013 nas palavras e nas a\u00e7\u00f5es &#8211; \u00e9 um bem maior na vida pessoal de cada um de n\u00f3s e na vida em sociedade.<\/p>\n<p>Domingo somos chamados a votar. Um direito e um dever. Que nos pede consci\u00eancia, discernimento e coer\u00eancia. O pa\u00eds que somos \u00e9 muito mais do que um campo de batalha politica.<\/p>\n<p><em>Isabel Figueiredo<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207515,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-411425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=411425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/207515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=411425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=411425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=411425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}