{"id":409830,"date":"2026-02-01T09:30:21","date_gmt":"2026-02-01T09:30:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=409830"},"modified":"2026-01-29T18:44:27","modified_gmt":"2026-01-29T18:44:27","slug":"mocambique-muitas-pessoas-ficaram-tres-dias-em-cima-de-arvores-para-sobreviver-carlos-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mocambique-muitas-pessoas-ficaram-tres-dias-em-cima-de-arvores-para-sobreviver-carlos-almeida\/","title":{"rendered":"Mo\u00e7ambique: \u00abMuitas pessoas ficaram tr\u00eas dias em cima de \u00e1rvores para sobreviver\u00bb &#8211; Carlos Almeida"},"content":{"rendered":"<p><em>A dimens\u00e3o da trag\u00e9dia em Mo\u00e7ambique ganhou ainda mais visibilidade depois de o Papa Le\u00e3o XVI se ter referido, na \u00faltima audi\u00eancia geral, \u00e0s v\u00edtimas das inunda\u00e7\u00f5es devastadoras. Na sua \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o, Mo\u00e7ambique aponta para 644 milh\u00f5es de d\u00f3lares de preju\u00edzos provocados pelas cheias, nomeadamente ao n\u00edvel de infraestruturas destru\u00eddas e afetadas pelas inunda\u00e7\u00f5es. As prov\u00edncias de Maputo, Sofala e Gaza s\u00e3o as mais afetadas e a Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Governamental Helpo, com interven\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique desde 2008, j\u00e1 lan\u00e7ou um plano de a\u00e7\u00e3o para apoio \u00e0s v\u00edtimas das cheias nas \u00e1reas geogr\u00e1ficas onde trabalha na prov\u00edncia de Maputo.\u00a0 Carlos Almeida, Coordenador Nacional da HELPO em Mo\u00e7ambique, \u00e9 o convidado deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_409796\" aria-describedby=\"caption-attachment-409796\" style=\"width: 1600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-409796 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1200\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41.jpeg 1600w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41-373x280.jpeg 373w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-11.58.41-1536x1152.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-409796\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Carlos Almeida\/Helpo<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>A HELPO tem o seu foco principal na educa\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 vamos a essa quest\u00e3o, mas antes queria que a partir do terreno e dos locais por onde passou nos \u00faltimos dias nos pudesse descrever a atual situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Efetivamente, a HELPO tem o seu foco sempre na educa\u00e7\u00e3o, apesar de tamb\u00e9m termos projetos na \u00e1rea da nutri\u00e7\u00e3o materno-infantil e, na verdade, nesta situa\u00e7\u00e3o das cheias, a interven\u00e7\u00e3o que estamos a ter \u00e9 numa das zonas menos afetadas, ou seja, n\u00f3s estamos a focar a nossa interven\u00e7\u00e3o apenas na cidade de Maputo. E quando dizemos que s\u00e3o as zonas menos afetadas n\u00e3o significa que nestes jovens estudantes e nas suas fam\u00edlias este impacto n\u00e3o seja devastador.<\/p>\n<p>Por exemplo, aquilo que n\u00f3s decidimos fazer, que tamb\u00e9m tem a ver um bocadinho com a gest\u00e3o dos poucos fundos que temos dispon\u00edveis neste momento para estas situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, foi contactar os 1.034 benefici\u00e1rios que est\u00e3o na cidade de Maputo. \u00a0A maior parte deles s\u00e3o bolseiros do ensino secund\u00e1rio, 34 s\u00e3o bolseiros do ensino superior e n\u00f3s contact\u00e1mos todos aqueles que conseguimos. Alguns n\u00e3o conseguimos fazer esta liga\u00e7\u00e3o, mas conseguimos perceber que sete deles perderam as suas casas; s\u00e3o casas de constru\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, que com as chuvas e com as inunda\u00e7\u00f5es acabam por cair. Muitos deles tiveram dificuldades menores, mas mesmo as dificuldades menores criam um impacto muito grande nas suas vidas. Por exemplo, ficar v\u00e1rios dias com \u00e1gua \u00e0 altura da canela significa ter a mob\u00edlia toda destru\u00edda, ter que dormir em cima de mesas. As pessoas tiveram mesmo dramas muito grandes e a nossa consci\u00eancia tamb\u00e9m nos diz que estas n\u00e3o s\u00e3o as pessoas mais afetadas, porque na realidade, sobretudo na regi\u00e3o de Gaza, na prov\u00edncia de Gaza, cuja capital \u00e9 Xai-Xai, o drama \u00e9 muito maior, temos ainda informa\u00e7\u00f5es de pessoas que est\u00e3o em cima de \u00e1rvores, em cima de casas, com enormes dificuldades e a\u00ed o drama \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p>Eu esta manh\u00e3 ouvi que a \u00e1rea que est\u00e1 inundada em Mo\u00e7ambique s\u00e3o 10 mil quil\u00f3metros quadrados e para n\u00f3s termos um bocadinho no\u00e7\u00e3o do que isto \u00e9, significa duas vezes a \u00e1rea total do Algarve, s\u00e3o as \u00e1reas que est\u00e3o inundadas. Ontem tamb\u00e9m ouvi outro n\u00famero, que \u00e9 um dado importante, que o n\u00famero de quil\u00f3metros de estradas que est\u00e3o inundadas ultrapassa os mil quil\u00f3metros, creio que s\u00e3o mil e trezentos quil\u00f3metros de estradas que est\u00e3o inundadas, inclusive a estrada nacional n\u00famero um, que \u00e9 a coluna vertebral do pa\u00eds, e que est\u00e1 cortada e prev\u00ea-se que a sua reabilita\u00e7\u00e3o ainda demore duas semanas, ou seja, o pa\u00eds neste momento est\u00e1 todo a sofrer com este problema muito grande no sul. Por isso n\u00f3s j\u00e1 estamos habituados, infelizmente, em Mo\u00e7ambique, a lidar com estes fen\u00f3menos clim\u00e1ticos, nos anos anteriores, e sobretudo no ano passado foi extremamente devastador aqui no norte de Mo\u00e7ambique, com tr\u00eas ciclones muito grandes, em Nampula e em Cabo Delgado. Este ano ainda n\u00e3o tivemos nenhum problema com ciclones, mas as cheias no Sul est\u00e3o a ser dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As autoridades e algumas institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil e eclesial t\u00eam alertado para a possibilidade de o pior ainda estar para vir, porque muitas das culturas foram agora destru\u00eddas por estas cheias. \u00c9 mesmo um problema acrescido? Sei que teve oportunidade de sobrevoar a regi\u00e3o mais afetada nas \u00faltimas horas, e pode talvez at\u00e9 descrever-nos aquilo que viu?<\/em><\/p>\n<p>Sim, realmente \u00e9 arrepiante, apercebermo-nos de que, quando estamos a sobrevoar esta regi\u00e3o de Gaza, nos arredores de Xai-Xai, nesta bacia hidrogr\u00e1fica do rio Limpopo, apercebermo-nos de que aquilo que normalmente \u00e9 um rio, neste momento \u00e9 uma lagoa gigantesca. Isso tem repercuss\u00f5es dram\u00e1ticas na vida destas pessoas para todo o ano, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 agora neste momento ter perdido tudo e estar numa situa\u00e7\u00e3o de grande fragilidade, \u00e9 na verdade o futuro pr\u00f3ximo que est\u00e1 hipotecado porque as suas terras, que permitem a sua sobreviv\u00eancia, est\u00e3o debaixo de \u00e1gua e vamos ter problemas muito grandes.\u00a0Ainda h\u00e1 um outro problema que ciclicamente se fala, mas felizmente at\u00e9 ao momento ainda s\u00e3o s\u00f3 boatos, que \u00e9 o facto de a montante dos rios, as barragens na \u00c1frica do Sul estarem no limiar das suas capacidades e j\u00e1 se falou da possibilidade de uma rutura de uma barragem na \u00c1frica do Sul, mais a sul, cujos rios passam em Ressano Garcia, e h\u00e1 esse receio tamb\u00e9m de haver colapso das barragens e isso vir a provocar ainda mais dramas. Depois brevemente vamos falar de outras quest\u00f5es ligadas a outras doen\u00e7as, como por exemplo a c\u00f3lera, que sempre que h\u00e1 \u00e1guas estagnadas sabemos que h\u00e1 problemas muito grandes. Por isso os dramas das cheias n\u00e3o se ficam s\u00f3 por este momento; infelizmente ainda se v\u00e3o prolongar no tempo, certamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem tido a oportunidade de falar de situa\u00e7\u00f5es no passado, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a primeira situa\u00e7\u00e3o que acompanha em Mo\u00e7ambique com este tipo de cat\u00e1strofe natural, e pergunto em rela\u00e7\u00e3o a acontecimentos anteriores, que foram tamb\u00e9m muito impactantes, h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o no pa\u00eds em n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o e da minimiza\u00e7\u00e3o do impacto?<\/em><\/p>\n<p>Sim, o Instituto Nacional para a Gest\u00e3o do Risco de Desastres (INGD) est\u00e1 a trabalhar muito melhor do que estava h\u00e1 alguns anos, em primeiro lugar na preven\u00e7\u00e3o. N\u00f3s inclusive a HELPO teve um projeto, e que est\u00e1 neste momento a finalizar, em parceria com o INGD de Nampula, e por isso estamos bem por dentro destes processos. O nosso papel nesse projeto, que era financiado pelo Instituto Cam\u00f5es, pelo Estado portugu\u00eas, era de apoiar o INGD na forma\u00e7\u00e3o dos comit\u00e9s locais, ou seja, a comunica\u00e7\u00e3o funciona em dois sentidos, a n\u00edvel central s\u00e3o lan\u00e7ados estes avisos, e neste momento funcionam avisos por SMS, por WhatsApp, as pessoas recebem avisos constantes, e neste momento est\u00e3o alerta para estas situa\u00e7\u00f5es, no passado n\u00e3o foi assim, recordo-me perfeitamente quando em 2019 os avisos que foram feitos em rela\u00e7\u00e3o ao evento do Ciclone Idai foram, por grande parte da popula\u00e7\u00e3o foram ignorados, e hoje em dia as pessoas n\u00e3o ignoram esses avisos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 est\u00e3o mais recetivas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, s\u00e3o completamente recetivas, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o INGD est\u00e1 a trabalhar muito melhor nestas capacita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas ainda assim, Carlos, este tipo de fen\u00f3menos precipita por vezes a descoordena\u00e7\u00e3o. Ao n\u00edvel do Estado s\u00e3o vis\u00edveis essas melhorias?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim, mas permita-me sublinhar que n\u00f3s n\u00e3o estamos a trabalhar nas zonas mais necessitadas, por isso na pr\u00e1tica neste momento n\u00e3o estamos a acompanhar, mas aquilo que vimos do passado, por exemplo, no ano passado os tr\u00eas ciclones que aconteceram aqui no norte do pa\u00eds, pudemos apercebermos que a capacidade de resposta melhorou. Eu recordo-me sempre que quando acontecem estes eventos grav\u00edssimos, e recordo-me sempre que, salvo erro, em 2006 o Katrina atingiu New Orleans, nos Estados Unidos, e o drama foi gigantesco, e a resposta n\u00e3o foi boa. Quando n\u00f3s esperamos de um pa\u00eds como os Estados Unidos, que as coisas funcionem bem, os problemas est\u00e3o sempre \u00e0 porta. Agora, o INGD est\u00e1 muito mais bem preparado, eu creio que o Estado mo\u00e7ambicano est\u00e1 melhor preparado para estes eventos, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as popula\u00e7\u00f5es, quando t\u00eam pouco, ficam agarradas \u00e0s suas situa\u00e7\u00f5es, e eu n\u00e3o estou a ver as pessoas abandonarem as suas casas quando lhes dizem que pode acontecer algo dram\u00e1tico. Ou seja, h\u00e1 muitas pessoas que optam por ficar, tamb\u00e9m porque n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es financeiras para o fazer, e n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, mas a informa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s recebemos \u00e9 que a subida das \u00e1guas foi repentina, as pessoas, mesmo apesar dos avisos, n\u00e3o esperavam que fosse assim t\u00e3o grave, mas na verdade, voltando \u00e0 quest\u00e3o que me foi colocada, acredito que neste momento Mo\u00e7ambique est\u00e1 mais bem preparado para este tipo de eventos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi uma situa\u00e7\u00e3o que se vem agravando significativamente nas \u00faltimas semanas. Eu pergunto se h\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o, j\u00e1 fal\u00e1mos um bocadinho disso, das principais necessidades e das prioridades da a\u00e7\u00e3o da HELPO neste momento, por exemplo, e que apoios \u00e9 que a HELPO tem para acudir a essas necessidades?<\/em><\/p>\n<p>Nestas situa\u00e7\u00f5es, aquilo que n\u00f3s j\u00e1 sabemos, quando h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de cheias, a grande prioridade e a grande necessidade s\u00e3o as quest\u00f5es de seguran\u00e7a alimentar. Por exemplo, na cidade de Maputo, h\u00e1 poucas pessoas a terem acesso a machamba, ou seja, n\u00e3o t\u00eam um espa\u00e7o cultiv\u00e1vel que lhes permita ter alimento em suas casas, mas sabemos que fica muito dif\u00edcil quando as pessoas t\u00eam infiltra\u00e7\u00e3o, quando perderam os seus bens de primeira necessidade e com pouco dinheiro \u00e9 dif\u00edcil fazer essa gest\u00e3o. O nosso foco priorit\u00e1rio \u00e9 a entrega de alimenta\u00e7\u00e3o para estas fam\u00edlias mais necessitadas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, algo que nos preocupa muito \u00e9 a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. Ontem tamb\u00e9m foi dada uma not\u00edcia que o arranque do ano letivo, que estava previsto para esta sexta-feira, o dia 30 de janeiro, foi adiado para o final do m\u00eas de fevereiro, ou seja, para 27 de fevereiro, em todo o pa\u00eds e n\u00e3o apenas nas prov\u00edncias afetadas. Ou seja, o arranque do ano letivo vai sofrer um atraso de um m\u00eas em todo o pa\u00eds, mas n\u00f3s tamb\u00e9m sabemos que nestas fam\u00edlias mais carenciadas o facto de terem neste momento necessidades acrescidas pode significar, em alguns casos, que as crian\u00e7as deixem de estudar, porque o simples facto de terem que pagar o equivalente a 10 euros como propina j\u00e1 n\u00e3o vai acontecer.\u00a0O facto de terem que comprar novo material escolar, novo uniforme escolar, pode ser um entrave para a continuidade destas crian\u00e7as e destes jovens na escola. Por isso, o nosso foco tamb\u00e9m \u00e9, dentro destes jovens que n\u00f3s estamos a apoiar, dar um refor\u00e7o escolar.<\/p>\n<p>Depois, o terceiro pilar que n\u00f3s est\u00e1vamos a desenhar nesta interven\u00e7\u00e3o, mas depende da nossa campanha de recolha de fundos, saber como vai decorrer, \u00e9 perceber nas escolas que n\u00f3s apoiamos, e s\u00e3o 11 escolas secund\u00e1rias da cidade de Maputo, sendo que algumas dessas escolas s\u00e3o escolas comunit\u00e1rias que pertencem \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, como ainda h\u00e1 bem pouco tempo estive em reuni\u00e3o com o arcebispo de Maputo, o D. Jo\u00e3o Carlos Nunes, a falar sobre esta situa\u00e7\u00e3o. As escolas pertencem \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, apesar de n\u00e3o estarem a ser geridas, neste momento, pela Igreja Cat\u00f3lica, mas n\u00f3s pretendemos tamb\u00e9m perceber os danos que foram causados e, caso os fundos recolhidos o permitam, fazer uma interven\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nessas escolas.<\/p>\n<p>Por isso, em primeiro lugar, seguran\u00e7a alimentar, dar alimento a estas fam\u00edlias. Em segundo lugar, refor\u00e7o de material escolar e, em terceiro lugar, o apoio na reconstru\u00e7\u00e3o das escolas danificadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Carlos Almeida faz a coordena\u00e7\u00e3o da HELPO, em Mo\u00e7ambique, a partir de Pemba, regi\u00e3o de Cabo Delgado, muito afetada pelo terrorismo isl\u00e2mico. H\u00e1 relatos recentes de novos epis\u00f3dios associados ao terrorismo?<\/em><\/p>\n<p>Sim, infelizmente, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem tido abrandamento. Tem havido novas regi\u00f5es a serem afetadas. No final do ano passado, houve uma s\u00e9rie de ataques mais a sul, j\u00e1 na prov\u00edncia de Nampula, e isso demonstrou ser uma altera\u00e7\u00e3o significativa, porque estes grupos, que n\u00e3o se sabe muito bem o seu n\u00famero, t\u00eam causado o terror, sobretudo na regi\u00e3o mais a norte da prov\u00edncia de Cabo Delgado, mais perto da fronteira com a Tanz\u00e2nia, mas as suas desloca\u00e7\u00f5es, os seus ataques a aldeias, continuam de forma recorrente e \u00e9 um problema &#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Continua, ent\u00e3o, a haver movimento de deslocados, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque depois o que acontece \u00e9, quando foi, no final do ano passado, esta situa\u00e7\u00e3o na prov\u00edncia de Nampula, nos distritos de Erati e de Memba, houve muitas desloca\u00e7\u00f5es, porque as pessoas veem as suas aldeias a serem atacadas, ou perto das suas aldeias, e optam por fugir. E s\u00e3o sempre dramas que duram duas, tr\u00eas semanas, e s\u00e3o problemas muito grandes. Por isso, esta quest\u00e3o de Cabo Delgado, infelizmente, est\u00e1 longe de estar resolvida.<\/p>\n<p>A cad\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o de pequenos ataques, de avistamentos, de movimenta\u00e7\u00f5es, \u00e9 quase di\u00e1ria. Felizmente, aqui na capital da prov\u00edncia, em Pemba, n\u00e3o tem havido nenhuma situa\u00e7\u00e3o, mas estamos muito atentos e muito preocupados com esta situa\u00e7\u00e3o de deslocamento. Inclusive, os v\u00e1rios projetos que a HELPO desenvolve s\u00e3o, sobretudo, nas regi\u00f5es mais a sul, onde praticamente n\u00e3o tem havido eventos.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias vezes, j\u00e1 fomos convidados para fazer projetos mais a norte, nos distritos mais afetados, como, por exemplo, Macomia, Melu, Moc\u00edmboa da Praia, Nangar, Palma, mas temos rejeitado, porque temos sempre esse princ\u00edpio que n\u00e3o mandamos &#8211; eu n\u00e3o mando colegas meus trabalhar para s\u00edtios onde eu pr\u00f3prio n\u00e3o me sinto com seguran\u00e7a para ir trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para finalizar gostar\u00edamos de apontar, na medida do poss\u00edvel ao futuro. Os bispos mo\u00e7ambicanos, numa mensagem recente, sublinhavam que as cheias de que temos falado exigem reconstruir casas, mas tamb\u00e9m reconstruir rela\u00e7\u00f5es.\u00a0\u00a0<\/em><em>\u00c9 preciso olhar para o desafio de curar o trauma destas comunidades que vivem sob um medo c\u00edclico de perder tudo?<\/em><\/p>\n<p>Essa frase diz-me muito, porque em 2014 tivemos umas cheias aqui em Pemba, na cidade de Pemba, e a casa-escrit\u00f3rio onde a HELPO tinha as suas equipas instaladas na altura sofreu muito. N\u00f3s perdemos quase tudo que t\u00ednhamos no armaz\u00e9m, a \u00e1gua chegou praticamente aos nossos ombros, eu sou relativamente alto, ou seja, muita \u00e1gua mesmo. Felizmente, na noite desse evento, eu n\u00e3o estava em casa, estava a minha colega diretor de programa na altura, a S\u00edlvia Nunes, e recordo-me que no ano seguinte, quando come\u00e7ou a temporada das chuvas, qualquer pequena chuva, a minha colega ficava inst\u00e1vel, com vontade de chorar, porque aquilo foi uma situa\u00e7\u00e3o mesmo muito grave.<\/p>\n<p>E estamos a falar de n\u00f3s que somos os privilegiados, porque as coisas danificam-se n\u00f3s conseguimos mais facilmente reconstruir. Quando estamos a falar de pessoas que perdem os seus entes queridos, os seus familiares a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. Recordo-me sempre tamb\u00e9m, em 2019, no idai, em que a HELPO fez um apoio muito grande junto com a diocese do Chimoio, n\u00f3s trabalh\u00e1mos na miss\u00e3o de Dombe, onde muitas pessoas tinham ficado tr\u00eas dias em cima das \u00e1rvores para sobreviver, e essas pessoas ficam com traumas para toda a vida, com feridas que muitas delas demoram muito tempo a sarar. E sem d\u00favida essa frase diz muito, \u00e9 preciso reconstruir as casas, \u00e9 preciso rezar para que o terreno volte a ser f\u00e9rtil, mas dentro do cora\u00e7\u00e3o das pessoas fica tamb\u00e9m muita ferida que demora a curar. Uma das formas que n\u00f3s temos sempre de ultrapassar isso \u00e9 receber ajuda e dar ajuda a quem mais precisa e tentar caminhar com o sentido de dever cumprido, ou pelo menos de tentativa de dever cumprido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dimens\u00e3o da trag\u00e9dia em Mo\u00e7ambique ganhou ainda mais visibilidade depois de o Papa Le\u00e3o XVI se ter referido, na \u00faltima audi\u00eancia geral, \u00e0s v\u00edtimas das inunda\u00e7\u00f5es devastadoras. Na sua \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o, Mo\u00e7ambique aponta para 644 milh\u00f5es de d\u00f3lares de preju\u00edzos provocados pelas cheias, nomeadamente ao n\u00edvel de infraestruturas destru\u00eddas e afetadas pelas inunda\u00e7\u00f5es. As [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":409796,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[262,314],"class_list":["post-409830","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-mocambique","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/409830","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=409830"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/409830\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/409796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=409830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=409830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=409830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}