{"id":408999,"date":"2026-01-25T09:30:19","date_gmt":"2026-01-25T09:30:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=408999"},"modified":"2026-01-22T16:25:07","modified_gmt":"2026-01-22T16:25:07","slug":"capelanias-hospitais-e-um-trabalho-de-presenca-de-escuta-de-estar-ao-lado-chamar-lhe-ia-uma-porta-aberta-padre-jorge-sobreiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/capelanias-hospitais-e-um-trabalho-de-presenca-de-escuta-de-estar-ao-lado-chamar-lhe-ia-uma-porta-aberta-padre-jorge-sobreiro\/","title":{"rendered":"Capelanias\/Hospitais: \u00ab\u00c9 um trabalho de presen\u00e7a, de escuta, de estar ao lado, chamar-lhe-ia uma porta aberta\u00bb &#8211; padre Jorge Sobreiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana em que o Papa Le\u00e3o XIV apresentou a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, e uma semana depois da primeira volta das presidenciais, em que as quest\u00f5es da sa\u00fade dominaram parte do debate eleitoral, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o capel\u00e3o do Hospital de Santo Ant\u00f3nio dos Capuchos, coordenador dos Capel\u00e3es Hospitalares no Patriarcado de Lisboa<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_408992\" aria-describedby=\"caption-attachment-408992\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-408992 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jorge_sobreiro_RR_beatriz_pereira-3-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-408992\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7o pelo trabalho nas Capelinhas Hospitalares. A assist\u00eancia religiosa e espiritual no contexto hospitalar tem sido alvo de v\u00e1rias regulamenta\u00e7\u00f5es, ao longo dos \u00faltimos anos. Quais as dificuldades que ainda se sentem nesta miss\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>O trabalho nas Capelinhas Hospitalares \u00e9 um trabalho muito de presen\u00e7a, ou seja, \u00e9 uma assist\u00eancia espiritual, o facto \u00e9 que \u00e9 uma assist\u00eancia espiritual para todos. E j\u00e1 se fazia antes do Papa Francisco dizer aqui em Lisboa o \u201ctodos, todos, todos\u201d, que ficou assim muito marcado na sociedade. Nas Capelanias isso j\u00e1 se fazia. Ou seja, \u00e9 um trabalho de presen\u00e7a, de escuta, de estar ao lado, chamar-lhe-ia uma porta aberta.<\/p>\n<p>Os assistentes espirituais e religiosos, a que n\u00f3s chamamos capel\u00e3es, primam por estar presentes e por ir ao encontro daqueles que est\u00e3o a sofrer. Porque no hospital h\u00e1 uma vulnerabilidade, percebe-se como a vida \u00e9 vulner\u00e1vel, como a vida \u00e9 fr\u00e1gil. E por isso vemos que as pessoas est\u00e3o nessa dificuldade e n\u00f3s vamos ao seu encontro. Eu usava esta imagem da \u201cporta aberta\u201d porque \u00e9 uma imagem que nos vem dos Capuchos. O Hospital dos Capuchos tem uma particularidade: o servi\u00e7o da assist\u00eancia espiritual e religiosa est\u00e1 na antiga Capela do Convento dos Capuchos e isso \u00e9 uma maravilha, porque aquela Capela imp\u00f5e-se, quando se entra nos Capuchos s\u00f3 se entra por aquela porta, a \u00fanica de entrada e de sa\u00edda, que depois tem uma rampa. E a primeira imagem que nos vem dos Capuchos \u00e9 logo a Capela. Portanto, \u00e9 algo que se imp\u00f5e e \u00e9 muito bonito: cat\u00f3licos, n\u00e3o cat\u00f3licos, agn\u00f3sticos, ateus, mu\u00e7ulmanos\u2026 o Hospital dos Capuchos est\u00e1 integrado na ULS S\u00e3o Jos\u00e9, que serve tamb\u00e9m todas estas freguesias aqui do centro de Lisboa, onde h\u00e1 muitos migrantes, e por isso, inclusive na capela dos Capuchos h\u00e1 mu\u00e7ulmanos que entram e que est\u00e3o ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este trabalho de proximidade resulta melhor quando \u00e9 o doente a pedir ajuda, apoio, ou a simples presen\u00e7a continua a ser a melhor solu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A simples presen\u00e7a continua a ser a melhor solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que, muitas vezes, os doentes pedem, mas n\u00f3s, os assistentes espirituais nos hospitais, vamos passando pelos servi\u00e7os, vamos entrando e h\u00e1 essa abertura, digamos assim. Isso \u00e9 muito bonito. H\u00e1 abertura para podermos entrar nos servi\u00e7os, ir ao encontro do doente e posso partilhar que umas vezes h\u00e1 abertura do doente, outras vezes n\u00e3o h\u00e1, fruto da sua hist\u00f3ria, mas todos reconhecem isso, que somos uma presen\u00e7a que vem escutar, n\u00e3o vem impor.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 a dimens\u00e3o religiosa, muitas vezes h\u00e1 ora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a pr\u00e1tica sacramental, mas isso n\u00e3o \u00e9 com todos. O primeiro encontro \u00e9 escutar, estar presente, abrir a porta ao di\u00e1logo e depois a partir da\u00ed vai-se construindo. Acima de tudo, esse \u00e9 para mim o ponto-chave da assist\u00eancia espiritual nos hospitais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A assist\u00eancia espiritual n\u00e3o est\u00e1 imune \u00e0s dificuldades que as pessoas sentem no acesso \u00e0 sa\u00fade. As longas demoras nas urg\u00eancias, por exemplo, tamb\u00e9m s\u00e3o motivo de conversa? <\/em><\/p>\n<p>Muitas vezes, muitas vezes. N\u00f3s escutamos o doente na sua vulnerabilidade. Quando o doente se sente invis\u00edvel no meio do sistema, torna-se dif\u00edcil e claro que isso vem \u00e0 conversa. Eu posso partilhar aqui uma situa\u00e7\u00e3o de uma doente que j\u00e1 partiu, que j\u00e1 faleceu, mas que se sentiu mal, foi \u00e0 urg\u00eancia e esteve quatro dias entre fazer a triagem, fazer os exames e encontrarmos uma cama dispon\u00edvel. E essa cama dispon\u00edvel apareceu nos Capuchos. E foram quatro ou cinco dias, j\u00e1 n\u00e3o me lembro. Cruzei-me com ela, no quarto onde habitualmente visitava uma outra doente, a quem fazia acompanhamento espiritual, cruzei-me com esta senhora a chorar e come\u00e7\u00e1mos a conversar. A rela\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a partir daquelas l\u00e1grimas. E aquelas eram tamb\u00e9m l\u00e1grimas de felicidade porque finalmente tinha uma cama, finalmente tinha um espa\u00e7o onde podia descansar. A minha vis\u00e3o \u00e9: o dif\u00edcil no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade \u00e9 entrar. As esperas, a quest\u00e3o das urg\u00eancias, do INEM, todas as dificuldades que n\u00f3s vemos s\u00e3o reais, elas acontecem. Percebemos que o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade n\u00e3o est\u00e1 dimensionado para a procura que tem, \u00e9 um facto. Mas entrando, depois j\u00e1 n\u00f3s conseguimos um bom tratamento; o doente sente-se acolhido, h\u00e1 um servi\u00e7o bel\u00edssimo, os profissionais s\u00e3o espetaculares no acompanhamento, na ajuda. E n\u00f3s, qual \u00e9 a nossa miss\u00e3o como capel\u00e3es e como assistentes espirituais? \u00c9 escutarmos, acompanharmos a pessoa com cuidado, com carinho, com ternura, ajudar a pessoa a n\u00e3o se sentir an\u00f3nima, a n\u00e3o se sentir um n\u00famero no meio de tudo isto, no meio de toda esta realidade, mas, dentro da sua dificuldade, dentro da sua vulnerabilidade, a sentir-se em paz, acolhida. Isso sim, isso \u00e9 a nossa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Jorge, esses rostos de desespero s\u00e3o anteriores \u00e0 entrada no hospital? <\/em><\/p>\n<p>Sim, eu diria que sim. Claro que vem \u00e0 conversa, mas todas elas entrando dizem maravilhas. Os Capuchos at\u00e9 \u00e9 um hospital que n\u00e3o tem urg\u00eancias, que n\u00e3o tem esta dimens\u00e3o mais de rapidez, porque \u00e9 um hospital quase de retaguarda do S\u00e3o Jos\u00e9. E, portanto, todas as pessoas que saem de l\u00e1, as fam\u00edlias, sentem-se acolhidas e todas elas dizem, realmente que o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade \u00e9 espetacular, porque encontramos um servi\u00e7o como n\u00e3o h\u00e1 mais lado nenhum, \u00e9 um facto. Agora, o entrar \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil. A procura e a capacidade do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 a mesma, entre a procura e a sua capacidade, e por isso eu marco muito isto, que \u00e9 um servi\u00e7o muito bom depois de entrar. O que \u00e9 que vem mais nas not\u00edcias? \u00c9 aquilo que s\u00e3o as emerg\u00eancias, as urg\u00eancias, e isso sim \u00e9 uma luta, mas depois entrando tudo fica mais f\u00e1cil. Eu, como assistente espiritual, j\u00e1 estou na outra fase, j\u00e1 estou na fase em que a pessoa est\u00e1 dentro. E as dificuldades s\u00e3o naturalmente tema de conversa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E certamente que os capel\u00e3es hospitalares partilham este tipo de ang\u00fastia do doente, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>Claro, no fundo a nossa miss\u00e3o \u00e9 escutar, aproximarmo-nos com empatia, termos uma rela\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica, sermos aut\u00eanticos e acolhermos, haver um acolhimento da pessoa, sem julgar. H\u00e1 hist\u00f3rias dif\u00edceis, hist\u00f3rias marcantes, hist\u00f3rias de luta interior, mas n\u00f3s n\u00e3o somos chamados a julgar, somos chamados a escutar, a acompanhar e a ajudar a reconstruir ou construir dignidade na pessoa, porque a pessoa, mesmo estando doente, mesmo estando ali em fases dif\u00edceis, n\u00e3o perde a sua dignidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acredito que converse com outros colegas sacerdotes que desempenham esta miss\u00e3o. Pergunto-lhe se h\u00e1 uma perce\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o, especificamente daquilo que estava a falar, da dificuldade de acesso na regi\u00e3o da Grande Lisboa, \u00e9 pior do que no resto do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o diria. Daquilo que vou percebendo, h\u00e1 dificuldades em todo o pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 normal que nas grandes cidades a press\u00e3o seja enorme, \u00e9 um facto, mas eu percebo que h\u00e1 dificuldades em todo o pa\u00eds. Mas independentemente de tudo isso, os nossos profissionais de sa\u00fade est\u00e3o sob uma press\u00e3o enorme para responder. E eles respondem.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E isso \u00e9 uma quest\u00e3o que queria fazer tamb\u00e9m, porque o capel\u00e3o assiste n\u00e3o apenas os doentes, mas tamb\u00e9m os profissionais\u2026<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim. E \u00e9 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o da nossa miss\u00e3o, a centralidade do doente, o doente nunca \u00e9 uma pessoa s\u00f3, tem uma fam\u00edlia \u00e0 volta e, portanto, tamb\u00e9m temos o dever de acompanhar a fam\u00edlia e os profissionais. T\u00eam-se feito coisas maravilhosas. Eu tenho feito, com alguns profissionais ali dos Capuchos, peregrina\u00e7\u00f5es a F\u00e1tima, peregrina\u00e7\u00f5es a Santiago Compostela, e isso tem ajudado a ajudar os profissionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a aliviar a press\u00e3o\u2026.<\/em><\/p>\n<p>E a aliviar a press\u00e3o, porque l\u00e1 est\u00e1, uma das dificuldades dos capel\u00e3es, uma dificuldade tamb\u00e9m de todos os outros profissionais, \u00e9 este sofrimento acumulado, \u00e9 esta press\u00e3o de termos de responder. E falta muitas vezes o autocuidado. Acredito que n\u00f3s, capel\u00e3es, tamb\u00e9m temos esta miss\u00e3o, n\u00e3o do autocuidado nosso, mas do cuidado dos profissionais, de dar-lhes tamb\u00e9m esta possibilidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que se gera o trabalho da assist\u00eancia religiosa, espiritual, junto daqueles que permanecem no hospital, por n\u00e3o terem fam\u00edlia que os possa acolher? Estou a falar dos internamentos sociais&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Olhe, sendo fam\u00edlia, escut\u00e1-los. Existem casos destes tamb\u00e9m nos Capuchos, e n\u00f3s, no fundo, somos tamb\u00e9m uma fam\u00edlia, e digo somos, falo no plural porque n\u00e3o sou s\u00f3 eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o muitos casos nos Capuchos?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o muitos, n\u00e3o s\u00e3o muitos, mas h\u00e1 um ou outro. Estou a pensar em um ou outro caso que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 muito tempo, que s\u00e3o casos que t\u00eam se ser geridos&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quando diz muito tempo, \u00e9 mais de meio ano, um ano?<\/em><\/p>\n<p>Mais de meio ano, mais de meio ano, por a\u00ed. Mas n\u00f3s somos fam\u00edlia, e o que \u00e9 que eu quero dizer com este n\u00f3s, \u00e9 que n\u00e3o sou s\u00f3 eu. Tenho volunt\u00e1rios que v\u00e3o levar a Comunh\u00e3o, que v\u00e3o escutar, que v\u00e3o conversar, que v\u00e3o dialogar, no fundo somos a fam\u00edlia destas pessoas.<\/p>\n<p>E depois como \u00e9 que se gere este trabalho? Trabalhando em equipa, ou seja, vamos escutando, vamos falando, principalmente com o servi\u00e7o social, e \u00e9 verdade que o servi\u00e7o social tamb\u00e9m entra aqui, e n\u00f3s procuramos trabalhar em conjunto, em equipa, e isso \u00e9 muito bonito, porque vamos dando sugest\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Muitas vezes o servi\u00e7o social pede para eu ir falar com esta ou aquela pessoa, para n\u00f3s conseguimos entender bem como \u00e9 que se pode ajudar. Portanto, h\u00e1 assim um trabalho em equipa, e depois com os servi\u00e7os. Estes casos sociais s\u00f3 se conseguem ir resolvendo em equipa, com o trabalho de equipa, e isso \u00e9 um bocadinho o que n\u00f3s vamos fazendo ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falemos da mensagem do Papa Le\u00e3o XIV para o Dia Mundial do Doente, que acaba de ser divulgada. O Papa usa a figura do Bom Samaritano, que para e d\u00e1 do seu tempo, como contraponto a uma cultura da pressa. N\u00f3s temos ritmos cl\u00ednicos muito veementes, at\u00e9 pelas necessidades de urg\u00eancia. Como \u00e9 que se contraria essa l\u00f3gica da pressa para se entrar no cuidado?<\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma dificuldade, porque muitas vezes n\u00e3o se consegue fazer uma assist\u00eancia espiritual e religiosa a todos. Porque n\u00e3o se chega a todo lado, mas o que eu vejo \u00e9, sempre que estou com um doente ou um familiar, eu estou. Na semana passada estava l\u00e1 nos servi\u00e7os, e recebi uma mensagem de uma enfermeira da equipa intra-hospitalar dos cuidados paliativos, da qual tamb\u00e9m faz parte na ULS S\u00e3o Jos\u00e9, a dizer-me \u201ch\u00e1 uma doente que estava a partir\u201d, estava mesmo na \u00faltima hora, literalmente na \u00faltima hora, e ela pediu-me para eu ir l\u00e1, n\u00e3o para falar com a doente, porque a doente j\u00e1 n\u00e3o falava, j\u00e1 estava sedada, j\u00e1 tinha havido um trabalho com a equipa dos cuidados paliativos, j\u00e1 tinha havido um trabalho com toda aquela doente, mas uma irm\u00e3 tinha vindo, estava destru\u00edda junto \u00e0 doente. E eu chego e a irm\u00e3 diz-me: \u201coh padre, s\u00f3 o padre para fazer um milagre\u201d. E eu disse, \u201cent\u00e3o o que \u00e9 que para si o milagre?\u201d. E sent\u00e1mo-nos. Naquela manh\u00e3, eu estive duas horas com esta irm\u00e3 a conversar, foi um momento important\u00edssimo, porque a doente acabou por partir, literalmente \u00e0 nossa frente, e a senhora estava em paz. Foi uma manh\u00e3 em que eu deixei de visitar doentes, porque estive duas horas com aquela situa\u00e7\u00e3o, com aquela irm\u00e3, com aquela doente. Ou seja, no fundo, o que n\u00f3s fazemos na Capelania \u00e9 olhar a pessoa e \u00e9 s\u00f3 aquela pessoa.<\/p>\n<p>E eu quando chego a uma cama, a primeira coisa que procuro \u00e9 uma cadeira para me sentar. Mesmo que esteja pouco tempo, mas sentar-se \u00e9 importante, ou seja, estar l\u00e1. Uma vez fui a S\u00e3o Jos\u00e9, um quarto que estava com muitas camas, e n\u00e3o via cadeiras, e comecei assim a olhar, e a doente com que eu ia falar disse: \u201cest\u00e1 a procurar uma cadeira, j\u00e1 percebi, est\u00e1 aqui fora, v\u00e1 ali fora que encontra\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma pressa, h\u00e1 tudo, mas eu procuro \u00e9 aquela pessoa e estar ali. A nossa miss\u00e3o \u00e9 diferente. Na miss\u00e3o dos m\u00e9dicos, dos enfermeiros, dos assistentes operacionais, dos psic\u00f3logos, do servi\u00e7o social, a\u00ed sim \u00e9 uma press\u00e3o enorme.<\/p>\n<p>No fundo tamb\u00e9m procuro que a Capelania seja o contraponto, ou seja, que o doente perceba que n\u00f3s estamos ali s\u00f3 para eles. E mesmo quando eles partilham comigo, \u201cah, mas andam sempre a correr&#8230;\u201d eu procuro validar, procuro validar o que a pessoa diz: \u00e9 verdade, andam sempre a correr, e eu procuro combater essa pressa, ajudando tamb\u00e9m os outros profissionais que esses, tem uma grande luta.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No encerramento da Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os, gostar\u00edamos de saber como \u00e9 o trabalho, digamos, em rede, com os assistentes religiosos de outras confiss\u00f5es, e mesmo religi\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<p>V\u00ea-se aqui a unidade, v\u00ea-se aqui a unidade dos crist\u00e3os no hospital, e v\u00ea-se o di\u00e1logo inter-religioso. N\u00f3s fazemos essa ponte, ou seja, quando os servi\u00e7os, ou quando o doente pede, ou quando o servi\u00e7o pede assist\u00eancia espiritual e religiosa, da sua igreja, ou, da sua religi\u00e3o, n\u00f3s fazemos essa ponte, e chamamos. Temos os contactos, e vou falando, e vamos chamando, e no fundo \u00e9 essa tamb\u00e9m a nossa miss\u00e3o. E, tamb\u00e9m, para n\u00f3s, que l\u00e1 estamos, \u00e9 acompanhar.<\/p>\n<p>Aquilo que fazemos com os cat\u00f3licos, fazemos com todos, como eu dava o exemplo da Capela dos Capuchos, toda a gente entra l\u00e1 e sente-se acolhida. E depois, o nosso trabalho privilegia o di\u00e1logo inter-religioso e o di\u00e1logo ecum\u00e9nico, que \u00e9, conversamos, chamamos, v\u00eam e entram a hora que for. Uma vez, com o xeque David Munir, chamei-o para um doente mu\u00e7ulmano, e ele disse-me que s\u00f3 conseguia ir mais tarde, j\u00e1 depois da hora da visita. Eu disse: \u201cvem \u00e0 hora que puder, \u00e0 hora que conseguir, para dar esta assist\u00eancia espiritual a este doente\u201d. No fundo h\u00e1 um trabalho em rede. N\u00f3s temos os contactos, e vamos assim fazendo esta ponte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana em que o Papa Le\u00e3o XIV apresentou a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, e uma semana depois da primeira volta das presidenciais, em que as quest\u00f5es da sa\u00fade dominaram parte do debate eleitoral, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o capel\u00e3o do Hospital de Santo Ant\u00f3nio dos Capuchos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":408992,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[166,277],"class_list":["post-408999","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-dia-mundial-do-doente","tag-pastoral-da-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/408999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=408999"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/408999\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/408992"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=408999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=408999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=408999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}