{"id":40899,"date":"2009-10-01T10:46:12","date_gmt":"2009-10-01T10:46:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/10\/01\/tesouros-de-arte-do-baixo-alentejo-em-lyon\/"},"modified":"2009-10-01T10:46:12","modified_gmt":"2009-10-01T10:46:12","slug":"tesouros-de-arte-do-baixo-alentejo-em-lyon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tesouros-de-arte-do-baixo-alentejo-em-lyon\/","title":{"rendered":"Tesouros de arte do Baixo Alentejo em Lyon"},"content":{"rendered":"<p>Diocese de Beja organiza exposi\u00e7\u00e3o \u00abPortugal Eternel\u00bb <!--more--> <\/p>\n<p align=\"left\">O patrim&oacute;nio religioso portugu&ecirc;s debate-se com um terr&iacute;vel paradoxo: embora constitua o principal sector do universo patrimonial do pa&iacute;s, suscitando o interesse de muitos turistas, nacionais e estrangeiros, &eacute; pouco acess&iacute;vel (sobretudo fora dos circuitos mais conhecidos) e debate-se com graves problemas de degrada&ccedil;&atilde;o, sobretudo por falta de recursos financeiros e t&eacute;cnicos. Isto significa algo assim como morrer de forma em cima de uma mina de ouro. Sa&iacute;das para o problema n&atilde;o s&atilde;o f&aacute;ceis, mas o aumento de n&uacute;mero de visitantes pode dar uma ajuda decisiva.<\/p>\n<p align=\"left\">Recusando-se a cruzar os bra&ccedil;os face ao que muitos v&ecirc;em como uma fatalidade, &ndash; o abandono da nossa arte sacra &ndash;, a diocese de Beja tem vindo a realizar, com imagina&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m com certa ousadia, um esfor&ccedil;o para garantir a sobreviv&ecirc;ncia dos tesouros de arte e hist&oacute;ria do seu vasto territ&oacute;rio. Um dos caminhos que empreendeu &eacute; o da internacionaliza&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s de ac&ccedil;&otilde;es, articuladas com as inst&acirc;ncias locais, em s&iacute;tios estrat&eacute;gicos da Europa.<\/p>\n<p align=\"left\">Segundo Jos&eacute; Ant&oacute;nio Falc&atilde;o, director do Departamento do Patrim&oacute;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico da Diocese de Beja, &ldquo;mostrar a identidade da cultura alentejana fora do nosso &acirc;mbito &eacute; um instrumento fundamental para a afirma&ccedil;&atilde;o do nosso territ&oacute;rio&rdquo;. O objectivo &eacute; conseguir uma integra&ccedil;&atilde;o das igrejas e museus da regi&atilde;o em circuitos europeus, valorizando percursos de enorme significado cultural, mas ainda pouco conhecidos al&eacute;m-fronteiras. A realiza&ccedil;&atilde;o de exposi&ccedil;&otilde;es qualificadas constitui um instrumento decisivo para se alcan&ccedil;ar tal meta.<\/p>\n<p align=\"left\">Ap&oacute;s Regensburg (1999), Roma (2002) e Sarago&ccedil;a (2008), o Departamento do Patrim&oacute;nio de Beja inaugura a 1 de Outubro, no Mus&eacute;e d&rsquo;Art Religieux de Fourvi&egrave;re, em Lyon, uma nova exposi&ccedil;&atilde;o, intitulada &ldquo;Portugal Eternel &ndash; Patrimoine de la R&eacute;gion de l&rsquo;Alentejo&rdquo;. A iniciativa partiu do director deste museu, Bernard Berthod, consultor pontif&iacute;cio para os bens culturais e vice-presidente de Europ&aelig; Thesauri, organismo que integra os principais museus de arte sacra da Europa e tem Lyon e Beja entre os seus fundadores. A sua irradia&ccedil;&atilde;o em Fran&ccedil;a faz-se em parceria com o Turismo de Portugal, o Munic&iacute;pio de Beja, a Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, o Instituto Cam&otilde;es e o Turismo do Alentejo.<\/p>\n<p align=\"left\">Reputado especialista em paramentaria lit&uacute;rgica, Bernard Berthod faz parte do comit&eacute; de peritos que assessora o <em>Atlas da Arte Sacra do Baixo Alentejo,<\/em> um projecto que o Departamento de Beja leva a cabo em parceria com universidades e museus europeus e americanos. A observa&ccedil;&atilde;o &ldquo;in situ&rdquo; da relev&acirc;ncia internacional da arte sacra alentejana e do seu quase total desconhecimento pelo p&uacute;blico franc&ecirc;s levou-o a promover uma exposi&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne cerca de centena e meia de obras, com destaque para a pintura, a escultura e as artes decorativas.<\/p>\n<p align=\"left\">Como indica o t&iacute;tulo da iniciativa, trata-se de apresentar a um p&uacute;blico culto e exigente, mas assaz interessado, aquilo que h&aacute; de mais eterno na arte sacra alentejana, uma longa conjuntura hist&oacute;rica, desde o fim dos tempos pag&atilde;os at&eacute; &agrave; actualidade. Nela se encadeiam, &agrave; semelhan&ccedil;a de um grande rio, movimentos religiosos e escolas pl&aacute;sticas muito diversas, quase sempre dentro de uma linha de fidelidade ao gosto meridional, pautado pela ideia de que a arte deve tornar presente, no seio das popula&ccedil;&otilde;es rurais e urbanas, o apogeu da obra criadora de Deus.<\/p>\n<p align=\"left\">Trata-se de uma ideia que ajuda a explicar, al&eacute;m da perman&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o, o apego &agrave; sumptuosidade do ouro, da prata e das &ldquo;policromias fortes&rdquo;, ao di&aacute;logo do Cristianismo com o Paganismo, o Juda&iacute;smo e o Isl&atilde;o, ao exotismo das culturas africanas, asi&aacute;ticas e amer&iacute;ndias. Tudo isto se enquadra no desejo de afirmar, em torno da liturgia e da devo&ccedil;&atilde;o, marcas identit&aacute;rias extremamente fortes, numa regi&atilde;o onde as viv&ecirc;ncias cat&oacute;licas acabariam por ser vistas sobretudo &ldquo;coisa de mulheres&rdquo;, embora seguidas, a respeitosa dist&acirc;ncia, pela comunidade masculina&#8230;<\/p>\n<p align=\"left\">A exposi&ccedil;&atilde;o retoma esta e muitas outras hist&oacute;rias, em clave de assumida frui&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, ao longo de cinco sec&ccedil;&otilde;es por onde discorrem as origens do territ&oacute;rio meridional, da Antiguidade &agrave; Reconquista crist&atilde;, a piedade da era g&oacute;tica, o tempo do imp&eacute;rio e das miss&otilde;es, a Reforma cat&oacute;lica e o Barroco, o Cristianismo e a Modernidade. De uma &ldquo;V&eacute;nus Anadi&oacute;mene&rdquo; (&ldquo;a que sai das &aacute;guas&rdquo;), obra da &eacute;poca romana, em m&aacute;rmore cristalino, a &ldquo;Jacob e o Anjo&rdquo;, de Ant&oacute;nio Paizana (1994), o Alentejo mostra-se com as suas melhores galas, eterno e inquietante, em Lyon. &Eacute; como se um v&eacute;u ca&iacute;sse e o Norte reencontrasse um Sul h&aacute; muito preterido.<\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Notre-Dame de Fourvi&egrave;re, no cora&ccedil;&atilde;o de Lyon<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">O santu&aacute;rio de Fourvi&egrave;re, erguido numa colina verdejante que domina Lyon, &eacute; o grande centro religioso da cidade desde a &eacute;poca medieval. Sob a invoca&ccedil;&atilde;o de Nossa Senhora, a sua bas&iacute;lica, misto de igreja e fortaleza, assemelha-se a um &ldquo;castelo da Virgem&rdquo;, resultando de uma promessa dos leoneses por terem sido poupados a epidemias e guerras. A exist&ecirc;ncia de um not&aacute;vel tesouro art&iacute;stico, que data maioritariamente, tal como a bas&iacute;lica, do s&eacute;culo XIX, levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do Mus&eacute;e d&rsquo;Art Religieux. Este encontra-se instalado numa antiga igreja do complexo basilical e &eacute; considerado, ao n&iacute;vel internacional, uma institui&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncia no &acirc;mbito do patrim&oacute;nio religioso.<\/p>\n<p align=\"left\">Fourvi&egrave;re recebe anualmente cerca de tr&ecirc;s milh&otilde;es de visitantes e constitui um dos pontos mais procurados, como destino cultural, da regi&atilde;o do R&oacute;dano. A proximidade de Lyon em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Su&iacute;&ccedil;a e &agrave; It&aacute;lia faz desta &aacute;rea um local privilegiado da vida art&iacute;stica, cient&iacute;fica e industrial de Fran&ccedil;a, a par de um centro tur&iacute;stico de primeira ordem. Na regi&atilde;o leonesa reside uma extensa e influente comunidade portuguesa, tamb&eacute;m ela associada, desde o primeiro momento, &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da exposi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que o santu&aacute;rio de Notre-Dame de Fourvi&egrave;re &eacute; uma das suas refer&ecirc;ncias, assinalada por uma peregrina&ccedil;&atilde;o anual.<\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Entre lendas e narrativas<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">&ldquo;Quando contemplamos a arte sacra do Alentejo, o que mais prende a aten&ccedil;&atilde;o de algu&eacute;m que est&aacute; de fora &eacute; a sua capacidade para contar uma ou muitas hist&oacute;rias&rdquo;, explica Jos&eacute; Ant&oacute;nio Falc&atilde;o. Bernard Berthod corrobora esta no&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Estamos perante uma arte narrativa por excel&ecirc;ncia&rdquo;. Hist&oacute;rias &eacute; algo que n&atilde;o falta nas pe&ccedil;as apresentado em Lyon. Umas falam de milagres de Nossa Senhora e dos santos que deixaram marcas na paisagem alentejana, como a imagem de Santa Maria de Sines, venerada por crist&atilde;os e mouros. Outras elogiam a genealogia de uma na&ccedil;&atilde;o proscrita, supostamente assimilada, os judeus, cujos descendentes crist&atilde;os-novos se cotizaram em 1677 para representar os seus reis na &ldquo;&Aacute;rvore de Jess&eacute;&rdquo; da igreja de Santa Maria da Feira de Beja. Noutros casos sobreviveram tradi&ccedil;&otilde;es pag&atilde;s, como acontece com a cabe&ccedil;a-relic&aacute;rio do papa S&atilde;o Fabi&atilde;o, pe&ccedil;a maior da ourivesaria rom&acirc;nica, dotada de singulares capacidades terap&ecirc;uticas: o seu &ldquo;bafo&rdquo; (h&aacute;lito) curava as doen&ccedil;as das pessoas e do gado.<\/p>\n<p align=\"left\">Sob o pano de fundo da religiosidade popular, no entanto, destaca-se a firmeza doutrin&aacute;ria da Igreja, que soube fazer das manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas uma sumptuosa e complexa &ldquo;B&iacute;blia Visual&rdquo;, deveras apta a traduzir, perante os diferentes sectores da sociedade, os mist&eacute;rios da f&eacute; em Cristo. Uma das obras mais impressionantes, sob esta &oacute;ptico, &eacute; o ostens&oacute;rio que cont&eacute;m os fragmentos do Santo Lenho, a cruz em que Jesus foi crucificado, da igreja de Santiago do Cac&eacute;m. Reconhecidos oficialmente como aut&ecirc;nticos, estes fragmentos devem-se a uma oferta cerimonial da princesa bizantina D. Vata&ccedil;a Lascaris, nos in&iacute;cios do s&eacute;culo XIV, e foram trazidos de Niceia (a actual Iznik). Do Oriente vieram igualmente os frascos de unguentos em cristal-de-rocha do Museu Episcopal de Beja, fabricados na corte do sult&atilde;o do Cairo no s&eacute;culo IX com gemas oriundas do Ir&atilde;o. Um dos cavaleiros bejenses que participaram nas &uacute;ltimas cruzadas t&ecirc;-los-&aacute; trazido da Terra Santa e feito adaptar como relic&aacute;rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Ana Santos<\/em><\/p>\n<p align=\"left\"><em>&nbsp;<\/em><em>FOTO: Nossa Senhora da Boa Morte, <\/em>escola portuguesa, s&eacute;c. XVIII, madeira policromada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diocese de Beja organiza exposi\u00e7\u00e3o \u00abPortugal Eternel\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[119,171,203,246,292,317,320],"class_list":["post-40899","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-arte-sacra","tag-diocese-de-beja","tag-europa","tag-liturgia","tag-religiosidade-popular","tag-terra-santa","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40899"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40899\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}