{"id":40898,"date":"2009-09-22T11:54:47","date_gmt":"2009-09-22T11:54:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/09\/22\/padre-e-surfista\/"},"modified":"2009-09-22T11:54:47","modified_gmt":"2009-09-22T11:54:47","slug":"padre-e-surfista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/padre-e-surfista\/","title":{"rendered":"Padre e&#8230; Surfista"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Jos\u00e9 Pedro Azevedo, p\u00e1roco de Espinho, concilia mar e ora\u00e7\u00e3o <!--more--> <\/p>\n<p>No mar, a prancha &eacute; o seu lugar sagrado. Depois de ter praticado v&aacute;rios tipos de desporto, o Pe. Jos&eacute; Pedro Azevedo fixou-se no bodyboard, mas fez tamb&eacute;m uma incurs&atilde;o no surf.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m de desportista, este jovem padre da diocese do Porto poderia ser engenheiro mec&acirc;nico no mercado de trabalho. &ldquo;Andei alguns anos na Faculdade de Engenharia antes de arriscar a minha ida para o Semin&aacute;rio do Porto&rdquo; &ndash; disse &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA.<\/p>\n<p>Nos tempos da juventude fez a caminhada no grupo de jovens. Em contacto com o &laquo;Movimento O&aacute;sis&raquo; &#8211; &ldquo;onde o meu grupo de jovens participava&rdquo; &ndash; e num curso com a Irm&atilde; Maria Am&eacute;lia Costa come&ccedil;ou a colocar a quest&atilde;o da voca&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Estava numa vida completamente diferente e, inicialmente, at&eacute; coloquei isso de parte&rdquo;, no entanto &ldquo;aquele bichinho nunca mais deixou de roer aqui por dentro&rdquo;. Depois de dois anos no Pr&eacute;-Semin&aacute;rio &ldquo;resolvi abandonar engenharia e lan&ccedil;ar-me&rdquo; &ndash; frisou o actual p&aacute;roco de Espinho.<\/p>\n<p>Nos tempos de juventude praticou v&aacute;rios tipos de desportos: t&eacute;nis, atletismo e gin&aacute;stica. Depois da entrada no semin&aacute;rio para aprofundar a sua voca&ccedil;&atilde;o &ldquo;deixei muito daquilo que fazia e, praticamente, s&oacute; jogava futebol&rdquo;. Quando foi para Espinho surge o surf, &ldquo;apesar de ter feito uma incurs&atilde;o quando era mais novo, mas n&atilde;o resultou&rdquo; &ndash; salienta.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s a ordena&ccedil;&atilde;o, o Pe. Jos&eacute; Pedro foi exercer as fun&ccedil;&otilde;es &ndash; durante tr&ecirc;s anos e meio &#8211; de secret&aacute;rio de D. Armindo Lopes Coelho. &ldquo;&Eacute; uma vida pouco activa no que toca ao desporto&rdquo; &ndash; lamenta.<\/p>\n<p>Junto ao apelativo mar de Espinho, o Pe. Jos&eacute; Pedro voltou a sentir a necessidade de praticar desporto. &ldquo;A malta convidou-me a fazer surf e avancei por a&iacute;&rdquo; &ndash; refere. Para al&eacute;m da vertente desportiva &ldquo;posso contactar com muitos jovens&rdquo;.<\/p>\n<p>Como a maioria das pessoas do seu grupo se radicou no bodyboard, &ldquo;fiquei tamb&eacute;m neste desporto&rdquo;. Sabe a maioria das t&eacute;cnicas do bodyboard e tem &ldquo;os equipamentos todos&rdquo; &ndash; avan&ccedil;ou. Uma prancha, uns p&eacute;s de pato e o fato s&atilde;o objectos fundamentais para a pr&aacute;tica deste hobby do Pe. Jos&eacute; Pedro. N&atilde;o considera este desporto dif&iacute;cil. &ldquo;A primeira vez que nos metemos na &aacute;gua conseguimos fazer alguma coisa e isso d&aacute;-nos &acirc;nimo para continuar&rdquo;.<\/p>\n<p>Depois de lhe confessar a minha falta de habilidade para o bodyboard e explicar que a prancha n&atilde;o deslizava com o peso do meu corpo, o Pe. Jos&eacute; Pedro deu-me uma li&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica: &ldquo;as pranchas devem ser adaptadas &agrave; estrutura f&iacute;sica das pessoas, s&oacute; assim conseguimos evoluir e dropar uma onda (dialecto do surf que significa descer a onda da crista at&eacute; a base).<\/p>\n<p>Este desporto tem v&aacute;rias manobras e utiliza tamb&eacute;m alguns termos t&eacute;cnicos. &ldquo;A maioria das vezes deixava-me ir na onda e olhava como os outros faziam para aprender&rdquo; &ndash; frisou o p&aacute;roco de Espinho. O contacto com os colegas &ldquo;&eacute; um dos privil&eacute;gios&rdquo; deste tipo de desporto que &ldquo;n&atilde;o &eacute; colectivo nem individual&rdquo;.<\/p>\n<p>Enquanto estes gladiadores do mar esperam pelas ondas perfeitas &#8211;&nbsp; para concretizaram as mais variadas t&eacute;cnicas do bodyboard &#8211; aproveitam para falar. &ldquo;&Agrave;s vezes esse tempo de espera &eacute; demorado e muito custoso&rdquo; &ndash; real&ccedil;a. Fazem um esfor&ccedil;o enorme para apanhar a onda e, depois, &ldquo;temos uma sensa&ccedil;&atilde;o muito r&aacute;pida&rdquo;.<\/p>\n<p>Enquanto dropa uma onda, o padre surfista sente &ldquo;uma liberdade muito grande&rdquo; e &ldquo;uma pequenez perante a for&ccedil;a e imensid&atilde;o do mar&rdquo;. Quando se caminha pela areia, as pessoas t&ecirc;m &ldquo;a impress&atilde;o que a onda n&atilde;o &eacute; muito forte&rdquo;, mas &ldquo;l&aacute; dentro sentimos a sua robustez&rdquo;. E acrescenta: &ldquo;o mar exige muito respeito&rdquo;.<\/p>\n<p>Quando pratica o bodyboard, este padre do Porto est&aacute; num ambiente descontra&iacute;do que o ajuda &ldquo;espiritualmente e mentalmente&rdquo;, em particular quando observa o p&ocirc;r-do-sol. Para al&eacute;m da praia de Espinho, o Pe. Jos&eacute; Pedro tamb&eacute;m frequenta outras est&acirc;ncias balneares. &ldquo;Costumo ir para as praias do Alentejo e levo sempre comigo a prancha&rdquo;.<br \/>Se a prancha &eacute; a companheira predilecta nas viagens, a b&iacute;blia, o brevi&aacute;rio e o ter&ccedil;o tamb&eacute;m t&ecirc;m o seu espa&ccedil;o na mochila. &ldquo;Normalmente, o ter&ccedil;o vai no bolso&rdquo; &ndash; disse. N&atilde;o tem o h&aacute;bito de levar o ter&ccedil;o para o mar e &ldquo;n&atilde;o sou daqueles que usa o ter&ccedil;o ao pesco&ccedil;o&rdquo;. (Risos).<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; apologista da moda do s&iacute;mbolo mariano ao pesco&ccedil;o, mas confessa que o bodyboard proporciona &ldquo;bons momentos para rezar&rdquo;. Em cima de uma prancha a observar o crep&uacute;sculo do dia &ldquo;acaba por ser ora&ccedil;&atilde;o&rdquo; porque &ldquo;estamos em contacto directo com a beleza da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Tal como no dia-a-dia, este desporto tem normas espec&iacute;ficas. &ldquo;Quem est&aacute; atr&aacute;s tem sempre prioridade&rdquo;. E relata um epis&oacute;dio que lhe aconteceu quando era ne&oacute;fito no bodyboard: &ldquo;Em Le&ccedil;a da Palmeira ia levando com uma prancha por cima porque n&atilde;o sabia esta regra&rdquo;.<\/p>\n<p>Nas &aacute;guas frias do Atl&acirc;ntico, o Pe. Jos&eacute; Pedro pratica bodyboard durante os doze meses do ano. Actualmente, est&aacute; a fazer a tese de doutoramento &ndash; na &aacute;rea da Cristologia &#8211; e o tempo n&atilde;o chega para tudo. &ldquo;Este ano tenho feito menos, visto que as investiga&ccedil;&otilde;es obrigam-me a outro tipo de regra de vida&rdquo;. No entanto, quando o cansa&ccedil;o se apodera da sua mente as ondas de Espinho &ldquo;aliviam-me o cansa&ccedil;o&rdquo;. E acrescenta: &ldquo;&Eacute; um desporto que aconselho aos padres&rdquo;.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer os benef&iacute;cios do bodyboard, o p&aacute;roco de Espinho confessa que j&aacute; apanhou alguns sustos no mar. No in&iacute;cio, &ldquo;talvez na terceira ou quarta incurs&atilde;o&rdquo;, veio enrolado na onda e s&oacute; parou quando esta terminou. &ldquo;Naqueles momentos n&atilde;o conseguimos respirar, mas mantive a serenidade&rdquo;. A voz da experi&ecirc;ncia deve ser escutada: &ldquo;N&atilde;o devemos perder a capacidade de controlo emocional diante destas situa&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/p>\n<p>Com o corpo totalmente coberto, excepto a cabe&ccedil;a e as m&atilde;os, o padre surfista aguenta muito tempo nas &aacute;guas g&eacute;lidas do oceano. Quando esteve no Brasil fez surf sem fato. Considera que &eacute; &ldquo;muito melhor&rdquo; porque &ldquo;o fato aperta-nos o corpo todo&rdquo;. Desliza-se melhor com a indument&aacute;ria do surf &ndash; o nosso corpo cria resist&ecirc;ncia &agrave; &aacute;gua &ndash;, mas sem fato &ldquo;temos a sensa&ccedil;&atilde;o de liberdade e agilidade&rdquo;.<\/p>\n<p>Nunca lhe aconteceu sair da missa e ir &laquo;apanhar uma onda&raquo; porque &ldquo;a Eucaristia &eacute; ao final do dia e tenho reuni&otilde;es todas as noites&rdquo; &ndash; confessou. Normalmente, faz bodyboard de manh&atilde; e sempre com companhia. &ldquo;Aventurei-me a ir sozinho, duas ou tr&ecirc;s vezes, e senti que n&atilde;o &eacute; a mesma coisa&rdquo;.<\/p>\n<p>Ao praticar este desporto, o sacerdote do Porto sublinha que esta &ldquo;&eacute; uma dimens&atilde;o interessante da vida do padre&rdquo;. Permite estar com pessoas que, &ldquo;talvez nunca estivessem com um padre se n&atilde;o fosse nesta situa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Os colegas destas lides mar&iacute;timas sabem &ldquo;que sou padre e olham para mim como um igual, mas h&aacute; ali uma refer&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p>Como Espinho &eacute; atravessada pela linha de comboio, o Pe. Jos&eacute; Pedro equipa-se na praia. N&atilde;o vai de cabe&ccedil;&atilde;o para a praia&#8230; (Risos) &ldquo;Tenho uma Lycra branca que por baixo do fato preto parece um cabe&ccedil;&atilde;o&rdquo; &ndash; afirma num tom jocoso.<\/p>\n<p>O p&aacute;roco de Espinho dropa e faz rota&ccedil;&otilde;es sobre as ondas. Os mais habilidosos colocam-se de joelhos na prancha&#8230; &ldquo;Uma vez tentei colocar-me de joelhos e levei com a prancha na cabe&ccedil;a&rdquo; (risos). A caminho dos 40 anos, o padre surfista n&atilde;o se considera um &laquo;expert&raquo; no bodyboard. &ldquo;H&aacute; tipos que fazem manobras incr&iacute;veis&rdquo;.<\/p>\n<p>O objectivo principal &eacute; a divers&atilde;o, mas tamb&eacute;m evangeliza atrav&eacute;s deste desporto. A imagem da Igreja est&aacute; presente no areal e nas ondas de Espinho. Faz a liga&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;jovens da par&oacute;quia ao bodyboard&rdquo; e, recentemente, fizeram uma tenda na praia com actividades eclesiais. A popula&ccedil;&atilde;o &ldquo;encara bem estas iniciativas&rdquo; fora das paredes da igreja.&nbsp;<\/p>\n<p>Os colegas padres n&atilde;o o criticam por praticar este desporto, mas o seu bispo, D. Manuel Clemente, &ldquo;&agrave;s vezes diz-me que estou com ar estival&rdquo;. E avan&ccedil;a: &ldquo;&eacute; o bom humor do meu bispo a funcionar&rdquo; (Risos&#8230;)<\/p>\n<p>A fazer a tese de doutoramento na Faculdade de Teologia no Porto sobre a &laquo;Cruz de Jesus&raquo;, o Pe. Jos&eacute; Pedro passa tamb&eacute;m muito do seu tempo no atendimento, &ldquo;sobretudo espiritual&rdquo; aos paroquianos. Ao final do dia celebra a Eucaristia, mas &ldquo;tenho tamb&eacute;m muitos funerais&rdquo;. A noite &eacute; reservada &agrave;s reuni&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o. Quase todos os movimentos que &ldquo;existem na Igreja Universal t&ecirc;m express&atilde;o em Espinho&rdquo; &ndash; afirma.<\/p>\n<p>H&aacute; seis anos naquela localidade, ainda n&atilde;o conhece a par&oacute;quia &ldquo;como a palma das minhas m&atilde;os&rdquo;, mas &ldquo;fa&ccedil;o caminho todos os dias com as pessoas&rdquo; &ndash; garante. Com uma grande itiner&acirc;ncia &ndash; as pessoas deslocam-se com frequ&ecirc;ncia &ndash; Espinho &eacute; &ldquo;muito diferente das par&oacute;quias vizinhas&rdquo;. Com cerca de 1500 crian&ccedil;as na catequese, nesta par&oacute;quia da diocese do Porto frequentam &ndash; ao fim de semana &#8211; a Eucaristia mais de tr&ecirc;s mil pessoas. Espinho &ldquo;n&atilde;o se pode desviar do mar&rdquo; porque este &ldquo;vela uma realidade oculta&rdquo;.<\/p>\n<p>Nunca pensou fundar uma associa&ccedil;&atilde;o de surfistas cat&oacute;licos, embora no Brasil tomasse contacto com um grupo de surfistas crist&atilde;os. &ldquo;&Eacute; uma hip&oacute;tese pensar numa coisa desse g&eacute;nero&rdquo;. Para patrono dos surfistas escolhia S. Jo&atilde;o devido &ldquo;&agrave; delicadeza da sua liga&ccedil;&atilde;o a Cristo&rdquo; ou ent&atilde;o S. Pedro por causa &ldquo;do desafio de me lan&ccedil;ar nas ondas&rdquo;. E conclui: &ldquo;este ano, nas festas de S. Pedro, fiz a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o dos surfistas&rdquo;. Em Espinho, a Igreja prolonga-se at&eacute; &agrave; crista das ondas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&nbsp;Luis Filipe Santos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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