{"id":407628,"date":"2026-01-13T11:27:11","date_gmt":"2026-01-13T11:27:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=407628"},"modified":"2026-01-31T10:57:15","modified_gmt":"2026-01-31T10:57:15","slug":"as-vezes-passamos-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-vezes-passamos-fome\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c0s vezes passamos fome\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Sacerdote relata como \u00e9 a vida em Bila Tserkva, na regi\u00e3o de Kiev<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_407630\" aria-describedby=\"caption-attachment-407630\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-407630 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Padre-Lucas-Perozzi.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-407630\" class=\"wp-caption-text\">Foto: ACN<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>O Padre Lucas Perozzi vive na Ucr\u00e2nia h\u00e1 22 anos. Agora est\u00e1 em Bila Tserkva, a cerca de uma centena de quil\u00f3metros da capital, Kiev. Tem \u00e0 sua responsabilidade tr\u00eas par\u00f3quias. \u00c9 uma zona pobre, onde h\u00e1 constantes falhas de electricidade. Muitas vezes, a Missa \u00e9 celebrada \u00e0 luz das velas. E tamb\u00e9m h\u00e1 dias em que n\u00e3o h\u00e1 nada para comer. Em v\u00e9speras do Natal, o sacerdote, que \u00e9 apoiado pela Funda\u00e7\u00e3o AIS, diz que apenas espera \u201cque Deus Se fa\u00e7a presente\u201d e que a guerra acabe&#8230; Por ali, os ataques continuam e todos os dias h\u00e1 o enterro de algum soldado, de algum militar\u2026<\/em><\/p>\n<p>Lucas Perozzi est\u00e1 em Bila Tserkva, uma pequena cidade com pouco mais de 280 mil habitantes. Neste momento tem tr\u00eas par\u00f3quias ao seu cuidado. \u00c9 uma nova experi\u00eancia na vida deste jovem sacerdote brasileiro de 39 anos de idade, depois de ter sido vig\u00e1rio da Igreja da Dormi\u00e7\u00e3o da Virgem Maria, na capital ucraniana, e de ter estado na cidade-dormit\u00f3rio de Bayarka. Agora vive mais longe de Kiev, a cerca de 100 km de dist\u00e2ncia. Mas, apesar disso, a guerra continua presente, como uma assombra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o desaparece. Em Bila Tserkva, cujo nome, numa tradu\u00e7\u00e3o simples, significa Igreja Branca, h\u00e1 menos bombardeamentos do que em Kiev, mas os ataques causam mais danos pois as defesas antia\u00e9reas s\u00e3o em menor n\u00famero. E sempre que se escutam as sirenes de alarme, avisando a imin\u00eancia de algum ataque, isso tem de ser levado mesmo a s\u00e9rio. \u201cLembro-me do primeiro dia que dormi aqui depois da mudan\u00e7a\u201d, recorda o Padre Lucas \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o AIS. \u201cNesse dia, houve um ataque bem forte, e essa foi a diferen\u00e7a que eu senti em rela\u00e7\u00e3o a Kiev. O som [dos m\u00edsseis] e todos ca\u00edram no alvo, enquanto em Kiev s\u00e3o interceptados no ar.\u201d Logo nessa primeira noite em Bila Tserkva houve mortos e feridos. \u201cUm edif\u00edcio caiu, um edif\u00edcio de quatro andares, duas pessoas morreram, oito ficaram feridas e houve v\u00e1rias casas que ficaram arruinadas, n\u00e3o s\u00f3 o pr\u00e9dio onde caiu o m\u00edssil, mas tamb\u00e9m outros seis edif\u00edcios em redor\u2026\u201d, diz o sacerdote, acrescentando quase em tom de resigna\u00e7\u00e3o: \u201ca vida \u00e9 assim\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cTodos os dias nos deparamos com a morte\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A vida ali em Bila Tserkva \u00e9 dura. A regi\u00e3o \u00e9 pobre e os ataques russos t\u00eam sido impiedosos sobretudo para as infraestruturas energ\u00e9ticas. E agora, com o Inverno a ganhar for\u00e7a, com as temperaturas a descerem drasticamente, isso torna-se ainda mais angustiante. \u201cAgora estamos a ter apag\u00f5es todos os dias. Neste momento, em que estou a mandar esta mensagem, falta meia hora para come\u00e7ar a Missa e ainda estamos sem luz. \u00c0s vezes celebramos a Missa \u00e0 luz das velas, \u00e0s vezes \u00e9 com a l\u00e2mpada da bateria, enquanto a bateria est\u00e1 carregada\u2026\u201d, desabafa. \u201cAqui a luz \u00e9 desligada \u00e0s quatro horas da manh\u00e3. Depois vem \u00e0s quatro, cinco horas da tarde, mas h\u00e1 lugares em que \u00e9 pior. Um amigo meu est\u00e1 noutra cidade e por l\u00e1 sofre bastante, pois tem apenas cerca de duas horas de electricidade por dia. E isso \u00e9 das coisas mais dif\u00edceis, porque sem electricidade n\u00e3o se tem nada, n\u00e3o se faz nada\u201d, afirma. A voz do sacerdote brasileiro traduz o estado de alma de quem j\u00e1 se conformou de alguma forma com a situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 demasiados dias de guerra. Ao fim de quase quatro anos de conflito, de constantes bombardeamentos, de viol\u00eancia, de mortos e feridos, de pessoas com vidas improvisadas, parece que tudo se banalizou. Mas n\u00e3o. A morte n\u00e3o se banalizou. \u201cTodos os dias h\u00e1 not\u00edcias de soldados que morrem na guerra e todos os dias se v\u00ea algum enterro, porque o enterro de um soldado \u00e9 feito numa carreta, que leva o corpo. E todo o mundo p\u00e1ra, sai dos carros e fica em p\u00e9 em respeito a esse soldado que morreu, soldado, sargento, seja quem for. Todos os dias n\u00f3s nos deparamos com a morte e isto sem falar nos ataques\u2026\u201d<\/p>\n<p><strong>Pagar para \u201cutilizar a igreja que nos roubaram\u201d<\/strong><\/p>\n<p>As par\u00f3quias onde agora o Padre Lucas se encontra em miss\u00e3o fazem parte de uma Ucr\u00e2nia mais rural, mais afastada da grande urbe, onde a vida das pessoas se faz tamb\u00e9m com mais dificuldade. A par\u00f3quia onde se encontra, em Bila Tserkva, \u00e9 exemplo disso. Neste momento, a comunidade cat\u00f3lica n\u00e3o possui nenhuma igreja. A que existe foi confiscada depois da II Guerra Mundial pelo Governo comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e transformada numa sala de m\u00fasica. O regime colapsou, mas o templo nunca chegou a ser devolvido. \u201cEnt\u00e3o, n\u00f3s pagamos para celebrar a Missa na igreja\u201d, conta o padre. \u201cE todos os anos temos de fazer um acordo com o Minist\u00e9rio da Cultura para poder utilizar a igreja que nos roubaram\u201d, diz ainda. H\u00e1 tamb\u00e9m uma capelinha, \u201cque era uma garagem\u201d, que tamb\u00e9m \u00e9 utilizada para a celebra\u00e7\u00e3o da Missa e ainda para aulas de catequese e encontros de grupos paroquiais. Noutra das comunidades a que o Padre Lucas d\u00e1 apoio, o sacerdote que o antecedeu comprou, \u201ccom o apoio da Funda\u00e7\u00e3o AIS\u201d, um terreno com uma casa que estava j\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. O projecto est\u00e1 ainda um pouco atrasado.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 um milagre como as pessoas sobrevivem<\/strong><\/p>\n<p>A vida num pa\u00eds em guerra \u00e9 feita de pequenos nadas. \u201cN\u00f3s temos electricidade e n\u00e3o temos electricidade, n\u00f3s temos \u00e1gua e depois vem um tempo em que falta a \u00e1gua, \u00e0s vezes temos o que comer e depois, \u00e0s vezes, passamos fome\u2026 tem de tudo, tem de tudo\u201d, observa o sacerdote. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a vida num pa\u00eds em guerra, em que a sobreviv\u00eancia no dia-a-dia \u00e9 um desafio cada vez mais dif\u00edcil. \u201cO pre\u00e7o das coisas est\u00e1 a ficar cada vez mais caro e as pessoas n\u00e3o sabem o que fazer. \u00c9 um milagre como as pessoas vivem, os refugiados que vieram de leste e que moram aqui\u2026 \u00c9 impressionante\u2026 n\u00e3o sei como sobrevivem, sobretudo os mais velhos\u201d, desabafa. A mensagem enviada para a Funda\u00e7\u00e3o AIS em Lisboa pelo Padre Lucas Perozzi termina com um pedido de ora\u00e7\u00e3o: \u201crezem por mim\u201d. \u00c9 um pedido de ora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m porque o bispo lhe pediu agora mais uma miss\u00e3o. A de confessar, uma vez por m\u00eas, soldados estrangeiros que est\u00e3o integrados nas fileiras do ex\u00e9rcito ucraniano e que se encontram numa outra diocese, numa zona situada mais perto da linha da frente dos combates. \u201cVou confessar e dar os sacramentos e conversar com os soldados estrangeiros, sobretudo aqueles que falam espanhol e portugu\u00eas\u201d, explica \u00e0 AIS. \u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 fez em Kiev, experi\u00eancia de que n\u00e3o se consegue esquecer. \u201c\u00c9 impressionante, impressionante\u201d, diz. O sacerdote brasileiro assegura que esses soldados que conheceu no confession\u00e1rio \u201cencontraram Cristo e ficaram muito contentes e tiveram uma vida antes e uma vida depois do nosso encontro, tiveram uma vida nova\u201d. \u201cMuitos deles voltaram para a guerra, alguns mant\u00eam contacto comigo, outros voltaram para casa, mas isto \u00e9 uma miss\u00e3o muito importante\u201d, sublinha. \u201cTenho de me apoiar em Cristo e pedir que Ele me mantenha, que me ajude\u201d, diz. \u201cPor isso, tamb\u00e9m pe\u00e7o a todos ajuda. Rezem por n\u00f3s, coloquem-nos sempre nas vossas ora\u00e7\u00f5es\u201d, diz ainda, concluindo: \u201cEstou disposto a fazer o que for preciso por Cristo, por aquelas pessoas a quem Ele me mandou\u201d.<\/p>\n<p>Paulo Aido | Departamento de Informa\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o AIS | www.fundacao-ais.pt<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sacerdote relata como \u00e9 a vida em Bila Tserkva, na regi\u00e3o de 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