{"id":40756,"date":"2009-09-12T15:20:57","date_gmt":"2009-09-12T15:20:57","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/09\/12\/homilia-da-dedicacao-da-se\/"},"modified":"2009-09-12T15:20:57","modified_gmt":"2009-09-12T15:20:57","slug":"homilia-da-dedicacao-da-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-da-dedicacao-da-se\/","title":{"rendered":"Homilia da Dedica\u00e7\u00e3o da S\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Em ora\u00e7\u00e3o, tornemo-nos miss\u00e3o! <!--more--> <\/p>\n<p>Compreenderemos muito bem, estimados irm&atilde;os e irm&atilde;s, o espanto de Salom&atilde;o, que a primeira leitura resumia assim: &ldquo; &#8211; Mas ser&aacute; poss&iacute;vel que Deus habite com os homens na terra?&rdquo;. Como o rei antigo, bem sabemos que os c&eacute;us s&atilde;o pequenos e toda a terra ex&iacute;gua para conterem o seu infindo Criador. E ainda menos qualquer casa que Lhe levantemos, mesmo t&atilde;o grandiosa como o templo de Jerusal&eacute;m, mesmo t&atilde;o vener&aacute;vel como esta igreja catedral cuja dedica&ccedil;&atilde;o comemoramos.<\/p>\n<p>Sabemos at&eacute; &ndash; e &eacute; bom que o saibamos deveras &ndash; como s&atilde;o perigosas e persistentes as materializa&ccedil;&otilde;es do culto, as localiza&ccedil;&otilde;es da devo&ccedil;&atilde;o e as prefer&ecirc;ncias dos lugares, quando se trata da nossa rela&ccedil;&atilde;o com o Deus vivo, sempre mais al&eacute;m de qualquer previs&atilde;o nossa. Como sabemos igualmente que a tend&ecirc;ncia contr&aacute;ria, para abstrair e deslocalizar, treinando a mente para a n&atilde;o-representa&ccedil;&atilde;o absoluta, podendo traduzir em si mesma o respeito devido &agrave; alteridade divina, n&atilde;o pode resumir tudo quanto a revela&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica nos oferece, enquanto revela&ccedil;&atilde;o de Deus e do homem, em m&uacute;tuo relacionamento.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio Salom&atilde;o o pressentia, logo a seguir, dirigindo-se ao mesmo Deus que confessara t&atilde;o ilocaliz&aacute;vel: &ldquo;Os vossos olhos estejam abertos, dia e noite, sobre esta casa, sobre este lugar do qual dissestes: &lsquo;A&iacute; estar&aacute; o meu nome&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas era ainda dum lugar que se tratava&hellip; Seria destru&iacute;do mais tarde e uma e outra vez reconstru&iacute;do, como derrubadas, frustradas e apesar de tudo persistentes foram as expectativas dos seus devotos, de esclarecimento v&aacute;rio. At&eacute; que n&atilde;o ficasse pedra sobre pedra&hellip;<\/p>\n<p>S&iacute;mbolo duma rela&ccedil;&atilde;o viva e aut&ecirc;ntica, como devia ser, entre o povo e Deus, o templo foi destru&iacute;do pelo pr&eacute;vio definhamento dessa rela&ccedil;&atilde;o, da parte do povo, como tantos profetas alertaram, da parte de Deus. Deus &eacute; verdadeiramente ilimit&aacute;vel, mas a si mesmo se adequa ao espa&ccedil;o limitado de cada pessoa humana, pois &eacute; essa a verdade do amor. Tivesse permanecido a adora&ccedil;&atilde;o do povo e as paredes do templo n&atilde;o seriam derrubadas. Porque &eacute; esta a qualidade dos s&iacute;mbolos: re&uacute;nem a quantidade do que h&aacute; e vai haver; diluem-se quando a realidade se rarefaz, por aus&ecirc;ncia ou olvido.<\/p>\n<p>&Eacute; uma constata&ccedil;&atilde;o f&aacute;cil, mas tamb&eacute;m uma advert&ecirc;ncia s&eacute;ria. E tendo aqui connosco os nossos professores de moral e religi&atilde;o cat&oacute;licas, no in&iacute;cio do novo ano escolar, n&atilde;o quero deixar de agradecer e motivar ainda mais o seu trabalho, como guardi&atilde;es criativos da tradi&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do humanismo crist&atilde;o, t&atilde;o necess&aacute;ria &agrave; nossa auto-compreens&atilde;o como sociedade e t&atilde;o motivadora da nossa realiza&ccedil;&atilde;o fraterna.<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos professores: chamai a aten&ccedil;&atilde;o dos vossos alunos para os s&iacute;mbolos magn&iacute;ficos do Cristianismo vivo. Mas, sobretudo, ajudai-os a interpretar a sua linguagem e atra&iacute;-os &agrave; verdade que os preenche, em todas as artes que os constru&iacute;ram e em toda a caridade que traduzem. Foi por isso mesmo que, da parte de Deus, a miseric&oacute;rdia acabou em figura de homem: Deus absoluto num homem concreto.<\/p>\n<p>Ouvimo-lo no Evangelho, como conv&eacute;m lembrar. Naquele di&aacute;logo entre Jesus e os seus disc&iacute;pulos, naquela afirma&ccedil;&atilde;o de Pedro e na resposta do Mestre desvendado, renasceu o &ldquo;templo&rdquo;, transformado agora em Igreja de pedras vivas e congregadas pela mesma f&eacute; confessada. A Igreja nasce assim, com os que respondem com o ap&oacute;stolo: &ldquo;Tu &eacute;s o Messias, o Filho de Deus vivo!&rdquo;. A Igreja cresce tamb&eacute;m, no alargamento desta certeza, que o pr&oacute;prio Pai infunde pelo esclarecimento do Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Assintamos n&oacute;s, cada um de n&oacute;s, do modo mais consciente e respons&aacute;vel. Mas a iniciativa &eacute; verdadeiramente divina: o Pai oferece-nos em Jesus uma presen&ccedil;a salv&iacute;fica e, pelo Esp&iacute;rito, faz-nos reconhec&ecirc;-lo como tal. Neste reconhecimento de todos, t&atilde;o bem significado na resposta de Pedro, unimo-nos como Igreja, para Deus e para o mundo. Para Deus em ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as, para o mundo em miss&atilde;o evangelizadora.<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos Vig&aacute;rios, coordenadores por excel&ecirc;ncia da vida eclesial das vossas vigararias; car&iacute;ssimos professores, que em tantas escolas prolongais a pergunta de Jesus, como que proporcionando ao Esp&iacute;rito a ocasi&atilde;o para os vossos alunos responderem como Pedro; car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s aqui presentes na inaugura&ccedil;&atilde;o dum novo ano pastoral: se nos preparamos todos para a Miss&atilde;o Diocesana, a desenvolver em 2010, tenhamos muito em conta que ela s&oacute; poder&aacute; significar o que o trecho evang&eacute;lico nos ensinou. E isto com duas condi&ccedil;&otilde;es imprescind&iacute;veis: ser&aacute; obra divina, iluminando as nossas intelig&ecirc;ncias e cora&ccedil;&otilde;es para o reconhecimento de Jesus como Cristo e salvador; requer que cada um de n&oacute;s, pessoal e comunitariamente, deixe transparecer em si mesmo a presen&ccedil;a de Jesus, interpelando pelo testemunho e interrogando por palavras e obras.<\/p>\n<p>Sim, amados irm&atilde;s e irm&atilde;s, a iniciativa &eacute; divina, na ac&ccedil;&atilde;o conjunta das tr&ecirc;s Pessoas da Trindade Sant&iacute;ssima. A Igreja, tamb&eacute;m &ldquo;desce do C&eacute;u&rdquo;, como sinal e opera&ccedil;&atilde;o daquela &uacute;ltima cidade em que nos realizaremos todos. Disse-o o vidente, com palavras de grande significado e sugest&atilde;o: &ldquo;Vi tamb&eacute;m a cidade santa, a nova Jerusal&eacute;m, que descia do C&eacute;u, da presen&ccedil;a de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas nada disto nos dispensa, nem secundariza o esfor&ccedil;o; muito pelo contr&aacute;rio,&nbsp; exige-nos uma grande compreens&atilde;o e corresponsabilidade, por n&atilde;o ser obra primariamente nossa, mas essencialmente divina, que passa por cada um de n&oacute;s, onde esteja e com os encargos que lhe impendem.<\/p>\n<p>Assim nos preparamos imediatamente para a miss&atilde;o diocesana. E, uma vez assentes nas ideias, sejamos agora pr&aacute;ticos na ac&ccedil;&atilde;o. Com alguns pontos enunci&aacute;veis:<\/p>\n<p>1&ordm;) Crist&atilde;os singulares e comunidades crist&atilde;s, um por um e todos juntos, em par&oacute;quias e capelanias, congrega&ccedil;&otilde;es e institutos, irmandades e associa&ccedil;&otilde;es, movimentos e grupos; car&iacute;ssimos professores e demais educadores, escola a escola, em todos os graus de ensino: <span style=\"text-decoration: underline;\">antes de mais, rezai pela miss&atilde;o e rezai-vos em miss&atilde;o<\/span>, assumindo as imprescind&iacute;veis palavras de Paulo: &ldquo;Mas, quando aprouve a Deus [&hellip;] revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios&rdquo; (<em>Gl<\/em> 1, 15-16).<\/p>\n<p>Sim, amados irm&atilde;os e irm&atilde;s, a miss&atilde;o n&atilde;o se garante em nenhum voluntarismo nosso, mas na vontade de Deus, unicamente na sua disposi&ccedil;&atilde;o constante de chegar pelo corpo eclesial de Cristo a cada pessoa e situa&ccedil;&atilde;o, com palavras de salva&ccedil;&atilde;o e paz, as mais concretas e situadas, caso a caso. Para isso trabalha o Esp&iacute;rito, revelando-nos Jesus como Cristo e revelando Cristo em n&oacute;s, como oferta ao mundo.<\/p>\n<p>Mas o que isto possa ser agora e em cada m&ecirc;s de 2010, apesar de tudo quanto programemos, s&oacute; Deus essencialmente o sabe, revelando-o aos cora&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis que lhe repitam sem cessar: &ldquo;Seja feita a vossa vontade!&rdquo;. Assim aconteceu o Evangelho no mundo, pelo cora&ccedil;&atilde;o de Maria, s&iacute;mbolo viv&iacute;ssimo de todas as miss&otilde;es. Deixai-me, a prop&oacute;sito, recordar o que me disse h&aacute; anos um monge grego, precisamente no local em que Jo&atilde;o viu descer do c&eacute;u a cidade santa: &ldquo;Para n&oacute;s, a evangeliza&ccedil;&atilde;o acontece quando deixamos o Esp&iacute;rito transformar-nos em Evangelho vivo&rdquo;.<\/p>\n<p>Tentando ser ainda mais pr&aacute;tico e quase comezinho, dir-vos-ei: inclu&iacute; no vosso programa di&aacute;rio a ora&ccedil;&atilde;o pela miss&atilde;o, reproduzindo os sentimentos de Maria: &ldquo;Eis a serva do Senhor, fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua palavra&rdquo; (<em>Lc<\/em> 1, 38).<\/p>\n<p>2&ordm;) Tomai em considera&ccedil;&atilde;o atenta os t&oacute;picos de cada m&ecirc;s, j&aacute; apresentados em Maio passado pelos nossos Secretariados Diocesanos e agora mais especificados no Calend&aacute;rio divulgado. <span style=\"text-decoration: underline;\">Constitu&iacute; em cada realidade eclesial um ou v&aacute;rios grupos de trabalho que, em ambiente de ora&ccedil;&atilde;o e criatividade, olhem a realidade envolvente e concretizem ac&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de evangeliza&ccedil;&atilde;o<\/span>, para chegar um pouco mais longe e sempre mais a fundo, com o an&uacute;ncio de Jesus Cristo, de Jesus como Cristo e salvador de todas as ocasi&otilde;es e circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>Est&atilde;o a ser preparadas pelos Secretariados ac&ccedil;&otilde;es de refer&ecirc;ncia, m&ecirc;s a m&ecirc;s, em liga&ccedil;&atilde;o com o ritmo da nossa sociedade e cultura. Mas, pretendendo ser apenas isso &ndash; ac&ccedil;&otilde;es de refer&ecirc;ncia &ndash;, visam sugerir e estimular e n&atilde;o substituir nem obviar o que s&oacute; nos diversos locais e sectores pode e deve ser pensado e realizado. Por isso deixai-me insistir, em especial para os &acirc;mbitos vicariais e escolares, aqui t&atilde;o presentes nesta feliz celebra&ccedil;&atilde;o: &#8211; Retomando o estilo evang&eacute;lico, t&atilde;o praticado ali&aacute;s pela Ac&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica, local a local, sector a sector, vede, julgai e agi! Vede e avaliai as situa&ccedil;&otilde;es e as urg&ecirc;ncias; ajuizai com crit&eacute;rio evang&eacute;lico o que podeis e deveis fazer; seleccionai as ac&ccedil;&otilde;es correspondentes e levai-as por diante. &ndash; Como ser&aacute; revelador, mais para o fim da Miss&atilde;o, escutarmos os relatos do que foi acontecendo, nesta ou naquela par&oacute;quia, nesta ou naquela escola, nos mais diversos recantos do territ&oacute;rio, da sociedade e da cultura! Saberemos melhor o que fazer depois, na segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo; divisaremos com mais nitidez, como vai &ldquo;descendo&rdquo; do C&eacute;u a cidade santa.<\/p>\n<p>Retomemos, por fim, o come&ccedil;o destas considera&ccedil;&otilde;es que a Palavra de Deus nos sugeriu, rumo &agrave; Miss&atilde;o 2010. A Igreja acontece e expande-se como oferta, pelo reconhecimento de Jesus como o Messias de todas as esperan&ccedil;as, o Cristo da resposta divina ao cora&ccedil;&atilde;o de todos. A Igreja, descobrindo-O assim pela ilumina&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito, vai-se descobrindo n&rsquo;Ele, por uma rela&ccedil;&atilde;o viva que a transforma em seu corpo e manifesta&ccedil;&atilde;o ao mundo. &Eacute; este o &acirc;mago da miss&atilde;o eclesial.<\/p>\n<p>Certeiramente o indicou o papa Jo&atilde;o Paulo II, quando nos deixou h&aacute; anos um &ldquo;programa&rdquo; para o novo mil&eacute;nio, cuja primeira d&eacute;cada a nossa miss&atilde;o quer ultimar. Escrevia assim o grande pont&iacute;fice, como decerto todos recordamos: &ldquo;&hellip; os homens do nosso tempo, talvez sem se darem conta, pedem aos crentes de hoje n&atilde;o s&oacute; que lhes &lsquo;falem&rsquo; de Cristo, mas tamb&eacute;m que de certa forma lho fa&ccedil;am &lsquo;ver&rsquo;. E n&atilde;o &eacute; porventura a miss&atilde;o da Igreja reflectir a luz de Cristo em cada &eacute;poca da hist&oacute;ria, e por conseguinte fazer resplandecer o seu rosto tamb&eacute;m diante das gera&ccedil;&otilde;es do novo mil&eacute;nio?&rdquo; (Carta apost&oacute;lica <em>Novo millenio ineunte<\/em>, n&ordm; 16). E ainda: &ldquo;O programa j&aacute; existe: &eacute; o mesmo de sempre, expresso no Evangelho e na tradi&ccedil;&atilde;o viva. Concentra-se, em &uacute;ltima an&aacute;lise, no pr&oacute;prio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para nele viver a vida trinit&aacute;ria e com Ele transformar a hist&oacute;ria at&eacute; &agrave; sua plenitude na Jerusal&eacute;m celeste. &Eacute; um programa que n&atilde;o muda com a varia&ccedil;&atilde;o dos tempos e das culturas, embora se tenha em conta o tempo e a cultura para um di&aacute;logo verdadeiro e uma comunica&ccedil;&atilde;o eficaz. Este programa de sempre &eacute; o nosso programa para o terceiro mil&eacute;nio&rdquo; (<em>ibidem<\/em>, n&ordm;29).<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s, aqui reunidos como corpo eclesial de Cristo, na dedica&ccedil;&atilde;o constante da nossa catedral e diocese: &#8211; Temos programa, temos conte&uacute;do e temos crit&eacute;rio: demos-lhes &ldquo;cor local&rdquo; e oportuna, refulgurando em cada crente, comunidade e sector o rosto de Cristo, que quer ser &ldquo;Deus connosco&rdquo; em 2010 e sempre!<\/p>\n<p>Porto, Solenidade da Dedica&ccedil;&atilde;o da S&eacute;, 9 de Setembro de 2009<\/p>\n<p>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em ora\u00e7\u00e3o, tornemo-nos 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