{"id":407321,"date":"2026-01-11T09:00:24","date_gmt":"2026-01-11T09:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=407321"},"modified":"2026-01-10T22:32:05","modified_gmt":"2026-01-10T22:32:05","slug":"se-queres-a-paz-prepara-te-para-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/se-queres-a-paz-prepara-te-para-a-paz\/","title":{"rendered":"Se queres a paz, prepara-te para a paz"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-271042 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Vale a pena lembr\u00e1-lo. Foi h\u00e1 duzentos e trinta anos. Em 1795 Immanuel Kant publicou o op\u00fasculo \u201cA Paz Perp\u00e9tua \u2013 Um projecto filos\u00f3fico\u201d que viria a inspirar muito o ideal da democracia liberal e a cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de muitos organismos de cariz internacional centrados na Paz como a Sociedade das Na\u00e7\u00f5es [1919], ap\u00f3s a Primeira Grande Guerra, e, particularmente, das institui\u00e7\u00f5es que surgiram ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial como as Na\u00e7\u00f5es Unidas [1945] e Comunidades Europeias. O Direito Internacional Humanit\u00e1rio, de que tando se vem falando recentemente, estar\u00e1 tamb\u00e9m ligado ao ideal kantiano do projecto filos\u00f3fico de \u00abPaz Perp\u00e9tua\u00bb.<\/p>\n<p>Immanuel Kant, nasceu [22 de Abril de 1724] e faleceu [12 de Fevereiro de1804] em K\u00f6nigsberg, capital da ent\u00e3o Pr\u00fassia Oriental, e aqui ter\u00e1 escrito aquele projecto filos\u00f3fico, idealista e normativo, sobre a \u00abPaz Perp\u00e9tua\u00bb. Por ironia da Hist\u00f3ria \u2013 a Hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de ironias \u2013 a K\u00f6nigsberg da Pr\u00fassia Oriental, chamada desde 1946 Kaliningrado, constitui hoje um territ\u00f3rio russo, situado entre dois membros da Uni\u00e3o Europeia desde 2004, a Litu\u00e2nia e a Pol\u00f3nia. Relativamente perto, portanto, da zona de conflito b\u00e9lico resultante da invas\u00e3o da martirizada Ucr\u00e2nia por parte da R\u00fassia que veio trazer a intranquilidade \u00e0 Europa e ao mundo<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por ironia da Hist\u00f3ria \u2013 mais uma \u2013 foi ali, em Kaliningrado, que Putin, h\u00e1 vinte anos, em 2005, descerrou uma l\u00e1pide em honra daquele fil\u00f3sofo, mostrando-se, \u00e0 altura, real ou ficticiamente, muito kantiano relativamente aos ideais de uma \u00abPaz Perp\u00e9tua\u00bb desenvolvida na base de entendimento e coopera\u00e7\u00e3o entre Estados soberanos, como quem, superando o velho dizer \u00absi vis pacem, para bellum\u00bb [se queres a paz, prepara-te para a guerra], anuncia: Se queres a paz, prepara rectamente as condi\u00e7\u00f5es\u00a0 para a paz.\u00bb.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 vinte anos que a l\u00e1pide foi descerrada. Entretanto muitas voltas deu o mundo e hoje as institui\u00e7\u00f5es internacionais parecem s\u00f3 dificilmente resistir a tens\u00f5es e conflitos que explodem em guerras ou as potenciam e parecem alimentar um total cepticismo sobre a possibilidade de concretiza\u00e7\u00e3o da Paz. O Papa Le\u00e3o XIV na recente audi\u00eancia ao Corpo Diplom\u00e1tico constata que \u00ab<em>Uma diplomacia que promove o di\u00e1logo e procura o consenso de todos est\u00e1 a ser substitu\u00edda por uma diplomacia da for\u00e7a, de indiv\u00edduos ou de grupos de aliados<\/em>.\u00bb E acrescenta sem medo das palavras: \u00ab<em>A guerra voltou a estar na moda e um fervor b\u00e9lico est\u00e1 se alastrando. Foi quebrado o princ\u00edpio, estabelecido ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, que proibia os pa\u00edses de recorrerem \u00e0 for\u00e7a para violar fronteiras alheias<strong>.\u00bb<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na verdade, a Paz sonhada por Kant era a Paz pensada, n\u00e3o s\u00f3 enquanto aus\u00eancia da guerra, uma paz negativa, mas uma Paz vista como resultado de um conjunto de condi\u00e7\u00f5es reais trabalhadas permanentemente e de modo duradouro pelos homens e seus Estados. Era a \u00abPaz Perp\u00e9tua\u00bb sonhada positivamente como ideal cosmopolita alicer\u00e7ado num quadro de racionalidade pol\u00edtica e jur\u00eddica que marcava de modo claro e objectivo uma mudan\u00e7a de paradigma nas rela\u00e7\u00f5es entre os povos.<\/p>\n<p>Olhando para o mundo, particularmente para a situa\u00e7\u00e3o vivida na Europa, nas Am\u00e9ricas, na extrema \u00c1sia e no M\u00e9dio Oriente, tudo parece concorrer para alimentar o cepticismo nos indiv\u00edduos e nos povos. Cepticismo que importa superar.<\/p>\n<p>Agora que se fecharam as portas da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, procedendo assim o Papa Le\u00e3o XIV ao encerramento do Ano Jubilar da Esperan\u00e7a, importar\u00e1 n\u00e3o esquecer a mensagem do Pont\u00edfice para o Dia Mundial da Paz, um de Janeiro. Ela est\u00e1 a\u00ed, nas nossas letras de papel, \u00e0 espera que ela seja escrita nas vidas humanas, das pessoas e das na\u00e7\u00f5es, neste momento em que parece vivermos dependentes de interesses e paix\u00f5es pessoais e loucura de alguns, enquanto se fragilizam as institui\u00e7\u00f5es internacionais que nos habitu\u00e1mos a ver como sustent\u00e1culo e promotoras da Paz.<\/p>\n<p>\u00c9 pela esperan\u00e7a jubilar que come\u00e7a termina aquela mensagem. No in\u00edcio para desfazer \u00abas narrativas privadas de esperan\u00e7a\u00bb que se apresentam como \u00abrealistas\u00bb, mas que n\u00e3o s\u00e3o mais do que \u00abuma representa\u00e7\u00e3o parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo.\u00bb No final apelando a \u00abtodas as iniciativas espirituais, culturais e pol\u00edticas que mantenham viva a esperan\u00e7a, combatendo a difus\u00e3o de \u201catitudes fatalistas a respeito da globaliza\u00e7\u00e3o.\u00bb Na subst\u00e2ncia da mensagem eu vejo aquilo a que o Papa Jo\u00e3o Paulo II designou, metaforicamente na Enc\u00edclica \u201cFides et Ratio\u201d, as \u00abduas asas do esp\u00edrito\u00bb: a f\u00e9 e a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Naturalmente \u00e9 a f\u00e9 que abre a mensagem da Paz de Le\u00e3o XIV, invocando \u00aba paz de Cristo ressuscitado\u00bb cuja luz \u00e9 necess\u00e1rio ver e nela acreditar \u00abpara n\u00e3o nos afundarmos na escurid\u00e3o dos tempos.\u00bb Por isso em \u00abCristo, nossa paz\u00bb, \u00aba paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a intelig\u00eancia, resiste \u00e0 viol\u00eancia e a vence.\u00bb<\/p>\n<p>Citando a enc\u00edclica \u201cPacem in terris\u201d de Jo\u00e3o XXIII, o Papa Le\u00e3o XIV evoca \u00abos princ\u00edpios da recta raz\u00e3o\u00bb para defender que a verdadeira paz n\u00e3o se baseia no equil\u00edbrio de for\u00e7as armamentistas, \u00abmas sim e exclusivamente na confian\u00e7a m\u00fatua\u00bb, sendo certo que o necess\u00e1rio \u00abdesarmamento integral \u00e9 aquele que \u00abatinja o pr\u00f3prio esp\u00edrito.\u00bb Adiante \u00e9 tamb\u00e9m \u00abo reto uso da raz\u00e3o\u00bb que, a par das grandes tradi\u00e7\u00f5es espirituais, nos faz ir al\u00e9m dos la\u00e7os de sangue e \u00e9tnicos, devendo os fi\u00e9is ver como \u00abformas de blasf\u00e9mia que obscurecem o Santo Nome de Deus\u00bb o \u00abarrastar as palavras da f\u00e9 para o embate pol\u00edtico, aben\u00e7oar o nacionalismo e justificar religiosamente a viol\u00eancia e a luta armada.\u00bb<\/p>\n<p>Citando Isa\u00edas (<em>Is<\/em> 2, 4-5) Le\u00e3o XIV desafia os milh\u00f5es de seres humanos que se redescobriram peregrinos no Jubileu da Esperan\u00e7a a iniciarem em si mesmos o \u00abdesarmamento do cora\u00e7\u00e3o, da mente e da vida.\u00bb A paz \u00abdesarmada e desarmante\u00bb \u00e9 tamb\u00e9m uma responsabilidade de cada um.<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da 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