{"id":407020,"date":"2026-01-11T09:31:35","date_gmt":"2026-01-11T09:31:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=407020"},"modified":"2026-01-09T13:23:23","modified_gmt":"2026-01-09T13:23:23","slug":"sociedade-perdemos-a-capacidade-de-interpretar-o-tempo-na-trajetoria-historica-miguel-monjardino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-perdemos-a-capacidade-de-interpretar-o-tempo-na-trajetoria-historica-miguel-monjardino\/","title":{"rendered":"Sociedade: \u00abPerdemos a capacidade de interpretar o tempo na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica\u00bb &#8211; Miguel Monjardino"},"content":{"rendered":"<p><em>2026 trouxe uma nova realidade geopol\u00edtica: de um lado, a interven\u00e7\u00e3o militar direta dos Estados Unidos na Venezuela para capturar Nicol\u00e1s Maduro; do outro, a press\u00e3o sobre a Dinamarca para a compra da Gronel\u00e2ndia. O Papa apela ao respeito pela soberania de cada pa\u00eds e v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas recordam o primado do direito internacional. Para nos ajudar a ler este mapa de incertezas, \u00e9 convidado da ECCLESIA e da Renascen\u00e7a Miguel Monjardino, docente de Geopol\u00edtica e Geostrat\u00e9gia no Instituto de Estudos Pol\u00edticos da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa e analista de pol\u00edtica internacional<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_407012\" aria-describedby=\"caption-attachment-407012\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-407012 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Miguel-Monjardino-Entrevista-Ecclesia-Foto_-Fa\u0301bio-Oliveira_RR-4-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-407012\" class=\"wp-caption-text\">Foto: F\u00e1bio Oliveira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Escreveu recentemente que, do ponto de vista da administra\u00e7\u00e3o Trump, o que est\u00e1 em curso na Venezuela \u201cn\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de regime, mas sim uma altera\u00e7\u00e3o da chefia do pa\u00eds\u201d. O que \u00e9 que esta distin\u00e7\u00e3o diz sobre a forma como Washington olha agora para a soberania dos Estados?<\/em><\/p>\n<p>Do ponto de vista desta administra\u00e7\u00e3o, a soberania e os interesses dos Estados Unidos da Am\u00e9rica sobrep\u00f5em-se \u00e0 soberania e os interesses dos pa\u00edses que os EUA consideram estar na sua esfera de influ\u00eancia. Todavia, do meu ponto de vista, na trajet\u00f3ria da hist\u00f3ria norte-americana, isto n\u00e3o \u00e9 novo. Ou seja, se n\u00f3s olharmos para o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, com a primeira vers\u00e3o da \u201cdoutrina Monroe\u201d, depois com o presidente [Wiliam] McKinley e o presidente Theodore Roosevelt no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e agora com Donald Trump, o que n\u00f3s vemos \u00e9 que regularmente os Estados Unidos proclamam este tipo de direito, por assim dizer, imperial. O que \u00e9 diferente, do meu ponto de vista, \u00e9 que no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, na doutrina Monroe, os Estados Unidos eram fracos militarmente, comparado, por exemplo, com os pa\u00edses europeus, e precisavam de tempo e de espa\u00e7o para a sua expans\u00e3o interna. A doutrina Monroe \u00e9 para impedir ou aniquilar, se quisermos, o Imp\u00e9rio Espanhol na Am\u00e9rica Latina; portanto, a soberania das rep\u00fablicas latino-americanas era do interesse norte-americano. Agora passa-se o oposto, o que est\u00e1 a mudar \u00e9 a forma como esta administra\u00e7\u00e3o interpreta a doutrina Monroe, sobretudo em dire\u00e7\u00e3o a norte; em dire\u00e7\u00e3o a sul n\u00e3o me parece ser novo, pode ser \u00e9 chocante para n\u00f3s, europeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na \u00faltima semana, o jornal do Vaticano fez um elenco das interven\u00e7\u00f5es norte-americanas na Am\u00e9rica Latina, no s\u00e9culo XX\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim. S\u00f3 na d\u00e9cada antes da Guerra Civil, numa situa\u00e7\u00e3o de fragilidade interna nos Estados Unidos, conto pelo menos seis interven\u00e7\u00f5es norte-americanas na Am\u00e9rica Latina. Ap\u00f3s a Guerra Civil, quando os Estados Unidos ascendem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de grande pot\u00eancia, essa tend\u00eancia acentua-se. Depois diminuiu, foi reinterpretada, e agora com Donald Trump regressa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma grande comunidade portuguesa na Venezuela que tamb\u00e9m est\u00e1 envolvida nesta situa\u00e7\u00e3o. Existe o risco de que a Venezuela se torne um protetorado norte-americano, de facto, ou h\u00e1 outro risco ainda maior, que \u00e9 que toda esta tens\u00e3o v\u00e1 desembocar numa Guerra Civil?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios riscos aqui. O primeiro \u00e9, para percebermos o que est\u00e1 a acontecer: Donald Trump tem pouco tempo. O calend\u00e1rio de decis\u00e3o de Donald Trump e da sua administra\u00e7\u00e3o tem um prazo de validade que \u00e9 novembro deste ano, porque a administra\u00e7\u00e3o receia, e Trump tem-no dito, que os democratas ganhem o controlo da C\u00e2mara dos Representantes. Penso que o Senado ser\u00e1 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A vari\u00e1vel tempo \u00e9 importante para percebemos o processo de decis\u00e3o desta administra\u00e7\u00e3o. Tem pouco tempo para concretizar os seus objetivos, e isso explica, do meu ponto de vista, a op\u00e7\u00e3o que foi tomada, que n\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de regime, como muita gente pensou, mas sim uma altera\u00e7\u00e3o da chefia. Porqu\u00ea? Isto \u00e9 o fantasma do Iraque e do Afeganist\u00e3o, ou seja, esta \u00e9 a administra\u00e7\u00e3o que quer proteger o que considera ser os seus interesses na Venezuela e no per\u00edmetro da Am\u00e9rica Latina, mas n\u00e3o quer correr o risco que morram militares norte-americanos em combate, como aconteceu no Iraque e no Afeganist\u00e3o e, portanto, entendeu que a melhor maneira de defender esses interesses era alterar a chefia do Estado, sem haver empenhamento militar norte-americano. Como \u00e9 que isto ser\u00e1 feito? Atrav\u00e9s da coer\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e militar sobre o atual regime da Venezuela.<\/p>\n<p>Estes Estados Unidos t\u00eam a disciplina e a capacidade para executar esta pol\u00edtica? Eu pessoalmente tenho d\u00favidas de uma administra\u00e7\u00e3o t\u00e3o ca\u00f3tica. Segunda vari\u00e1vel, como \u00e9 que o regime venezuelano reagir\u00e1?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m h\u00e1 press\u00f5es internas\u2026 <\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho d\u00favidas que houve personalidades altamente influentes na Venezuela, que colaboraram direta ou indiretamente com os Estados Unidos, para \u201cexportar\u201d Nicol\u00e1s Maduro e a sua mulher para os Estados Unidos. Mas como \u00e9 que o regime se vai reorganizar internamente? N\u00f3s n\u00e3o sabemos. Sabemos, todavia, que sempre que este regime se sentiu amea\u00e7ado, a repress\u00e3o interna aumentou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, h\u00e1 receio internamente com quem vamos falando. Dizem-nos isso claramente.<\/em><\/p>\n<p>S\u00f3 pode haver. Num pa\u00eds em que o regime e os seus aliados est\u00e3o fortemente armados, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as For\u00e7as Armadas, os coletivos, esse \u00e9 um regime que, obviamente, est\u00e1 determinado a manter o poder e a riqueza, e, portanto, \u00e9 um regime determinado a resistir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 aqui a quest\u00e3o da legitimidade da interven\u00e7\u00e3o. O direito internacional est\u00e1, de facto, em causa depois desta opera\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta fascinante. E \u00e9 uma pergunta que mostra a forma como n\u00f3s pensamos. Deixe-me virar a quest\u00e3o ao contr\u00e1rio. Qual \u00e9 o problema? H\u00e1 quem diga que \u00e9 o direito internacional. E eu respondo de uma forma diferente. O problema \u00e9 o poder. O que n\u00f3s fizemos na Europa, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, do ponto de vista pol\u00edtico, do ponto de vista religioso, foi tentar criar uma ordem internacional, ou uma ordem regional, se n\u00f3s quisermos, na Europa, que abolisse o problema do poder. Da\u00ed n\u00f3s acentuarmos o primado do direito em termos internos e o primado do direito internacional em termos externos na conduta dos Estados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, na linha das v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es dos Papas, incluindo Le\u00e3o XIV\u2026<\/em><\/p>\n<p>E que est\u00e1 perfeitamente de acordo com a doutrina da Igreja e da \u201cguerra justa\u201d ao longo da hist\u00f3ria. O que Donald Trump nos vem relembrar \u00e9 que h\u00e1 uma outra maneira de n\u00f3s olharmos para tudo isto, que \u00e9 o exerc\u00edcio do poder. E ele est\u00e1 determinado a exercer o poder. As quest\u00f5es legais e as quest\u00f5es de legitimidade internacional, do ponto de vista dele, n\u00e3o devem constranger a afirma\u00e7\u00e3o do poder dos Estados Unidos como pot\u00eancia imperial. E \u00e9 isso que ele est\u00e1 a fazer, ao atuar desta forma, muito rapidamente. Do meu ponto de vista, Donald Trump \u00e9 um presidente cinematogr\u00e1fico, todos os dias tem que haver um epis\u00f3dio novo, essa \u00e9 que \u00e9 a realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s, como jornalistas, podemos confirmar que todos os dias estamos \u00e0 espera de qualquer coisa\u2026<\/em><\/p>\n<p>Ele cria os factos e o nosso papel \u00e9 tentar interpretar e acompanhar os factos. Mas ele \u00e9 que \u00e9 o ator principal do filme, essa \u00e9 a realidade, n\u00f3s olhamos do ponto de vista de uma realidade diferente. Mas a realidade do poder \u00e9 algo com o qual n\u00f3s estamos a ser confrontados, e obviamente este \u00e9 um problema muito dif\u00edcil para a Europa e para um pa\u00eds como Portugal, que viu no primado do direito internacional a forma de garantir a sua estabilidade e a sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos agora olhar para o \u00c1rtico, para a Gronel\u00e2ndia. H\u00e1 pouco referia a que a grande diferen\u00e7a \u00e9 a forma como os Estados Unidos agora se relacionam com o Norte. Por que \u00e9 que este \u00e9 um assunto t\u00e3o importante, estrategicamente, para a Europa e tamb\u00e9m para Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Historicamente, a primeira tentativa de expans\u00e3o norte-americana foi para o Norte, para o Canad\u00e1. Mas essas incurs\u00f5es militares falharam sempre, e \u00e9 s\u00f3 depois disso que os Estados Unidos se viram para o Sul. Portanto, a maneira como n\u00f3s olhamos para a trajet\u00f3ria estrat\u00e9gica norte-americana tem sido muito dominada por essa heran\u00e7a hist\u00f3rica de exerc\u00edcio do poder na Am\u00e9rica Central e na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Como Donald Trump disse na confer\u00eancia de imprensa, no dia que o Nicol\u00e1s Maduro e a sua mulher foram capturados, o que interessa agora \u00e9 o territ\u00f3rio, \u00e9 o com\u00e9rcio e s\u00e3o os recursos &#8211; impl\u00edcito nisto est\u00e3o linhas de comunica\u00e7\u00e3o mar\u00edtimas. Obviamente isto tem implica\u00e7\u00f5es ao Sul, mas tem implica\u00e7\u00f5es ao Norte, e tem a ver com a coer\u00e7\u00e3o que ele tem exercido sobre o Canad\u00e1 e tem a ver com a coer\u00e7\u00e3o que ele tem exercido sobre a Gronel\u00e2ndia, que \u00e9 algo que do nosso ponto de vista n\u00e3o faz sentido, n\u00e3o faz sentido porque os Estados Unidos j\u00e1 quiseram comprar a Gronel\u00e2ndia em 1946, houve uma conversa explorat\u00f3ria no sentido de conseguir isso, a Dinamarca n\u00e3o aceitou. E agora tamb\u00e9m n\u00e3o aceita, ent\u00e3o toda esta coer\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8211; nem imagino em termos privados o que estar\u00e1 a ser dito, visa coagir o governo canadiano e visa coagir o governo dinamarqu\u00eas e o governo regional da Gronel\u00e2ndia. E n\u00f3s, na Europa, julgamos que n\u00e3o faz sentido por uma raz\u00e3o muito simples: o Tratado de 1951 que o Washington tem com Copenhaga, e que foi modificado e que se manteve ap\u00f3s 2004, d\u00e1 praticamente aos Estados Unidos o poder de fazer o que quiser na Gronel\u00e2ndia em termos militares e em termos econ\u00f3micos. Mas eu acho que h\u00e1 duas coisas que n\u00f3s temos de ter em aten\u00e7\u00e3o aqui, que s\u00e3o as coisas mais perturbantes para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Primeiro \u00e9 a vaidade, a vaidade \u00e9 uma coisa importante na condi\u00e7\u00e3o humana. E Donald Trump gostaria de acrescentar, do meu ponto de vista, o territ\u00f3rio norte-americano na Gronel\u00e2ndia, porque assim poderia ombrear com James Polk ou William McKinley, que foram os presidentes que historicamente adicionaram territ\u00f3rio aos Estados Unidos. Da mesma forma que Vladimir Putin se v\u00ea como um herdeiro de Pedro, o Grande e Catarina, a Grande, Donald Trump tamb\u00e9m gostaria de ter um lugar na hist\u00f3ria americana como um presidente que expandiu o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00famero dois: se os Estados Unidos estiverem em retraimento estrat\u00e9gico, e Donald Trump claramente pensa que sim, \u00e9 preciso, do seu ponto de vista, criar um novo per\u00edmetro para os Estados Unidos &#8211; fortificar, do ponto de vista financeiro, do ponto de vista comercial, do ponto de vista cultural e do ponto de vista militar, o per\u00edmetro dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Isto vai desde a Venezuela-Col\u00f4mbia \u00e0 Gronel\u00e2ndia e ao \u00c1rtico. Sob esse ponto de vista, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a racionalidade econ\u00f3mica de fazer ou n\u00e3o fazer na Gronel\u00e2ndia, \u00e9 impedir que a Dinamarca ou os pa\u00edses europeus tenham uma posi\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada perto do per\u00edmetro dos Estados Unidos e do \u00c1rtico.<\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 isso que explica o desejo que ele tem de adquirir ou conquistar o territ\u00f3rio da Gronel\u00e2ndia, que \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o antiga, e se ele concretizar isso, na mente de Donald Trump e desta administra\u00e7\u00e3o, ele garante uma \u00e1rea geogr\u00e1fica para a afirma\u00e7\u00e3o do poder dos Estados Unidos durante mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 o \u201cmake America great again\u201d, tornar a Am\u00e9rica outra vez grande.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma nova vers\u00e3o, com um per\u00edmetro mais alargado, que concretiza o destino hist\u00f3rico dos Estados Unidos e garante para Donald Trump o lugar na grande hist\u00f3ria norte-americana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bom, mas no caso da Gronel\u00e2ndia, trata-se de um Estado membro da NATO, a coagir outro Estado membro. A NATO est\u00e1 em risco neste momento?<\/em><\/p>\n<p>Claramente que sim. Esse \u00e9 que \u00e9 o grande problema para n\u00f3s. N\u00f3s at\u00e9 o final de 2025 ach\u00e1vamos que a principal amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a dos pa\u00edses europeus, sobretudo no B\u00e1ltico, Norte Europa e na Europa Central, era a R\u00fassia.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2026, a Europa mar\u00edtimo-atl\u00e2ntica percebe, de repente, que a principal amea\u00e7a que n\u00f3s poder\u00edamos ter n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a R\u00fassia, \u00e9 esta administra\u00e7\u00e3o norte-americana. Para uma regi\u00e3o que viu na depend\u00eancia da hegemonia norte-americana a garantia da sua seguran\u00e7a, porque baixou os custos imensos da seguran\u00e7a e defesa europeia, isto obviamente \u00e9 extremamente perturbante, especialmente para um pa\u00eds como Portugal, que viu na cria\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o especial com os Estados Unidos, na integra\u00e7\u00e3o na NATO e na integra\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Europeia, a forma de garantir, de uma forma bastante barata, a seguran\u00e7a de um pa\u00eds arquipel\u00e1gico. Eu sou dos A\u00e7ores, h\u00e1 gente da Madeira, a maior parte das pessoas que vivem em Portugal Continental parece que n\u00e3o tem a consci\u00eancia de que n\u00f3s somos um pa\u00eds arquipel\u00e1gico. Numa transi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica deste tipo, tem muito em que pensar daqui para a frente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Miguel vive na Terceira, que tem uma base norte-americana, nas Lajes\u2026<\/em><\/p>\n<p>A Terceira tem uma base portuguesa, que \u00e9 usada pelos Estados Unidos, essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 interessante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas isso tem um significado particular, o facto de ser utilizada por norte-americanos coloca tamb\u00e9m uma tens\u00e3o maior na nossa an\u00e1lise.<\/em><\/p>\n<p>Tem sido altamente ben\u00e9fico para o pa\u00eds, porque os pa\u00edses que t\u00eam instala\u00e7\u00f5es militares norte-americanas tendem a n\u00e3o ter problemas de seguran\u00e7a. Portugal \u00e9 um dos pa\u00edses que est\u00e1 no limite da zona europeia e da zona de influ\u00eancia norte-americana. N\u00f3s portugueses estamos no hemisf\u00e9rio ocidental.<\/p>\n<p>Donald Trump diz que os Estados Unidos passar\u00e3o a ser a pot\u00eancia hegem\u00f3nica no hemisf\u00e9rio ocidental, e \u00e0s vezes eu penso que em Portugal as pessoas j\u00e1 n\u00e3o sabem geografia e j\u00e1 n\u00e3o sabem onde \u00e9 que o hemisf\u00e9rio ocidental come\u00e7a e acaba. N\u00f3s estamos, o territ\u00f3rio portugu\u00eas, incluindo a Madeira e os A\u00e7ores, no hemisf\u00e9rio ocidental. Portanto, isto obviamente, juntamente com outros pa\u00edses, a Inglaterra \u00e9 um bom exemplo, a Irlanda, a Dinamarca, a Holanda, todos os pa\u00edses europeus da Europa Atl\u00e2ntica, est\u00e3o a sofrer um enorme choque estrat\u00e9gico no ano em que os Estados Unidos fazem 250 anos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma boa altura para n\u00f3s lembrarmos duas coisas. Primeiro, a pol\u00edtica externa norte-americana n\u00e3o come\u00e7ou em 1991 com o final da Guerra Fria. Dois, a pol\u00edtica externa norte-americana n\u00e3o come\u00e7ou em 1945 com o final da II Guerra Mundial. H\u00e1 uma longa tradi\u00e7\u00e3o antes dessas datas, que n\u00f3s desconhecemos porque achamos que a hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o interessa e porque a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tamb\u00e9m n\u00e3o interessa, e que conv\u00e9m que n\u00f3s a estudemos outra vez, porque vamos precisar dessa mem\u00f3ria hist\u00f3rica para tomar, obviamente, decis\u00f5es muito importantes para n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse contexto, como \u00e9 que avalia a rea\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses europeus, que parecem ter sido apanhados de surpresa por esta mudan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Sim, completamente, e eu percebo porque \u00e9 que n\u00f3s fomos apanhados de surpresa, porque os custos de dizer claramente aos eleitorados, h\u00e1 um ano ou dois, \u201cesta \u00e9 a trajet\u00f3ria dos acontecimentos\u201d foi considerada inaceit\u00e1vel pelos decisores pol\u00edticos e provavelmente pelas sociedades. E aqui h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o importante: a mim o que me interessa \u00e9 a trajet\u00f3ria das sociedades e a din\u00e2micas dos sistemas, portanto o meu tempo de an\u00e1lise \u00e9 longo, mas n\u00f3s vivemos no tempo Instagram, o tempo Instagram \u00e9 agora, o momento\u2026<\/p>\n<p><strong>Vivemos todos fixados no presente, no dia, e perdemos a capacidade de interpretar o tempo na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica, e \u00e9 por isso que nos desabitu\u00e1mos a considerar o problema do poder, do exerc\u00edcio do poder.<\/strong> H\u00e1 um duplo problema: esta \u00e9 uma administra\u00e7\u00e3o americana que entende que vale a pena correr o risco do exerc\u00edcio do poder agora, \u00e9 uma quest\u00e3o de oportunidade, e as quest\u00f5es de legitimidade s\u00e3o secund\u00e1rias. N\u00f3s pensamos ao contr\u00e1rio. N\u00f3s achamos que as quest\u00f5es de legitimidade s\u00e3o mais importantes do que as quest\u00f5es de poder, portanto olhamos para as quest\u00f5es de um ponto de vista completamente diferente. Houve um congressista norte-americano, eu tenho aqui as minhas notas, Andy Ogles, que \u00e9 do Partido Republicano, que disse \u201cn\u00f3s somos o predador dominante no hemisf\u00e9rio ocidental\u201d. Eu vou repetir, \u201cn\u00f3s somos o predador dominante no hemisf\u00e9rio ocidental\u201d. Quando algu\u00e9m diz isto publicamente, para legitimar a coer\u00e7\u00e3o sob um aliado da Nato, estamos perante algo completamente novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que lidamos com isso? Eu insisto na quest\u00e3o da sobreviv\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es: a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, a ONU, como \u00e9 que ficam no meio de tudo isto?<\/em><\/p>\n<p>Vai depender muito do que vai acontecer na Gronel\u00e2ndia, nos pr\u00f3ximos dias ou semanas. Se se caminhar para uma solu\u00e7\u00e3o em que os Estados Unidos realmente comprem, adquirem, anexem a Gronel\u00e2ndia contra os interesses do governo dinamarqu\u00eas e contra os interesses da popula\u00e7\u00e3o da Gronel\u00e2ndia, ou a NATO acaba, ou a NATO como n\u00f3s a conhecemos acabou e teremos de caminhar para algo completamente novo. Mas eu n\u00e3o acho que n\u00f3s consigamos ter uma rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos equilibrada sem termos poder a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s, bloco europeu\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque <strong>Trump aposta claramente que n\u00e3o haver\u00e1 bloco europeu e que a Europa se fragmentar\u00e1. N\u00f3s, se quisermos negociar com esta administra\u00e7\u00e3o, teremos de ter poder.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a Europa de facto est\u00e1 em sanduichada entre a Am\u00e9rica e a R\u00fassia.<\/em><\/p>\n<p>E a China. Portanto, n\u00f3s teremos de ter poder e isso \u00e9 uma quest\u00e3o completamente nova para as sociedades europeias. Deixe-me dar um exemplo. Estamos em campanha presidencial: n\u00f3s n\u00e3o temos falado sobre isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quase nada\u2026<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei quem \u00e9 que vai ganhar as elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Tenho o meu candidato preferido, como todos n\u00f3s, mas estar\u00e1 essa pessoa, seja ele quem for, preparado do ponto de vista do quadro mental, para come\u00e7ar o processo de adapta\u00e7\u00e3o a algo que n\u00f3s n\u00e3o temos mem\u00f3ria hist\u00f3rica. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica. Somos n\u00f3s como sociedade, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m vivo que tenha mem\u00f3ria do exerc\u00edcio do poder norte-americano desta forma, porque temos de regressar a um per\u00edodo antes da II Guerra Mundial e, portanto, as pessoas que eventualmente tenham 95, 100 anos, n\u00e3o tinham idade adulta. Portanto, n\u00f3s vamos ter de regressar \u00e0 hist\u00f3ria, para tentar perceber o que \u00e9 que isto significa, para tentar compreender esta Am\u00e9rica, para tentar compreender esta administra\u00e7\u00e3o e, depois, para pensarmos no que podemos fazer, ou no que devemos fazer. <strong>Esta ser\u00e1 uma conversa dif\u00edcil para todos os governos e todas as sociedades europeias, porque n\u00f3s estamos perante o impens\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>Antigamente, quando n\u00f3s quer\u00edamos ver fic\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o ano passado, v\u00edamos a Netflix. Agora n\u00f3s n\u00e3o vemos Netflix para ver fic\u00e7\u00e3o, a realidade supera a fic\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00f3s vemos a Netflix ao fim do dia, sei l\u00e1, para nos acalmarmos, para pensarmos noutra coisa. Mas os factos est\u00e3o \u00e0 nossa frente e n\u00f3s teremos de nos adaptar a este processo.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga \u201cvamos esperar mais um ano, dois ou tr\u00eas, porque esta administra\u00e7\u00e3o acabar\u00e1\u201d. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o, mas n\u00f3s pens\u00e1mos o mesmo em 2020\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 se passaram seis anos\u2026<\/em><\/p>\n<p>Pass\u00e1mos o mesmo em 2016. Eu diria que, independentemente de quem venha a ganhar as elei\u00e7\u00f5es em novembro deste ano, independentemente de quem venha a ganhar as elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos em 2028, eu acho que dev\u00edamos come\u00e7ar este processo de adapta\u00e7\u00e3o o mais rapidamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Europa tem de fazer mais do que est\u00e1 a fazer, tem de fazer essa reflex\u00e3o interna? Isto vai exigir uma reforma da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia?<\/em><\/p>\n<p><strong>A Uni\u00e3o Europeia e a NATO, como n\u00f3s as conhecemos, do meu ponto de vista, n\u00e3o sobrevivem com a configura\u00e7\u00e3o e as regras atuais. <\/strong>Se quisermos ter poder, vamos ter de mudar muita coisa em termos internos nestas duas institui\u00e7\u00f5es. Se quisermos ter poder, n\u00f3s podemos perfeitamente dizer que n\u00e3o queremos. Essa \u00e9 uma decis\u00e3o que as sociedades ter\u00e3o de tomar e votar em processos eleitorais, porque vamos ter de eleger algu\u00e9m nos pr\u00f3ximos anos, nas sociedades democr\u00e1ticas europeias, e, portanto, essa \u00e9 uma coisa como que nos vamos ter de confrontar e deveria come\u00e7ar j\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais em Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do ponto de vista da defesa dos direitos humanos, as Na\u00e7\u00f5es Unidas tamb\u00e9m est\u00e3o em risco ou t\u00eam aqui uma oportunidade de se refor\u00e7ar?<\/em><\/p>\n<p>A capacidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas de exercerem o seu papel dependeu sempre da interpreta\u00e7\u00e3o que as grandes pot\u00eancias fazem da ordem internacional. E o que n\u00f3s temos s\u00e3o uma administra\u00e7\u00e3o Trump, uma R\u00fassia liderada por Vladimir Putin e uma China liderada por Xi Jinping, que entende, por raz\u00f5es diferentes, que a ordem internacional, como est\u00e1 estruturada, deixou de servir os seus interesses. Quando isso acontece, o poder do secret\u00e1rio-geral, Ant\u00f3nio Guterres, e da institui\u00e7\u00e3o em si, \u00e9 obviamente muito menor, mas eu gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o a uma coisa.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o do poder da administra\u00e7\u00e3o Trump e a forma como n\u00f3s olhamos para os Estados Unidos, e tamb\u00e9m para a sociedade, pode ser a R\u00fassia, pode ser a China, podem ser outros pa\u00edses, visa concentrar a nossa aten\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o externa desses pa\u00edses, mas n\u00f3s estamos a esquecermos do que se passa internamente nestas sociedades. H\u00e1 aqui um paradoxo. \u00c0 medida que as dificuldades internas aumentam nos Estados Unidos, aumentam na R\u00fassia e aumentam na China, a propens\u00e3o para o exerc\u00edcio desenfreado do poder por parte das lideran\u00e7as desses pa\u00edses aumenta, \u00e9 uma forma de desviar as inten\u00e7\u00f5es e tentar concretizar rapidamente determinados objetivos de pol\u00edtica externa antes que internamente a situa\u00e7\u00e3o se altere. Mas o que isto sugere \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o extremamente vol\u00e1til em termos internacionais, em que pa\u00edses pequenos ou m\u00e9dios, como s\u00e3o a maior parte dos pa\u00edses europeus, ter\u00e3o uma enorme dificuldade em adaptar-se, porque n\u00f3s julg\u00e1mos que estes problemas tinham desaparecido do Velho Continente e hoje est\u00e3o a regressar com grande, grande for\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos muito do exerc\u00edcio do poder, da for\u00e7a, at\u00e9 da efic\u00e1cia que estas interven\u00e7\u00f5es est\u00e3o a ter. O que sobra para os atores da paz? Diplomacias, como as do Vaticano, que papel t\u00eam neste mundo que est\u00e1 numa mudan\u00e7a bastante significativa?<\/em><\/p>\n<p>O papel, penso que ser\u00e1, sobretudo, continuar a conversar, continuar a conversar a todos os n\u00edveis e tentar criar novas coliga\u00e7\u00f5es que ajudem, primeiro, a defender os valores e os interesses das nossas sociedades e, sobretudo, que a partir de certa altura ajudem primeiro a estabilizar o sistema internacional. O sistema est\u00e1 em desequil\u00edbrio, mas mais tarde ou mais cedo o sistema vai reequilibrar-se. A pergunta nestas circunst\u00e2ncias \u00e9, ent\u00e3o, qual \u00e9 a nossa contribui\u00e7\u00e3o, nossa portuguesa ou nossa europeia, para a estabiliza\u00e7\u00e3o do sistema?<\/p>\n<p>O que \u00e9 que n\u00f3s estamos dispostos a fazer, o que \u00e9 que n\u00f3s podemos fazer? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o nova para n\u00f3s, antigamente eram os outros que faziam isto, eram os Estados Unidos, por assim dizer. Os Estados Unidos davam um exemplo, os Estados Unidos eram a pot\u00eancia hegem\u00f3nica.<\/p>\n<p>Agora que a estabilidade hegem\u00f3nica est\u00e1 a esboroar-se, o primeiro problema \u00e9 que, nos \u00faltimos 80 anos a pot\u00eancia hegem\u00f3nica estabilizou o sistema e, portanto, todos n\u00f3s somos o produto dessa \u00e9poca. <strong>Agora que a pot\u00eancia hegem\u00f3nica desestabiliza o sistema, esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o completamente in\u00e9dita para n\u00f3s<\/strong>. J\u00e1 aconteceu, ao longo da hist\u00f3ria, j\u00e1 aconteceu v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Deixe-me dar um exemplo, o do desafio napole\u00f3nico, um exemplo cl\u00e1ssico na hist\u00f3ria europeia de uma pot\u00eancia que desestabiliza, uma pot\u00eancia revolucion\u00e1ria que desestabiliza o sistema. Portanto, se n\u00f3s olharmos para a hist\u00f3ria, vemos exemplos parecidos com aquilo que est\u00e1 a acontecer. Mas c\u00e1 est\u00e1, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m mostra a enorme dificuldade que n\u00f3s teremos em reagirmos e adaptarmos a estas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Este debate deveria ter come\u00e7ado nas elei\u00e7\u00f5es presenciais, que me parecem muito fixadas em quest\u00f5es de pol\u00edtica interna e n\u00e3o na estrutura do sistema onde Portugal se encerre. Ou ainda durante a campanha eleitoral ou depois da campanha eleitoral, n\u00f3s teremos de fazer este processo de adapta\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m nos Estados Unidos, algu\u00e9m no Canad\u00e1 e obviamente com as outras pot\u00eancias europeias e os nossos aliados fora da Europa e dos Estados Unidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2026 trouxe uma nova realidade geopol\u00edtica: de um lado, a interven\u00e7\u00e3o militar direta dos Estados Unidos na Venezuela para capturar Nicol\u00e1s Maduro; do outro, a press\u00e3o sobre a Dinamarca para a compra da Gronel\u00e2ndia. 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