{"id":40641,"date":"2009-09-02T16:50:35","date_gmt":"2009-09-02T16:50:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/09\/02\/crescer-como-pessoas-para-servir-como-pastores\/"},"modified":"2009-09-02T16:50:35","modified_gmt":"2009-09-02T16:50:35","slug":"crescer-como-pessoas-para-servir-como-pastores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/crescer-como-pessoas-para-servir-como-pastores\/","title":{"rendered":"Crescer como Pessoas para servir como Pastores"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia no VI Simp\u00f3sio do Clero de Portugal <!--more--> <\/p>\n<p><strong>I &ndash; Introdu&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. &ldquo;Crescer como pessoas, para servir como pastores&rdquo; &eacute; uma formula&ccedil;&atilde;o perigosa e amb&iacute;gua. Pode sugerir dois planos separados, ainda que convergentes: a forma&ccedil;&atilde;o do homem para poder ser pastor. &Eacute; outra a perspectiva em que me vou colocar: servir como pastores ajuda a crescer como pessoas. Santo Afonso Maria de Lig&oacute;rio, figura modelo de sacerdote, escreveu: &ldquo;&Eacute; a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito&rdquo; (1). De facto s&atilde;o duas quest&otilde;es diferentes que nos podemos colocar: que virtudes humanas deve ter o homem sacerdote, para poder exercer bem o seu minist&eacute;rio? Ou: em que medida o exerc&iacute;cio generoso do minist&eacute;rio nos ajuda a crescer como homens? Eu adopto a segunda, sem deixar de ter a primeira como pano de fundo, sobretudo numa etapa de que n&atilde;o falarei, a dos crit&eacute;rios de discernimento vocacional e a prepara&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via &agrave; ordena&ccedil;&atilde;o sacerdotal.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Procurarei n&atilde;o ser apenas te&oacute;rico, expondo doutrina; fixo o meu olhar nos padres concretos que n&oacute;s somos, com que a Igreja conta hoje para poder exercer este minist&eacute;rio de gra&ccedil;a, num momento determinado da hist&oacute;ria, da Igreja e da humanidade. Estou consciente de que o essencial deste minist&eacute;rio n&atilde;o muda, &eacute; perene, porque &eacute; sacramento da miss&atilde;o do pr&oacute;prio Cristo; mas n&atilde;o posso esquecer que as transforma&ccedil;&otilde;es verificadas na Igreja e no mundo, nestes &uacute;ltimos cinquenta anos, enquadram inevitavelmente o exerc&iacute;cio desse minist&eacute;rio, como condicionaram, &agrave; partida, a escolha desta voca&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>II &ndash; Um quadro cultural<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. O Conc&iacute;lio Vaticano II, no in&iacute;cio dos anos 60, marca uma profunda viragem cultural na compreens&atilde;o da Igreja e do mundo e das suas rela&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas. Esta muta&ccedil;&atilde;o cultural, que enquadrou a pr&oacute;pria teologia, continuou a evoluir a um ritmo acelerado. Falar de &ldquo;esp&iacute;rito conciliar&rdquo; nos anos sessenta e no in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI n&atilde;o &eacute; exactamente a mesma coisa e n&atilde;o perceber esta diferen&ccedil;a pode levar a confus&otilde;es s&eacute;rias. &Eacute; no contexto desta &ldquo;muta&ccedil;&atilde;o cultural&rdquo; acelerada que temos de situar a problem&aacute;tica concreta dos sacerdotes e das voca&ccedil;&otilde;es sacerdotais, coerentes com a doutrina da Exorta&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica &ldquo;Pastores Dabo Vobis&rdquo;: Deus chama sempre os seus sacerdotes a partir de determinados contextos humanos e eclesiais, com os quais est&atilde;o inevitavelmente conotados e aos quais s&atilde;o mandados para o servi&ccedil;o do Evangelho de Cristo&rdquo; (2).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dividirei os sacerdotes actuais em tr&ecirc;s grupos, com o risco de simplismo de an&aacute;lise que estas divis&otilde;es cronol&oacute;gicas podem significar: os sacerdotes que se ordenaram desde a convoca&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio at&eacute; ao final da d&eacute;cada de sessenta; os que se ordenaram nos anos setenta e oitenta; e os que se ordenaram depois dos anos noventa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. Os sacerdotes do primeiro grupo, a que eu perten&ccedil;o, e que j&aacute; &eacute; o menos numeroso, viveram a sua inf&acirc;ncia e juventude e decidiram da sua voca&ccedil;&atilde;o num quadro cultural profundamente marcado pela perten&ccedil;a &agrave; Igreja. A fam&iacute;lia, e os grandes movimentos cat&oacute;licos eram a base de uma compreens&atilde;o do homem e da realidade, porque imprimiam desde a inf&acirc;ncia uma base moral radicada na f&eacute; crist&atilde;. O Conc&iacute;lio, na sua inspira&ccedil;&atilde;o mobilizadora, parte de uma palavra de ordem do Papa Jo&atilde;o XXIII: o mundo mudou, est&aacute;-se a criar uma barreira entre a Igreja e o mundo, a Igreja tem de se renovar para poder ser enviada de novo a este mundo que mudou, com a sua mensagem de esperan&ccedil;a e salva&ccedil;&atilde;o. Nesta profunda mudan&ccedil;a, a Igreja n&atilde;o deve limitar-se a condenar os erros deste mundo, deve am&aacute;-lo, compreend&ecirc;-lo, sabendo ler nele os sinais do Reino; deve, n&atilde;o fugindo do mundo, assumir, sempre de novo, a sua miss&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os jovens sacerdotes, formados antes do Conc&iacute;lio numa Igreja que formatara a sua identidade, ao ritmo do Conc&iacute;lio, <strong>partem da Igreja &agrave; descoberta do mundo<\/strong> e com que entusiasmo o fizeram, muitos talvez mais fascinados por essa descoberta do mundo do que pela profunda renova&ccedil;&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mundo dos anos 60-70 era complexo e vertiginoso. Em plano europeu digeriam-se ainda as consequ&ecirc;ncias da 2&ordf; Guerra Mundial. A Europa ficou dividida: a Ocidente, os pa&iacute;ses tentam vencer essa etapa da hist&oacute;ria, consolidando a democracia pol&iacute;tica, desenvolvendo uma economia liberal de mercado, salvaguardando a liberdade, pol&iacute;tica, econ&oacute;mica, de express&atilde;o e de consci&ecirc;ncia. A Leste domina o marxismo-leninismo, sob a batuta de Moscovo, impondo o dom&iacute;nio absoluto do Estado sobre as liberdades individuais, de express&atilde;o pol&iacute;tica, cultural e religiosa. O comunismo torna-se, para o Ocidente, a amea&ccedil;a e o &ldquo;pap&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No resto do mundo assiste-se &agrave; &uacute;ltima etapa da descoloniza&ccedil;&atilde;o, com os novos pa&iacute;ses emergentes, a serem disputados pelos dois blocos europeus, o capitalismo e democr&aacute;tico e o bloco comunista, o que vai estendendo a todo o hemisf&eacute;rio a fronteira europeia dos blocos. As guerras da Indochina, e do Vietname em particular, s&atilde;o express&otilde;es dram&aacute;ticas desses ventos da hist&oacute;ria. Com os movimentos &ldquo;pan-&aacute;rabes&rdquo; liderados pelo Egipto, assiste-se ao in&iacute;cio do despertar do Isl&atilde;o reivindicando um lugar de influ&ecirc;ncia hist&oacute;rica a n&iacute;vel global.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em Portugal, o &uacute;ltimo pa&iacute;s a manter um imp&eacute;rio colonial, rebentam as guerras dos movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o, anunciando o fim do imp&eacute;rio portugu&ecirc;s. Nesses anos, a guerra colonial e a contesta&ccedil;&atilde;o ao regime pol&iacute;tico do Estado Novo entrecruzam-se baralhando as ideias e suscitando novas correntes de opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No plano cultural, relativiza-se a dimens&atilde;o religiosa. O ate&iacute;smo ganha uma express&atilde;o colectiva nunca antes conhecida na hist&oacute;ria, imposto teoricamente e pela autoridade pol&iacute;tica no bloco comunista, implantando-se de forma larvar como atitude pr&aacute;tica, fruto do materialismo e da afirma&ccedil;&atilde;o do homem, no bloco ocidental. A&iacute;, ao mesmo tempo que se afirmava a liberdade religiosa, a f&eacute; em Deus era relegada para o &acirc;mbito da consci&ecirc;ncia privada. A constru&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria &eacute; concebida sem Deus e deixada apenas &agrave;s capacidades da liberdade e das potencialidades humanas. Neste contexto, sobretudo a Ocidente, v&ecirc;em ao de cima os velhos princ&iacute;pios do iluminismo e do racionalismo: a raz&atilde;o humana &eacute; a &uacute;nica luz que orienta o homem, que toma totalmente nas m&atilde;os o seu destino. Para afirmar e salvaguardar a liberdade, p&otilde;em-se em quest&atilde;o os ordenamentos &eacute;ticos, trave mestra do equil&iacute;brio das sociedades. Uma das suas express&otilde;es foi a chamada revolu&ccedil;&atilde;o sexual, que leva ao desgaste da dignidade do amor, p&otilde;e em quest&atilde;o a solidez da fam&iacute;lia, altera o ritmo do amadurecimento dos jovens. Com este p&ocirc;r em quest&atilde;o de uma sabedoria milenar, sublinha-se o papel das ideologias, o que come&ccedil;a a mitigar o medo do marxismo, assumido como motor ideol&oacute;gico de todas as revolu&ccedil;&otilde;es e de todas as transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e sociais. Os acontecimentos de Maio de 68 em Paris s&atilde;o o sinal desta nova atitude perante a hist&oacute;ria que estava a germinar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 4. Este &eacute; o mundo ao qual a Igreja deve ser enviada, percebendo-o para se renovar para a miss&atilde;o.<\/p>\n<p>Disse atr&aacute;s que os padres dessa gera&ccedil;&atilde;o partiram da Igreja &agrave; descoberta do mundo. O Conc&iacute;lio Vaticano II gerou um duplo movimento: a solidez teol&oacute;gico-espiritual em que deveria assentar a renova&ccedil;&atilde;o da Igreja, para poder ser mission&aacute;ria neste mundo, consignada nos documentos conciliares e continuamente afirmada no Magist&eacute;rio, sobretudo dos diversos Papas que se sucederam depois do Conc&iacute;lio; e a &ldquo;euforia conciliar&rdquo; de mudan&ccedil;a, nem sempre baseada na solidez daqueles documentos, muito sens&iacute;vel &agrave;s mudan&ccedil;as em chave cultural profana. Os padres desta gera&ccedil;&atilde;o viveram na carne esta ambival&ecirc;ncia. Alguns, reagindo &agrave; &ldquo;euforia conciliar&rdquo; rejeitaram o pr&oacute;prio Conc&iacute;lio; outros procuraram generosamente inspirar-se no verdadeiro esp&iacute;rito do Conc&iacute;lio, n&atilde;o para manterem a Igreja como era, mas para encontrar solidamente os novos caminhos, sobretudo em termos de miss&atilde;o; outros deixaram-se arrastar pelos novos ventos da hist&oacute;ria. Movimentos como o da Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o, a Igreja-base que valoriza mais a compreens&atilde;o do povo que o Magist&eacute;rio, entusiasmaram muitos sacerdotes desse tempo. Em todas as frentes revolucion&aacute;rias, da Am&eacute;rica Latina a Paris, ou em Lisboa nos dinamismos pr&eacute;-revolucion&aacute;rios, encontramos sacerdotes. Procuraram identificar-se com o mundo &ndash; o abandono do traje eclesi&aacute;stico foi disso um sinal, puseram em quest&atilde;o o celibato, deixaram desgastar a base sobrenatural do seu minist&eacute;rio. Estas atitudes, porque n&atilde;o tinham o apoio do Magist&eacute;rio, a come&ccedil;ar pelo pr&oacute;prio Conc&iacute;lio, e nem sequer o apoio dos presbit&eacute;rios e da comunidade eclesial, afirmaram-se, quase sempre, como atitudes individuais, originando uma autonomia no julgar dos caminhos pastorais da Igreja, ao ritmo do que a cada um parecia melhor, e n&atilde;o ao ritmo da unidade exigida pela comunh&atilde;o eclesial, que encontra a sua primeira express&atilde;o na unidade dos caminhos da miss&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 5. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX verificou-se uma profunda transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade, cujo vector principal foi a autonomia de crit&eacute;rios e refer&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; matriz crist&atilde; da cultura, concretizada no horizontalismo &eacute;tico, no sentido da vida do homem e da hist&oacute;ria, na absolutiza&ccedil;&atilde;o do poder da raz&atilde;o e da liberdade. A Igreja, e a sua vis&atilde;o da vida, deixou de ser o enquadramento espont&acirc;neo da personalidade. Para os jovens dessas d&eacute;cadas, esse quadro de refer&ecirc;ncia &eacute; a sociedade e a nova cultura emergente, veiculada na escola, infiltrada na fam&iacute;lia, agressivamente proposta pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, expressa na liberdade de costumes. Ao contr&aacute;rio do que se passava nos anos do pr&eacute;-conc&iacute;lio, os jovens que optam por uma voca&ccedil;&atilde;o sacerdotal, <strong>v&ecirc;m do mundo &agrave; procura da Igreja<\/strong>; a surpresa da sua descoberta &eacute; a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas aquela Igreja post-conciliar, transformada ao ritmo da euforia post-conciliar, que assimilou demasiadamente os crit&eacute;rios do mundo n&atilde;o os atrai e muitos mostram-se igualmente incapazes de mergulhar na profundidade dos documentos conciliares para descobrirem o verdadeiro rosto da Igreja renovada. N&atilde;o admira que busquem a autenticidade da Igreja em sinais e express&otilde;es da Igreja pr&eacute;-conciliar, que eles n&atilde;o conheceram, e que n&atilde;o podem, por isso, viver na verdade que tiveram no tempo justo. N&atilde;o tenhamos ilus&otilde;es: nos nossos presbit&eacute;rios estes dois grupos existem e coexistem, mas n&atilde;o convergem numa vis&atilde;o da Igreja e na compreens&atilde;o dos caminhos da miss&atilde;o. Os franceses classificaram estes dois grupos: a uns chamaram padres &ldquo;conciliares&rdquo; e aos outros &ldquo;identitaires&rdquo;, cuja tradu&ccedil;&atilde;o em portugu&ecirc;s n&atilde;o nos diz muito. Ou&ccedil;amos um bispo franc&ecirc;s que tem estudado este fen&oacute;meno: &ldquo;Esta reviravolta nas anterioridades explica bem o di&aacute;logo de surdos entre padres que se pretendem &ldquo;conciliares&rdquo; e os jovens sacerdotes que se afirmam &ldquo;identitaires&rdquo;. Como se os dois registos de afirma&ccedil;&atilde;o se opusessem (&hellip;). Mais do que opor a vontade de se abrir ao mundo e o regresso &ldquo;identit&aacute;rio&rdquo;, &eacute; preciso recuperar a g&eacute;nese da crise nestes dois movimentos convergentes que nos arrastaram. &Eacute; preciso, sobretudo, procurar, no mais profundo da nossa experi&ecirc;ncia crist&atilde;, o que nos levar&aacute; a reconhecermo-nos como irm&atilde;os e como disc&iacute;pulos de Cristo, para al&eacute;m de todas as nossas diferen&ccedil;as de sensibilidades culturais e mesmo pol&iacute;ticas&rdquo; (3).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>III &ndash; Redescobrir o Conc&iacute;lio<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 6. Como vimos, tanto um grupo como outro t&ecirc;m como refer&ecirc;ncia a Igreja post-conciliar, a tal Igreja preparada para a miss&atilde;o num mundo que mudou profundamente; mas tamb&eacute;m percebemos que entre ambos os grupos h&aacute; muitos sacerdotes que n&atilde;o mergulharam profundamente na doutrina do Conc&iacute;lio, base necess&aacute;ria para esse novo rosto de Igreja. &Eacute; preciso redescobrir o Conc&iacute;lio e o seu desafio de estar atento aos sinais que, apesar de tudo, nos v&ecirc;m do seio desse mundo que mudou, a sugerirem o verdadeiro rosto da Igreja nesta nova etapa da miss&atilde;o. N&atilde;o se evangeliza esse mundo identificando-nos com ele e cedendo aos seus crit&eacute;rios, nem propondo-lhe formas de ser que j&aacute; n&atilde;o o interpelam. &Eacute; algo novo, j&aacute; anunciado por Paulo VI na &ldquo;Evangelli Nuntiandi&rdquo; e retomado por Jo&atilde;o Paulo II, desafiando-nos para uma nova evangeliza&ccedil;&atilde;o. Esse caminho novo estamos apenas a come&ccedil;ar a descobri-lo e exige a convers&atilde;o de todos n&oacute;s, a aten&ccedil;&atilde;o aos sinais, &agrave;s novas express&otilde;es do mist&eacute;rio de sempre. Cito-vos agora um texto recente do Cardeal Walter Kasper, referindo-se &agrave; nova evangeliza&ccedil;&atilde;o da Europa: &ldquo;Nesta nova situa&ccedil;&atilde;o, o Cristianismo assume hoje, num sentido muito claro, uma nova fisionomia hist&oacute;rica. Estamos apenas no in&iacute;cio desta nova abertura. A Igreja &eacute;, sim, sempre a mesma em todos os s&eacute;culos, mas est&aacute;, tamb&eacute;m, sempre a caminho de descobrir, de maneira nova a novidade, nunca esgotada, do Evangelho. O Conc&iacute;lio Vaticano II indicou, a tempo, os caminhos para o fazer e pode ser uma b&uacute;ssola segura para o seu caminho no s&eacute;culo XXI. Infelizmente, estamos, ainda, bem longe de termos consciencializado plenamente as propor&ccedil;&otilde;es da mudan&ccedil;a, do desafio a enfrentar e da necessidade de uma nova orienta&ccedil;&atilde;o mission&aacute;ria da pastoral nos nossos pa&iacute;ses. A for&ccedil;a da in&eacute;rcia, uma mentalidade de beato que possui e o medo da novidade s&atilde;o grandes. Muitos querem continuar a fazer o melhor que podem aquilo que sempre se fez, mas a longo prazo isso n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel. Devemos mudar a maneira de pensar e orientarmo-nos de maneira nova, para atravessar a &ldquo;fronteira da esperan&ccedil;a&rdquo;. Para isso, ser&atilde;o necess&aacute;rias tamb&eacute;m mudan&ccedil;as estruturais, mas s&oacute; as mudan&ccedil;as estruturais fazem um buraco na &aacute;gua, se em primeiro lugar e antes de mais n&atilde;o se verificar uma abertura espiritual. Esta diz respeito a todos os membros da Igreja, de modo particular a auto-compreens&atilde;o e o servi&ccedil;o do sacerdote. &Eacute; o Esp&iacute;rito que d&aacute; a vida (cf. Jo. 6,63)&rdquo; (4).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Citei esta p&aacute;gina de Walter Kasper, tirada do livro que escreveu a prop&oacute;sito do seu jubileu sacerdotal, porque, na sua clareza e simplicidade, tra&ccedil;a-nos as coordenadas fundamentais da renova&ccedil;&atilde;o da Igreja e da sua forma de ser neste mundo ocidental, que tanto mudou nos &uacute;ltimos cinquenta anos. Diz-nos, antes de mais, que estamos apenas no in&iacute;cio de descobrir essa nova forma de ser Igreja, o que nos convida a todos a uma grande humildade, para p&ocirc;r o acento nos dados perenes do mist&eacute;rio da Igreja e de n&atilde;o considerarmos definitivas as formas de ser Igreja que invent&aacute;mos ou pensamos ter descoberto. Nunca foi t&atilde;o importante aprender a ler os sinais dos tempos, o que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com a luz do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diz-nos, depois, que a descoberta deste novo rosto da Igreja &eacute; um desafio a todo o Povo de Deus, na infinita variedade dos seus carismas e que, no contexto do seu dinamismo, os sacerdotes devem caminhar para uma nova auto-compreens&atilde;o, descobrindo os tra&ccedil;os novos do seu minist&eacute;rio, em que o fundamental deve ser o dinamismo mission&aacute;rio. Afirma, de forma ousada, referindo-se aos mais generosos, que n&atilde;o basta continuar a fazer o melhor poss&iacute;vel o que sempre se fez. Esta afirma&ccedil;&atilde;o &eacute; um ju&iacute;zo sobre a maior parte dos nossos sacerdotes. Fica tamb&eacute;m claro que este novo rosto do sacerdote tem de ser descoberto em Igreja. Uma Igreja a renovar-se gera os sacerdotes de que precisa. Qualquer dinamismo que isole os sacerdotes como um grupo &agrave; parte dentro da Igreja, pode trazer-nos consola&ccedil;&otilde;es a curto prazo, mas n&atilde;o est&aacute; ao ritmo do desafio que os tempos apresentam a toda a Igreja. Diz-nos, depois, que em todo este processo o Conc&iacute;lio &eacute; um &ldquo;guia fi&aacute;vel&rdquo;, referindo-se, claro est&aacute;, ao monumento doutrinal que o Conc&iacute;lio &eacute;, e ao Magist&eacute;rio posterior que o explicita, aprofunda e aplica &agrave; pr&aacute;tica da Igreja. Ao apresentar o Conc&iacute;lio como guia, convida-nos a uma releitura do Conc&iacute;lio, como se ele fosse escrito hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 7. O primeiro esfor&ccedil;o desta releitura do Conc&iacute;lio &eacute; que urgentemente se situe ao n&iacute;vel teol&oacute;gico, tanto na forma&ccedil;&atilde;o inicial do clero como num esfor&ccedil;o muito mais sistem&aacute;tico de forma&ccedil;&atilde;o permanente. Nestes cinquenta anos depois do Conc&iacute;lio, a teologia respirou a problem&aacute;tica cultural do post-conc&iacute;lio. Nos estudos filos&oacute;ficos, abandonada a metaf&iacute;sica, ganharam relevo as chamadas &ldquo;ci&ecirc;ncias humanas&rdquo;, rec&eacute;m chegadas ao estatuto de ci&ecirc;ncias, favorecendo as diversas an&aacute;lises, desde a da linguagem &agrave; dos comportamentos humanos, pessoais e sociais. A teologia n&atilde;o foi indiferente a este processo, e o positivismo cient&iacute;fico na an&aacute;lise dos textos fundantes da nossa tradi&ccedil;&atilde;o crente, e a influ&ecirc;ncia imanentista das ci&ecirc;ncias humanas na interpreta&ccedil;&atilde;o do homem crist&atilde;o marcaram a sua influ&ecirc;ncia. Volto a citar Walter Kasper: &ldquo;O sacerdote deve ser um te&oacute;logo no sentido original do termo, isto &eacute;, algu&eacute;m que deve falar de Deus e da vida que recebemos de Deus; sempre compreendi a minha exist&ecirc;ncia teol&oacute;gica como parte da minha exist&ecirc;ncia sacerdotal&rdquo; (5). &Eacute; preciso redescobrir a Teologia como aprofundamento da f&eacute;, como caminho para escutar hoje a Palavra viva que a fundamenta; &eacute; preciso captar a complementaridade e a converg&ecirc;ncia entre a Teologia e a dimens&atilde;o m&iacute;stica da f&eacute;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>IV &ndash; A via m&iacute;stica do novo rosto da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 8. No seu j&aacute; citado livro, Mons. Simon afirma: &ldquo;Ao convidar-nos a ler os sinais dos tempos, a Igreja convida a redescobrir e a fazer redescobrir a dimens&atilde;o propriamente m&iacute;stica da exist&ecirc;ncia crist&atilde;: aqui e agora, o Ressuscitado chama-nos a viver a liberdade dos filhos de Deus e a encontrar a nossa alegria na sua presen&ccedil;a. A Igreja prop&otilde;e-nos, atrav&eacute;s dos sacramentos, entrar num mist&eacute;rio de ressurrei&ccedil;&atilde;o, de entrar j&aacute; no mist&eacute;rio de Cristo morto e ressuscitado por n&oacute;s. N&atilde;o devemos ter medo de chamar as coisas pelo seu nome. &Eacute; preciso simplesmente ousar reabilitar a m&iacute;stica: o dever da esperan&ccedil;a convida-nos a uma experi&ecirc;ncia sacramental, uma experi&ecirc;ncia m&iacute;stica cuja realidade n&atilde;o se deixa reduzir a alguns fen&oacute;menos maravilhosos. Podemos mesmo dizer que quanto mais o Estado e a sociedade civil assumirem as suas responsabilidades respectivas, mais os crist&atilde;os ser&atilde;o convidados a darem testemunho da sua esperan&ccedil;a. E esta esperan&ccedil;a s&oacute; tem um nome: Jesus Cristo. &Eacute;, pois, v&atilde;o continuar a opor presen&ccedil;a no mundo e experi&ecirc;ncia m&iacute;stica&rdquo; (6).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mons. Simon faz estas afirma&ccedil;&otilde;es para indicar a via de converg&ecirc;ncia e reencontro daqueles dois grupos de sacerdotes a que chamou &ldquo;conciliares&rdquo; e &ldquo;identit&aacute;rios&rdquo;, ou seja, purificar as pr&oacute;prias vis&otilde;es da Igreja e reencontrarem-se na profundidade cristol&oacute;gica do mist&eacute;rio da Igreja, a descobrir e a viver na riqueza da economia sacramental. &Eacute; um desejo que n&atilde;o se limita aos sacerdotes e &agrave; redescoberta da sua identidade, mas que &eacute; dirigido a toda a Igreja, na redescoberta da dimens&atilde;o sobrenatural da exist&ecirc;ncia crist&atilde;. A identidade do sacerdote vai-se construindo e descobrindo na medida em que p&otilde;e toda a riqueza criativa do seu minist&eacute;rio ao servi&ccedil;o desta redescoberta da Igreja, da grandeza do mist&eacute;rio a que &eacute; chamada. O &ldquo;novo rosto da Igreja&rdquo; e a compreens&atilde;o do minist&eacute;rio sacerdotal v&atilde;o emergindo lentamente desta dimens&atilde;o m&iacute;stica da Igreja a construir, no seu ser e na sua miss&atilde;o. Tomemos consci&ecirc;ncia de que a evolu&ccedil;&atilde;o das nossas sociedades e os pr&oacute;prios &ldquo;ventos&rdquo; conciliares nos afastaram muito, na defini&ccedil;&atilde;o das nossas op&ccedil;&otilde;es pastorais, desta prioridade do mist&eacute;rio, mais dif&iacute;cil de exprimir por caminhos adaptados num mundo que se afastou de Deus e p&ocirc;s o homem no centro da Hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Olhemos o percurso da nossa catequese nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas e a dificuldade de a centrar no ritmo catecumenal da inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde;; a prioridade ao social sobre o sacramental; a compreens&atilde;o da moral, tantas vezes dividida entre rigorismo e laxismo; fa&ccedil;amos, se formos capazes, um exame de consci&ecirc;ncia sobre a nossa prega&ccedil;&atilde;o, e sentiremos a urg&ecirc;ncia deste chamamento a recentrar os caminhos de pastoral para a constru&ccedil;&atilde;o da Igreja e, consequentemente, do nosso minist&eacute;rio, no mist&eacute;rio de Cristo e na novidade da exist&ecirc;ncia crist&atilde;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 9. A Exorta&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica &ldquo;Pastores dabo Vobis&rdquo; situava j&aacute; a dimens&atilde;o do mist&eacute;rio da Igreja e do minist&eacute;rio sacerdotal neste reencontrar do verdadeiro rosto da Igreja para um tempo novo. &ldquo;A identidade sacerdotal, como toda e qualquer identidade crist&atilde;, encontra na Sant&iacute;ssima Trindade a sua pr&oacute;pria fonte, que se revela e auto-comunica aos homens em Cristo, constituindo n&rsquo;Ele e por meio do Esp&iacute;rito, a Igreja como g&eacute;rmen e in&iacute;cio do Reino&rdquo;. E recorda a seguir o Conc&iacute;lio que apresenta, em termos de ser e de miss&atilde;o, a Igreja como mist&eacute;rio, como comunh&atilde;o e como miss&atilde;o e conclui: &ldquo;&Eacute; no interior do mist&eacute;rio da Igreja, como comunh&atilde;o trinit&aacute;ria em tens&atilde;o mission&aacute;ria, que se revela a identidade crist&atilde; de cada um e, portanto, a espec&iacute;fica identidade do sacerdote e do seu minist&eacute;rio&rdquo; (7).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o estamos a reinventar o mist&eacute;rio da Igreja, mas estamos a tentar encontrar os caminhos para o viver, na sua radicalidade, nas circunst&acirc;ncias novas do mundo de hoje.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, no &acirc;mbito desta confer&ecirc;ncia, espa&ccedil;o para aprofundar as exig&ecirc;ncias desta descoberta em todas as dimens&otilde;es da Igreja mist&eacute;rio, comunh&atilde;o e miss&atilde;o. Ali&aacute;s o mist&eacute;rio descobre-se na medida em que fizermos uma op&ccedil;&atilde;o clara e generosa por vivermos em comunh&atilde;o e em miss&atilde;o. A exig&ecirc;ncia da comunh&atilde;o, que &eacute; com o Pai e o Filho, no Esp&iacute;rito, que se concretiza numa comunh&atilde;o viva com Cristo, Ele que &eacute; o caminho, convida-nos a descobrir a uni&atilde;o necess&aacute;ria entre a nossa vida de ora&ccedil;&atilde;o e o nosso minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas quero sublinhar aqui a import&acirc;ncia da comunh&atilde;o eclesial, da comunh&atilde;o dos nossos presbit&eacute;rios, da comunh&atilde;o com os Pastores e o seu Magist&eacute;rio, a comunh&atilde;o com o Santo Padre, sucessor de Pedro, para contribuirmos solidamente para esse novo rosto de Igreja. Enquanto houver alguns, bispos e padres, que se consideram com o direito de decidir pela sua cabe&ccedil;a, os caminhos de pastoral, o sentido da exist&ecirc;ncia moral, a maneira de celebrar, estamos a fragilizar a proposta crist&atilde;, num mundo que saber&aacute; aproveitar, com os seus crit&eacute;rios, as nossas divis&otilde;es. A Igreja &eacute; hoje um todo global, perante um mundo globalizado. A sua proposta &eacute; um desafio gigantesco, exigente, incompreendido, contestado, rejeitado. A Igreja tem na sua unidade a sua for&ccedil;a, a sua voz &eacute; un&iacute;ssona porque &eacute; express&atilde;o de uma comunh&atilde;o, porventura sofrida, mas grandiosa. O futuro da Igreja, neste mundo em que vivemos, ultrapassa as capacidades de vis&atilde;o e de decis&atilde;o de cada um de n&oacute;s. Na comunh&atilde;o, sentimos a for&ccedil;a do Esp&iacute;rito. &Eacute; muito mais que uma quest&atilde;o de disciplina. As pr&oacute;prias normas can&oacute;nicas s&atilde;o apenas o caminho para viver esse mist&eacute;rio maravilhoso da comunh&atilde;o. Ali&aacute;s a palavra &ldquo;disciplina&rdquo; tem a ver com &ldquo;disc&iacute;pulo&rdquo;, &eacute; a atitude dos disc&iacute;pulos, que desejam e querem o que vive o seu Mestre. Esta comunh&atilde;o hier&aacute;rquica exige a humildade da obedi&ecirc;ncia, atitude b&aacute;sica de uma total disponibilidade para o servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>V &ndash; Servir, a totalidade do dom (8)<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>10. Esta total disponibilidade para o servi&ccedil;o define o minist&eacute;rio sacerdotal. O sacerdote &eacute; chamado a p&ocirc;r-se totalmente ao servi&ccedil;o da edifica&ccedil;&atilde;o da Igreja, com tudo o que &eacute; e tudo o que tem. Esta radicalidade do servi&ccedil;o &eacute; a mais bela realiza&ccedil;&atilde;o da liberdade; &eacute; a dimens&atilde;o em que o sacerdote se humaniza, exercendo o seu minist&eacute;rio, porque viver a vida como um dom, a Deus e aos irm&atilde;os, &eacute; a mais perfeita realiza&ccedil;&atilde;o do ideal humano, num mundo retalhado de ego&iacute;smos e busca dos pr&oacute;prios interesses.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Olhando para os padres de hoje, este desafio do servi&ccedil;o &eacute; a chave da nossa fidelidade e autenticidade. Temos de procurar a sua radicalidade e o seu sentido profundo, a sua autenticidade. Antes de mais a sua radicalidade: p&ocirc;r ao servi&ccedil;o tudo o que somos, sabemos e temos. Muitos sacerdotes d&atilde;o, neste aspecto, sinais de contradi&ccedil;&atilde;o interior. S&atilde;o generosos no trabalho, desmultiplicam-se em actividades, como diz o povo, &ldquo;trabalham que nem mouros&rdquo;, mas permanecem egoc&ecirc;ntricos quando reivindicam autonomia de crit&eacute;rios, na gest&atilde;o dos afectos, no estabelecer de prioridades, na atitude perante os bens materiais. Para se p&ocirc;r tudo ao servi&ccedil;o, n&atilde;o basta trabalhar muito.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &Eacute; por isso que &eacute; preciso aprofundar continuamente o sentido deste servi&ccedil;o. N&atilde;o &eacute; por acaso que, na linguagem da Igreja, este servi&ccedil;o &eacute; chamado <strong>minist&eacute;rio pastoral<\/strong>. E o sentido desta palavra &ldquo;pastoral&rdquo; reenvia-nos para a figura do &ldquo;Bom Pastor&rdquo;. Este termo resume toda a solicitude salv&iacute;fica de Deus pelo seu Povo. Na Sagrada Escritura, Deus &eacute; dito o &ldquo;Pastor de Israel&rdquo;, o que gera nos crentes uma confian&ccedil;a e seguran&ccedil;a sem limites, como canta o Salmista: &ldquo;O Senhor &eacute; meu pastor, nada me faltar&aacute;; em verdes pastagens me faz repousar, para fontes tranquilas me conduz, e restaura as minhas for&ccedil;as. Ele me guia por bons caminhos, por causa do seu Nome&rdquo; (Sl. 23,1-3). No Novo Testamento, Jesus encarna esta solicitude amorosa de Deus. Considera-se enviado como pastor &agrave;s ovelhas perdidas de Israel (cf. Lc. 15,24) e chama-se a si pr&oacute;prio, o &ldquo;Bom Pastor&rdquo; (cf. Jo. 10).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus chama alguns escolhidos a encarnarem esta sua solicitude pastoral. Eles s&atilde;o chamados a encarnar a ternura salv&iacute;fica de Deus. Profetas ou sacerdotes, somos &ldquo;sacramentos&rdquo; de Deus, Bom Pastor. Quando somos pastores &agrave; nossa maneira, atrai&ccedil;oamos a solicitude salv&iacute;fica de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quais s&atilde;o as atitudes em que a Sagrada Escritura tipifica a fidelidade destes pastores? D&atilde;o a vida pelas ovelhas; conhecem-nas pelo nome e elas conhecem-nos; guiam-nas e conduzem-nas &agrave;s verdadeiras pastagens, isto &eacute;, no caminho da verdadeira vida, ao alimento indicado; preocupam-se com as ovelhas fracas e tresmalhadas; n&atilde;o descuram as ovelhas que ainda n&atilde;o pertencem ao rebanho; procuram construir a unidade de um s&oacute; rebanho, sob um s&oacute; pastor, isto &eacute;, trabalham com os olhos postos na eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 11. Este adjectivo &ldquo;pastoral&rdquo; transformou-se numa categoria omnipresente no discurso eclesial.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a eleva&ccedil;&atilde;o &agrave; categoria de disciplina teol&oacute;gica, com classifica&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica, a Teologia pastoral nem sempre evitou, talvez por influ&ecirc;ncia das ci&ecirc;ncias humanas e mimetismo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;teoria das organiza&ccedil;&otilde;es&rdquo;, uma certa burocracia pastoral. Muitas vezes o &ldquo;pastor&rdquo; assemelha-se mais a um &ldquo;gestor de empresas&rdquo;, do que ao pastor que conhece as pessoas, com os seus problemas pr&oacute;prios e o seu ritmo de caminhada. Um p&aacute;roco escondido atr&aacute;s de uma grande m&aacute;quina pastoral, a faz&ecirc;-la funcionar eficazmente, pode n&atilde;o traduzir o calor amoroso do Bom Pastor. Walter Kaspter chama-lhe as novas tenta&ccedil;&otilde;es da pastoral actual: a burocratiza&ccedil;&atilde;o; a prioridade dada a estruturas, com muitas reuni&otilde;es, situa&ccedil;&atilde;o a que nos leva a complexidade das estruturas pastorais que cri&aacute;mos, mas que podem esconder o rosto dos verdadeiros pastores. Ele arrisca a indicar, para o nosso tempo, as caracter&iacute;sticas do Bom Pastor:<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * &Eacute; algu&eacute;m que conduz, que tem a coragem de indicar o caminho da vida, &agrave; luz da f&eacute;. Num tempo em que h&aacute;, por vezes, a tenta&ccedil;&atilde;o de adaptar o discurso &agrave;quilo que as pessoas querem ouvir, o pastor descobre-se como um servidor da verdade, algu&eacute;m que sabe dizer a verdade com amor. E avisa: &ldquo;o discurso vazio e a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;quilo que muitos gostariam de ouvir, n&atilde;o &eacute; uma atitude pastoral, mas um falhan&ccedil;o pastoral&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * O pastor &eacute; um amigo e servidor da vida, que identifica na sua fonte, para a qual indica o caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * O pastor do nosso tempo n&atilde;o pode limitar-se a conviver s&oacute; com os que frequentam a Igreja; vai &agrave; procura dos que abandonaram e mesmo dos que nunca foram crist&atilde;os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * Tem uma solicitude particular pelos pobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * &Eacute; algu&eacute;m que vigia e est&aacute; atento, que sabe interpretar as influ&ecirc;ncias cont&iacute;nuas do esp&iacute;rito do mundo sobre a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; * N&atilde;o se apascenta a si mesmo, n&atilde;o procura na ac&ccedil;&atilde;o pastoral vantagens pr&oacute;prias, sobretudo de ordem material. O desprendimento faz parte da atitude do pastor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Recordemos a 1&ordf; Carta do Ap&oacute;stolo Pedro, onde est&atilde;o apontados os deveres dos pastores da Igreja, em todos os tempos: &ldquo;Fa&ccedil;o uma admoesta&ccedil;&atilde;o aos presb&iacute;teros que est&atilde;o entre v&oacute;s, eu que sou presb&iacute;tero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da gl&oacute;ria que vai ser revelada: cuidai do rebanho de Deus que vos foi confiado, n&atilde;o por imposi&ccedil;&atilde;o, mas de livre e espont&acirc;nea vontade, como Deus quer; n&atilde;o por causa do lucro, mas com generosidade; n&atilde;o como donos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos para o rebanho&rdquo; (1Pet. 5,1-3).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>VI &ndash; Celibato e a novidade do amor (9)<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>12. &Eacute; imposs&iacute;vel falar do minist&eacute;rio sacerdotal no contexto do mundo actual, neste in&iacute;cio de s&eacute;culo e de mil&eacute;nio, sem consideramos o desafio do celibato. Antes de mais, porque ele &eacute; contestado por uma cultura que n&atilde;o o compreende nem aceita, contesta&ccedil;&atilde;o que encontra express&otilde;es dentro da pr&oacute;pria Igreja. Embora n&atilde;o haja aqui espa&ccedil;o para o tratamento sistem&aacute;tico do tema, n&atilde;o podemos deixar de apontar aqueles elementos essenciais para o enquadrar no minist&eacute;rio sacerdotal e situar este no quadro cultural que nos envolve.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o &eacute; a primeira vez, ao longo da hist&oacute;ria, que o celibato, quer masculino, quer feminino, &eacute; contestado pela sociedade e pela cultura ambiente. O que muda s&atilde;o as formas e as motiva&ccedil;&otilde;es desta contesta&ccedil;&atilde;o. O celibato por amor do Reino dos C&eacute;us, como n&oacute;s o compreendemos e procurarmos viver, n&atilde;o &eacute; compreens&iacute;vel sem a f&eacute; crist&atilde; em Cristo ressuscitado, que inaugura a via crist&atilde; de viver e dar sentido a tudo o que &eacute; humano.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No contexto do Antigo Testamento era inconceb&iacute;vel e a esterilidade era uma maldi&ccedil;&atilde;o. Tem a ver com o sentido da vida e da morte; esta sendo inevit&aacute;vel, vence-se na descend&ecirc;ncia. Os filhos s&atilde;o uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de Deus, pois a vida dos pais prolonga-se neles; n&atilde;o os ter significa a amea&ccedil;a do aniquilamento. A mulher, matriz da vida, &eacute; a mais sacrificada com esta perspectiva, pois o sentido da sua vida e a sua dignidade concentram-se a&iacute;, em procriarem, em garantir ao homem a descend&ecirc;ncia. A Lei de Mois&eacute;s previa mesmo que, quando o marido morria sem ter dado descend&ecirc;ncia &agrave; sua esposa, o irm&atilde;o a seguir tinha obriga&ccedil;&atilde;o de desposar a vi&uacute;va para lhe garantir a descend&ecirc;ncia (cf. Lc. 20,27ss). Era um direito da mulher que a poupassem &agrave; maldi&ccedil;&atilde;o da infecundidade. Esta mentalidade existe tamb&eacute;m no Imp&eacute;rio Romano, e noutras civiliza&ccedil;&otilde;es. Casar e ter filhos era um imperativo da natureza e da sociedade, diminu&iacute;a o horizonte da liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No nosso tempo surgiram novas motiva&ccedil;&otilde;es para n&atilde;o aceitar, n&atilde;o diria o celibato, mas a contin&ecirc;ncia. A chamada revolu&ccedil;&atilde;o sexual, foi desligando sexo e amor, controlou por m&eacute;todos artificiais a fecundidade, desenvolveu uma cultura do prazer, fez da liberdade sexual o prot&oacute;tipo da liberdade individual, transpondo o seu sentido para a frui&ccedil;&atilde;o pessoal, e n&atilde;o j&aacute; como express&atilde;o da generosidade oblativa do amor pelo outro, pelos outros. Neste contexto, o celibato n&atilde;o basta ser afirmado, &eacute; preciso viv&ecirc;-lo na linha da novidade crist&atilde;, da vida nova em Cristo ressuscitado, que &eacute; o &acirc;mbito de toda a vida da gra&ccedil;a, incluindo o pr&oacute;prio minist&eacute;rio sacerdotal. Sublinharei alguns pontos a ter particularmente em conta na viv&ecirc;ncia deste carisma, no quadro actual da viv&ecirc;ncia do minist&eacute;rio sacerdotal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 13. O ponto de refer&ecirc;ncia &eacute; a viv&ecirc;ncia crist&atilde; da afectividade e da sexualidade, caminho de santidade tamb&eacute;m para os que se casam, e n&atilde;o a liberdade sexual, quase sempre egoc&ecirc;ntrica, do ambiente que vivemos. A refer&ecirc;ncia do celibato s&oacute; pode ser o matrim&oacute;nio crist&atilde;o como caminho de amor e de santidade. Quem vive a afectividade e a sexualidade em amor oblativo, para o que precisam da for&ccedil;a do Esp&iacute;rito ressuscitado, pode compreender o celibato como caminho de viv&ecirc;ncia da afectividade e da sexualidade. Os outros s&oacute; o podem rejeitar, porque nem desconfiam da sua beleza e sentido. Como estes s&atilde;o muitos, porventura a maior parte, o celibat&aacute;rio por amor do Reino dos C&eacute;us tem de aceitar n&atilde;o ser compreendido, ser fiel ao dom que lhe motivou uma escolha livre, sabendo que a sua vida tem o sentido prof&eacute;tico de an&uacute;ncio da novidade crist&atilde;.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na &ldquo;Familiaris Consortio&rdquo;, Jo&atilde;o Paulo II afirmou: &ldquo;A revela&ccedil;&atilde;o crist&atilde; conhece dois modos espec&iacute;ficos de realizar a voca&ccedil;&atilde;o da pessoa humana na sua totalidade do amor: o matrim&oacute;nio e a virgindade. Quer um, quer outro, na sua respectiva forma pr&oacute;pria, s&atilde;o uma concretiza&ccedil;&atilde;o da verdade mais profunda do homem, do seu ser &agrave; imagem de Deus&rdquo; (10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 14. O celibato &eacute; uma escolha livre, uma via crist&atilde;, n&atilde;o pode ser imposto nem considerado como condi&ccedil;&atilde;o exigente que se aceita para se poder ser padre. A posi&ccedil;&atilde;o da Igreja &eacute; outra: n&atilde;o pro&iacute;be o casamento, mas escolhe os seus sacerdotes entre aqueles que optaram pela virgindade no seu caminho de amor. Que a afectividade e a sexualidade n&atilde;o s&atilde;o uma fatalidade, imposta pelas leis da natureza e da sociedade, mas s&atilde;o o campo de uma escolha livre, &eacute; o pr&oacute;prio Jesus quem o proclama, antes de mais sendo Ele pr&oacute;prio celibat&aacute;rio e proclamando que h&aacute; aqueles que escolhem a via da contin&ecirc;ncia por amor do Reino dos C&eacute;us (cf. Mt. 19,12). Ao proclamar a possibilidade desta escolha livre, o Senhor restitui ao casamento a sua dignidade de escolha livre. Sobretudo a mulher, que tinha a sua dignidade restringida &agrave; procria&ccedil;&atilde;o, sente-se liberta e reconhecida na sua dignidade como pessoa. N&atilde;o &eacute; por acaso que, na Igreja nascente, s&atilde;o as mulheres que escolhem a virgindade como caminho para seguir a Cristo, que suscitam o ideal da virgindade como caminho crist&atilde;o de amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 15. Na mentalidade contempor&acirc;nea, n&atilde;o &eacute; tanto o celibato que choca, mas a contin&ecirc;ncia no celibato. &Eacute; esta que se torna caminho de conviv&ecirc;ncia crist&atilde;, de amor generoso e total, t&atilde;o pr&oacute;prio de um cora&ccedil;&atilde;o de pastor. Hoje h&aacute; muita gente que n&atilde;o se casa por outros motivos, entre os quais uma maior liberdade social. No celibato por amor do Reino dos C&eacute;us, o testemunho &eacute; o da contin&ecirc;ncia, pois s&oacute; essa &eacute; express&atilde;o de um amor novo. O celibato sem contin&ecirc;ncia &eacute; uma mentira. O mesmo se pode dizer do matrim&oacute;nio crist&atilde;o no que &agrave; &ldquo;castidade conjugal&rdquo; diz respeito. Para quem segue Cristo ressuscitado, descobre-se uma converg&ecirc;ncia e sintonia entre a viv&ecirc;ncia da afectividade e da sexualidade no matrim&oacute;nio e na virgindade, escolhida e praticada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 16. H&aacute; uma fecundidade na virgindade por amor do Reino dos C&eacute;us. O celibato n&atilde;o &eacute; uma ren&uacute;ncia ao amor; &eacute; a escolha de um amor novo e este converge com o amor do Bom Pastor. A pr&oacute;pria complementaridade homem-mulher encontra express&atilde;o de profundidade e de intimidade m&iacute;stica, onde o melhor de cada um exprime a comunh&atilde;o dos santos. S&atilde;o Bento e Santa Escol&aacute;stica, S&atilde;o Francisco e Santa Clara n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos exemplos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 17. O celibato vivido &eacute; uma express&atilde;o profunda e libertadora do amor total ao rebanho que nos foi confiado, e &eacute; um dos aspectos em que o minist&eacute;rio sacerdotal &eacute; caminho de plenitude humana. A viv&ecirc;ncia deste dom pode ser o fruto de converg&ecirc;ncia e reencontro de todos os que, sinceramente, buscam um novo rosto de Igreja, quer os que, movidos pelo entusiasmo conciliar, tenham partido ao encontro do mundo, quer desiludidos com o mundo, tenham partido &agrave; procura da Igreja.<\/p>\n<p>Procuremos todos descobrir a profundidade da Igreja, em Jesus Cristo, e procuremos compreender o nosso mundo, assinalando nele aberturas &agrave; mensagem de Jesus. N&atilde;o queiramos ser como o mundo gostaria que fossemos; procuremos a nossa identidade no seguimento de Jesus e na liberdade dos filhos de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 2 de Setembro de 2009&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Notas:<\/span><\/p>\n<p>1 &#8211; S. Afonso Maria de Lig&oacute;rio<\/p>\n<p>2 &#8211; Jo&atilde;o Paulo II, &ldquo;Pastores Dabo Vobis&rdquo;, n&ordm; 5<\/p>\n<p>3 &#8211; Mgr. Hippolyte SIMON, Libres d&rsquo;&ecirc;tre pr&ecirc;tres, ed. L&rsquo;Atelier\/Ed. Ouvri&egrave;res, Paris 2001, pg. 15<\/p>\n<p>4 &#8211; Walter KASPER &ndash; <strong>Servitori della Gioia &ndash; Esistenza sacerdotale &ndash; servizio sacerdotale<\/strong> &ndash; Queriniana, Brescia (2007), pg. 11-12<\/p>\n<p>5 &#8211; <strong>Ibidem<\/strong>, pg. 16<\/p>\n<p>6 &#8211; Mgr. H. SIMON, op. cit. Pg. 15<\/p>\n<p>7 &#8211; Jo&atilde;o Paulo II, &ldquo;Pastores dabo Vobis&rdquo;, n&ordm; 12<\/p>\n<p>8 &#8211; Para todo este cap&iacute;tulo ter em conta Walter Kasper, op. cit. pp. 87-99<\/p>\n<p>9 &#8211; Sobre este tema aconselhamos: Walter Kasper, op. cit. pp. 71-86; H. SIMON, op. cit. pp. 65-83<\/p>\n<p>10 &#8211; Jo&atilde;o Paulo II, <strong>&ldquo;Familiaris Consortio&rdquo;<\/strong>, n&ordm; 11<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia no VI Simp\u00f3sio do Clero de Portugal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,127,168,191,203,294],"class_list":["post-40641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-economia","tag-europa","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}