{"id":406113,"date":"2026-01-03T10:00:18","date_gmt":"2026-01-03T10:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=406113"},"modified":"2026-01-02T18:44:05","modified_gmt":"2026-01-02T18:44:05","slug":"celebremos-um-novo-ano-com-uma-boa-reserva-escatologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/celebremos-um-novo-ano-com-uma-boa-reserva-escatologica\/","title":{"rendered":"Celebremos um novo ano com uma boa reserva (escatol\u00f3gica)"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266200 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Um novo ano se abre diante de n\u00f3s. Celebremos, portanto!<\/p>\n<p>A longa hist\u00f3ria da enofilia lusitana, esse enraizado conv\u00edvio dos portugueses com o vinho, e a circunst\u00e2ncia de eu mesmo ter nascido na cidade onde se produzem alguns dos mais c\u00e9lebres champanhes do mundo (Epernay, cidade das margens do Marne, pertencente \u00e0 regi\u00e3o de Champagne, onde nasceu o abade Don P\u00e9rignon, criador deste n\u00e9ctar recolhido das uvas) d\u00e3o-me o bom pretexto para a reflex\u00e3o que aqui partilho.<\/p>\n<p>Disponhamo-nos, ent\u00e3o, a tomar em m\u00e3os uma boa \u2018reserva\u2019\u2026<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, aproveitemos para recolher da mitologia romana o que o calend\u00e1rio (termo recolhido da cultura latina que designava o primeiro dia do m\u00eas. Nome exclusivo dos romanos e inexistente entre os gregos, donde a express\u00e3o \u2018deixar para as calendas gregas\u2019, isto \u00e9, \u2018para nunca\u2019) nos disponibiliza.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos o ano com Janeiro, o nome que deriva de \u2018Jano\u2019, segundo Pierre Grimal<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, um dos mais antigos deuses do pante\u00e3o romano sendo a entroniza\u00e7\u00e3o de um rei que, apesar de vindo do estrangeiro, os romanos associam a um per\u00edodo de ouro (honestidade, paz, etc.), tendo, ap\u00f3s a morte, sido entronizado como deus, e atribuindo-se-lhe o milagre de ter protegido os romanos do tempo de R\u00f3mulo contra os sabinos. Era representado com duas caras, para diante e para tr\u00e1s, sendo reconhecido como um especial orador, com capacidade de ver em todas as dimens\u00f5es, isto \u00e9, dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Janeiro \u00e9, \u00e0 luz desta vis\u00e3o mitol\u00f3gica, o m\u00eas em que ainda temos a mem\u00f3ria do ano que passou (a face voltada para tr\u00e1s) e a luz do horizonte que se abre diante de n\u00f3s (a face voltada para diante). Uma bela imagem para ilustrar a ideia de \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019. J\u00e1 o perceberemos\u2026<\/p>\n<p>Na enologia, a \u2018reserva\u2019 \u00e9 um \u2018selo\u2019, que nos certifica da qualidade de um vinho. Implica, por isso, o estatuto de \u2018refer\u00eancia\u2019 e de qualidade especial, reconhecida \u00e0 luz de crit\u00e9rios que o distinguem. Nem todos os vinhos s\u00e3o da qualidade da \u2018reserva\u2019. E comporta, tamb\u00e9m, o envolvimento de uma entidade que reconhece essa qualidade especial.<\/p>\n<p>Crit\u00e9rios interessantes para a reflex\u00e3o que aqui nos traz.<\/p>\n<p>\u2018Reserva escatol\u00f3gica\u2019 \u00e9 uma express\u00e3o cuja autoria \u00e9 discutida, mas, ap\u00f3s longa hist\u00f3ria de atribui\u00e7\u00e3o a E. K\u00e4semann<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, pode afian\u00e7ar-se, sem d\u00favidas, que se dever\u00e1 a Erik Peterson e formulada no per\u00edodo que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 de somenos import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na verdade, o per\u00edodo entre guerras foi palco da emerg\u00eancia de leituras teol\u00f3gicas que ajudaram a legitimar abordagens pol\u00edticas de pendor messi\u00e2nico, isto \u00e9, linhas argumentativas que pretendiam fazer coincidir o \u2018Reino de Deus\u2019 com respostas ou regimes pol\u00edticos concretos.<\/p>\n<p>O conceito de \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019 (\u00e0 maneira da dupla face de Jano) abre uma brecha neste entendimento, ao sublinhar, fundamentalmente, duas notas: (1) a f\u00e9 crist\u00e3 vive, na hist\u00f3ria, na tens\u00e3o entre o \u2018j\u00e1\u2019 e o \u2018ainda n\u00e3o\u2019, de que resulta uma leitura sempre \u2018reservada\u2019 em rela\u00e7\u00e3o a todas as op\u00e7\u00f5es concretas de natureza pol\u00edtica, mas de que (2) n\u00e3o dever\u00e1 resultar uma l\u00f3gica \u2018descomprometida\u2019, antes uma atitude de compromisso de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, marcada pela esperan\u00e7a (que o Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso prop\u00f5e que gere uma \u2018escatologia sapiencial\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>), consciente de que, na hist\u00f3ria, se caminha para o definitivo que ainda aqui n\u00e3o est\u00e1. \u00c9 necess\u00e1rio ler, \u2018sapiencialmente\u2019, os sinais dos tempos.<\/p>\n<p>Essa \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019, \u00e0 luz da qual dever\u00e3o ser lidos todos os acontecimentos e decis\u00f5es (pessoais e coletivos, mesmo para al\u00e9m do \u00e2mbito estritamente pol\u00edtico), define-se pela consci\u00eancia cr\u00edtica, enraizada no acontecimento cr\u00edstico (vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo) de que n\u00e3o nos deveremos interrogar sobre se as nossas op\u00e7\u00f5es redundam numa derrota hist\u00f3rica, mas antes se resultam em \u2018derrota escatol\u00f3gica\u2019, isto \u00e9, derrota definitiva \u00e0 luz dos crit\u00e9rios com que \u2018seremos julgados no fim dos tempos\u2019 perante a \u2018entidade certificadora\u2019, o pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Bebamos desta \u2018reserva\u2019\u2026<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os, confrontados com propostas pol\u00edticas e interpelados a posicionarem-se sobre elas, n\u00e3o dever\u00e3o interrogar-se sobre se elas levar\u00e3o a uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica, a uma vit\u00f3ria na hist\u00f3ria, mas sim sobre se delas resultar\u00e1 a \u2018vit\u00f3ria definitiva\u2019, aquela que constataremos ao confront\u00e1-la com o olhar da Trindade, Deus que \u00e9 Amor, \u2018Ser-que-\u00e9-sendo-com-o-Outro\u2019, sabendo que em nenhuma delas se encontrar\u00e1, j\u00e1 e de modo definitivo, no aqui e agora da hist\u00f3ria, o Reino.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o dos messianismos sempre foi a de emitir um ju\u00edzo que deveria ser reservado a Deus, e para cuja sedu\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos alertou o pr\u00f3prio Jesus Cristo: \u201cNingu\u00e9m poder\u00e1 afirmar: &#8216;Ei-lo aqui&#8217; ou &#8216;Ei-lo ali&#8217;, pois o Reino de Deus est\u00e1 entre v\u00f3s.\u201d (Lc 17, 21)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>O conceito de \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019 faculta-nos um crit\u00e9rio que nos serve para este e muitos outros contextos em que as derrotas na hist\u00f3ria nos levam ao des\u00e2nimo e ao desalento. O que diriam e poderiam esperar, sem ela, os m\u00e1rtires crist\u00e3os de todos os tempos perante a iminente derrota hist\u00f3rica que lhes sorria com sarcasmo e ironia?<\/p>\n<p>Quantos dos que lutam pela defesa dos mais esquecidos, dos mais fr\u00e1geis, dos \u2018ainda sem-nome\u2019, dos \u2018j\u00e1-sem-nome\u2019, dos \u2018nunca-com-nome\u2019, dos que s\u00f3 a mem\u00f3ria de Deus conserva e conservar\u00e1 porque cilindrados pelas botas da hist\u00f3ria, dos\u2026, dos\u2026, precisam de que se lhes diga onde fica a \u2018cave dos bons vinhos\u2019, a verdadeira \u2018reserva\u2019\u2026<\/p>\n<p>Muitas derrotas parece ter sofrido, ao longo da hist\u00f3ria e na hist\u00f3ria, o Cristianismo\u2026 Mas n\u00e3o \u00e9 assim que se encontra o vinho bom. O vinho bom est\u00e1 sob reserva\u2026<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Pierre Grimal, <em>Dicion\u00e1rio de mitologia grega e romana<\/em>, Lisboa, Ant\u00edgona editores, 2020, p. 258.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cfr. Gabino Ur\u00edbarri SJ, \u00abLa reserva escatol\u00f3gica: un concepto origin\u00e1rio de erik Peterson (1890-1960)\u00bb, in <em>Estudios eclesi\u00e1sticos<\/em> 78 (2003) 29-105 (<a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/105116841\/La_reserva_escatol%C3%B3gica_Un_concepto_originario_de_Erik_Peterson_1890_1960_\">https:\/\/www.academia.edu\/105116841\/La_reserva_escatol%C3%B3gica_Un_concepto_originario_de_Erik_Peterson_1890_1960_<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Tese defendida em brilhante obra publicada pela Livraria Di\u00e1rio do Minho: Jos\u00e9 Miguel Cardoso, <em>Para uma escatologia sapiencial: a heran\u00e7a escatol\u00f3gica de Karl Rahner e Johann Baptist Metz<\/em>, Braga. Livraria DM, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cfr. Teresa Bartolomei, \u00abO primeiro conc\u00edlio de Niceia entre ideologia e teologia\u00bb in Isidro Lamelas (coord.), <em>O primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico \u2013 Niceia 325: mem\u00f3ria e heran\u00e7a<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus editora, 2025.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-406113","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=406113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406113\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=406113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=406113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=406113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}