{"id":405763,"date":"2026-01-04T09:31:48","date_gmt":"2026-01-04T09:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=405763"},"modified":"2026-01-04T11:42:14","modified_gmt":"2026-01-04T11:42:14","slug":"jubileu-igreja-tem-de-ser-uma-igreja-dos-pobres-para-os-pobres-e-com-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jubileu-igreja-tem-de-ser-uma-igreja-dos-pobres-para-os-pobres-e-com-os-pobres\/","title":{"rendered":"Jubileu: \u00abIgreja tem de ser uma Igreja dos pobres, para os pobres e com os pobres\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>O Ano Santo de 2025, Jubileu da Esperan\u00e7a, teve o seu encerramento nas dioceses e vai ser conclu\u00eddo por Le\u00e3o XIV no Vaticano, no dia 6 de janeiro. Foi um ano de peregrina\u00e7\u00f5es, de grandes celebra\u00e7\u00f5es em Roma e em Portugal, mas o Papa Francisco, ao convoc\u00e1-lo, pediu que, acima de tudo, este fosse um tempo com impacto real na vida das pessoas.\u00a0Para fazer o balan\u00e7o deste ano, do seu impacto na vida concreta e na caridade, convid\u00e1mos Manuel Gir\u00e3o, diretor do Departamento da Pastoral Socio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_406222\" aria-describedby=\"caption-attachment-406222\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-406222 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/G90QOXmXAAAB9RH-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-406222\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>O patriarca de Lisboa disse, na homilia de encerramento do Jubileu, que \u201cna gram\u00e1tica do Esp\u00edrito, encerrar n\u00e3o \u00e9 terminar\u201d. Olhando para a Pastoral Social da Diocese, sente que este ano marcou, de facto, um in\u00edcio de algo novo ou o risco de se fechar a porta e voltar \u00e0 rotina \u00e9 real?<\/em><\/p>\n<p>Bom dia, antes de mais, muito obrigado pelo convite, \u00e9 um gosto poder falar na nossa experi\u00eancia do Jubileu, uma caminhada ao longo deste ano, e de facto aquilo que disse o senhor patriarca \u00e9 aquilo que n\u00f3s, ao n\u00edvel do Departamento, fomos avaliando ao longo deste ano: para que serviu este jubileu e para que serviu toda esta envolv\u00eancia, toda esta din\u00e2mica, se n\u00f3s agora terminarmos e n\u00e3o sairmos em miss\u00e3o? Por isso aquilo que n\u00f3s acreditamos e aquilo que ficou da experi\u00eancia do Departamento da Pastoral Social do Patriarcado, \u00e9 que este Jubileu, o Jubileu da Esperan\u00e7a, foi algo marcante. N\u00f3s pens\u00e1vamos, numa primeira fase, quando desenvolvemos a nossa din\u00e2mica deste jubileu, ach\u00e1vamos que \u00edamos a realidades levar a esperan\u00e7a que o Papa Francisco pedia, \u00e0quelas pessoas que n\u00e3o podiam viver o Jubileu em Roma ou nas igrejas jubilares, podermos levar o Jubileu. N\u00f3s fomos com a ideia de que \u00edamos levar a esperan\u00e7a a essas realidades &#8211; aqui falo da realidade dos reclusos, da realidade dos hospitais, dos lares de idosos, dos centros de apoio a pessoas em condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo &#8211; quando n\u00f3s fomos a estes locais, a estas realidades, percebemos que fomos l\u00e1 n\u00f3s buscar a esperan\u00e7a, ou seja, estas realidades ensinaram-nos muitas vezes aquilo que \u00e9 verdadeiramente a esperan\u00e7a. Por isso, n\u00f3s cheg\u00e1mos a esta conclus\u00e3o que, como dizia o Papa Francisco e agora o Papa Le\u00e3o XIV, a Igreja tem de ser uma Igreja dos pobres, para os pobres e com os pobres, essencialmente uma Igreja que v\u00e1 ao encontro dos mais desprotegidos. N\u00f3s fic\u00e1mos com esta realidade, isto n\u00e3o pode terminar aqui, temos de manter esta caminhada, temos de ser uma Igreja em sa\u00edda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem falado muito de caminhada e o lema do Ano Santo \u00e9 \u201cperegrinos de esperan\u00e7a\u201d, esta ideia de caminho. Pergunto se a experi\u00eancia destes meses, na linha da frente da a\u00e7\u00e3o social, como estava a dizer, mostrou tamb\u00e9m que as comunidades crist\u00e3s s\u00e3o capazes de renovar a sua forma de acolher, e tamb\u00e9m se houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o diferente?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o Jubileu foi extremamente mobilizador e n\u00f3s vimos, desde o in\u00edcio at\u00e9 agora que n\u00f3s mobilizamos. Mas quando h\u00e1 uma mobiliza\u00e7\u00e3o, como houve na Jornada Mundial da Juventude, ou como houve noutras din\u00e2micas pastorais, muitas vezes corremos o risco de depois, determinado, n\u00e3o haver consequ\u00eancia, voltarmos, como eu costumo dizer, \u00e0 sacristia. A partir do tema \u201cperegrinos de esperan\u00e7a\u201d, que a esperan\u00e7a n\u00e3o engana, aquela esperan\u00e7a do crist\u00e3o, verificamos que quando n\u00f3s fomos para as comunidades, sejam elas comunidades paroquiais, comunidades de institui\u00e7\u00f5es sociais, comunidades prisionais, n\u00f3s encontramos em todos estes locais um conjunto de volunt\u00e1rios crist\u00e3os, n\u00e3o crist\u00e3os, mas que quiseram ser volunt\u00e1rios nesta peregrina\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a e que nos acolheram. Era aquilo que eu dizia no in\u00edcio, n\u00f3s pens\u00e1vamos que \u00edamos levar do alto da nossa capacidade e recebemos muito mais, porque n\u00f3s percebemos o que \u00e9 o sentido do acolhimento.<\/p>\n<p>Na din\u00e2mica da Pastoral Social, at\u00e9 na l\u00f3gica da Cruz do Jubileu, que tem a forma de uma \u00e2ncora, n\u00f3s quisemos que a Cruz ficasse ancorada uma semana em cada uma das realidades das quatro zonas pastorais. E o que aconteceu foi que n\u00f3s cheg\u00e1vamos com a Cruz, e a Cruz era como que largada ao mar, era a \u00e2ncora que fixava, e durante uma semana desenvolv\u00edamos uma s\u00e9rie de atividades com as comunidades.<\/p>\n<p>Eu recordo, por exemplo, a visita da Cruz ao IPO de Lisboa, onde o senhor patriarca se associou, e que foi muito marcante, porque a Cruz percorreu as v\u00e1rias \u00e1reas do IPO, esteve nas v\u00e1rias especialidades, tamb\u00e9m os m\u00e9dicos se envolveram, os enfermeiros se envolveram, o capel\u00e3o se envolveu, o senhor Patriarca esteve. N\u00f3s sentimos que n\u00e3o est\u00e1vamos sozinhos, sentimos a din\u00e2mica de levar um sinal vivo a uma realidade como uma pris\u00e3o, ou como um hospital, ou como, por exemplo, um hospital prisional, como estivemos em Caxias, n\u00f3s percebemos que a din\u00e2mica do Jubileu, de facto, ia muito para al\u00e9m daquilo que era vivido nos templos jubilares ou o que era vivido em Roma. E foi isto que o Papa nos pediu na bula, ou seja, o Papa Francisco pediu-nos que olh\u00e1ssemos para estas realidades, e n\u00f3s, ao longo desta din\u00e2mica, \u00edamos mesmo caminhando, porque a Cruz muitas vezes passava de uma realidade para outra em forma de caminhada.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando a Cruz esteve no lar da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia da Amadora, e foi em peregrina\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao Bairro 6 de Maio, para uma realidade, que era a realidade dos migrantes, que receberam a Cruz. Curiosamente, muitos dos migrantes que receberam a Cruz e que estiveram com a Cruz durante uma semana, n\u00e3o eram cat\u00f3licos, mas o sinal falava mais alto e por isso n\u00f3s acreditamos que n\u00f3s temos de sair em miss\u00e3o, ou seja, a Igreja tem de ir ao encontro dos mais desprotegidos, porque \u00e9 a\u00ed que tamb\u00e9m vamos buscar f\u00f4lego para continuar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O patriarca de Lisboa utilizou uma express\u00e3o muito forte na recente Festa da Sagrada Fam\u00edlia, pediu que as fam\u00edlias e as comunidades sejam \u201cceleiros de humanidade\u201d. Onde \u00e9 que em Lisboa estes celeiros s\u00e3o mais necess\u00e1rios? Estamos a falar da crise habitacional, da solid\u00e3o dos idosos, ou de novas formas de pobreza?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu diria que o flagelo da habita\u00e7\u00e3o, ou da falta, porque o problema n\u00e3o \u00e9 a habita\u00e7\u00e3o, o problema \u00e9 a falta da habita\u00e7\u00e3o, eu creio que sim, a\u00ed \u00e9 um caminho que temos de fazer, porque se n\u00f3s resolv\u00eassemos, ou minimiz\u00e1ssemos este problema da habita\u00e7\u00e3o, n\u00f3s consegu\u00edamos resolver muitos outros problemas. Muitos dos problemas de car\u00eancia social come\u00e7am na falta da habita\u00e7\u00e3o, e por isso esse, na minha opini\u00e3o, seria o grande desafio da Igreja, e a Igreja ter capacidade, porque tem de ter, de se mobilizar para resolver este problema. Depois temos um problema muito grave, que \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o dos migrantes, ou seja, n\u00f3s n\u00e3o podemos continuar a achar que vamos resolver o problema dos migrantes sem as comunidades crist\u00e3s, ou seja, sem as par\u00f3quias, sem as comunidades, sem as fam\u00edlias, porque n\u00f3s temos de acolher, e estes migrantes s\u00e3o peregrinos, ou seja, eles vieram de longe para encontrar uma vida melhor, e n\u00f3s, como crist\u00e3os, temos de os acolher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lisboa est\u00e1 no olho do furac\u00e3o nesta quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que a diocese responde a desafios que chegam de fora, esta quest\u00e3o dos refugiados, dos imigrantes? Neste contexto, a paz social est\u00e1 garantida?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que sim, porque n\u00f3s, Igreja, temos muitas institui\u00e7\u00f5es de primeira linha, e essas institui\u00e7\u00f5es funcionam muito como um tamp\u00e3o social, ou seja, fazem com que as tens\u00f5es n\u00e3o evoluam tanto. Eu posso-vos dar o exemplo da Comunidade Vida e Paz, que este ano desenvolveu um trabalho not\u00e1vel junto das pessoas em condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, em que muitos deles j\u00e1 s\u00e3o tamb\u00e9m migrantes, porque tamb\u00e9m porque t\u00eam essa necessidade. Diria tamb\u00e9m o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados, que tamb\u00e9m gere centros de acolhimento e que tamb\u00e9m faz logo ali uma primeira triagem, um primeiro acompanhamento nos v\u00e1rios centros que tem, com uma capacidade muito grande. Podia-vos dizer tamb\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es, os centros paroquiais, que todos eles j\u00e1 t\u00eam din\u00e2micas de apoio aos migrantes, nomeadamente numa \u00e1rea que eu acho muito importante, que \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho de qualidade, porque muitas vezes os migrantes s\u00e3o levados a trabalho prec\u00e1rio e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o nalgumas geografias do nosso pa\u00eds. Na nossa diocese, sentimos que talvez 20, 25% dos trabalhadores das institui\u00e7\u00f5es sociais da Igreja j\u00e1 s\u00e3o migrantes. E tem havido um trabalho, e n\u00f3s temos coordenado esse trabalho, quer ao n\u00edvel da forma\u00e7\u00e3o, quer ao n\u00edvel dos inqu\u00e9ritos, para percebermos qual \u00e9 a realidade nesta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos uma \u00e9poca da nossa vida em que \u00e9 crucial conseguir acolher e manter c\u00e1 estes imigrantes, porque n\u00f3s n\u00e3o conseguimos sobreviver sem eles, ou seja, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos, n\u00e3o temos capacidade neste momento de oferta de trabalho sem os imigrantes. Precisamos deles para trabalhar, mas temos de os integrar, porque s\u00f3 assim \u00e9 que temos uma sociedade justa.<\/p>\n<p>Enquanto Igreja, temos um papel, quer ao n\u00edvel da habita\u00e7\u00e3o, quer ao n\u00edvel do apoio aos migrantes, quer ao n\u00edvel de um flagelo muito grande que hoje existe na cidade de Lisboa, que \u00e9 o abandono dos idosos, dos mais velhos, e o isolamento dos mais velhos. Eu posso dizer que \u00e9 um problema estrutural, porque \u00e9 vivido em pr\u00e9dios com 3, 4 andares sem elevador, e as pessoas ficam presas nas suas casas, e muitas das vezes acabam por morrer sozinhas, porque n\u00e3o t\u00eam rede de vizinhan\u00e7a, porque acabaram as redes de vizinhan\u00e7a nas nossas cidades, as pessoas acabam por partir sem que ningu\u00e9m d\u00ea por isso, e isto \u00e9 um flagelo que est\u00e1 a acontecer cada vez mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E \u00e9 um desafio para as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es de Igreja\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio, porque n\u00f3s temos de saber onde eles est\u00e3o, temos de os acompanhar, mesmo que eles \u00e0s vezes n\u00e3o precisem de apoio, t\u00eam de ter companhia de um telefonema, de um contacto, de uma visita, e isso \u00e9 outra \u00e1rea que n\u00f3s tamb\u00e9m, atrav\u00e9s do apoio dos centros paroquiais, das miseric\u00f3rdias, temos tentado cada vez mais ir ao encontro desta comunidade. Agora no \u00e2mbito do Jubileu, tent\u00e1mos mobilizar lares de idosos, centros de dia, centros de conv\u00edvio, para levar esta chama do Jubileu a estas pessoas, para que depois, ap\u00f3s o Ano Santo, elas possam continuar a caminhar connosco nas comunidades, se possam criar redes e integrar. Foi esse o grande objetivo, tamb\u00e9m, da ida da Cruz a estas realidades, n\u00e3o s\u00f3 levar uma atividade de uma semana, e durante aquela semana criar um gui\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o, criar um gui\u00e3o de atividades. Por exemplo, a Cruz esteve na obra do padre Greg\u00f3rio em Sintra, e a ideia foi, ao ver aquela realidade, perceber que aquelas jovens, \u00e9 um centro de acolhimento de crian\u00e7as e jovens sem fam\u00edlia, \u00e9 perceber que precisamos de manter a rela\u00e7\u00e3o espiritual com esta comunidade, porque aquelas jovens mostraram que precisam, porque n\u00e3o t\u00eam este apoio espiritual que n\u00f3s dever\u00edamos ter enquanto comunidade. E l\u00e1 est\u00e1, tudo o que n\u00f3s quisemos fazer ao longo deste ano, para que serviu? Costumamos dizer na nossa equipa que serviu, pelo menos, para percebermos uma coisa: n\u00f3s n\u00e3o podemos estar parados, n\u00e3o podemos estar nas nossas igrejas, nas nossas comunidades, a pregar sempre para os mesmos, a converter os convertidos, ou seja, n\u00f3s temos de ir, como dizia o Papa Francisco, temos de olhar para a Igreja como um hospital de campanha, ou seja, isto n\u00e3o \u00e9 um hotel de cinco estrelas. \u00c9 um hospital de campanha, n\u00f3s temos de ir para o terreno, e cada vez mais estas s\u00e3o as realidades que precisam da nossa ajuda.<\/p>\n<p>Outra \u00e1rea que n\u00f3s, por exemplo, quisemos marcar presen\u00e7a foi na \u00e1rea da defici\u00eancia, que \u00e9 uma \u00e1rea muito esquecida em Portugal. A \u00e1rea da defici\u00eancia muitas vezes \u00e9 escondida, \u00e9 fechada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso um trabalho de visibilidade e de sensibiliza\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, s\u00f3 que o problema \u00e9 que muita da defici\u00eancia est\u00e1 institucionalizada e esta institucionaliza\u00e7\u00e3o da defici\u00eancia faz com que ela fique escondida e que n\u00e3o se v\u00e1 ao encontro. N\u00f3s, por exemplo, tamb\u00e9m no \u00e2mbito das atividades do Jubileu, aqui na Diocese de Lisboa, visit\u00e1mos o centro do Pis\u00e3o da Miseric\u00f3rdia de Cascais e tamb\u00e9m l\u00e1, fizemos uma s\u00e9rie de din\u00e2micas com as pessoas deficientes e foi muito bonito, porque sentimos que elas aderiam muito bem a estes sinais, ao sinal da Cruz, ao sinal da esperan\u00e7a. Sa\u00edmos de l\u00e1 reconfortados, porque percebemos que temos ali um caminho para continuar e, na nossa perspectiva, foi isso que nos alimentou ao longo deste ano e \u00e9 aquilo que n\u00f3s achamos que nos vai alimentar agora nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quais s\u00e3o as prioridades de atua\u00e7\u00e3o do departamento em 2026?<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, uma grande prioridade do departamento \u00e9 conseguirmos que os v\u00e1rios setores trabalhem em conjunto, n\u00e3o s\u00f3 as Miseric\u00f3rdias, os Centros Paroquiais, a C\u00e1ritas, os migrantes\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem de haver uma maior articula\u00e7\u00e3o entre todos?<\/em><\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica do Jubileu obrigou-nos a isso. N\u00f3s tivemos de trabalhar em rede, porque quando precis\u00e1vamos de desenvolver atividades com os migrantes, fomos ao encontro das institui\u00e7\u00f5es que trabalham com esta \u00e1rea. Quando precis\u00e1vamos de desenvolver na \u00e1rea da defici\u00eancia, a mesma coisa, ou seja, o que n\u00f3s percebemos foi que n\u00e3o conseguimos trabalhar sem ser em articula\u00e7\u00e3o dos setores, porque esse \u00e9 o problema de um departamento, ou dos v\u00e1rios departamentos que existem, \u00e9 n\u00e3o conseguir, muitas das vezes, articular setores, ou os setores trabalharem de forma desgarrada, cada um para seu lado.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios do Departamento para o pr\u00f3ximo ano \u00e9 manter a din\u00e2mica do trabalho em equipa e do trabalho em rede. Esse \u00e9 um desafio. O segundo desafio \u00e9 ir ao encontro e desenvolver estrat\u00e9gias para trabalhar esta quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, porque, volto a dizer, em Lisboa, se n\u00f3s n\u00e3o fizermos nada, n\u00f3s, comunidades, n\u00f3s, institui\u00e7\u00f5es, vamos ser engolidos por um furac\u00e3o. A din\u00e2mica e a dimens\u00e3o disto \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>N\u00f3s, por um lado, n\u00e3o podemos deixar de receber os imigrantes, por outro lado, n\u00e3o podemos deixar de os receber em condi\u00e7\u00f5es, e por outro lado, n\u00e3o podemos deixar de os integrar em sociedade, como outras comunidades, no s\u00e9culo passado, ou em 75, conseguimos integrar os retornados, que vieram, e que tamb\u00e9m eram um milh\u00e3o, eu me incluo-me nesse grupo. Sentimos que estamos na mesma fase da hist\u00f3ria, ou seja, estamos numa fase de integra\u00e7\u00e3o, e temos todos, comunidades paroquiais, o clero, as institui\u00e7\u00f5es sociais da Igreja, as organiza\u00e7\u00f5es, as ONG, temos de nos juntar, e temos de pensar estrat\u00e9gias para a integra\u00e7\u00e3o desta realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E combater a ideia de que a responsabilidade de se integrar \u00e9 apenas de quem chega?<\/em><\/p>\n<p>A Caritas est\u00e1 a desenvolver um trabalho, em articula\u00e7\u00e3o com o departamento, em que um dossi\u00ea sobre a imigra\u00e7\u00e3o, e tem um cap\u00edtulo sobre os mitos. Esse \u00e9 um mito que se diz, de facto, que \u00e9 quem chega que se tem de integrar. Claro que quem chega tem de entender a realidade cultural, tem de ser ajudado, no m\u00ednimo tem de se lhe dizer as regras do jogo, n\u00e3o \u00e9? Se n\u00f3s vamos para um pa\u00eds, claro que n\u00f3s precisamos de saber, mas tamb\u00e9m temos de ser ajudados. E n\u00f3s, nas comunidades paroquiais, porque funcionamos muito em redes de proximidade, podemos fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou de muitas experi\u00eancias deste ano jubilar: se tivesse de escolher uma imagem, uma hist\u00f3ria, que o tenha marcado pessoalmente nesta caminhada, como disse tantas vezes, do Jubileu, qual seria?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s temos um livro que cri\u00e1mos no in\u00edcio do Jubileu, um livro de ora\u00e7\u00f5es e de caminhada jubilar, mas tinha as p\u00e1ginas em branco, porque n\u00f3s quer\u00edamos que fosse escrito, as ora\u00e7\u00f5es fossem de quem viveu o Jubileu. Por isso, este livro retrata uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias e muitas marcantes, mas se eu tivesse de escolher uma que me tocou foi no Pis\u00e3o, num centro para deficientes profundos, em que estavam cerca de 200 pessoas numa cerim\u00f3nia que fizemos, com a Cruz do Jubileu. Ali, durante cerca de 40 minutos, o sil\u00eancio que se viveu, ao ar livre, tocou-me profundamente, porque aquele sil\u00eancio foi um sil\u00eancio de tanto respeito, mas de tanta profundidade, e pelo p\u00fablico que era, que me marcou muito. Quando eu me vinha embora, um jovem, um deficiente veio ter comigo, e viu-me com uma mochila, e perguntou-me se eu tinha uma B\u00edblia para lhe oferecer. Tocou-me, porque ele pediu aquilo que se calhar eu devia ter levado e nunca me lembrei, uma B\u00edblia, e isso foi, das v\u00e1rias atividades que desenvolvemos, das v\u00e1rias imagens que tenho, essa foi a que me marcou mais, foi este pedido de uma B\u00edblia por um jovem do Pis\u00e3o, num centro de deficientes profundos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse um livro foi elaborado ao longo deste jubileu?<\/em><\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s cham\u00e1mos-lhe a \u201ccredencial da peregrina\u00e7\u00e3o jubilar\u201d, porque era por onde o livro passava, quer\u00edamos que as pessoas, por cada local&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portanto, era um livro em branco?<\/em><\/p>\n<p>Era um livro em branco. E foi sendo descrito com a colabora\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>D\u00ea-nos alguns exemplos do que a\u00ed tem e que vai ser entregue agora ao patriarca de Lisboa\u2026<\/em><\/p>\n<p>A nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 agora, no final do jubileu, entregar o livro ao senhor patriarca. E o livro tem ora\u00e7\u00f5es, tem testemunhos, tem pensamentos. H\u00e1 aqui alguns que nos marcaram muito, um deles, o de uma reclusa do Estabelecimento Prisional de Tires, que na ora\u00e7\u00e3o roga por ela, pela sua fam\u00edlia, e o que nos chamou muito a aten\u00e7\u00e3o e que nos marcou muito foi este pedido, que ela pede pelos filhos, pelos pais, mas tamb\u00e9m pelo companheiro, recluso no Estabelecimento Prisional de Sintra. E depois pede \u201cpor todas as minhas colegas aqui tamb\u00e9m, pela paz no mundo, por mais compreens\u00e3o, respeito e compaix\u00e3o entre os homens. \u00c1men\u201d.<\/p>\n<p>Esta foi a ora\u00e7\u00e3o que ela escreveu aqui, a reclusa, que tinha como n\u00famero 68. E este tipo de testemunhos marcou-nos muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E assina assim? Apenas com o n\u00famero?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, assina o nome e o n\u00famero. Mas o que nos marcou foi as pessoas terem de p\u00f4r um n\u00famero. Temos aqui algumas que n\u00e3o querendo p\u00f4r o nome, puseram s\u00f3 o n\u00famero. Se calhar porque n\u00e3o se quiseram identificar.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos estas ora\u00e7\u00f5es e estes testemunhos, no caso de Tires, em v\u00e1rias l\u00ednguas. Porque tamb\u00e9m h\u00e1 l\u00e1 reclusas de v\u00e1rias origens. E temos aqui em castelhano, em ingl\u00eas, em portugu\u00eas, e que escreveram.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m aqui alguns testemunhos, se me permitirem, num centro de apoio a pessoas em condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, o de um jovem, que que dizia isto desta maneira: \u201cEsperan\u00e7a \u00e9 saber esperar. Tem confian\u00e7a em ti. Espero fazer este caminho, n\u00e3o solit\u00e1rio, mas com muitos e com alegria. Jubileu 2025\u201d.<\/p>\n<p>Isto foi o Nuno, um jovem em condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, que escreveu isto e que simboliza muito aquilo que deve ser uma comunidade paroquial. Ele n\u00e3o quer fazer este caminho sozinho e espera faz\u00ea-lo com companhia e com alegria. E s\u00e3o estes testemunhos, temos aqui centenas de testemunhos, que nos marcaram muito porque percebemos que a esperan\u00e7a \u00e9 muito mais transmitida por estas pessoas, tantas vezes, do que por n\u00f3s, nas nossas comunidades paroquiais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ano Santo de 2025, Jubileu da Esperan\u00e7a, teve o seu encerramento nas dioceses e vai ser conclu\u00eddo por Le\u00e3o XIV no Vaticano, no dia 6 de janeiro. 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