{"id":405755,"date":"2026-01-01T10:00:44","date_gmt":"2026-01-01T10:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=405755"},"modified":"2025-12-30T16:15:04","modified_gmt":"2025-12-30T16:15:04","slug":"sera-que-papa-leao-xiv-andou-a-ouvir-a-rosalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sera-que-papa-leao-xiv-andou-a-ouvir-a-rosalia\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que Papa Le\u00e3o XIV andou a ouvir a Rosal\u00eda?!"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329388\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>A madrugada \u00e9 uma hora estranha: n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 noite, mas ainda n\u00e3o \u00e9 dia. \u00c9 o tempo em que a casa parece suspensa, em que a mem\u00f3ria fala mais alto, em que o cora\u00e7\u00e3o mede for\u00e7as com aquilo que o feriu. Na can\u00e7\u00e3o \u201cDe madrug\u00e1\u201d, Rosal\u00eda coloca-nos precisamente nesse intervalo \u2014 e, sem o dizer com linguagem religiosa, descreve um combate interior, que a mensagem do Papa Le\u00e3o XIV para o Dia Mundial da Paz 2026 reconhece como decisivo: a paz come\u00e7a dentro, ou n\u00e3o come\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cA cruz no peito calibra o meu corpo \/ para me desforrar, eu tenho direito.\u201d \u00c9 um verso duro, quase f\u00edsico. A cruz n\u00e3o aparece como ornamento, mas como peso e b\u00fassola, como instrumento que \u201ccalibra\u201d \u2014 afina, orienta, aponta. E, no entanto, o impulso que emerge \u00e9 o da desforra. A can\u00e7\u00e3o n\u00e3o romantiza: admite o direito sentido, o instinto imediato, a tenta\u00e7\u00e3o de equilibrar a balan\u00e7a pela for\u00e7a. E logo a seguir aparecem as correntes: \u201cpesam as cadeias\u201d, \u201ctanto olhar para tr\u00e1s\u201d. \u00c9 assim que a vingan\u00e7a se instala: prende-nos ao passado, reduz o futuro ao tamanho da ferida, faz-nos repetir por dentro aquilo que jur\u00e1mos n\u00e3o repetir por fora.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV chama a isto, com outra linguagem, as trevas e o medo, que nos roubam o realismo verdadeiro. H\u00e1 um \u201crealismo\u201d sem esperan\u00e7a \u2014 diz ele \u2014, que se apresenta como lucidez, mas \u00e9 apenas cegueira: narrativas que esquecem a beleza do outro, a gra\u00e7a, a possibilidade de mudan\u00e7a. A vingan\u00e7a \u00e9 uma dessas narrativas: parece forte, mas \u00e9 pobre; promete justi\u00e7a, mas entrega cativeiro.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o atira-nos depois uma frase que corta qualquer fantasia: \u201cN\u00e3o h\u00e1 arma, uma Glock ou Beretta, que dispare e te traga de volta.\u201d Aqui, a letra encontra a tese central do Papa: a paz de Cristo \u00e9 desarmada. N\u00e3o \u00e9 que ignore a viol\u00eancia; \u00e9 que recusa o seu m\u00e9todo. Jesus, diante da espada, diz: \u201cMete a espada na bainha\u201d. A arma pode impor sil\u00eancio, mas n\u00e3o devolve a vida; pode vencer um corpo, mas n\u00e3o cura uma hist\u00f3ria. E quando a guerra \u2014 pessoal, social, pol\u00edtica \u2014 se torna \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d, entramos naquela l\u00f3gica denunciada na mensagem: aumentar armamentos, educar para a amea\u00e7a permanente, normalizar o medo como fundamento da seguran\u00e7a. Uma espiral onde a paz vira ideal distante e a agressividade, h\u00e1bito quotidiano.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o procuro vingan\u00e7a; a vingan\u00e7a procura-me.\u201d O verso (em ucraniano) \u00e9 um retrato perfeito do que o Papa descreve: a paz \u00e9 uma presen\u00e7a que quer habitar-nos, mas pode ser esquecida; e, quando \u00e9 esquecida, algo ocupa o seu lugar. A vingan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 decis\u00e3o; \u00e9 ass\u00e9dio. Procura-nos nas madrugadas, nas conversas repetidas, nos coment\u00e1rios azedos, na vontade de \u201crepor\u201d o outro no seu lugar. E, de repente, a nossa vida fica \u201cocupada\u201d por aquilo que nos diminui.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Le\u00e3o XIV fala de uma paz desarmante: a bondade desarma, porque interrompe o ciclo. Deus fez-Se crian\u00e7a \u2014 indefeso \u2014 e \u00e9 essa fragilidade que nos torna mais l\u00facidos sobre \u201co que faz viver e o que mata\u201d. A cruz no peito, ent\u00e3o, deixa de \u201ccalibrar\u201d para a desforra e come\u00e7a a calibrar para outra coragem: a de n\u00e3o devolver golpe por golpe, a de procurar di\u00e1logo, media\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a restaurativa, a de reconstruir confian\u00e7a.<\/p>\n<p>E no fim da can\u00e7\u00e3o, a imagem muda: \u201cTodos os luzeiros do c\u00e9u se refletem no meu cabelo\u2026 trago mil l\u00ednguas de fogo.\u201d Madrugada, estrelas, fogo: sinais de luz que n\u00e3o grita, mas insiste. \u00c9 quase a defini\u00e7\u00e3o do Papa para os promotores da paz: sentinelas na noite. Num tempo de conflitos e desestabiliza\u00e7\u00e3o, a paz n\u00e3o \u00e9 ingenuidade; \u00e9 vig\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 fraqueza; \u00e9 persist\u00eancia humilde.<\/p>\n<p>Talvez seja isto que a \u201cmadrugada\u201d nos pede: n\u00e3o negar a ferida, mas negar-lhe o comando. Guardar a paz como pequena chama amea\u00e7ada pela tempestade \u2014 e, mesmo com as cadeias a pesar, escolher n\u00e3o ficar a olhar para tr\u00e1s. Porque a arma n\u00e3o traz ningu\u00e9m de volta. Mas a paz, quando \u00e9 acolhida, pode trazer-nos de volta a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":329388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-405755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=405755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405755\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=405755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=405755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=405755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}