{"id":404365,"date":"2025-12-22T09:04:03","date_gmt":"2025-12-22T09:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=404365"},"modified":"2025-12-18T15:07:32","modified_gmt":"2025-12-18T15:07:32","slug":"os-burros-na-vida-de-jesus-onoterapia-espiritual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-burros-na-vida-de-jesus-onoterapia-espiritual\/","title":{"rendered":"Os burros na vida de Jesus &#8211; Onoterapia espiritual"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso,\u00a0Diocese de Braga<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-404368 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/padre-jose-miguel-cardoso.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. O tempo de Natal evoca um dos seus elementos crist\u00e3os (e culturais!) mais preponderantes: o pres\u00e9pio. O seu centro j\u00e1 sabemos quem \u00e9: Jesus. Mas h\u00e1 uma outra figura presente que, \u00e0 primeira vista, parece um pouco estranha: um burro. Embora o texto b\u00edblico n\u00e3o o cite claramente (Lc 2,7), a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, perpetuada pelo pres\u00e9pio de Francisco de Assis (1181-1226) e pela subsequente arte devocional, intuiu a presen\u00e7a deste animal porventura em base da profecia de Isa\u00edas (Is 1,2-3) e de textos ap\u00f3crifos (cfr. <em>Pseudo Mateus<\/em>). Mas se o burro est\u00e1 ali no pres\u00e9pio, l\u00e1 ter\u00e1 as suas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Provavelmente usado pela Sagrada Fam\u00edlia na fuga para o Egipto (ex.: prociss\u00e3o da burrinha da Semana Santa de Braga), s\u00f3 por uma vez Jesus usou um animal para desloca\u00e7\u00e3o na sua vida p\u00fablica (G. Perego), aquando da entrada em Jerusal\u00e9m dias antes da sua condena\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o. Qual o animal que Ele solicitou? Isso mesmo, um burro (jumento) jovem (Mc 11,2-3; cfr. Zc 9,9). S\u00f3 este detalhe j\u00e1 nos cria uma desilus\u00e3o: se pens\u00e1vamos que Jesus se apresentaria em modo triunfal, ao estilo militar (montando um cavalo), afinal apresenta-se como um servo humilde (montando um burro). Para sermos sinceros, Ele j\u00e1 nos tinha advertido disso: \u00abo Filho do Homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos\u00bb (Mc 10,45). Mas que coisa nos pode ensinar um burro?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Os animais n\u00e3o s\u00e3o um elemento secund\u00e1rio na Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, desde logo pelo seu destaque nos primeiros vers\u00edculos da Escritura (Gn 1,20-22). Por curiosidade, no texto sagrado s\u00e3o enumerados cerca de 160 animais (L. Bortolin), sobre os quais emerge este princ\u00edpio hermen\u00eautico: a triangula\u00e7\u00e3o Deus \u2013 animal \u2013 humano (P. Stefani). Os animais s\u00e3o um elemento intermedi\u00e1rio, que tanto nos aproximam de Deus como Deus de n\u00f3s (Sl 148,10), ou vice-versa (Gn 3,1).<\/p>\n<p>No caso do burro, este certamente que mais nos aproxima do que nos afasta de Deus. Emblem\u00e1tica \u00e9 a passagem da burra (\u00e9gua\/mula, conforme a sinodalidade b\u00edblica da tradu\u00e7\u00e3o) de Bala\u00e3o: \u00e9 por meio dela que Deus purifica a inten\u00e7\u00e3o deste homem que, em nome de uma compensa\u00e7\u00e3o, pretendia amaldi\u00e7oar o Povo de Israel (Nm 22,21-35).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. A n\u00edvel hist\u00f3rico, o burro foi provavelmente um dos primeiros animais a ser domesticado, em virtude de algumas das suas carater\u00edsticas: a sua capacidade \u00edmpar de trabalho (for\u00e7a tratora e capacidade de carga); a sua mansid\u00e3o e obedi\u00eancia, n\u00e3o sendo um animal agressivo e imprevis\u00edvel, mas calmo e dispon\u00edvel; e o seu baixo custo, seja na compra, na sa\u00fade (raramente fica doente) e na alimenta\u00e7\u00e3o. Da\u00ed um prov\u00e9rbio popular que o comprova, mesmo a jeito desta \u00e9poca natal\u00edcia: \u201c\u00e9 mais barato manter um burro a p\u00e3o-de-l\u00f3, do que manter um guloso\u201d.<\/p>\n<p>Comparando, se o cavalo \u00e9 um animal alto, veloz e solene, associado \u00e0 guerra, \u00e0 ca\u00e7a, \u00e0 nobreza e \u00e0 competi\u00e7\u00e3o, o burro \u00e9 um animal mais pequeno, lento e discreto, s\u00edmbolo da humildade, da sobriedade, do trabalho e da paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Se tempos houve em que a Igreja, no seu xadrez de evangeliza\u00e7\u00e3o, apostava mais em cavalos, talvez hoje deva apostar mais em burros, isto \u00e9, naquilo que os burros significam. Dito de um outro modo, apostar na onoterapia. O que \u00e9 isso? Uma terapia mediada por animais, neste caso o burro (grego: \u1f44\u03bd\u03bf\u03c2), com o intuito de promover na pessoa determinados benef\u00edcios f\u00edsicos, cognitivos e sociais. No caso eclesial, uma \u201conoterapia espiritual\u201d: promover benef\u00edcios espirituais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. \u00c9 certo que o burro nem sempre gozou de grande reputa\u00e7\u00e3o cultural na sociedade (A.G. Pereira), pelo que j\u00e1 n\u00e3o servir\u00e1 como media\u00e7\u00e3o espiritual para uma determinada ala cat\u00f3lica que concebe a Igreja somente na sua <em>performance institucional<\/em>, defendendo somente a sua reputa\u00e7\u00e3o social (status) em detrimento de outras dimens\u00f5es cruciais, porque a raz\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: garantindo o status da Igreja, garante-se tamb\u00e9m o status individual. Contudo\u2026 Deus n\u00e3o pede <em>likes<\/em> (consenso), pede disponibilidade (a\u00e7\u00e3o). E \u00e9 por meio dessa disponibilidade que se opera uma \u00absalva\u00e7\u00e3o silenciosa\u00bb (Le\u00e3o XIV).<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio central do burro na vida de Jesus (entrada em Jerusal\u00e9m) elucida-nos sobre alguns elementos nucleares da miss\u00e3o da Igreja, que muitas vezes passam despercebidos. Elencamos apenas tr\u00eas. Primeiro, de que todos s\u00e3o necess\u00e1rios para ajudar Jesus na sua miss\u00e3o (mesmo o insignificante burro!), logo, n\u00e3o h\u00e1 cat\u00f3licos de primeira e cat\u00f3licos de segunda categoria (LG 10). Segundo, o cerne da miss\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 tanto na pomposidade social ou na for\u00e7a militar\/pol\u00edtica (cavalo), mas na servid\u00e3o discreta e dispon\u00edvel aos outros, como nos ensina o burro (Ces\u00e1rio de Arles). Terceiro, o facto de o burro n\u00e3o acompanhar Jesus at\u00e9 ao fim (at\u00e9 \u00e0 Cruz), mas somente para O fazer entrar em Jerusal\u00e9m, demonstra que s\u00f3 Jesus poderia assumir aquela miss\u00e3o que Deus lhe confiou, pelo que n\u00f3s n\u00e3o nos substitu\u00edmos a Cristo, mas somos apenas colaboradores da sua miss\u00e3o original (Rm 8,17; 2 Cor 5,20). O bar\u00f3metro torna-se claro: ser\u00e1 mais importante um \u00abservo in\u00fatil\u00bb (Mt 25,30; Lc 17,10) ou um \u201cburro \u00fatil\u201d?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. A onoterapia do burro de Bel\u00e9m e do burro de Jerusal\u00e9m evidencia este arco teol\u00f3gico: n\u00e3o podemos pensar a encarna\u00e7\u00e3o (burro de Bel\u00e9m) desligada da ressurrei\u00e7\u00e3o (burro de Jerusal\u00e9m), nem a ressurrei\u00e7\u00e3o desligada da encarna\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, a liturgia oriental define a solenidade natal\u00edcia por \u201cA p\u00e1scoa do Natal\u201d.<\/p>\n<p>Talvez o burro n\u00e3o esteja no pres\u00e9pio somente para aquecer Jesus\u2026 mas para algo mais: recordar que aquele menino veio para salvar, pelo que a nossa miss\u00e3o agora \u00e9 transportar Jesus, n\u00e3o O substituir! Ali\u00e1s, foi por causa dessa inten\u00e7\u00e3o falhada que Satan\u00e1s, um anjo inicialmente bom (CIC 391-395), se tornou num anjo mau (F. Suarez). De todas, eis a grande li\u00e7\u00e3o espiritual que o burro nos d\u00e1: somos apenas transportadores de Cristo em n\u00f3s (2Cor 4,10-11). N\u00e3o foi o burro que escolheu Jesus, foi Jesus que escolheu o burro. E se Jesus nos escolheu\u2026<\/p>\n<p><em>Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso<\/em><br \/>\n<em>Diocese de Braga<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Jos\u00e9 Miguel Cardoso,\u00a0Diocese de Braga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":404368,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-404365","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=404365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404365\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/404368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=404365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=404365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=404365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}