{"id":402563,"date":"2025-12-03T20:10:07","date_gmt":"2025-12-03T20:10:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=402563"},"modified":"2025-12-03T20:10:07","modified_gmt":"2025-12-03T20:10:07","slug":"natal-se-eu-vos-amei-porque-nao-vos-amais-vos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/natal-se-eu-vos-amei-porque-nao-vos-amais-vos\/","title":{"rendered":"Natal: \u2018Se Eu vos amei, porque n\u00e3o vos amais v\u00f3s?\u2019"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266200 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Quando deixo o Natal contemplar-se em mim mesmo, mais \u00edntimo a mim do que eu mesmo (qual Agostinho!), renovo-me e renas\u00e7o.<\/p>\n<p>O acontecimento da encarna\u00e7\u00e3o ilumina. N\u00e3o apenas porque, naquela noite, se fala, permanentemente, de Luz. \u2018O mundo viu uma grande luz\u2019. Uma estrela guia os magos. De luz se enchem as vozes dos pastores\u2026<br \/>\n\u00c9 por isso e por tudo o mais\u2026<\/p>\n<p>A grande mensagem vem-nos dita na fragilidade da divindade encarnada, porque \u00e9 isso encarnar: \u00e9 assumir a carne, as dores, as mis\u00e9rias, mas n\u00e3o para nelas permanecer\u2026 Mas sem as negar! \u2013 Precisamos de vincar.<\/p>\n<p>Repetidamente, a encarna\u00e7\u00e3o foi tentadoramente negada por aqueles que apenas guardavam do cristianismo uma parte. A sedu\u00e7\u00e3o \u00e9 a de a esquecer, dando-a como superada. A encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 deixada para tr\u00e1s como ap\u00eandice de um movimento que parece ser s\u00f3 de eleva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, antes de nos elevar, Deus rebaixou-se. E esse \u00e9 o movimento que nos seduz esquecer. Tentadoramente, desde sempre, quisemos elevar-nos sem o movimento ken\u00f3tico (de \u2018abaixamento\u2019).<br \/>\nDoce sedu\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Daniel Faria, um poeta \u00edmpar, recorda-nos esse movimento:<br \/>\n\u2018Amo-te como um planeta em rota\u00e7\u00e3o difusa<br \/>\nE quero parar como o servo colado ao ch\u00e3o.<br \/>\nFr\u00e1gil cer\u00e2mica de poros soprados no teu h\u00e1lito<br \/>\nVasilha que ergues em tua m\u00e3o de oleiro<br \/>\nC\u00e1lice que n\u00e3o pudeste afastar de ti.<br \/>\n(Daniel Faria, Dos l\u00edquidos)<\/p>\n<p>Somos a vasilha, fr\u00e1gil cer\u00e2mica por cujos poros insuflou Deus o seu esp\u00edrito.<br \/>\nA tenta\u00e7\u00e3o gn\u00f3stica (que, ao recusar a mat\u00e9ria, o corpo, elimina o princ\u00edpio da individua\u00e7\u00e3o, da identidade) \u00e9 de sempre. Queremo-nos sem limites, sem fragilidades, sem ter de passar pelo limite para caminhar para o infinito. Desejo de um infinito sem relativo, de um sonho sem realidade\u2026<\/p>\n<p>Doce sedu\u00e7\u00e3o renovada, nestes tempos em que nos rejeitamos no que somos, na hist\u00f3ria que fizemos, no caminho que percorremos, nos limites com que os confrontamos. Queremo-nos sem nos sermos.<br \/>\nMas desta perigosa sedu\u00e7\u00e3o nos falam as vozes prof\u00e9ticas que voltam a dizer-nos qual o aut\u00eantico sacrif\u00edcio: n\u00e3o o que se curva perante altares \u2018desencarnados\u2019, mas aquele que se suja nas lamas da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma l\u00facida nota, \u2018Antiqua et nova\u2019, dos Dicast\u00e9rios para a Doutrina da F\u00e9 e para a Cultura e Educa\u00e7\u00e3o, ao discutir as oportunidades e desafios da Intelig\u00eancia artificial, reafirma que \u2018o pensamento crist\u00e3o considera as faculdades intelectuais no quadro de uma antropologia integral que concebe o ser humano como um ser essencialmente corp\u00f3reo. Na pessoa humana, o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria \u00abn\u00e3o s\u00e3o duas naturezas unidas, mas a sua uni\u00e3o forma uma \u00fanica natureza\u00bb. Por outras palavras, a alma n\u00e3o \u00e9 a \u201cparte\u201d imaterial da pessoa contida num corpo, assim como este n\u00e3o \u00e9 o inv\u00f3lucro exterior de um \u201cn\u00facleo\u201d subtil e intang\u00edvel, mas \u00e9 o ser humano inteiro que \u00e9, ao mesmo tempo, material e espiritual.\u2019 (n.\u00ba16)<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 homem numa \u2018alma\u2019 sem corpo como n\u00e3o h\u00e1 homem num corpo sem alma. Ele \u00e9 o el\u00e1stico tendido entre as duas pontas presas. Sem essa tens\u00e3o, teremos, eventualmente, anjos, mas n\u00e3o Homem; animais, mas n\u00e3o Homem.<br \/>\nDeus afirma-nos, sussurra-nos, constantemente, ao ouvido, que, pela Sua encarna\u00e7\u00e3o, mostrou-nos o amor que nos tem, na integralidade do que somos: \u2018Ah, como te amei! Ah, como te amo! E, porque te amei, porque te amo, fiz-me um contigo, para que percebesses que a ti amo. N\u00e3o esperei por ti; n\u00e3o esperei que te libertasses do que \u00e9s, porque foi a ti que amei, porque \u00e9 a ti que amo.\u2019<br \/>\nE, por\u00e9m, fugimos, constantemente, do que somos, de quem somos. Negamo-nos. Queremos ser o que n\u00e3o somos, g\u00e9neros misturados, g\u00e9neros trocados, narrativas substitu\u00eddas. Andamos errantes, porque recusamos ver as pegadas que os nossos p\u00e9s deixaram vincadas no p\u00f3.<\/p>\n<p>Somos \u2018esp\u00edrito encarnado\u2019, mas desejamo-nos, repetidamente, esp\u00edrito desencarnado. Sonhamo-nos sem corpo, sem identidade, fundidos num et\u00e9reo \u2018cosmos\u2019 sem nomes nem identidades.<br \/>\nMas o mundo nascido do Natal \u00e9 um mundo de \u2018eus\u2019 reconhecidos no fontal encontro com \u2018tus\u2019. Olhos nos olhos. Porque s\u00f3 de corpo se faz um olhar. \u2018Tus\u2019 com nomes desde o ventre materno, com cheiro \u00fanico, com olhar singular, com caminhar identificado antes de o vermos, inconfund\u00edvel no seu existir. At\u00e9 ao \u00faltimo suspiro do nosso existir de carne feito, carne que transfigurada, nos permitir\u00e1 continuar \u00fanicos quando a carne j\u00e1 n\u00e3o se fizer de dores ou sofrimento, mas de limites transcendidos. Nos estigmas do ressuscitado, une-se o nascer e o morrer, o viver e o sucumbir, mas sem que nenhum rejeite o outro: a vida \u00e9 caminho. O ressuscitado \u00e9 o Menino fr\u00e1gil. Naquelas fr\u00e1geis m\u00e3os e p\u00e9s se preparam os estigmas ressuscitados. Tudo \u00e9 elevado, porque primeiramente se \u2018abaixou\u2019 no tempo e no aqui. Na noite do natal onde a luz tornou a noite dia, antecipou-se o dia que, pelo meio da tarde, o dia se fez noite. No compadecer-se de Deus, fomos amados como somos: feitos do h\u00famus fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel. Nele, somos! Somos \u2018e-finitos\u2019, seres que vivem a partir da fragilidade, da vulnerabilidade que nos une uns aos outros, que nos irmana, que nos comuniona (origina comunh\u00e3o). Um outro mundo nasce do Natal\u2026 O dos \u2018humanos\u2019 (que nascem do \u2018h\u00famus\u2019!).<\/p>\n<p>\u2018Ah, como vos amei!<br \/>\nMas porque n\u00e3o vos amais v\u00f3s?\u2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-402563","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/402563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=402563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/402563\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=402563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=402563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=402563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}