{"id":40067,"date":"2009-07-21T12:46:18","date_gmt":"2009-07-21T12:46:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/21\/por-um-mocambique-sem-lepra\/"},"modified":"2009-07-21T12:46:18","modified_gmt":"2009-07-21T12:46:18","slug":"por-um-mocambique-sem-lepra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/por-um-mocambique-sem-lepra\/","title":{"rendered":"Por um Mo\u00e7ambique sem Lepra"},"content":{"rendered":"<p>A lepra &eacute; uma doen&ccedil;a que pouco se ouve falar nos nossos dias. Imaginamos m&atilde;os e p&eacute;s sem dedos, faces desfiguradas&#8230; e pensamos que j&aacute; n&atilde;o existe. <\/p>\n<p>Chamo-me Vanda Barnab&eacute; e troquei &Eacute;vora pelas terras quentes de &Aacute;frica para partilhar um pouco da minha vida com os leprosos e este povo. Estive 24 meses junto dos doentes de lepra, no distrito rural que envolve a cidade de Nampula, ao Norte de Mo&ccedil;ambique. Fui volunt&aacute;ria atrav&eacute;s da Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa Amigos de Raoul Follereau (APARF) e estive a exercer a minha profiss&atilde;o de enfermeira em favor destes doentes.<\/p>\n<p>Desenvolvi actividades em nome da APARF numa parceria com os servi&ccedil;os de sa&uacute;de locais, colaborando estreitamente com o Programa Nacional de Controlo de Tuberculose e Lepra (PNCTL), nas suas actividades junto dos doentes de lepra e de tuberculose. <\/p>\n<p>Partia cedo para o mato, na companhia do Enfermeiro Supervisor Distrital do PNCTL, na visita di&aacute;ria a um dos cerca de 30 a 35 locais, entre Centros, Postos de Sa&uacute;de e Postos de Distribui&ccedil;&atilde;o de Medicamentos (os vulgares Alpendres, feitos apenas de capim e canas de bambo), que visit&aacute;vamos mensalmente e onde os doentes de lepra confirmados e os doentes suspeitos se concentravam para nos receber.<\/p>\n<p>Os acessos at&eacute; estes locais nem sempre eram os melhores. A maioria das picadas (as estradas de terra batida) apresentavam obst&aacute;culos como buracos, valetas, areia, troncos, riachos&#8230; sendo tamb&eacute;m frequentados por condutores de bicicleta (o transporte mais usado pelo povo), animais, pessoas, motos, chapas (os autocarros)&#8230; pelo que era necess&aacute;rio aten&ccedil;&atilde;o e alguma destreza manual. Muitas vezes para se chegar a um local demorava-se bastante tempo a percorrer poucos quil&oacute;metros, mas compensava ao ver que os doentes esperavam, persistentes, a nossa chegada.<\/p>\n<p>A minha ac&ccedil;&atilde;o como volunt&aacute;ria e enfermeira era de supervisionar e auxiliar o enfermeiro da unidade sanit&aacute;ria visitada, na sua actividade junto dos doentes de lepra. Iniciavam-se os trabalhos com a ajuda do volunt&aacute;rio do PNCTL que traduzia de makhua (o dialecto falado pela maioria da popula&ccedil;&atilde;o na prov&iacute;ncia de Nampula) para portugu&ecirc;s tudo o que se falava com os doentes. Estes eram observados para fazer o poss&iacute;vel diagn&oacute;stico da doen&ccedil;a; reavaliados motora e sensitivamente, a n&iacute;vel dos principais troncos nervosos perif&eacute;ricos que s&atilde;o mais afectados pela doen&ccedil;a de lepra. Do mesmo modo, eram tamb&eacute;m observados com especial aten&ccedil;&atilde;o olhos, m&atilde;os e p&eacute;s, para despistar poss&iacute;veis zonas insens&iacute;veis que mais tarde poderiam desenvolver feridas, bastante complicadas de tratar e curar, devido &agrave; falta de sensibilidade que a lepra provoca. <\/p>\n<p>Para al&eacute;m do medicamento gratuito que recebiam, a APARF, na minha pessoa, distribu&iacute;a alguns g&eacute;neros, que podem parecer coisas sem import&acirc;ncia mas que ali s&atilde;o bens de primeira necessidade, como barras de sab&atilde;o, sacos de sal, mantas, cal&ccedil;ado adaptado &agrave;s deformidades dos doentes, p&atilde;o, roupa, outros medicamentos, &#8230; sorrisos e palavras de incentivo, que ajudavam a motivar para regressar no pr&oacute;ximo m&ecirc;s ao mesmo local para nova concentra&ccedil;&atilde;o e nova visita.<\/p>\n<p>O trabalho que realizei junto destes doentes alargou a minha vis&atilde;o sobre a doen&ccedil;a de lepra e sobre o mundo em que vivemos. Pelo facto de ser enfermeira e poder assim realizar voluntariado na mesma &aacute;rea profissional foi uma experi&ecirc;ncia muito rica e interessante para mim. Senti-me &uacute;til por partilhar conhecimentos e experi&ecirc;ncia mas sinto que ganhei muito mais do que partilhei e ofereci aos leprosos nestes 24 meses de voluntariado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lepra &eacute; uma doen&ccedil;a que pouco se ouve falar nos nossos dias. Imaginamos m&atilde;os e p&eacute;s sem dedos, faces desfiguradas&#8230; e pensamos que j&aacute; n&atilde;o existe. Chamo-me Vanda Barnab&eacute; e troquei &Eacute;vora pelas terras quentes de &Aacute;frica para partilhar um pouco da minha vida com os leprosos e este povo. 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