{"id":400599,"date":"2025-11-20T11:43:27","date_gmt":"2025-11-20T11:43:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=400599"},"modified":"2025-11-20T11:43:27","modified_gmt":"2025-11-20T11:43:27","slug":"ciberhumanitas-uma-mao-bloco-de-notas-e-papel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ciberhumanitas-uma-mao-bloco-de-notas-e-papel\/","title":{"rendered":"CIBERHUMANITAS &#8211; Uma m\u00e3o, bloco de notas e papel"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>No bolso trago sempre um bloco de notas com um l\u00e1pis que permite escrever at\u00e9 ao limite do \u00faltimo peda\u00e7o de grafite envolta em madeira. Enquanto houver p\u00e1ginas e carbono puro posso dar largas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e escrever uma palavra, esbo\u00e7ar em tra\u00e7os uma ideia, sem distrac\u00e7\u00f5es ou limites energ\u00e9ticos que n\u00e3o sejam induzidos pela pr\u00f3pria vontade. Os blocos de notas surgiram h\u00e1 muito tempo e desde o passado que s\u00e3o trilhos \u00fanicos criados pela unicidade de cada pessoa. Ser\u00e3o substitu\u00edveis pelas aplica\u00e7\u00f5es digitais?<\/p>\n<p>A primeira diferen\u00e7a sentida est\u00e1 no modo como escrevemos. A m\u00e3o que tra\u00e7a tamb\u00e9m se engana, mas menos. No pequeno teclado existente no ecr\u00e3, tenho reparado que os enganos distraem o pensamento e que perdemos mais tempo a corrigir a palavra que nos (auto-)corrigiram do que gostar\u00edamos, simplesmente porque invent\u00e1mos uma palavra que o dicion\u00e1rio incorporado n\u00e3o admite. A digitaliza\u00e7\u00e3o tem este sen\u00e3o da inadmiss\u00e3o do novo que prov\u00e9m de dentro. E ao escrever esta \u00faltima frase acabei de fazer essa experi\u00eancia. O dicion\u00e1rio da App n\u00e3o admitiu &#8220;inadmiss\u00e3o&#8221;, levando-me a duvidar de mim pr\u00f3prio e do meu l\u00e9xico. N\u00e3o \u00e9 mau voltarmo-nos a encontrar com o significado de uma palavra que pens\u00e1vamos existir e que o ambiente digital coloca em d\u00favida a sua exist\u00eancia, mas n\u00e3o correremos o risco de uniformizarmos o que escrevemos quando trocamos definitivamente o l\u00e1pis pelo teclado?<\/p>\n<p>Ao pedir \u00e0 IA para fazer uma an\u00e1lise de quantas palavras podemos tipicamente escrever em mensagens que trocamos, pensando em estat\u00edsticas locais e globais, o resultado apontou para as 300 palavras por dia por pessoa. Em 100 dias ter\u00edamos escrito um livro, mas importa notar que as palavras escritas digitalmente destinam-se a algu\u00e9m, enquanto que num bloco de notas, as palavras do l\u00e1pis n\u00e3o se destinam a ningu\u00e9m. Com que cuidado cuidamos das palavras digitais que escrevemos?<\/p>\n<p>A escrita \u00e9 uma arte subtil de desenvolvimento da nossa identidade. Um grupo de investigadores que estudava a rela\u00e7\u00e3o entre a escrita acad\u00e9mica e a identidade concluiu que <em>\u00aba escrita serve como mais do que um mero instrumento comunicativo; \u00e9 um processo fundamental atrav\u00e9s do qual os acad\u00e9micos constroem, negoceiam e afirmam as suas identidades.\u00bb<\/em>\u2014 E Roz Ivani\u010d, numa monografia publicada em 1998, salientou que a escrita \u00e9 um comportamento identit\u00e1rio, e que as pessoas realizam, na escrita, v\u00e1rias possibilidades de si pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>O que aconteceria \u00e0 nossa identidade se come\u00e7\u00e1ssemos a escrever com a nossa m\u00e3o e letra seja o que for, sem nos importarmos com quem poder\u00e1 ler as palavras que escrevermos? De que forma ser\u00e1 a minha identidade digital alterada quando retorno ao papel e deixo que a m\u00e3o expresse com a letra o que vai no meu cora\u00e7\u00e3o? Haver\u00e1 dias que escrevo com letras mais direitas e outros com gatafunhos impercept\u00edveis. Poder\u00e3o ser express\u00e3o da diferen\u00e7a entre um dia tranquilo e outro que me deixou de rastos. Os tra\u00e7os conseguem expressar o que estou a viver, ao passo que os caracteres no ecr\u00e3 ser\u00e3o sempre iguais e perfeitos. Apenas as gralhas que ele n\u00e3o corrige poder\u00e3o dar-nos um vislumbre sobre a nossa imperfei\u00e7\u00e3o e estado interior (ainda que muito limitadamente), mas a IA far\u00e1 o poss\u00edvel para nos corrigir e alinhar com a perfei\u00e7\u00e3o digital que pretende (e acha que pretendemos) para as nossas mensagens.<\/p>\n<p>Precisamos de alguma imperfei\u00e7\u00e3o porque dessa emergem as caracter\u00edsticas \u00fanicas de cada pessoa. Num momento da nossa hist\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em que s\u00e3o cada vez mais os conte\u00fados feitos por alguma Intelig\u00eancia Artificial, o retorno ao bloco de notas e papel poder\u00e1 representar um regresso \u00e0 realidade sens\u00edvel exterior que nos molda interiormente. Inclusive existem cada vez mais v\u00eddeos irreais feitos por Intelig\u00eancia Artificial de pessoas cujo pensamento respeitamos e procuramos seguir. Na pr\u00e1tica, reproduzem um texto feito por algu\u00e9m com a tonalidade do corpo de outro usado sem a autoriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio, levando-nos a questionar a sua identidade. Conseguem sentir o alcance da propaga\u00e7\u00e3o destas falsidades no confronto com a verdade sobre o que \u00e9 real ou n\u00e3o? Diante destas experi\u00eancias comecei a pensar quanta humanidade pode ser-nos devolvida por um simples bloco de notas e um l\u00e1pis.<\/p>\n<p>Palavras, desenhos, rasuras, pela grafite se tra\u00e7a um pouco de n\u00f3s no papel e no interior de n\u00f3s pr\u00f3prios. Sem qualquer risco de gastar bateria, ou de sermos distra\u00eddos, num renovado relacionamento com o bloco de notas reencontramos um pouco do espa\u00e7o de solitude (n\u00e3o solid\u00e3o) para nos encontrarmos com os nossos pr\u00f3prios pensamentos. Um encontro tamb\u00e9m com a serenidade do lugar onde estivermos a escrever seja o que for. Um reencontro com a nossa identidade humana atrav\u00e9s do movimento real da nossa m\u00e3o, indigitaliz\u00e1vel, imperfeiro, incorrig\u00edvel, \u00fanico.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0neste\u00a0<a href=\"https:\/\/miguelpanao.us21.list-manage.com\/subscribe?u=79afec46a9b51d4f2fd96b42b&amp;id=de0124808e\">LINK<\/a>; \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/cordeldeprata.pt\/produto\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo\/\">Tempo 3.0 \u2013 Uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria da experi\u00eancia mais transformativa do mundo<\/a>\u201d (<a href=\"https:\/\/www.bertrand.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\">Bertrand<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\">Wook<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fnac.pt\/Tempo-3-0-Uma-Visao-Revolucionaria-da-Experiencia-Mais-Transformativa-do-Mundo-Miguel-Panao\/a11534362\">FNAC<\/a>\u00a0)<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-400599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=400599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400599\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=400599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=400599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=400599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}